14 outubro 2018

Crítica: "Nelyubov" (Loveless - Sem Amor)

 Angustiante, emocionalmente devastador e extremamente preciso na abordagem das suas temáticas, "Nelyubov" envolve-nos pelo interior de um matrimónio a conhecer o seu ocaso e de um desaparecimento que traz ao de cima uma série de especificidades da sociedade russa. Diga-se que essas particularidades são reunidas no interior de uma miríade de temas amplamente universais. Um desses assuntos é a alienação no espaço urbano, o isolamento a que estamos sujeitos e ao qual nos sujeitamos, enquanto aceitamos a frivolidade como algo banal e deixamos os sentimentos calorosos à deriva num mar de incertezas. Outro desses temas é a dicotomia entre o ser e o parecer, com a apetência que vários personagens demonstram para captarem uma felicidade artificial ou lampejos de alegria para colocarem nas redes sociais e assim criarem uma imagem radiante das suas pessoas a contrastar com um quotidiano mais cinzento e desprovido de emoção. Uma dessas personagens é Zhenya (Maryana Spivak), uma mulher que se encontra prestes a divorciar de Boris (Aleksey Rozin), de quem tem um filho, Alyosha (Matvey Novikov), um jovem de doze anos de idade.

O ressentimento, a frustração e a aspereza marcam uma fatia considerável das falas trocadas por Zhenya e Boris, com ambos a tentarem livrar-se da responsabilidade de cuidar de Alyosha. Tanto ele como ela encaram o rapaz como um fardo, como um símbolo de uma relação falhada e uma recordação viva de anos que consideram irremediavelmente perdidos, algo que expressam através dos gestos e das palavras. O casal encontra-se ainda a tentar vender a casa, com estes dois personagens a demonstrarem por diversas vezes que não convivem bem com as marcas que produziram durante o tempo em que estiveram juntos. A certa altura do filme, encontramos os dois cônjuges a discutirem, a colocarem em palavras o quanto estão afastados e a exibirem uma notória falta de vontade em permanecerem com a guarda do filho. Se estes fazem questão de se esquecer do rapaz, já a câmara de filmar segue o caminho diametralmente oposto e efectua um desvio que resulta num dos momentos mais poderosos do filme, em que um choro compulsivo é silenciado e abafado, quase que a remeter para a invisibilidade de Alyosha junto dos pais. Matvey Novikov transmite a dor do seu personagem e a falta de calor humano que recebe dos progenitores, com os poucos trechos em que está presente a permitirem expor o efeito que os comportamentos dos pais provocam nos filhos.

13 outubro 2018

Crítica: "Como Fernando Pessoa Salvou Portugal" (2018)

 Com um sentido de humor muito peculiar, uma elegância notória na composição dos planos e um cuidado no figurino que permite transportar-nos para o Portugal do final da década de 20, "Como Fernando Pessoa Salvou Portugal" coloca-nos perante o episódio em que o poeta do título é designado para elaborar um slogan para a Coca-Louca. Nesta fase, o escritor trabalhava numa agência de publicidade e criou o célebre slogan para a Coca-Cola que perdurou no tempo e ainda é recordado, em particular, "Primeiro estranha-se, depois entranha-se". Provavelmente impedido de utilizar o nome da Coca-Cola devido a uma questão de direitos, o realizador e argumentista Eugène Green altera a nomenclatura do produto, mas mantém o seu visual e essência, enquanto aborda, sempre com algum humor à mistura, os motivos que levaram o poeta a criar o slogan, o impacto que este provocou e a procura do Estado em impedir que a bebida chegasse a Portugal. O cineasta expõe estes episódios de forma concisa e leve, enquanto despe praticamente os intérpretes de emoções, coloca-os no centro dos planos (um recurso semelhante ao utilizado em "A Religiosa Portuguesa") e permite que estes sobressaiam, sobretudo Carloto Cotta.

11 outubro 2018

Entrevista a F.J. Ossang sobre "9 Doigts"

 Escritor, músico e cineasta, F.J. Ossang conta com uma série de obras de respeito, tais como "9 Doigts", a sua nova longa-metragem, um noir com ingredientes de aventura marítima. O realizador esteve em Portugal para promover o filme, algo que foi encarado pelo Rick's Cinema como uma oportunidade única para entrevistá-lo. A entrevista decorreu no interior dos escritórios da O Som e a Fúria, a co-produtora da fita, tendo sido marcada pela disponibilidade, simpatia e expressividade desta figura singular do cinema francês. Ossang começou por salientar que fala francês, inglês e espanhol. Ainda sabia falar um pouco da nossa língua, ainda que, como salientou, "em Madrid e sobretudo na América do Sul perdi o meu português" (risos). No entanto a presença nos Açores não foi esquecida, "Fui pela primeira primeira vez aos Açores em 1988. Em 1989 filmei 'Le trésor des îles chiennes', em Cinemascope, a preto e branco. O filme vai ser restaurado. Sou fascinado pelos Açores. A reunião entre os três continentes. Nesses tempos era muito mais difícil do que agora, nomeadamente, do ponto de vista material. Mas fui muito feliz. Então, voltei para os Açores para filmar o meu primeiro filme neste espaço, 'Dharma Guns', também em preto e branco".

Outro dos territórios onde "9 Doigts" foi filmado é Biarritz. Em entrevista ao canal do International Film Festival Rotterdam, F.J. Ossang realçou o clima tempestuoso deste lugar, algo que nos levou a querer saber um pouco mais. De acordo com o cineasta, "Já estava presente no argumento que precisávamos de temperatura de inverno. Por acaso filmámos em Biarritz. O filme entrou em produção e tivemos de começar a filmar rapidamente. Não podíamos perder dinheiro. Nós filmámos duas semanas em França. O tempo era terrível. Para ires de carro de Paris a Biarritz tinhas de fazer três ou quatro quilómetros a mais. As inundações eram imensas. No entanto, a tempestade foi muito boa para o filme". Ainda no campo dos líquidos e da Sétima Arte, decidimos colocar o realizador perante o célebre comentário que efectuou ao À Pala de Walsh, em particular, "o verdadeiro cinema é como gin tónico" e questioná-lo sobre a preparação desta bebida noir com ecos de aventura marítima: "Para mim o bom cinema, aquele que eu gosto, é como um psicotrópico. Coloca-te em outro estado, um pouco como o álcool. Eu gosto bastante de cinema. Algumas boas ideias dos meus filmes resultam frequentemente de beber duas noites. E, depois, começo a escrever (enquanto isso, simula de forma bem viva o processo de escrever). Por vezes, é bom. Desta vez tinha de me apressar, pois tinha uma semana para terminar. Saiu do fundo do coração, da minha alma. Decidi fazer um filme sobre barcos porque sempre fui fascinado pelas histórias do capitão Frederick Marryat e de Joseph Conrad, então no '9 Doigts' existe quase sempre um grande fantasma a um canto, o Marryat".

10 outubro 2018

Crítica: "9 Doigts" (9 Dedos)

 "É preciso uma autoridade! Algo que mande no Tempo, senão o tempo estende-se! Nós é que temos de nos impor a ele!" comenta Ferrante (Pascal Greggory) num estado visivelmente alterado quer pelos revezes de uma viagem que adensa a paranóia, quer pelo álcool que consumiu em excesso. Se este gangster anseia por algo que controle o tempo, já F. J. Ossang demonstra ser exímio nesta tarefa. Hábil a transmitir a rapidez e a intensidade com que os personagens sentem tudo o que ocorre no primeiro acto de "9 Doigts", o realizador é igualmente competente a explanar a lentidão com que as figuras que percorrem o enredo vivem os episódios do segundo e terceiro acto. Essa sensação de tempo está indubitavelmente associada ao espaço. Note-se como no segundo e terceiro acto a presença prolongada de uma parte considerável dos personagens no interior de um barco contribui para exponenciar todo um ambiente de imobilidade e incerteza. Fora do veículo marítimo, em particular, no primeiro acto, tudo decorre com mais ritmo, seja pelas perseguições e fugas, ou pelo contacto de Magloire (Paul Hamy), o protagonista, com o gang liderado por Kurtz (Damien Bonnard). Mais do que tomar a iniciativa dos acontecimentos, Magloire depara-se com uma série de eventos que mexem com o seu quotidiano sem rumo, sobretudo a partir do momento em que encontra um indivíduo prestes a falecer.

