23 janeiro 2018

Crítica: "Call Me By Your Name" (Chama-me Pelo Teu Nome)

 "Call Me By Your Name" é um filme sedutor e sensual, que inebria, apaixona, arrebata e estimula as sensações e emoções. É, também, uma obra dotada de enorme sensibilidade, que concede atenção aos gestos e às trocas de olhares, embora nunca descarte o poder da palavra, seja esta escrita ou falada. O argumento de James Ivory, inspirado no livro homónimo de André Aciman, descarta regularmente as falas óbvias ou excessivamente expositivas ao mesmo tempo que privilegia a genuinidade e o desenvolvimento dos personagens, algo que contribui para elevar o trabalho dos intérpretes. Timothée Chalamet e Armie Hammer respondem à altura ao contarem com uma química notável que favorece e muito a autenticidade que envolve os sentimentos que brotam entre os personagens que interpretam e os episódios que estes protagonizam em pleno Norte de Itália, com ambos a conquistarem-se e a conquistarem-nos.

 O romance destes dois personagens decorre em 1983, algo realçado não só pelo guarda-roupa e alguns cenários, mas também pela magnífica banda sonora. Esta dialoga eficazmente com os episódios que decorrem ao longo do enredo, contribui para fornecer informação relevante e exacerba alguns trechos dotados de emoção, com a música a surgir como uma parte relevante da narrativa. Se a canção "Love My Way" adorna alguns momentos de dança envolventes e libertadores, já "Mistery of Love", escrita propositadamente para o filme, adensa a atmosfera romântica de uma viagem e reverbera os sentimentos expostos pela dupla de protagonistas. Diga-se que o romantismo e o desejo são ainda exacerbados pelas características do território em que se desenrola o enredo, um espaço situado no Norte de Itália, cuja localização nunca sabemos ao certo, quase como se estivéssemos perante um local que tanto tem de palpável como de saído directamente de um sonho.

A fotografia luminosa de Sayombhu Mukdeeprom é capaz de captar o calor que percorre os cenários e banha os corpos, para além de realçar as especificidades dos territórios verdejantes, quase idílicos e bucólicos que rodeiam os personagens, enquanto estes desfrutam de um Verão em que muito acontece, que o digam Elio (Timothée Chalamet) e Oliver (Armie Hammer). Chalamet transmite as dúvidas, os receios, o desejo e as as ansiedades que percorrem o seu personagem, um adolescente de dezassete anos de idade que vive com os seus pais (interpretados por Michael Stuhlbarg e Amira Casar) numa villa situada no Norte de Itália. O pai do jovem é um reputado professor de arqueologia, que recebe Oliver (Armie Hammer) como seu assistente temporário. Hammer incute uma personalidade educada, aparentemente descontraída e afável a Oliver, um estudante universitário dos EUA que vai passar seis semanas na casa de férias do arqueólogo, nomeadamente, no quarto contíguo ao de Elio.

Aos poucos, Elio e Oliver, dois jovens de origens judaicas, começam a formar uma relação de proximidade e a exprimirem os sentimentos que procuram conter, após o primeiro denotar alguma desconfiança para com o segundo. Como já foi salientado, a atmosfera é propícia ao fervor dos sentimentos, com o calor que rodeia os cenários a favorecer a utilização de pouca roupa e o despir das emoções. O realizador Luca Guadagnino demonstra mais uma vez que sabe filmar os corpos com enorme fulgor (tal como em "A Bigger Splash"). Essa atenção aos corpos é exposta logo nos créditos iniciais, quando o cineasta deixa-nos perante uma série de estátuas gregas ou romanas que remetem não só para os estudos do pai de Elio, mas também para a fisionomia dos seus protagonistas, quais esculturas da antiguidade que se banham regularmente ao Sol e contêm no seu interior uma série de mistérios por decifrar.

Hammer e Chalamet conseguem que fiquemos perante a sensação de que estamos a observar o nascimento de algo especial, sincero e genuíno, que começa com demonstrações ambíguas de sentimentos, até se desenvolver em alguma coisa mais emotiva, física e carnal. Em certo momento de "Call Me By Your Name", encontramos Oliver a colocar a sua mão em cima da mão de Elio, enquanto segura um cigarro. O plano-detalhe permite realçar a delicadeza desta situação, ao passo que o fumo emanado pelo cigarro exacerba a fugacidade da relação. Diga-se que este é um dos vários momentos em que fica explanado o cuidado que Guadagnino concede aos gestos, algo que é notório em diversos episódios do filme. Observe-se a ocasião em que uma mão toca num ombro e provoca uma profusão de sentimentos, ou quando os pés de dois personagens se reúnem e exacerbam a intimidade entre a dupla. O cineasta é exímio a criar toda uma atmosfera de sedução, enquanto deixa que a dupla de protagonistas explane aquilo que sente, sempre com algumas doses de lirismo à mistura.

