25 janeiro 2018

Crítica: "Faithfull" (2017)

 "Faithfull" está para o cinema como a azeitona para a ementa dos restaurantes: serve de entrada ou de acompanhamento, mas não funciona como ingrediente principal. A sua curta duração torna-o minimamente palatável, pronto a caber na grelha de programação de um canal televisivo em caso de última necessidade, mas não deixa de soar como uma oportunidade perdida, ou não estivéssemos perante um documentário sobre a marcante Marianne Faithfull. É certo que a cantora parece muitas das vezes não querer facilitar a vida à realizadora Sandrine Bonnaire, seja quando se esquiva às questões, evidência pouca disponibilidade para estar diante da câmara, ou procura encenar em demasia a sua postura. Note-se quando questiona se podem mudar de assunto quando as perguntas envolvem situações mais melindrosas, ou exibe uma notória falta de vontade para falar sobre o passado, ou o momento em que chega a ameaçar atirar a câmara pela janela do automóvel.

23 janeiro 2018

Crítica: "Call Me By Your Name" (Chama-me Pelo Teu Nome)

 "Call Me By Your Name" é um filme sedutor e sensual, que inebria, apaixona, arrebata e estimula as sensações e emoções. É, também, uma obra dotada de enorme sensibilidade, que concede atenção aos gestos e às trocas de olhares, embora nunca descarte o poder da palavra, seja esta escrita ou falada. O argumento de James Ivory, inspirado no livro homónimo de André Aciman, descarta regularmente as falas óbvias ou excessivamente expositivas ao mesmo tempo que privilegia a genuinidade e o desenvolvimento dos personagens, algo que contribui para elevar o trabalho dos intérpretes. Timothée Chalamet e Armie Hammer respondem à altura ao contarem com uma química notável que favorece e muito a autenticidade que envolve os sentimentos que brotam entre os personagens que interpretam e os episódios que estes protagonizam em pleno Norte de Itália, com ambos a conquistarem-se e a conquistarem-nos.

 O romance destes dois personagens decorre em 1983, algo realçado não só pelo guarda-roupa e alguns cenários, mas também pela magnífica banda sonora. Esta dialoga eficazmente com os episódios que decorrem ao longo do enredo, contribui para fornecer informação relevante e exacerba alguns trechos dotados de emoção, com a música a surgir como uma parte relevante da narrativa. Se a canção "Love My Way" adorna alguns momentos de dança envolventes e libertadores, já "Mistery of Love", escrita propositadamente para o filme, adensa a atmosfera romântica de uma viagem e reverbera os sentimentos expostos pela dupla de protagonistas. Diga-se que o romantismo e o desejo são ainda exacerbados pelas características do território em que se desenrola o enredo, um espaço situado no Norte de Itália, cuja localização nunca sabemos ao certo, quase como se estivéssemos perante um local que tanto tem de palpável como de saído directamente de um sonho.

21 janeiro 2018

Crítica: "Die göttliche Ordnung" (A Ordem Divina)

 "Die göttliche Ordnung" tanto tem de bem intencionado e leve como de anódino, previsível e inconsequente. Falta-lhe chama, fervor e ousadia, mas também a capacidade de atribuir vigor e gravidade às temáticas que aborda. É certo que beneficia e muito de contar com uma protagonista minimamente interessante (interpretada de forma competente por Marie Leuenberger) e de se embrenhar por um episódio histórico que permite explorar temáticas relacionadas com os direitos das mulheres e o feminismo, embora nem sempre seja capaz de traduzir a complexidade destes assuntos. Diga-se que o filme até começa relativamente bem, ao colocar-nos perante uma série de vídeos de arquivo que transmitem de forma rápida o contexto efervescente da época e as mudanças que estavam a acontecer, algo que é contrastado com o conservadorismo da aldeia onde decorre o enredo, situada na Suíça, em 1971, nas vésperas do referendo de 7 de Fevereiro.