O moribundo entrega vinte mil dólares ao protagonista e logo o avisa para fugir. Com mais dinheiro no bolso, Magloire começa a correr desenfreadamente, enquanto é perseguido por um grupo de criminosos. São trechos pontuados por alguma tensão e uma utilização sublime do contraste entre luz e sombras ao serviço do enredo, ou não estivéssemos diante de uma obra marcada por uma série de ingredientes associados aos filmes noir. Não faltam as sombras salientes e vincadas, dignas herdeiras do expressionismo e capazes de adensarem a inquietação e a sensação de malaise, os personagens de moral ambígua, a insegurança no espaço citadino, os ângulos de câmara que acentuam a inquietação, o fumo dos cigarros que exacerba a fugacidade e a transitoriedade da vida. Diga-se que a influência dos noir é notória em diversas situações que parecem surgir como referências a outras fitas, sejam estas menções propositadas ou casuais. Observe-se o aquário que cedo traz "The Lady From Shanghai" à memória, ou uma fuga à "The Third Man", ou uma ameaça atómica que muito tem de "Kiss Me Deadly". Temos ainda um assalto e um grupo de criminosos que faz recordar ao de leve alguns noir franceses, tais como "Rififi", ou diversas fitas de Jean-Pierre Melville. No entanto, pese a miríade de referências que já foram inseridas no texto, "9 Doigts" é filme com vida própria. E que vida estranha e inebriante tem esta obra.

06 outubro 2018

Crítica: "Joaquim" (2017)

 O que leva alguém a desafiar o sistema? Como surge a tomada de consciência de alguém em relação ao mundo que o rodeia? Estas são perguntas a que "Joaquim" procura responder através da figura do título, com Marcelo Gomes a deixar-nos perante um filme sobre o passado e o presente do Brasil. O enredo tem lugar em pleno Século XVIII. No entanto, a sociedade que é apresentada permite que encontremos traços de problemas e especificidades que marcam esta Nação nos dias de hoje, algo particularmente notório quando somos confrontados com a corrupção e as desigualdades promovidas pela Coroa de Portugal no interior do território canarinho. O realizador e argumentista Marcelo Gomes foge aos caminhos fáceis e previsíveis. Não temos uma obra de pendor biográfico que abarca um período alargado da vida de Tiradentes, ou uma representação do mesmo como uma figura messiânica, ou o culminar do enredo com o auge da conhecida Inconfidência Mineira. Marcelo Gomes prefere concentrar as suas atenções num período específico da existência de Joaquim José da Silva Xavier, em particular, os momentos que antecederam a sua tomada de consciência, enquanto efectua um retrato complexo desta personalidade histórica.

Júlio Machado consegue expressar as dúvidas, defeitos, virtudes e contradições do seu Joaquim, um dentista e alferes que tem como principal função capturar contrabandistas de ouro em Minas Gerais. Com longos e descuidados cabelos compridos, muitos deles recheados de piolhos, Joaquim diz que é filho de portugueses, mas sabe que não tem os mesmos benefícios dos mesmos. Essas discrepâncias são desde logo visíveis a partir da figura de Manoel (Miguel Pinheiro), um alferes corrupto que acompanha o protagonista na caça aos contrabandistas e demonstra uma certa sobranceria e desprezo para com este e os locais, tendo mais hipóteses de ser promovido do que o segundo devido a ser português. É um exemplo paradigmático de uma sociedade estratificada e recheada de assimetrias, que promove as desigualdades e parece esquecer-se que contém no seu interior uma enorme diversidade. No topo dos cargos de poder e chefia encontramos os portugueses, sendo seguidos dos brasileiros, enquanto os mestiços ocupam uma posição mais baixa que estes últimos. Por sua vez, os escravos negros e os indígenas são tratados quase como mercadoria, com o argumento a explorar o quanto esta estrutura delineada pelos colonizadores contribui para fomentar as desigualdades e o racismo, algo que, em certa medida, permite efectuar um diálogo com as assimetrias do Brasil de hoje.

03 outubro 2018

Crítica: "Thelma" (2017)

 Drama poderoso e inquietante, que se embrenha pelo terror e a fantasia, "Thelma" deixa-nos perante uma jovem adulta que se encontra a descobrir a sua sexualidade e o seu corpo, a lidar com uma série de sentimentos e sensações contraditórias, bem como a enfrentar o despertar de poderes que se encontravam adormecidos e aparecem ao sabor do desejo, da liberdade e da culpa. O prólogo é fulcral para Joachim Trier marcar o tom enigmático e tenso do filme, com o cineasta a colocar-nos diante de um episódio da infância da personagem do título. No trecho mencionado, encontramos Thelma (Grethe Eltervåg) e o pai no interior de uma floresta recheada de neve, enquanto este se prepara para caçar um cervo. A presença da neve e a profusão de tonalidades frias tanto reforçam a hostilidade do cenário como transmitem uma certa sensação de pureza, algo que contrasta com o casaco vermelho da protagonista, uma cor forte e exacerbadora do perigo, com esta discrepância tonal entre a frieza e o calor a sublinhar o mistério e a sensação de ameaça que rodeiam os momentos iniciais do filme.

Essa ameaça é reforçada quando Trond muda de alvo. Inicialmente focado no cervo, o pai da protagonista desloca o olhar e a espingarda na direcção da filha, um acto que explana de forma paradigmática o desejo de eliminar a petiz. O que leva um pai a ponderar assassinar o seu rebento? É uma pergunta que colocamos e é respondida com o avançar do enredo, sobretudo a partir de uma fase em que ficamos na posse de mais elementos sobre os personagens e o seu passado. O trabalho de Jakob Ihre na cinematografia é essencial para exacerbar a inquietação e mistério que percorrem o prólogo e o restante enredo. Note-se o plano geral que nos deixa diante de Trond, Thelma, o cervo, a neve e a tentação, ou a eficácia com que o director de fotografia realça as cores frias que adensam a hostilidade do território onde se desenrola o trecho inicial do filme. A tonalidade vermelha da roupa de Thelma aparece como um elo de ligação entre o prólogo e o episódio seguinte da fita, nomeadamente, quando ficamos diante da protagonista a deslocar-se até à universidade, onde se prepara para assistir a uma aula.

01 outubro 2018

Entrevista a Guilherme Daniel sobre "A Estranha Casa na Bruma"

 "A Estranha Casa na Bruma" venceu o Prémio de Melhor Curta de Terror Portuguesa/Méliès d'Argent na edição de 2018 do MOTELx. A curta-metragem vai estrear em circuito comercial ao lado de "Thelma", a nova longa-metragem de Joachim Trier. O Rick's Cinema aproveitou a ocasião proporcionada por este lançamento Cinema Bold para entrevistar o realizador da curta, Guilherme Daniel. Ao longo da entrevista foram abordados assuntos relacionados com a escolha dos cenários, o que foi mantido e alterado do conto "The Strange High House in the Mist", entre outros temas.  

Rick's Cinema: O quanto é que existe de "The Strange High House in the Mist" e de H.P. Lovecraft no interior de "A Estranha Casa na Bruma"? O que o atraiu no conto?

Guilherme Daniel: O que me atraiu neste conto foi uma ambiência pesada de mistério e um sentido de suspense carregado, principalmente na aproximação da personagem principal à casa e aquando da visita inesperada. Nestes momentos tentamos ser bastante fieis ao conto. Onde ele se afasta é essencialmente na definição da personagem principal, que Lovecraft define como um homem de pensamento racional, e que a mim me interessava mais retratar como um homem de profunda crença religiosa. Esta mudança redefiniu o início e o fim da história, mas ao mesmo tempo penso que se mantêm fieis ao espírito original.
 
