19 janeiro 2018

Crítica: "The Killing of a Sacred Deer" (O Sacrifício de Um Cervo Sagrado)

 Drama com contornos de tragédia grega, "The Killing of a Sacred Deer" é uma experiência cinematográfica avassaladora e irrequieta, que devasta, inquieta, incomoda e atira-nos para terrenos típicos de Yorgos Lanthimos. O realizador disseca os comportamentos humanos de forma mordaz, sempre com algum humor negro e contundência à mistura, enquanto se embrenha por situações-limite que remetem para os sacrifícios bíblicos. Se Abraão estava disposto a sacrificar o seu filho para obedecer a Deus, já Steven Murphy (Colin Farrell), um reputado cardiologista, apresenta imensas dúvidas em relação ao elemento da família que deverá eliminar para compensar a morte de um dos seus pacientes. É um dilema de difícil resolução, com o protagonista a ficar perante uma situação extrema em que os nervos ficam à flor da pele, a razão é desafiada pela emoção e os laços familiares são colocados à prova. 

O design de som e o trabalho de câmara contribuem e muito para potenciar a atmosfera desconcertante e opressiva do filme. Note-se o plano inicial, nomeadamente, um coração a ser alvo de uma cirurgia, filmado a partir de cima (plongée total), com a câmara a afastar-se devagarinho, enquanto a banda sonora atribui um tom quase operático a este episódio que aparece como um aperitivo para a atmosfera bizarra e intensa de "The Killing of a Sacred Deer". Primeiro somos apresentados ao núcleo de personagens principais e aos seus laços, ficamos perante algumas pistas e a sensação de que nem tudo bate certo, até a tempestade avançar pelo quotidiano de Steven e trazer uma ventania carregada de dilemas. Este é um cirurgião experiente, de barba farta e rosto pontuado por feições sérias, que é casado com Anna (Nicole Kidman), uma oftalmologista. Ambos contam com uma situação financeira estável e uma carreira estabelecida, algo que se reflecte na casa onde vivem, um local espaçoso, dotado de alguns luxos e uma calma que se prepara para ser desestabilizada.

O casal tem dois filhos: Kim (Raffey Cassidy), uma adolescente de catorze anos de idade, personalidade rebelde, gosto pela música e sardas salientes; Bob (Sunny Suljic), um rapaz de doze anos, cabelos compridos e uma aparente fragilidade. As dinâmicas destes personagens contam com episódios típicos de qualquer família, embora o casal até conte com algumas peripécias sexuais peculiares. Colin Farrell e Nicole Kidman transmitem a mescla de cumplicidade e distanciamento que pontua a relação dos personagens que interpretam, com os intérpretes a imprimirem uma dimensão acrescida a estes médicos que procuram dar uma educação estável aos seus filhos. Outro dos personagens de relevo é Martin (Barry Keoghan), um adolescente de dezasseis anos de idade que mantém uma estranha relação de proximidade com Steven, quase de mestre e discípulo, ou de pai e filho, embora algo pareça estar errado nas suas dinâmicas.

Essa estranheza é adensada pelos ângulos de câmara e pela banda sonora, bem como pelo trabalho dos intérpretes, com estes elementos a contribuírem para potenciar a inquietação em redor dos episódios protagonizados por Steven e Martin. Um simples passeio é pontuado por sons desconcertantes, movimentos de câmara desestabilizadores e ângulos baixos, capazes de transmitirem uma certa sensação de desconfiança e a superioridade destes personagens em relação ao espectador, ou não estivessem inicialmente ao dispor de informação que desconhecemos. Mais tarde descobrimos os motivos que conduziram à ligação que se formou entre a dupla, algo que não podemos revelar aqui na totalidade, embora estejam relacionados com a morte do progenitor de Martin. Barry Keoghan é o intérprete que mais se destaca ao longo do filme, com o actor a colocar em evidência a ambiguidade do seu personagem, um adolescente de olhar penetrante que tanto tem de frágil e carente como de perturbado, perigoso e malicioso.