Esta votação visava aprovar ou rejeitar o sufrágio feminino a nível federal, tendo mexido e muito com Nora, a protagonista. Nora é uma dona de casa, casada com Hans (Maximilian Simonischek), de quem tem dois filhos, os jovens Luki (Finn Sutter) e Max (Noe Krejcí). O matrimónio de Nora e Hans é estável, mas desprovido de tempero, algo transmitido pelos intérpretes e reforçado pelo seu guarda-roupa, quase sempre discreto e conservador, uma característica que perdura praticamente até ao último terço do filme. A protagonista não é politicamente engajada, mas, aos poucos, acaba por se ver envolvida nesta luta pelo direito ao voto, enquanto tem de enfrentar imensa oposição, granjear apoios e desafiar o conservadorismo, com "Die göttliche Ordnung" a partir dos exemplos particulares dos seus personagens e das suas dinâmicas para explorar o contexto da época.

19 janeiro 2018

Crítica: "The Killing of a Sacred Deer" (O Sacrifício de Um Cervo Sagrado)

 Drama com contornos de tragédia grega, "The Killing of a Sacred Deer" é uma experiência cinematográfica avassaladora e irrequieta, que devasta, inquieta, incomoda e atira-nos para terrenos típicos de Yorgos Lanthimos. O realizador disseca os comportamentos humanos de forma mordaz, sempre com algum humor negro e contundência à mistura, enquanto se embrenha por situações-limite que remetem para os sacrifícios bíblicos. Se Abraão estava disposto a sacrificar o seu filho para obedecer a Deus, já Steven Murphy (Colin Farrell), um reputado cardiologista, apresenta imensas dúvidas em relação ao elemento da família que deverá eliminar para compensar a morte de um dos seus pacientes. É um dilema de difícil resolução, com o protagonista a ficar perante uma situação extrema em que os nervos ficam à flor da pele, a razão é desafiada pela emoção e os laços familiares são colocados à prova. 

O design de som e o trabalho de câmara contribuem e muito para potenciar a atmosfera desconcertante e opressiva do filme. Note-se o plano inicial, nomeadamente, um coração a ser alvo de uma cirurgia, filmado a partir de cima (plongée total), com a câmara a afastar-se devagarinho, enquanto a banda sonora atribui um tom quase operático a este episódio que aparece como um aperitivo para a atmosfera bizarra e intensa de "The Killing of a Sacred Deer". Primeiro somos apresentados ao núcleo de personagens principais e aos seus laços, ficamos perante algumas pistas e a sensação de que nem tudo bate certo, até a tempestade avançar pelo quotidiano de Steven e trazer uma ventania carregada de dilemas. Este é um cirurgião experiente, de barba farta e rosto pontuado por feições sérias, que é casado com Anna (Nicole Kidman), uma oftalmologista. Ambos contam com uma situação financeira estável e uma carreira estabelecida, algo que se reflecte na casa onde vivem, um local espaçoso, dotado de alguns luxos e uma calma que se prepara para ser desestabilizada.

17 janeiro 2018

Crítica: "L'amant d'un jour" (O Amante de Um Dia)

 Nos momentos iniciais do filme, encontramos os sonoros gemidos de prazer de Ariane (Louise Chevillotte) a serem colocados em contraste com as demonstrações de dor de Jeanne (Esther Garrel), quase que a estabelecer um diálogo entre a euforia do amor e do desejo com a tristeza e o desalento de uma separação. O amor permite que no seu interior convivam sensações e emoções tão contraditórias e antagónicas como essas, algo que Philippe Garrel explana em "L'amant d'un jour", uma obra que se embrenha pelos meandros das relações amorosas e aquilo que as preenche e esvazia, como o desejo, a alegria, as traições, o ciúme, a solidão, as ilusões e as desilusões. São terrenos bem conhecidos do cineasta, que se volta a envolver pelas dinâmicas intrincadas entre homens e mulheres, sempre com uma dose assinalável de romantismo e uma série de diálogos e personagens que contam com a sua marca pessoal.