RC: Pontuado por cores frias, nevoeiro, árvores despidas e uma certa hostilidade, o território que rodeia a casa contribui para o ambiente enigmático e a espaços algo inquietante que permeia o filme, um pouco à imagem do interior da habitação. Como é que decorreu o processo de selecção e decoração dos cenários? O quanto é que a sua experiência como director de fotografia contribuiu para a eficiência com que expressa as particularidades destes espaços e cria o ambiente que marca "A Estranha Casa na Bruma"?

GD: A maior dificuldade na escolha dos cenários foi de uma questão prática - o local onde construiríamos a casa, que necessitávamos que oferecesse determinadas condições de segurança, para além de proporcionar o efeito de abismo desejado. A envolvência da casa também era importante, daí termos procurado uma floresta para a cena inicial que oferecesse essa hostilidade e ao mesmo tempo nos remetesse para um espaço irreal. Admito que tive algum conflito interno em filmar numa zona ardida do Pinhal de Leiria, como se de alguma forma me tivesse a "aproveitar" da tragédia, mas era de facto o ideal para o filme e em coordenação com as autoridades locais tudo correu pelo melhor.
Houve um trabalho conjunto entre a fotografia e a direcção de arte (Raquel Santos) de forma a criar uma palete para o filme com um jogo de cor que diferenciasse o mundo real e o que está para lá do que os olhos da personagem alcançam, e penso que é a partir deste trabalho que o filme cresce.

Crítica: "Mr Gay Syria" (2017)

 O título de "Mr Gay Syria" remete para um concurso organizado por Mahmoud Hassino, um jornalista e activista que fundou o movimento LGBTI da Síria. O vencedor tem de se deslocar a Malta e participar no Gay World, um evento que é encarado por Mahmoud como uma possibilidade única para despertar a atenção sobre a situação complicada em que se encontram os refugiados LGBTI sírios e defender a sua causa, algo exposto ao longo do documentário. Também ele um refugiado, o jornalista desloca-se da Alemanha, onde está instalado, para a Turquia, tendo em vista a reunir-se com alguns membros da comunidade síria que se encontram no local. Entre esses elementos encontra-se Husein, outra das figuras centrais do filme, um cabeleireiro de vinte e quatro anos de idade que fugiu da Guerra na Síria, embora tenha de enfrentar um conflito deveras intrincado. Como assumir a homossexualidade no interior de uma sociedade conservadora? É uma questão que apoquenta este indivíduo que é praticamente obrigado a protagonizar uma vida dupla.

Durante seis dias da semana, nomeadamente, aqueles em que se encontra a trabalhar, Husein lida com as limitações inerentes ao conservadorismo da sociedade turca, embora encontre algum conforto junto da comunidade LGBTQI síria, onde exprime as suas ansiedades, dúvidas, anseios e motivações. Na folga, tem de se deslocar para junto da esposa, da filha e dos progenitores, algo que o atormenta e inquieta. Coragem e desespero surgem como algumas das motivações de Husein para participar no Mr Gay Syria, tendo a companhia de diversos elementos que lhe são próximos. Note-se o caso de Omar, um cozinheiro que anseia reunir-se com o marido na Noruega, ou de Wissam, um indivíduo com uma barba farta e um talento peculiar para a dança. Uma parte considerável do primeiro terço do documentário centra-se na apresentação destas figuras, com especial incidência em Mahmoud e Husein, bem como nos preparativos para o concurso. O desenrolar do evento conta com música, dança e um momento emotivo protagonizado pelo barbeiro. Este vence o concurso, mas começa desde logo a temer as repercussões da vitória, em particular, a possibilidade dos pais descobrirem que é homossexual.

30 setembro 2018

Vencedores da quinta edição do Olhares do Mediterrâneo


A quinta edição do Olhares do Mediterrâneo decorreu entre os dias 27 e 30 de Setembro no Cinema São Jorge. Ontem foram dados a conhecer os grandes vencedores da edição de 2018 do certame. Os vencedores são os seguintes:

Melhor Longa-Metragem:
“Rush Hour”, de Luciana Kaplan

Melhor Curta-Metragem:
“Areka” (The Ditch), Atxur Animazio Taldea
“Marlon”, de Jessica Palud – Menção Honrosa

Prémio Travessias:
“Mr. Gay Syria”, de Ayse Toprak
“Avant La Fin de L’Été”, de Maryam Goormaghtigh – Menção Honrosa

Prémio Começar a Olhar:
“Layla Hasar Sahar” (A night whit no Dawn), de Sara Boszakov
“Event Horizon”, de Joséfa Celestin – Menção Honrosa

Prémio do Público:
“Mr. Gay Syria”, de Ayse Toprak
“Irioweniasi. El Hilo de la Luna”, Esperanza Jorge e Inmaculada Antolínez

Crítica: "Ninna Nanna Prigioniera" (2016)

 Como criar os filhos no interior da prisão? É preferível deixar os petizes em cativeiro ao lado do pai ou da mãe, ou entregá-los temporariamente a familiares ou à assistência social? Será possível manter crianças no interior de um espaço fechado e recheado de grades? Estas são perguntas que percorrem "Ninna Nanna Prigioniera" e a mente de Yasmina, uma reclusa que se encontra detida no interior de uma prisão de segurança mínima, tendo a companhia dos seus filhos mais novos, Lolita e Diego. Armando, o filho mais velho da figura central do documentário, encontra-se a viver na casa da avó, enquanto Donato, o esposo da detida e progenitor dos rebentos, está "entre trabalhos" e praticamente nunca o chegamos a conhecer. A lei italiana permite que os jovens até aos três anos de idade possam permanecer com as progenitoras na prisão, uma medida que visa evitar cortar os laços entre pais e filhos, embora careça de condições para ser colocada em prática, algo exposto pela realizadora Rossella Schillaci ao longo do filme. A cineasta envolve-se de forma simples e eficaz pelo quotidiano repetitivo do trio, ao mesmo tempo em que aflora assuntos relacionados com o sistema prisional italiano, a maternidade, a infância e dá a conhecer um pouco de Yasmina, Lolita e Diego.

Inicialmente, "Ninna Nanna Prigioniera" procura sobretudo despertar o nosso lado observador. Note-se a exposição de alguns momentos do quotidiano desta família no interior da prisão. Posteriormente, Rossella Schillaci procura informar, sobretudo a partir do momento em que deixa a prisioneira falar e expor aquilo que percorre a sua mente, seja quando está isolada ou na companhia da sua advogada ou dos rebentos. Presa devido a ter furtado uma habitação, Yasmina pretende ser destacada para prisão domiciliar e assim poder ficar ao lado dos filhos. No entanto, a pretensão da protagonista está dependente da decisão do juiz, algo que a apoquenta. O que também coloca a mente de Yasmina num desassossego é a crescente necessidade de Lolita e Diego saírem da prisão e extravasarem as suas emoções. Um dos poucos jovens com quem a rapariga contacta regularmente é Samuel, o filho de uma reclusa, tendo nas saídas diárias à creche um dos parcos meios de libertação. Note-se quando a encontramos a espreitar atentamente a partir da janela da creche, ou entusiasmada durante a viagem, com "Ninna Nanna Prigioniera" a captar a necessidade das crianças expandirem a energia e o quanto sentem as especificidades do meio que as rodeia.

28 setembro 2018

Entrevista a Marcio Reolon sobre "Tinta Bruta"

 “Tinta Bruta” foi um dos grandes destaques da secção competitiva de longas-metragens da 22ª edição do Queer Lisboa. O Rick's Cinema teve a oportunidade de entrevistar online Marcio Reolon (via Take Cinema Magazine), um dos realizadores do filme. Ao longo da entrevista foram abordados assuntos relacionados com a representação da cidade de Porto Alegre, a escolha de Shico Menegat e Bruno Fernandes, o modo como "Tinta Bruta" dialoga com o Brasil de hoje, entre outros assuntos. Entrevista originalmente publicada em Take Cinema Magazine.  