Chalamet consegue que acreditemos nas descobertas que o seu personagem efectua a nível de sentimentos, no gosto que este tem pela música e na sua proximidade com os pais, mas também no entusiasmo que Elio demonstra quando está sozinho com Oliver. Hammer imprime uma mescla de segurança e insegurança a Oliver, um indivíduo alto, culto, capaz de despertar a atenção daqueles que o rodeiam e incapaz de rejeitar um passo de dança. Se Ralph Fiennes surpreendeu com a sua dança peculiar em "A Bigger Splash", convém salientar que Hammer não se fica atrás em "Call Me By Your Name", com o intérprete a exibir a enorme energia do seu personagem em situações do género. Por sua vez, Elio é mais contido, com o gosto por tocar piano e pela literatura a ser notório, seja quando está a transcrever músicas, ou nas suas estantes pontuadas de livros e cassetes.

A cultura e a história fazem parte do quotidiano destes elementos, algo latente quando observamos a casa dos personagens interpretados por Michael Stuhlbarg e Amira Casar. Recheada de imensas estantes com livros, quadros e mobiliário caro, a casa dos pais de Elio surge como um espaço de dimensões alargadas, propício à libertação dos sentimentos e a diversos momentos de lassidão. Diga-se que é um cenário onde o cuidado colocado na decoração de interiores é exemplarmente demonstrado, com este espaço habitacional a traduzir uma série de informação sobre os personagens (inclusive as posses financeiras elevadas da família que alberga no seu interior) e a propiciar alguns dos seus comportamentos. No exterior desta mansão, encontramos um imenso terreno verde, onde os personagens comem, colhem fruta, andam de bicicleta, nadam no lago, com Guadagnino a conseguir tornar estes pequenos momentos em algo de extremamente apelativo, sedutor e inebriante.

Os raios solares atravessam regularmente os cenários e contribuem para aquecer os sentimentos, embora a noite também dê um ar da sua graça e a espaços surja como confidente e testemunha dos personagens, sobretudo de Elio e Oliver. A força do filme está exactamente na relação que se forma entre estes personagens. Ambos sabem dos preconceitos da sociedade que os rodeia e do facto da estadia de Oliver estar restrita ao curto período em que este trabalha com o pai de Elio. Essa limitação de tempo talvez ajude a explicar a intensidade dos episódios vividos pelos protagonistas, com Guadagnino a pontuar as suas dinâmicas com situações que variam entre a leveza, o erotismo e o drama, enquanto muito é expresso com recurso aos já mencionados gestos e olhares. A delicadeza e a subtileza marcam algumas destas situações. Veja-se quando encontramos Oliver a perguntar a Elio se o pode beijar, numa fala que exibe de forma paradigmática o respeito do primeiro para com o segundo.

Guadagnino demonstra alguma atenção para com os personagens e contribui para que os intérpretes consigam compor figuras dotadas de humanidade e espessura. Esse cuidado permite que alguns elementos secundários sobressaiam pela positiva, tais como Stuhlbarg e Casar como um casal compreensivo, que mantém uma relação de proximidade e de alguma abertura com o filho. Também Esther Garrel tem algum destaque como Cinzia, uma jovem sensual, que sente algo de genuíno e sincero por Elio, com ambos a iniciarem uma relação fugaz que não contém no seu interior a complexidade e o fervor dos sentimentos que o protagonista sente por Oliver. Elio é um jovem que está a caminhar para a idade adulta, enquanto efectua descobertas, protagoniza alguns episódios que prometem marcar a sua personalidade e identidade e vive a primeira grande paixão da sua vida.

Ao longo do filme somos compelidos a acompanhar o nascimento da relação que se forma entre os protagonistas, bem como as suas dúvidas e inquietações, a sua felicidade extrema e a sua tristeza cortante, enquanto somos lançados para o interior deste espaço radiante onde quase tudo e todos se vestem bem. Se Elio tem nos pólos da Lacoste uma imagem de marca e numa t-shirt dos Talking Heads uma das suas peças de roupa mais marcantes, já Oliver utiliza regularmente camisa, inclusive da Ralph Lauren, com as posses de ambos a ficarem bem claras, tal como os sentimentos que nutrem um pelo outro. O título de "Call Me By Your Name" remete para uma fala trocada pela dupla de protagonistas, dois jovens que se apaixonam e fazem com que nos apaixonemos por esta obra sensual e delicada.

Título original: "Call Me By Your Name".
Título em Portugal: "Chama-me Pelo Teu Nome".
Realizador: Luca Guadagnino.
Argumento: James Ivory.
Elenco: Timothée Chalamet, Armie Hammer, Michael Stuhlbarg, Amira Casar, Esther Garrel.

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