"Ele foi egoísta, mas isso acontece com todos. Um dia magoarás alguém sem pensar", diz Ariane para Jeanne, após esta última ameaçar saltar da janela. Esta afirmação marca o tom do filme, sublinha a volatilidade das emoções humanas e antecipa os comportamentos de alguns personagens, enquanto o acto desesperado de Jeanne explana de forma peremptória o turbilhão de sentimentos convulsos que percorrem a mente da jovem. A relação desta com Matéo (Paul Toucang) terminou de forma abrupta, algo que a leva a voltar a viver na casa de Gilles (Éric Caravaca), o seu pai, um professor universitário divorciado e experiente, que habita e namora com Ariane, uma das suas alunas. Louise Chevillotte surge como o desejo em pessoa, enquanto explana as contradições desta mulher que tanto tem de experiente e confiante como de indecisa e imatura, que apresenta uma enorme propensão para fugir da estabilidade e aproximar-se dos prazeres carnais.

16 janeiro 2018

Crítica: "Kedi" (Gatos)

 Flecha de ternura lançada contra o cinzentismo, o pessimismo e a tristeza, "Kedi" é um documentário terno, cândido e adorável, que se embrenha pela ligação que existe entre Istambul e os gatos, bem como pelo modo como estes marcam a cidade e os seus habitantes. É filme para quem gosta de gatos, pessoas e cinema, que proporciona algumas doses de leveza, imensos momentos pontuados pela doçura e conta com um punhado de situações e entrevistas que explanam a relevância que estes felinos têm para os seres humanos. Algumas entrevistas contam com mais cor e um tom cómico e leve, outras com uma faceta mais profunda e comovente, sobretudo aquelas em que o poder terapêutico e pedagógico dos gatos é exposto de modo bem vivo. Veja-se a senhora que cura as suas feridas interiores a auxiliar estes animais ou o indivíduo que recuperou de um esgotamento nervoso em parte graças a começar a cuidar de alguns bichanos. 

A relação das pessoas com os gatos é exposta e realçada, tal como a ligação dos felinos à cidade e as idiossincrasias destes animais. A câmara acompanha-os de forma atenta, muitas das vezes a um nível bastante baixo, pronta a captar os seus movimentos, o seu campo de visão e as suas particularidades, enquanto ficamos perante uma série de gatos e as suas personalidades distintas, algo que praticamente permite que a realizadora Ceyda Torun crie pequenas histórias em volta dos mesmos. Observe-se o caso de Psikopat, também conhecida como "psicopata", uma gata de personalidade forte, que é capaz de colocar o "esposo" e a concorrência em sentido, ou a luta pelo domínio do bairro por parte de Ginger, um felino recém-chegado e Gamsiz, um bichano que se posiciona de forma peculiar para que lhe abram as janelas. 

15 janeiro 2018

Crítica: "Mudbound" (2017)

 "Mudbound" é um filme sobre os EUA de ontem e de hoje, que exibe sem contemplações o poder devastador do racismo, enquanto dialoga com os nossos tempos de forma inquietante e pertinente. Começa de forma titubeante, a usar e abusar do recurso ao voice-over para expor elementos sobre os personagens e o enredo, mas, a partir do momento em que o destaque passa a estar maioritariamente em Jamie McAllan (Garrett Hedlund) e Ronsel Jackson (Jason Mitchell), dois militares que combateram na II Guerra Mundial, descola da mediania e revela-se capaz de provocar um turbilhão de emoções. A ligação forte e sincera que se forma entre ambos é um dos pontos fortes do enredo, embora a dupla enfrente contextos distintos no regresso aos EUA: Jamie lida com o sintoma de Perturbação de Stress Pós-Traumático, enquanto Ronsel, um afro-americano, depara-se com as demonstrações de racismo da sociedade que o rodeia e limita.

13 janeiro 2018

Crítica: "Aus dem Nichts" (Uma Mulher Não Chora)

 "Aus dem Nichts" compensa em emotividade, ritmo, energia, coragem e sinceridade aquilo que por vezes lhe falta em subtileza. Fatih Akin realiza uma obra cinematográfica que se embrenha pelas franjas de uma miríade de géneros e subgéneros, sejam estes o drama relacionado com o luto, ou o filme de tribunal e de vingança, enquanto expressa as suas mensagens de forma directa, é capaz de ser fiel aos seus personagens e consegue questionar o espectador. Estas diversas camadas de "Aus dem Nichts" são ancoradas na sua protagonista, em particular nos episódios que protagoniza e nas decisões que toma, com Diane Kruger a compor uma personagem que eleva uma carreira. A actriz contribui para a personagem deixar marca, com o seu rosto a aparecer como o semblante de todas as emoções, enquanto somos compelidos a partilhar o intenso quotidiano de Katja Sekerci, a protagonista desta potente obra cinematográfica. 