Rick's Cinema: Esta é a segunda longa-metragem que realizam em conjunto. O que existe de cada um no interior de "Tinta Bruta"? Podem falar um pouco do vosso método de trabalho?

Marcio Reolon: Tanto “Tinta Bruta” quanto “Beira-Mar” abordam universos e conflitos que nos interessam, mas de maneiras diferentes. Ambos surgiram de anseios nossos, mas caminham em direcções distintas. “Tinta” surgiu de um curta-metragem nosso chamado "Quarto Vazio". O filme narrava o mesmo Pedro (com algumas características distintas), tendo de lidar com a despedida de irmã. Esse foi um sentimento que nos tomou, a de viver em uma cidade-porto, um local de partidas, então criamos esse personagem que tem uma espécie de síndrome de abandono. Nossas narrativas sempre partem dos personagens e a eles dão a maior importância ao serem contadas (isso se reflecte no processo inteiro, como por exemplo, os meses que dedicamos ao trabalho com os actores).

RC: Existe algum desencanto por parte dos personagens em relação à cidade de Porto Alegre, algo exacerbado pelo trabalho de Glauco Firpo na fotografia. Como é que trabalharam a representação desta cidade com o Glauco Firpo? Sentem que a Porto Alegre de hoje é uma cidade pouco propícia a proporcionar oportunidades de futuro aos jovens ou a aceitar a identidade de cada um?

MR: Com certeza. Porto Alegre já foi uma cidade bem progressista mas com o passar dos anos foi se tornando mais hostil, violenta e reaccionária. Ela parece uma cidade doente, abandonada. Desde o momento em que decidimos abordar essa Porto Alegre, sabíamos que ela deveria ser uma personagem importante da narrativa, então discutimos muito essa cidade quase fantasma, em que as pessoas observam umas às outras à distância, mas pouco interagem.

25 setembro 2018

Crítica: "Mariphasa" (2017)

 Não é fácil entrar em "Mariphasa", embora seja ainda mais difícil abandonar a segunda longa-metragem realizada por Sandro Aguilar. É um espectáculo fantasmagórico que intriga, irrita, hipnotiza, frustra, prende as emoções e compele os sentidos e as sensações a aguçarem-se, mesmo quando nem tudo é claro ou não recebe explicação. Parco em diálogos, é um pesadelo em formato cinematográfico, onde as sombras consomem a luz, o design de som exacerba o mistério, a violência e a instabilidade que percorrem diversas situações do filme e os intérpretes transformam-se praticamente em figuras espectrais que se movem por um limbo no qual o pessimismo e a desesperança parecem a palavra de ordem. A fotografia de Rui Xavier contribui para esta atmosfera de malaise, seja através das cores escuras que sublinham o tom semelhante a um pesadelo de "Mariphasa", ou à utilização precisa da iluminação. Note-se quando encontramos a luz a praticamente retirar a vivacidade dos corpos dos personagens, quase a transformá-los em figuras espectrais, ou as situações em que o calor proveniente da iluminação reforça a inquietação ou o maior fervor emocional.

No início do filme encontramos um investigador a salientar junto do seu interlocutor que procura a Mariphasa Lupina Lumina, "uma estranha flor que só cresce no Tibete e que dizem tirar a sua energia da lua", bem como que os guias dizem que o vale que procura "está cheio de demónios" e que "Os lobisomens atacam instintivamente aquilo que mais amam", com estas falas a remeterem quer para o estranho e tenso ambiente que envolve o enredo, quer para a ténue faceta de ficção-científica da fita. Diga-se que este é um dos raros trechos da obra em que encontramos uma troca de diálogo fluída, ou Sandro Aguilar não preferisse que o lado lacónico dos personagens sobressaísse. Por um lado, essa decisão contribui para adensar o mistério em volta destes elementos. No entanto, em alguns momentos torna-se claro que precisamos de um pouco mais de informação, de uma base que não nos deixe completamente à solta. O que também é uma das qualidades de "Mariphasa", em particular, deixar-nos a vaguear pelo seu interior, enquanto nos tornamos em fantasmas que acompanham os personagens e circulamos pelos mesmos espaços que estes.

24 setembro 2018

Crítica: "Bixa Travesty" (2018)

 Documentário dinâmico e envolvente, pontuado por uma energia contagiante e uma enorme inspiração a reunir e expor a informação, "Bixa Travesty" é capaz de captar o arrojo e a ousadia de Linn da Quebrada e de transmitir um pouco da essência e carisma desta artista que se apresta a fugir a catalogações fáceis e a arrasar com os preconceitos. Os trechos dos concertos exibem a postura confiante da cantora e activista, com esta a ser capaz de dominar as atenções e de proporcionar espectáculos onde as letras desafiam o machismo, os estereótipos e o marasmo, enquanto as coreografias contam com doses assinaláveis de extravagância, alguma sensualidade e a espaços algum humor. Diga-se que os momentos da vida privada de Linn da Quebrada também estão presentes em "Bixa Travesty" e permitem explanar a maneira muito particular com que a cantora encara o mundo que a rodeia, enfrenta as adversidades e relaciona-se com aqueles que lhe são próximos. Note-se a ligação próxima com a mãe, espelhada num momento onde tomam banho, ou a afinidade e cumplicidade que mantém com Jup do Bairro quer nos espectáculos, quer em situações quotidianas.

23 setembro 2018

Crítica: "Tinta Bruta" (2018)

 "Minha avó dizia que o centro de Porto Alegre vai desaparecer um dia. Porque é um aterro. A água tomava conta de tudo. Aí foram aterrando. Os edifícios vão afundando um pouco a cada ano. Até que um dia vai estar tudo enterrado" comenta Paula (Camila Falcão) junto de Pedro (Shico Menegat), o protagonista. É uma fala que permite expor de modo paradigmático o desencanto que boa parte dos personagens de "Tinta Bruta" sentem em relação a este espaço citadino, um sentimento que é exacerbado pela fotografia de Glauco Firpo. As tonalidades frias ou desprovidas de luz predominam e exponenciam a desesperança, sobretudo durante o dia, enquanto a noite surge como uma companheira que traz uma miríade de sensações, tais como libertação, reclusão, solidão, melancolia e desejo. Os realizadores Filipe Matzembacher e Marcio Reolon incutem um tom pessimista e pouco acolhedor a esta cidade, um local que parece incapaz de abraçar as diferenças ou de trazer perspectivas de futuro aos jovens, que o diga Pedro, um jovem homossexual que ganha a vida a efectuar performances em salas de chat. De cabelos compridos e olhar melancólico, Shico Menegat transmite com eficiência a personalidade introvertida e solitária deste personagem, um indivíduo que reprime regularmente os sentimentos e tem no seu quarto um porto de abrigo e um portal para a libertação.

O quarto de Pedro é um dos cenários de maior relevo do filme. É neste espaço de média dimensão e decoração simples que o protagonista assume o nome de GarotoNeon e efectua espectáculos recheados de música. Não existem grandes adereços, ou coreografias elaboradas, com as performances de Pedro a destacarem-se sobretudo pelas tintas néones de tonalidades vivazes com que o jovem cobre o corpo. Neste pequeno espaço, o personagem interpretado por Shico Menegat liberta os sentimentos que reprime durante o dia, enquanto dialoga com o seu público e tenta manter o seu negócio. O jovem encontra-se a lidar com um processo em tribunal. Inicialmente não sabemos o que conduziu a essa situação, embora, aos poucos, percebamos o quanto este sofreu e sofre com a homofobia. Esta é uma temática bem presente, bem como a solidão e os abandonos. A vida do personagem principal é precisamente marcada por estas. O pai abandonou-o, a mãe faleceu quando ele era jovem, a irmã (Guega Peixoto) está de partida para Salvador, com estas partidas a parecerem ter contribuído para o protagonista formar uma personalidade reservada. O quotidiano deste sofre uma alteração quando descobre que Guri25 está a fazer-lhe concorrência e a efectuar perfomances online com néones, algo que o leva a querer conhecer o concorrente, nomeadamente, Leo (Bruno Fernandes).