A entrada de Martin na casa dos Murphy é acompanhada por doses notórias de cordialidade e o interesse que o jovem desperta em Kim, embora a simpatia do primeiro logo seja despedaçada a partir do momento em que descobrimos as suas intenções. A certa altura do filme, Bob deixa de conseguir movimentar as pernas. Algum tempo depois percebemos que não estamos perante uma doença, mas sim de uma espécie de maldição que também começa a afectar Kim e prepara-se para atacar Anna. O único elemento que pode quebrar a maldição é Steven, algo que o coloca perante a difícil decisão de ter de sacrificar algum dos seus filhos ou a sua esposa, uma situação que mexe com o quarteto de forma indelével. Entramos completamente no território de Lanthimos, com o cineasta a não poupar na bizarria e a envolver-se a fundo pelos meandros do comportamento humano. A violência toma conta do enredo, seja esta emocional ou física, enquanto um núcleo familiar entra em ebulição e enfrenta uma situação extrema.

Filhos e esposa disputam a atenção de Steven, ao passo que este depara-se com um dilema intrincado, algo que permite explorar a dimensão trágica deste cirurgião que é confrontado com um erro do passado. Em certa medida, o imbróglio em que Steven está envolvido remete e muito para a obra "Ifigénia em Áulide", de Eurípedes, na qual Agamemnon decide sacrificar a sua filha para agradar à Deusa Artemisa. Tanto o cirurgião como a oftalmologista procuram salvar os filhos, ainda que nem sempre estejam de acordo e a espaços exibam as suas diferenças. Diga-se que a paternidade, a maternidade, as relações conjugais e o comportamento do Homem perante situações extremas surgem como temáticas que marcam o enredo, sendo muitas das vezes acompanhadas pela bizarria e o humor negro muito típicos de Lanthimos.

Dizer que uma obra de Lanthimos conta com situações estranhas é quase redundante, mas impossível de não mencionar, ou não estivéssemos perante um filme em que pedaços de carne humana são arrancados, fetiches por mãos são expostos de forma intensa, alguma informação relevante é explanada ao ritmo de uma punheta e um casal tem na "anestesia geral" uma posição peculiar para fazer sexo. Essa estranheza é exacerbada pelos comportamentos do personagem interpretado por Barry Keoghan, seja quando dialoga com Steven, ou nos momentos em que está com Kim ou Bob, com "The Killing of a Sacred Deer" a inquietar-nos em relação a esta figura misteriosa e relevante, que traz ao de cima os nossos piores medos e receios.

Lanthimos procura e consegue desconcertar o espectador, enquanto utiliza uma miríade de recursos para alcançar esse desiderato e aproveita ao máximo o soberbo trabalho de Thimios Bakatakis na cinematografia. Note-se o plongée total que nos deixa perante Anna e Bob a descerem as escadas rolantes, até o jovem cair, enquanto observamos este episódio à distância, completamente embasbacados e intrigados. Temos ainda o plano bem aberto que nos lança para o coro onde Kim canta, ao qual se sucede um plano fechado do rosto da jovem e outro mais aberto que exibe a sua queda, com o trabalho de câmara e de montagem a adensar a inquietação que envolve este episódio. Não podemos deixar ainda de realçar um plano dotado de simetria que coloca Steven e a mãe de Martin (Alicia Silverstone) em destaque. O plano transmite uma certa sensação de estabilidade, embora fiquemos rapidamente diante de uma situação perturbadora e peculiar, enquanto Lanthimos demonstra a sua perícia a arquitectar alguns momentos impactantes.

Os diálogos são expostos com um distanciamento que a espaços remete para "The Lobster", embora o enredo do filme em análise seja ancorado num contexto bem real, ainda que dotado de situações bizarras e provocadoras. Estas são inseridas de forma homogénea no interior do enredo, com o argumento a destacar-se pela coesão e pela capacidade de desestabilizar os personagens e o espectador. A estabilidade dura pouco tempo no interior desta experiência cinematográfica que se envolve pela Bíblia, a Tragédia grega, o drama familiar, o body horror e as fitas de vingança, enquanto desenvolve as suas temáticas com uma mescla de criatividade e perversidade, mexe com os nossos sentimentos e estimula a nossa imaginação. 2018 ainda está na sua fase inicial, mas "The Killing of a Sacred Deer" já se posiciona para ser uma das estreias mais marcantes do ano.

Título original: "The Killing of a Sacred Deer".
Título em Portugal: "O Sacrifício de Um Cervo Sagrado".
Título no Brasil: "O Sacrifício do Cervo Sagrado".
Realizador: Yorgos Lanthimos.
Argumento: Yorgos Lanthimos e Efthymis Filippou.
Elenco: Colin Farrell, Nicole Kidman, Barry Keoghan, Raffey Cassidy, Sunny Suljic, Alicia Silverstone.

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