Os momentos iniciais do filme são pontuados por uma atmosfera de felicidade e alegria, ou não estivéssemos perante o matrimónio de Katja e Nuri (Numan Acar), um evento que se desenrola na prisão e é exposto a partir de um falso vídeo amador. As características amadoras do vídeo são realçadas pelos movimentos de câmara bruscos e desajeitados, algo que reforça o contexto peculiar em que decorreu o casamento e a euforia que pontuou este episódio. Após esse prólogo, somos colocados perante Katja a deixar Rocco (Rafael Santana), o filho do casal, no escritório de Nuri. A união desta família é estabelecida de forma relativamente rápida, embora seja destroçada a uma velocidade ainda maior. Quando regressa ao local de trabalho do esposo, Katja depara-se com um pesadelo transformado em realidade. O escritório foi alvo de um atentado que vitima Nuri e Rocco, algo que é confirmado através dos testes de ADN e mexe por completo com a mente e a alma da protagonista.

11 janeiro 2018

Crítica: "Nagai iiwake" (The Long Excuse)

 Como lidar com o falecimento de um ente querido? Esta é uma pergunta que marca o enredo de "Nagai iiwake" e as mentes de Sachio (Masahiro Motoki) e Yoichi (Pistol Takehara). Ambos perderam as esposas no mesmo acidente, embora reajam de forma distinta. Quando recebe a notícia da morte de Natsuko (Eri Fukatsu), a sua esposa, Sachio encontra-se na companhia da amante, algo que coloca o escritor numa posição difícil, sobretudo quando tudo e todos esperam por demonstrações públicas de dor e discursos eloquentes. Ao contrário dele, Yoichi, um camionista, pai de Shinpei (Kenshin Fujita) e Akari (Tamaki Shiratori), apresenta o seu sofrimento forma sincera, bem como a enorme união que tinha com Yuki (Keiko Horiuchi), a sua esposa. Natsuko e Yuki eram amigas de longa data, embora o escritor e o camionista raramente tenham travado contacto, algo que muda após a morte destas. 

Pistol Takehara incute uma personalidade castiça e pouco polida a Yoichi, um indivíduo que expõe os seus sentimentos de forma genuína e conta com mais densidade do que a sua apresentação inicial poderia fazer prever. As cenas em que escuta a última mensagem que a esposa deixou no seu telemóvel são de partir o coração, enquanto a amizade que forma com Sachio é dotada de sinceridade, sobretudo a partir do momento em que este se oferece para ajudar a cuidar dos seus filhos. Masahiro Motoki coloca em evidência o pouco à vontade do protagonista em lidar consigo próprio, bem como a sua faceta egocêntrica, oportunista e complexa, com a amizade que o escritor forma com Shinpei e Akari a surgir quer como um bálsamo para a sua alma, quer como uma forma de se evadir momentaneamente dos seus problemas. Kenshin Fujita e Tamaki Shiratori são dois achados que contribuem para atribuir um tom genuíno e imprevisível ao filme. O primeiro coloca em evidência as dificuldades que Shinpei tem na escola e as dinâmicas algo conturbadas que mantém com o pai. A segunda expõe a faceta infantil e doce da jovem Akari. 

09 janeiro 2018

Crítica: "Columbus" (2017)

 Primeira longa-metragem realizada por Kogonada, "Columbus" é um exemplo paradigmático de uma obra em que o estilo contribui para elevar a substância. Os seus planos, muitas das vezes fixos e de longa duração, são elaborados de forma precisa e delicada, os quadros no interior dos quadros são exemplarmente arquitectados e utilizados, a arquitectura da cidade do título é conjugada de forma harmoniosa com os personagens, enquanto a influência de Yasujiro Ozu é sentida em quase todos os seus poros. Não faltam os pillow shots, os planos fixos e dotados de simetria (muitas das vezes gerais ou de conjunto), uma sensação de harmonia e uma chaleira vermelha, com essa inspiração a ser ainda visível quando encontramos Casey (Haley Lu Richardson) e Gabriel (Rory Culkin), dois funcionários de uma biblioteca, a dialogarem sentados no chão, quase como se estivessem num tatami.