22 setembro 2018

Queer Lisboa 2018 - Lista de vencedores

 Hoje teve lugar a Sessão de Encerramento da 22ª edição do Queer Lisboa. Foi precisamente nessa sessão onde foram anunciados os vencedores da Competição de Longas-Metragens, Competição de Documentários, Competição de Curtas-Metragens, Competição In My Shorts, Competição Queer Art, bem como as escolhas do público. A lista de vencedores é a seguinte:

Competição de Longas-Metragens:

Melhor Longa-Metragem: "Marilyn", de Martín Rodríguez Redondo.
Melhor Actriz: Kristín Thóra Haraldsdóttir, "And Breathe Normally".
Melhor Actor: Victor Polster, "Girl".
Menção Especial: "Tinta Bruta", de Filipe Matzembacher e Marcio Reolon.
Prémio do Público: "Girl", de Lukas Dhont.

Competição de Documentários:

Melhor Documentário: "Room for a Man", de Anthony Chidiac.
Menção Especial: "Cartas para um Ladrão de Livros", de Caio Cavechini e Carlos Juliano Barros.
Prémio do Público: "Lunàdigas - Ovvero Delle Donne Senza Figli", de Nicoletta Nesler, Marilisa Piga.

Competição de Curtas-Metragens:

Melhor Curta-Metragem: "Would You Look At Her", de Goran Stolevski.
Menção Especial: "O Órfão", de Carolina Markowicz.
Prémio do Público: "O Órfão", de Carolina Markowicz.

Competição In My Shorts:

Prémio Melhor Curta-Metragem de Escola: "Mathias", de Clara Stern.
Menção Especial do Júri: "Three Centimetres", de Lara Zeidan.

Competição Queer Art:

Melhor Filme: "Inferninho", de Guto Parente e Pedro Diógenes.
Menção Especial: "Martyr", de Mazen Khaled.

Crítica: "A Moça do Calendário" (2017)

 "A Moça do Calendário" efectua uma série de comentários sobre o Brasil de ontem e hoje, sejam estes relacionados com a exploração laboral, o racismo, a corrupção, a insegurança no espaço citadino, a atitude violenta de alguns representantes das autoridades, a reforma agrária, o direito à propriedade, as relações matrimoniais, a sexualidade, a alienação no espaço urbano, o capitalismo e as especificidades de São Paulo, sempre com um tom mordaz, acutilante, dotado de humor e uma dose assinalável de criatividade à mistura. A banda sonora sublinha na justa medida o tom romântico, caótico ou enérgico de alguns dos episódios que marcam o enredo, enquanto a fotografia deambula entre as cores quentes que pontuam diversos sonhos de Inácio (André Guerreiro Lopes), o preto e branco que define a oficina onde este trabalha e as tonalidades muito próprias de São Paulo. Antigo varredor de rua, o protagonista trabalha na Barato da Pesada (um nome extraordinário para um negócio), uma oficina liderada por Celso Patrão (Claudinei Brandão), um "pré-capitalista primário", explorador, peculiar e caricato, que apenas pensa no lucro e na produtividade.

Com um espaço relativamente diminuto, o estabelecimento conta com uma série de funcionários, tais como Grande Otelo (Geraldo Mário), um indivíduo bastante articulado que gosta de abordar questões filosóficas sobre o tempo. Num determinado momento de "A Moça do Calendário" somos colocados perante Celso a liderar de forma entusiasta uma série de exercícios destinados a "incentivar" o trabalho e o desempenho dos seus trabalhadores. A banda sonora exacerba o ritmo enérgico e singular do episódio, enquanto as expressões propositadamente exageradas de Claudinei Brandão sublinham a personalidade intensa deste indivíduo que representa o capitalismo desenfreado, a corrupção e a exploração laboral. É um momento vivaz, dotado de comentários precisos, acutilantes e cheios de humor sobre a "sociedade do cansaço", com o ensaio homónimo de Byung-Chul Han a parecer funcionar como uma das fontes de inspiração do argumento. O trecho mencionado é exposto a preto e branco, tal como várias cenas que decorrem neste espaço, uma decisão estética que exacerba a opressão à criatividade e à liberdade que ocorre na Barato da Pesada.

21 setembro 2018

Crítica: "Los Días Más Oscuros de Nosotras" (2017)

 Os momentos iniciais de "Los Días Más Oscuros de Nosotras" são marcados pelo retorno de Ana (Sophie Alexander-Katz) a Tijuana, a cidade onde cresceu e viu a irmã morrer. A oportunidade de trabalho parece irrecusável, embora o destaque atribuído pela realizadora Astrid Rondero aos terrenos montanhosos e isolados, pontuados pelo calor, a presença do mar (que tanto remete para uma sensação de libertação como de clausura) e a ausência de figuras femininas permitam explanar desde uma fase prematura o ambiente algo hostil que a arquitecta encontra no regresso a casa. Note-se a violência que diversos trabalhadores cometem sobre um cão, ou a descoberta de um corpo no interior do cimento. É neste território que a protagonista tem de enfrentar as tormentas provocadas por um trauma do passado, enquanto procura lidar com o machismo e a desobediência de alguns trabalhadores da obra que está a liderar.

Um dos poucos elementos que parece ser menos hostil a Ana é Salvador (Adolfo Madera), com quem esta manteve um romance no passado. Ainda chegam a aproximar-se, mas a falta de química entre os intérpretes e o argumento pueril raramente contribuem para que sejamos compelidos a acreditar que existiu algo de verdadeiramente forte entre os dois. Diga-se que um dos pontos fracos do filme é precisamente o argumento, com este a ser muitas das vezes incapaz de incutir densidade psicológica à protagonista ou de abordar com a devida complexidade as tormentas que permeiam a mente desta mulher. É certo que Sophie Alexander-Katz não ajuda. Com uma gama de expressões tão limitada como o stock de um supermercado em dia de greve de camionistas e de repositores, a intérprete precisa regularmente de se expressar com recurso aos gestos e aos olhares, algo que não consegue. Na maior parte das vezes nem as palavras a ajudam, embora pontualmente exiba uma ténue competência, sobretudo a expressar a procura da sua Ana em impor-se junto dos homens. Observe-se quando procura que deixem a electricidade ligada durante a noite, embora logo a questionem e desobedeçam às suas ordens, com Astrid Rondero a aproveitar para abordar temáticas relacionadas com o machismo e a hostilidade de alguns homens em relação à presença das mulheres em certos lugares de poder.

20 setembro 2018

Crítica: "Disobedience" (2017)

 Gestos, olhares, silêncios e palavras aparecem conjugados de modo sublime em "Disobedience", um drama subtil, no qual uma morte resgata um amor que se encontrava preso no passado. O título remete para a necessidade que alguns dos personagens principais sentem de desobedecerem às convenções e às regras do grupo onde se encontram inseridos, em particular, uma comunidade de judeus ortodoxos, tendo em vista a exercerem o seu livre-arbítrio. Claro está que nem sempre é fácil exercer essa liberdade ou tomar opções intrincadas que coloquem em causa as nossas rotinas ou aquilo que construímos ao longo do tempo, mesmo quando parecemos disponíveis a deixar a coragem arrancar os nossos receios, algo exposto na nova longa-metragem de Sebastián Lelio. O cineasta volta a envolver-se pelo interior da história de mulheres que desafiam as convenções sociais ou que lutam para manter a dignidade e afirmar a sua personalidade, um pouco à imagem de "Gloria" e "Una Mujer Fantastica", enquanto coloca-nos perante as particularidades que envolvem o regresso de Ronit (Rachel Weisz) a Londres, após ter partido há largos anos para Nova Iorque.

