15 janeiro 2018

Crítica: "Mudbound" (2017)

 "Mudbound" é um filme sobre os EUA de ontem e de hoje, que exibe sem contemplações o poder devastador do racismo, enquanto dialoga com os nossos tempos de forma inquietante e pertinente. Começa de forma titubeante, a usar e abusar do recurso ao voice-over para expor elementos sobre os personagens e o enredo, mas, a partir do momento em que o destaque passa a estar maioritariamente em Jamie McAllan (Garrett Hedlund) e Ronsel Jackson (Jason Mitchell), dois militares que combateram na II Guerra Mundial, descola da mediania e revela-se capaz de provocar um turbilhão de emoções. A ligação forte e sincera que se forma entre ambos é um dos pontos fortes do enredo, embora a dupla enfrente contextos distintos no regresso aos EUA: Jamie lida com o sintoma de Perturbação de Stress Pós-Traumático, enquanto Ronsel, um afro-americano, depara-se com as demonstrações de racismo da sociedade que o rodeia e limita.

O enredo tem como pano de fundo os EUA no período que antecedeu e sucedeu a II Guerra Mundial, tendo praticamente no seu centro os McAllan e os Jackson, duas famílias cujos destinos se cruzam no Mississippi, sobretudo a partir do momento em que os segundos começam a trabalhar para os primeiros. Os Jackson sempre estiveram no território, embora nunca tenham conseguido possuir as terras que trabalham, algo que Hap (Rob Morgan) procura alterar. Este é casado com Florence (Mary J. Blige), de quem tem quatro filhos, entre os quais Ronsel. A união desta família e a sua capacidade para encontrar conforto e prazer nos pequenos momentos são expressas de forma extremamente delicada em diversas situações do filme. Veja-se quando encontramos Hap e Florence a dançarem durante a noite, num momento pontuado pela intimidade e ternura, ou a ocasião em que Ronsel oferece um chocolate à progenitora, algo que resulta numa cena extremamente comovente. Os McAllan vão para este território após Henry (Jason Clarke) adquirir uma quinta, algo que desagrada a Laura (Carey Mulligan), a sua esposa. O casal conta com a companhia das duas filhas e de Pappy (Jonathan Banks), o pai de Henry e de Jamie, um indivíduo extremamente racista e perigoso.

Se as dinâmicas entre os Jackson são pontuadas por episódios calorosos e dotados de sentimento, já a relação de Laura e Henry é marcada por alguma frieza, fruto da personalidade pragmática e pouco calorosa deste último, que contrasta com a faceta mais emotiva e vulnerável de Jamie. Os dois irmãos contam com feitios claramente distintos e uma ligação pouco harmoniosa, algo que compele o antigo militar a chocar por por diversas vezes com Henry e Pappy. Hedlund transmite com competência a humanidade e fragilidade emocional de Jamie, com o actor a exprimir as tormentas deste personagem, a tensão sexual que existe entre este e a cunhada, bem como a forte amizade que o une a Ronsel. Também Rob Morgan compõe um personagem de dimensão assinalável, com o actor a deixar em evidência os fortes valores de Hap e o quanto este indivíduo sofreu. Não podemos deixar ainda de destacar Carey Mulligan como Laura, uma das narradoras de serviço, com a ligação que esta forma com o cunhado e Florence a contribuir para alguns momentos dignos de atenção. No entanto, o maior destaque é Mitchell, com o actor a expressar a desolação do seu personagem e a dificuldade que este tem em readaptar-se a um contexto em que é tratado de forma mais desumana do que na Guerra.

Esse "tratamento" tem o seu ponto de ebulição num momento intenso, revoltante e inquietante, em que o trabalho de câmara e montagem, a iluminação e as interpretações contribuem para o choque que é provocado no espectador. A realizadora Dee Rees exibe as características nocivas do racismo, seja em demonstrações ferozes, ou em actos aparentemente inócuos, com estes momentos a conversarem estranhamente com a actualidade, embora tenham como pano de fundo um período relativamente distante. A época em que se desenrola o enredo é representada com competência, seja através dos diálogos, do guarda-roupa, ou da decoração dos cenários, com "Mudbound" a transportar-nos para o interior deste território e das suas especificidades, enquanto aborda temáticas relacionadas com a segregação racial, as dinâmicas familiares, as desigualdades sociais e as dificuldades sentidas pelos militares no regresso a casa após longos períodos de ausência.

O argumento, inspirado no livro homónimo de Hillary Jorden, é competente a desenvolver as temáticas mencionadas e a forma como as duas famílias estão ligadas pela lama que povoa os cenários, enquanto a banda sonora exacerba a mescla de melancolia, aspereza e esperança que pontua o enredo. É certo que nem tudo resulta, seja o uso pouco pragmático da narração em off, ou uma subtrama que envolve um assassinato que pouco ou nada acrescenta ao enredo. No entanto, quando encontra o seu rumo, "Mudbound" revela-se um drama relevante e necessário, que sobressai não só pelas suas mensagens, mas também pelo seu valor cinematográfico.

Título original: "Mudbound".
Título em Portugal: "Mudbound - As Lamas do Mississípi".
Realizadora: Dee Rees.
Argumento: Dee Rees e Virgil Williams.
Elenco: Jason Mitchell, Jason Clarke, Garrett Hedlund, Carey Mulligan, Rob Morgan, Mary J. Blige, Jonathan Banks.

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