21 janeiro 2018

Crítica: "Die göttliche Ordnung" (A Ordem Divina)

 "Die göttliche Ordnung" tanto tem de bem intencionado e leve como de anódino, previsível e inconsequente. Falta-lhe chama, fervor e ousadia, mas também a capacidade de atribuir vigor e gravidade às temáticas que aborda. É certo que beneficia e muito de contar com uma protagonista minimamente interessante (interpretada de forma competente por Marie Leuenberger) e de se embrenhar por um episódio histórico que permite explorar temáticas relacionadas com os direitos das mulheres e o feminismo, embora nem sempre seja capaz de traduzir a complexidade destes assuntos. Diga-se que o filme até começa relativamente bem, ao colocar-nos perante uma série de vídeos de arquivo que transmitem de forma rápida o contexto efervescente da época e as mudanças que estavam a acontecer, algo que é contrastado com o conservadorismo da aldeia onde decorre o enredo, situada na Suíça, em 1971, nas vésperas do referendo de 7 de Fevereiro.

Esta votação visava aprovar ou rejeitar o sufrágio feminino a nível federal, tendo mexido e muito com Nora, a protagonista. Nora é uma dona de casa, casada com Hans (Maximilian Simonischek), de quem tem dois filhos, os jovens Luki (Finn Sutter) e Max (Noe Krejcí). O matrimónio de Nora e Hans é estável, mas desprovido de tempero, algo transmitido pelos intérpretes e reforçado pelo seu guarda-roupa, quase sempre discreto e conservador, uma característica que perdura praticamente até ao último terço do filme. A protagonista não é politicamente engajada, mas, aos poucos, acaba por se ver envolvida nesta luta pelo direito ao voto, enquanto tem de enfrentar imensa oposição, granjear apoios e desafiar o conservadorismo, com "Die göttliche Ordnung" a partir dos exemplos particulares dos seus personagens e das suas dinâmicas para explorar o contexto da época.

O machismo, o conservadorismo e os preconceitos são abordados, tal como a revolução sexual, o feminismo e a luta das mulheres pelos seus direitos, embora a leveza excessiva com que tudo é exposto e desenvolvido acabe por sabotar algumas das boas intenções da realizadora Petra Volpe. Note-se a forma quase telegráfica como é abordada a violência doméstica, ou a ligeireza com que são expostos diversos actos pouco recomendáveis dos homens. Falta sentir as consequências destes actos negativos, ou conceder tempo para sentirmos as repercussões de alguns episódios, embora a cineasta prefira não ferir o espectador. Essa situação é particularmente visível quando encontramos um personagem a ameaçar divorciar-se da esposa, embora esse desejo seja rapidamente esquecido. O parco desenvolvimento de diversas figuras secundárias e de algumas subtramas também não ajuda, algo que retira força às mesmas, com o caso de Hanna (Ella Rumpf), a sobrinha da protagonista, a ser um exemplo paradigmático dessa situação.

Hanna é uma jovem de personalidade forte e rebelde, que mantém uma relação conturbada com Werner (Nicholas Ofczarek) e Theresa (Rachel Braunschweig), os seus pais, um casal que conta com imensos problemas no interior do seu matrimónio. A faceta violenta e retrógrada de Werner é exposta, tal como a sua depressão e a sua incapacidade para respeitar a opinião da esposa. Werner é irmão de Hans e filho de Gottfried (Peter Freiburghaus), com este último a aparecer como um indivíduo machista, antiquado e desprovido de dimensão, que vive na casa da protagonista e serve acima de tudo para expor um conjunto de valores que deveriam ser deixados de lado. Os filhos de Nora também não conseguem ganhar personalidade ou espaço de destaque, enquanto Hans surge acima de tudo como um produto do seu tempo, ou seja, como um indivíduo conservador, que ama a esposa, mas nem sempre demonstra abertura para com a mesma.

O conservadorismo da época é exibido não só a partir de um número considerável homens, mas também de algumas mulheres, entre as quais, Charlotte (Therese Affolter), uma das vozes mais sonoras contra o sufrágio feminino, algo que contrasta com os comportamentos afáveis de Vroni (Sibylle Brunner). Se Therese Affolter conta com uma personagem relativamente unidimensional e caricatural, que procura fazer de tudo para impor os seus valores conservadores, já Sibylle Brunner tem em Vroni a figura mais interessante do filme. Brunner consegue transmitir o tom descontraído da sua personagem, típico de quem se encontra numa fase da vida em que já se está a borrifar para o que pensam da sua pessoa. Vroni apoia a protagonista e o sufrágio feminino, sofreu na pele o facto das leis da época colocarem quase todo o poder de decisão nos homens e exibe as marcas que o tempo deixou na sua pessoa. 

Quem também apoia a protagonista é Theresa, bem como Graziella (Marta Zoffoli), uma imigrante italiana, dona do restaurante que pertencera a Vroni. As dinâmicas entre estas personagens funcionam, seja quando se embrenham por uma manifestação ou por descobertas sexuais, enquanto tentam mudar mentalidades e contribuir para que as mulheres possam votar. Volpe utiliza o passado para comentar o presente, em particular, as disparidades que continuam a existir entre os homens e as mulheres, com o filme a expor algumas batalhas desta longa luta, ainda que de forma pouco corajosa e algo artificial. A mensagem feminista e o episódio que "Die göttliche Ordnung" retrata são meritórios e dignos de realce. O seu valor como filme é que está longe de chegar ao poder das suas temáticas.

Título original: "Die göttliche Ordnung". 
Título em Portugal: "A Ordem Divina". 
Realizadora: Petra Volpe.
Argumento: Petra Volpe.
Elenco: Marie Leuenberger, Maximilian Simonischek, Rachel Braunschweig, Sibylle Brunner, Marta Zoffoli, Noe Krejcí, Finn Sutter, Peter Freiburghaus, Nicholas Ofczarek, Ella Rumpf.

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