Nos momentos iniciais do filme, ficamos perante um sermão do Rabino Krushka (Anton Lesser), o pai de Ronit. O livre-arbítrio do ser humano é um dos temas, embora o sermão seja rapidamente interrompido pela morte deste indivíduo. Fotógrafa de profissão, a protagonista encontra-se a efectuar uma sessão quando o telefone toca. Não sabemos inicialmente o que é dito, apesar de sermos colocados perante a reacção desta mulher. Consome bebidas alcoólicas, dança, faz sexo com um desconhecido, patina no gelo, fica aparentemente imóvel, ou seja, procura enfrentar a notícia da perda com uma série de actos avulsos e ineficazes, que permitem a Rachel Weisz a transmitir o estado emocional delicado em que se encontra a sua personagem. Outro dos actos desta mulher é regressar à comunidade onde cresceu, algo que surpreende quase tudo e todos, inclusive Dovid (Alessandro Nivola), um amigo de infância, discípulo do Rabino Krushka, que se encontra casado com Esti (Rachel McAdams).

19 setembro 2018

Crítica: "Cartas para um ladrão de livros" (2017)

 A ocasião faz o ladrão. Laéssio Rodrigues de Oliveira levou o ditado à letra e aproveitou a falta de segurança no interior das bibliotecas e museus do Brasil para furtar livros e revistas que fazem parte do património histórico do país. Este antigo estudante de biblioteconomia é a figura central de "Cartas para um ladrão de livros", um documentário realizado por Caio Cavechini e Carlos Juliano Barros, com a dupla a acompanhar a figura do título ao longo de um período de cerca de cinco anos (entre 2012 e 2017). Quais os motivos que conduzem alguém a roubar obras de arte? O documentário procura responder a esta questão e apresentar-nos ao maior ladrão de livros raros do Brasil, um epíteto atribuído pelas autoridades brasileiras que agrada de sobremaneira ao protagonista, ou este não pretendesse deixar a sua marca e fugir à irrelevância a que parecia destinado.

"Cartas para um ladrão de livros" acompanha Laéssio, seja pelos espaços que este frequenta, ou quando se encontra sentado numa cadeira a falar para a câmara (inclusive na prisão), ou através das suas cartas ou telefonemas. Esperamos a revelação de planos elaborados, ou de esquemas que surpreendam a nossa imaginação. No entanto, aquilo que mais surpreende é a facilidade com que este furtava material de espaços que tinham a obrigação de proteger e conservar as obras de arte. O momento mais inspirado do filme remete para a exposição do primeiro grande furto de Laéssio, em particular, uma revista de 1944 que tinha Carmen Miranda na capa. Não falta um vídeo de arquivo de Carmen Miranda a cantar, uma breve e delirante entrevista com Lana Miranda, um antigo colega de trabalho do protagonista, a descrição bem viva de Laéssio e a exposição do apreço que o assaltante tem pela artista nascida em Marco de Canaveses. Na época, este era um funcionário de uma padaria, mas cedo percebeu que a venda de material roubado poderia trazer-lhe o desafogo financeiro que nunca teve, algo notório quando o encontramos a questionar: "Não sei o que é que é pior. Se é ter um dinheiro e estar preso, ou ser livre e estar totalmente fodido".

18 setembro 2018

Entrevista a Guto Parente sobre "Inferninho"

 Estreado na edição de 2018 do Festival de Roterdão, "Inferninho" é um dos destaques da secção Queer Art do 22º Queer Lisboa. O Rick's Cinema encontra-se a cobrir o certame em parceria com a Take Cinema Magazine e teve a oportunidade de entrevistar online o realizador Guto Parente. Ao longo da entrevista foram abordados assuntos relacionados com a colaboração entre Guto Parente e Pedro Diógenes, o quanto a origem teatral do projecto influenciou a mise-en-scène do filme, entre outros assuntos. A entrevista foi originalmente publicada na Take Cinema Magazine.

Rick's Cinema: O Guto Parente e o Pedro Diógenes já tinham trabalhado juntos como realizadores de longas-metragens, ainda que com a companhia de Ricardo Pretti e Luiz Pretti. Podem falar um pouco do vosso processo de trabalho em conjunto? O que existe de cada um no interior de "Inferninho"?

Guto Parente: A gente trabalha juntos desde o nosso primeiro curta, "Cruzamento", de 2007. Temos um histórico bem longo. E também somos primos. Crescemos assistindo filmes juntos, construindo nossa cinefilia juntos. O "Inferninho" então tem essa mistura que não é de agora. No filme existe o que é de cada um, o que é dos dois, o que não é de nenhum, e, principalmente, o que é de todos. Porque uma das coisas que aprendemos nessa nossa trajectória de muitas direcções compartilhadas, trabalhando com equipes pequenas, entre amigos, e em processos colaborativos, foi que quanto mais todos na equipe se sentem com autonomia criativa e as relações no set se dão numa troca horizontal mais rico vai ser o universo do filme. Daí o trabalho mais importante da direcção talvez seja fazer com que todos sintam e percebam o mesmo filme. Que todos caminhem na mesma direcção. E eu e o Pedrinho nos complementamos muito bem nesse trabalho.

RC: De acordo com o site do Festival de Roterdão, "Inferninho" foi desenvolvido inicialmente como uma peça de teatro. Para além disso, é uma parceria entre o colectivo Alumbramento Filmes e o Grupo Bagaceira de Teatro. O quanto é que essa origem teatral e a parceria com um grupo de teatro influenciou a mise-en-scène do filme?

GP: Esse encontro entre cinema e teatro é a base que constitui todo o projecto. É algo determinante em todos os passos, desde o desenho de produção, concepção visual, trabalho com os actores e estilo de decupagem. Como a peça nunca chegou a existir de fato, existiu só como uma ideia, como o embrião do projecto, nunca tivemos esse parâmetro de comparação entre uma coisa e outra. O que existe de teatral no filme é algo construído dentro do filme e para o filme, a partir de uma vontade nossa de colocar essas duas linguagens para dançar. Nada de novo na história do cinema, mas algo cada vez mais raro hoje em dia, principalmente no cinema brasileiro, onde existe uma tradição muito forte de um realismo transparente que esconde seus artifícios. Nossa aposta foi em evidenciar o artificio.

RC: O bar do título surge quase como um dos protagonistas do filme. Como se processou a decoração do Inferninho e a inclusão de uma série de especificidades que lhe concedem uma personalidade muito própria?

GP: Como tínhamos pouco dinheiro e pouco tempo para filmar, decidimos que o melhor seria buscar um lugar afastado da cidade e onde tivéssemos um controle maior. Alugámos um galpão de um artista amigo nosso e construímos o bar todo lá, do zero. Todos os espaços filmadas em uma mesma locação, como em um estúdio. E a Taís Augusto, que é a directora de arte do filme, acabou aproveitando vários objectos antigos que esse nosso amigo tinha guardado em um depósito ao lado do galpão. A gente tinha conversado sobre o bar ser um espaço atemporal, mas com um certo ar de anos noventa, então foi perfeito. Ela e a equipe dela conseguiram compor com isso um bar muito mais interessante do que a gente conseguia conceber na nossa cabeça. Quando chegamos no set foi uma surpresa maravilhosa.

17 setembro 2018

Crítica: "Girl" (2018)

 A relação dos adolescentes consigo próprios nem sempre é fácil, seja pela forma muito particular como encaram o tempo e o mundo que os rodeia, ou como se observam e ao seu corpo, ou como sentem tudo com uma intensidade assinalável. Existe uma ânsia de descobrir, viver e sentir, que o diga Lara (Victor Polster), a protagonista de "Girl", uma adolescente transsexual que deseja ser bailarina profissional. Esta anseia que as hormonas provoquem efeito no seu corpo e completar a cirurgia de redesignação sexual, enquanto lida com inquietações próprias da idade, bem como com as limitações de ter nascido no corpo de um rapaz. Mais do que expor o bullying ou a intolerância para com Lara, o realizador Lukas Dhont aborda o confronto interior e as inquietações da jovem, algo elevado pela interpretação sublime de Victor Polster. O sorriso que o intérprete imprime a Lara carrega no seu interior a ânsia da adolescente em ser feliz, ao passo que o seu olhar exprime uma miríade de sentimentos contidos que aspiram a ser extravasados. É personagem com quem criamos empatia, algo que não acontece ao acaso, com boa parte do mérito a recair quer em Victor Polster, quer no realizador.