08 janeiro 2018

Crítica: "The Bachelors" (Tempo de Recomeçar)

 A honestidade em relação aos seus singelos objectivos e as dinâmicas entre os personagens interpretados por J.K. Simmons e Josh Wiggins surgem como alguns dos principais atributos de "The Bachelors", uma obra cinematográfica que aborda temáticas relacionadas com o luto, a depressão, a solidão, a formação e afirmação da identidade, o primeiro amor e a ligação entre um pai e o seu filho, enquanto vagueia pelas margens do humor e do drama. Em diversos momentos parece que a segunda longa-metragem realizada por Kurt Voelker vai ceder por completo aos lugares-comuns, ou descair para o drama adolescente que poderia constar nas séries associadas ao canal CW, ou perder-se em alguns diálogos demasiadamente artificiais, mas os seus intérpretes logo tratam de compor figuras que prendem relativamente a nossa atenção, sobretudo Simmons. Este interpreta Bill, um professor de cálculo que decide dar um safanão na sua vida ao aceitar uma proposta para leccionar numa escola privada que é dirigida por Paul (Kevin Dunn), um amigo de longa data.

05 janeiro 2018

Crítica: "Pop Aye" (2017)

 "Pop Aye" é um filme de enorme coração, que conjuga com acerto o humor e o drama, enquanto vagueia pelas convenções dos roads movies e conta com uma peculiar dupla de personagens principais. Entre essas convenções encontra-se a viagem como um meio do protagonista reencontrar-se e lidar com os seus problemas ao mesmo tempo que conhece uma série de figuras que o marcam e depara-se com uma miríade de situações. A atribuir um tom meio surreal à obra encontra-se o simpático elefante do título, um ser que acompanha regularmente o protagonista. A escolha desta espécie não parece ter sido efectuada ao acaso, uma vez que ela aparece muitas das vezes associada à memória, ao companheirismo e à amizade, três baluartes da primeira longa-metragem realizada por Kirsten Tan e da ligação entre Pop Aye e Thana (Thaneth Warakulnukroh), um arquitecto de meia-idade que se encontra a atravessar uma crise.

04 janeiro 2018

Crítica: "Battle of the Sexes" (2017)

  O título de "Battle of the Sexes" remete para a célebre partida de ténis que colocou frente a frente Billie Jean King (Emma Stone) e "Bobby" Riggs (Steve Carell). Na época, mais precisamente em 1973, Billie tinha vinte e nove anos, chegou a alcançar o estatuto de número um e era uma das expoentes da luta pelos direitos das mulheres. Bobby tinha cinquenta e cinco anos, um passado de respeito no ténis e uma atitude chauvinista que contribuiu para incendiar o circo mediático que envolveu o duelo. Realizado por Jonathan Dayton e Valerie Faris, "Battle of the Sexes" permite que Emma Stone e Steve Carell explanem alguns dos seus talentos, enquanto acompanha de forma ficcional diversos acontecimentos que antecederam este evento que cedo se transformou numa "guerra dos sexos", sejam estes relacionados com a vida profissional ou pessoal da dupla de protagonistas.

03 janeiro 2018

Crítica: "Chemi Bednieri Ojakhi" (My Happy Family)