Lukas Dhont embala-nos para o interior das rotinas, descobertas, receios, inquietações, conquistas e derrotas da protagonista, quase sempre através de pequenos episódios que muito acrescentam ao enredo e à personagem. Note-se o esforço de Lara para acompanhar os ritmos dos treinos e ensaios na academia de dança onde entrou recentemente, ou a tentativa de tapar o seu órgão sexual, ainda que para isso tenha de sofrer e colocar a sua saúde em risco. São episódios que contribuem não só para conhecermos a personagem e os seus anseios, mas também para formarmos um vínculo com a adolescente, enquanto somos compelidos a partilharmos as sensações desta, tais como alegria, dor, ou tristeza. Tudo é exposto com enorme contenção, com a subtileza a surgir como a palavra de ordem ao longo deste drama delicado, envolvente e marcante. Essa delicadeza é particularmente notória na ligação quase maternal que a protagonista mantém com Milo (Oliver Bodart), o irmão mais novo, ou na relação de enorme proximidade que conta com Mathias (Arieh Worthalter), o seu pai. Arieh Worthalter insere uma postura afável, compreensiva e terna ao seu Mathias, um taxista que procura apoiar a filha nas suas decisões. É praticamente impossível não sentir admiração pelo personagem, enquanto este tenta compreender Lara, embora, a espaços, não consiga fugir ao habitual confronto de gerações.

16 setembro 2018

Crítica: "Inferninho" (2018)

 O bar que empresta o título a "Inferninho" é um espaço marcado por paredes descarnadas de tinta e recheadas de humidade, mesas desgastadas, uma míngua de luxos materiais, poucas condições e uma panóplia de clientes e funcionários que se destacam pela diversidade. É aqui que se reúnem todas as diferenças e semelhanças. O teatro e o cinema. A Marvel e a DC. O sonho e a realidade. A ilusão e a desilusão. A Wonder Woman aparece com um bigode de fazer inveja a Conchita Wurst, o Mickey Mouse bebe com afinco, tal como o Superman e o Spider-Man. A identidade de cada um é respeitada, bem como as suas especificidades, qual contraste com uma boa parte da nossa sociedade, embora Deusimar (Yuri Yamamoto), a dona deste espaço, sonhe em sair deste lugar e viajar pelo Mundo. Para além de Deusimar, o bar conta ainda com a presença do Coelho (Rafael Martins), o empregado de mesa; Luizianne (Samya De Lavor), a cantora; Caixa-Preta (Tatiana Amorim), a empregada de limpeza, e Richard (Paulo Ess), o pianista. As rotinas do Inferninho são alteradas logo numa fase inicial do filme, em particular, com a chegada de Jarbas (Demick Lopes), um marinheiro que desperta os sentimentos mais calorosos da dona e a desconfiança do empregado de mesa. Este traz consigo uma aura de mistério e o símbolo de uma libertação ansiada por Deusimar, com a dupla a envolver-se e a iniciar uma relação, enquanto lidam com possíveis compradores do bar, mafiosos e outras figuras que entram pelo estabelecimento.

Deusimar pretende vender o bar. Jarbas quer permanecer no mesmo. Por sua vez, os vários funcionários procuram manter este espaço, sobretudo o Coelho, com Rafael Martins a explanar a lealdade que o seu personagem tem à dona do Inferninho e ao estabelecimento. O guarda-roupa e a maquilhagem contribuem e muito para a faceta peculiar deste espaço e destas figuras. Note-se o fato de coelho cor-de-rosa que Rafael Martins utiliza, ou as roupas que parecem saídas de um "cospobre" dos vários clientes que povoam o cenário, ou o vestido vermelho da protagonista, uma tonalidade que reforça as inquietações desta figura. Também a decoração contribui para o ambiente muito próprio que percorre este bar, seja pelos elementos mencionados no início do texto, ou pelo espaço recheado de cortinas roxas onde Luizianne protagoniza números que sobressaem pelo entusiasmo da artista e pelo ambiente amorfo do público. A maioria dos personagens não prima pela complexidade ou densidade, tal como as suas dinâmicas estão longe de serem desenvolvidas com afinco, embora Yuri Yamamoto conte com uma figura que conta com algum relevo. O actor exprime a mescla de receio e desejo de arriscar da sua Deusimar, bem como o seu desapego aos bens materiais, sobretudo quando se vê confrontada com a possibilidade de vender o bar.

09 setembro 2018

Crítica: "Luz" (2018)

 "Luz" não está preocupado com o desenvolvimento dos personagens, ou com a apresentação de um enredo coerente, certinho e de fácil acompanhamento, ou em manter-se numa zona de conforto. Acima de tudo quer ser uma experiência cinematográfica que mexe com os sentidos e os sentimentos. E consegue. É filme que inebria e desconcerta, que se envolve pelo sobrenatural e tem no design de som e na cinematografia dois dos seus elementos-chave para a criação dessa atmosfera alucinante. Por vezes sentimos a necessidade de saber algo mais, de receber uma quantidade acrescida de conteúdo para desfrutar por completo da primeira longa-metragem realizada por Tilman Singer, embora essa míngua de informação a espaços até contribua para o ambiente penetrante que é criado pelo cineasta e a sua equipa. Estes atiram-nos para o interior de um enredo pontuado por possessões, amores desencontrados, entidades demoníacas, hipnose, situações inquietantes e uma série de outros ingredientes que têm na personagem do título um ponto de encontro.

Recebemos alguma informação sobre o seu passado e contactamos com esta no presente, embora nunca a conheçamos totalmente. Interpretada com eficiência por Luana Velis, Luz é uma taxista de origem chilena (como indica o seu chapéu), que encontramos no início do filme a entrar numa esquadra, a tirar um refrigerante e a questionar o recepcionista se é assim que ele pretende viver a sua vida. O momento mencionado é exposto num plano de longa duração que permite não só realçar a estranheza da protagonista e a sua capacidade de dominar as atenções, mas também o papel de relevo da banda sonora (em tons muito à John Carpenter) e do trabalho de som no interior da narrativa de "Luz". Seja a falar em chileno ou em alemão, Velis incute um certo mistério em volta dos actos da personagem do título, uma jovem que foi educada numa escola católica, lança blasfémias com imensa facilidade e não parece conseguir soltar-se do passado. Quais as razões para ter entrado numa esquadra? O que a leva a efectuar estranhas e provocadoras orações? São perguntas que aos poucos são respondidas, sobretudo a partir do momento em que a taxista é hipnotizada pelo Dr. Rossini (Jan Bluthard), um psiquiatra e psicoterapeuta que é arrastado para o interior do caso da personagem principal.

07 setembro 2018

MOTELx 2018: Entrevista a Oliver Kienle sobre "Die Vierhändige"

 O realizador Oliver Kienle esteve em Portugal para apresentar "Die Vierhändige" na edição de 2018 do MOTELx. O Rick's Cinema (via Take Cinema Magazine) teve a oportunidade de entrevistar o realizador e efectuar questões relacionadas com a colaboração de Kienle com Yoshi Heimrath, o trabalho com Frida-Lovisa Hamann e Friederike Becht, entre outras perguntas. A entrevista foi originalmente publicada na Take Cinema Magazine.