 No início de "Chemi Bednieri Ojakhi", encontramos Manana (Ia Shugliashvili), a protagonista, a observar o apartamento que pretende alugar. Permanece maioritariamente em silêncio, enquanto a câmara de filmar acompanha-a de forma atenta e a futura senhoria elogia as qualidades da habitação. Pouco depois, esta pergunta se a protagonista tem família, enquanto Nana Ekvtimishvili e Simon Groß, a dupla de realizadores, logo responde à questão ao cortar para o interior da casa de Manana. No interior da casa encontram-se a protagonista e Soso (Merab Ninidze), o seu esposo, Lasha (Giorgi Tabidze) e Nino (Tsisia Qumsishvili), os filhos do casal, bem como Vakho (Giorgi Khurtsilava), o marido desta última, Lamara (Berta Khapava) e Otar (Goven Cheishvili), os pais de Manana. O espaço da casa conta com uma decoração que reflecte a presença de três gerações distintas, embora a sua dimensão pareça amplamente insuficiente para que todos estes personagens consigam preservar a sua privacidade, com o dia-a-dia destes elementos a contar com diversos momentos caóticos, uma situação que é adensada por uma decisão drástica de Manana.

02 janeiro 2018

Top imensamente subjectivo sobre quinze estreias marcantes de 2017

Decidi aproveitar a fase inicial de 2018 para publicar o meu top imensamente subjectivo sobre quinze estreias marcantes de 2017. Ou, se preferirem, um top sobre quinze estreias de 2017 que deixaram marca na minha pessoa. O top conta apenas com estreias em circuito comercial (Portugal), pelo que os filmes visionados no âmbito da cobertura de festivais e mostras de cinema ficaram de fora (tais como os recomendáveis "Comeback", "L'économie du couple", "Compte tes blessures" e "Histórias que nosso cinema (não) contava"). Para ajudar a justificar as escolhas decidi colocar os links das críticas em cada um dos filmes seleccionados (alguns casos apenas vão contar com um texto manhoso nos próximos dias).

1º - "Paterson".

Trecho da crítica: "Estamos diante de um filme sobre os pequenos episódios quotidianos, bem como sobre poesia, a relação de um casal que se ama, as rotinas de um motorista e as vitórias e derrotas que conhecemos no dia-a-dia, com Jim Jarmusch a incutir uma enorme humanidade a todas estas situações e a permitir que Adam Driver tenha uma interpretação digna de atenção ao longo daquela que é uma das grandes estreias cinematográficas nas salas de cinema portuguesas em 2017".

2º - "Teströl és lélekröl".

Trecho da crítica: "Com uma enorme atenção aos gestos e aos olhares, ao Sol que brilha e aos sentimentos que florescem, "Teströl és lélekröl" é um pedaço encantador de cinema, simultaneamente estranho, romântico, cru e poético, com Ildikó Enyedi a realizar uma das grandes obras cinematográficas a estrearem comercialmente em Portugal em 2017".

3º - "Ah-ga-ssi".

Trecho da crítica: "Entre o erotismo e a violência, o humor e o romance, os enganos e os sentimentos bem reais, situações dramáticas e episódios chocantes, "Ah-ga-ssi" surge como uma obra marcante, pontuada por personagens peculiares, uma decoração refinada dos cenários, planos compostos com primor, uma dose de saudável loucura e imensa criatividade".

4º - "I Am Not Your Negro".
5º - "Lumière!".
6º - "Detroit".
7º - "Silence".
8º - "Ma vie de Courgette".
9º - "Get Out".
10º - "Hymyilevä mies".
11º - "Perfetti sconosciutti".
12º - "120 battements par minute".  
13º  - "Toivon tuolla puolen".
14º - "20th Century Women".
15º - "Jackie".

01 janeiro 2018

Crítica: "Cherchez la femme" (Há Quem as Prefira de Véu)

  Comédia de enganos e de costumes que se envolve por temáticas relacionadas com o fundamentalismo islâmico, o travestismo, os amores impossíveis e efectua comentários de foro social com enorme acidez, "Cherchez la femme" utiliza sagazmente o humor para abordar assuntos melindrosos e despertar reflexão. O resultado final é uma screwball comedy recheada de ritmo, bons gags, imenso humor, inteligência e alguns diálogos bem construídos, na qual os extremismos religiosos são satirizados, o machismo e a repressão sobre a mulher são criticados, os diversos elementos do elenco revelam um enorme acerto nos timings cómicos e os mal-entendidos assumem características que tanto têm de perigosas como de hilariantes, sobretudo quando se forma uma espécie de triângulo amoroso entre Armand (Félix Moati), Leïla (Camélia Jordana) e Mahmoud (William Lebghil).