Rick's Cinema: Num determinado momento do filme, encontramos a protagonista coberta pela luz vermelha de um carro, em plena noite, diante de uma das assaltantes, com a iluminação e a tonalidade encarnada a acentuarem a inquietação que acompanha o trecho mencionado. Um dos elementos de "Die Vierhändige" que mais despertou a minha atenção é a utilização precisa da iluminação, seja para potenciar a tensão como no exemplo mencionado, ou para atribuir uma atmosfera aparentemente calorosa como no trecho da audição de Sophie. O quanto existe de si e do trabalho de Yoshi Heimrath nesta utilização precisa da iluminação? Pode falar-nos um pouco da construção desta cena em que a tonalidade vermelha assume alguma preponderância?

Oliver Kienle: O Yoshi é um director de fotografia extremamente ambicioso e hábil. Trabalhámos em estreita colaboração para superarmos os desafios financeiros inerentes a este projecto. Precisávamos de soluções muito eficazes para criarmos emoções cinematográficas fortes. As restrições (financeiras) por vezes não só são um desafio, mas também uma oportunidade de encontrarmos novas formas de narração cinematográfica. O nosso objectivo foi criar dois mundos cinematográficos o de Sophie, a protagonista, que é um mundo quente, com formas arredondadas e arquitectura antiga e o de Jessica, a antagonista, que é um mundo frio, com formas quadradas e arquitectura industrial. A Sophie representa o género do thriller psicológico, enquanto a Jessica representa mais o género do thriller de vingança. Ao longo do filme, estes dois mundos fundem-se cada vez mais, algo que também podemos observar a partir do guarda-roupa e da maquilhagem.

06 setembro 2018

Crítica: "Die Vierhändige" (Four Hands)

 Em certo ponto de "Die Vierhändige" é possível observarmos Jessica (Friederike Becht) ao piano, em primeiro plano, enquanto em pano de fundo encontramos um espelho. Quem aparece reflectido no espelho é Sophie (Frida-Lovisa Hamann), a sua irmã mais nova, com este plano a sublinhar de modo paradigmático a ligação destas duas personagens aparentemente bastante distintas, bem como a estranheza que marca as suas dinâmicas pontuadas por ausências que persistem em assumir uma enorme presença. No início desta intrigante longa-metragem realizada por Oliver Kienle, ficamos perante as duas irmãs a presenciarem o violento assassinato dos progenitores. Jessica promete proteger Sophie, embora esse compromisso a espaços soe como uma ameaça, sobretudo quando o enredo avança vinte anos, nomeadamente, a partir do momento em que os homicidas abandonam a prisão, uma situação que mexe com a primeira. O assassinato provocou traumas graves na irmã mais velha, com Friederike Becht a explanar de modo convincente a paranóia e o receio que percorrem a sua personagem e o medo que esta sente pela possibilidade de Sophie ser colocada em perigo.

Se Jessica deixou-se consumir por esse episódio, algo reflectido no seu guarda-roupa marcado por vestes de tonalidades escuras (algo que sublinha a sua personalidade soturna) e pelos seus actos, já Sophie pretende seguir em frente, ser feliz e dedicar-se totalmente a tocar piano. Frida-Lovisa Hamann explana inicialmente essa faceta aparentemente mais leve da sua personagem, uma jovem que tem no piano uma forma de se expressar e numa audição a possibilidade de poder cumprir o seu sonho. Uma irmã quer esquecer tudo aquilo que aconteceu, a outra tem dificuldade em lidar com a soltura dos assassinos dos seus progenitores, aqueles que podem ameaçar a sua vida e a da sua familiar mais próxima. As dicotomias entre ambas ficam bem expressas ao longo do filme, ainda que estes contrastes pareçam quase complementares, ou seja, como se estivéssemos perante uma espécie de yin e yang. Esse contraste é exposto por Oliver Kienle e a sua equipa em diversas ocasiões do filme, seja através da música que acompanha estas figuras, ou da iluminação ou da maneira como estas reagem, embora o avançar do enredo demonstre que existe mais a ligá-las do que inicialmente poderíamos esperar. 

03 setembro 2018

Crítica: "The Fortune Cookie" (1966)

Professor Winterhalter (Sig Ruman): All these newfangled machines. Fake! It proves nothing. In the old days, we used to do these things better. The man says he's paralyzed, we simply throw him in the snake pit. If he climbs out, then we know he's lying.
Especialista: And if he doesn't climb out?
Professor Winterhalter: Then we have lost the patient, but we have found an honest man.

 Raro é o filme de Billy Wilder que não conta com algum diálogo ou momento memorável. "The Fortune Cookie" não é diferente, com a troca de falas acima citada a reunir o humor mordaz do cineasta e a sua capacidade para criar situações que perduram na memória. Diga-se que o filme mencionado exibe mais uma vez o talento do realizador para mesclar o humor e o drama na justa medida, ou não estivéssemos perante uma fita simultaneamente cínica, afectuosa, cómica e dramática, recheada de mal-entendidos, comentários de foro social, um plano que tem tudo para correr mal, uma amizade que nasce no interior de uma mentira e episódios delirantes. Esse delírio começa desde logo quando o advogado Willie Gingrich (Walter Matthau) aproveita o facto de Harry Hinkle (Jack Lemmon), o seu cunhado, ter sofrido uma contusão num acidente aparatoso para colocar um golpe mirabolante em prática. O incidente ocorreu quando o protagonista, um operador de câmara, estava a filmar um jogo de futebol americano, tendo sido acidentalmente abalroado por "Boom Boom" Jackson (Ron Rich), um dos jogadores mais importantes dos Cleveland Browns. Harry cai, levanta-se, desmaia, acorda numa cama do hospital, depara-se com o choro constante da progenitora (um gag recorrente), bem como com os planos de Gingrich.

O advogado aproveita uma lesão antiga do familiar, em particular, uma vértebra contraída, para simular que este contraiu esse problema no choque com o atleta e processar a CBS, os Cleveland Browns e o Estádio Municipal. Inicialmente, Harry recusa participar no embuste, mas a possibilidade de voltar a reunir-se com Sandy (Judi West), a sua ex-mulher, que logo o contacta quando sabe do ocorrido, conduz o protagonista a avançar com o golpe e a fingir que não pode movimentar parte de uma mão e uma perna. A colocação do plano em prática envolve persistência, alguma sorte, esforço e uma enorme capacidade de desenrasque, com a dupla a ter de enganar os médicos, os detectives contratados pela seguradora e os responsáveis da companhia de seguros, com esta situação a despoletar alguns momentos dotados de humor negro. Note-se o momento em que os médicos contratados pela seguradora analisam Harry e dialogam sobre o paciente. Diga-se que esta é uma das cenas em que o trabalho de Joseph LaShelle na cinematografia mais sobressai, com o contraste entre luz e sombra a atribuir uma atmosfera próxima a um filme de terror a este trecho e a adensar a situação singular em que se encontra o protagonista.

29 agosto 2018

Crítica: "The Apartment" (1960)

 É a partir de um espelho partido que C.C. Baxter (Jack Lemmon) descobre que Fran Kubelik (Shirley MacLaine) mantém um caso com Jeff D. Sheldrake (Fred MacMurray), o seu superior. O seu rosto aparece reflectido com a falha que divide o espelho em dois pedaços desiguais, embora aquilo que mais transpareça seja o quão quebrado ficou o seu coração devido a esta revelação inesperada. Baxter trabalha no departamento de contabilidade da Consolidated Life, uma seguradora situada em Nova Iorque. Raramente o encontramos a exercer o seu ofício, apesar de estar cada vez mais próximo de subir alguns andares no elevado edifício onde trabalha e na hierarquia da empresa. As razões para esta possibilidade prendem-se acima de tudo pela sua lealdade e prestabilidade, que é como quem diz, por emprestar a casa a quatro dos seus superiores, tendo em vista a que estes possam dar as suas escapadelas com as amantes. Esta situação leva a situações caricatas como o protagonista ter de dormir algumas noites fora de casa, ou ter de fazer horas extra para aguardar que a habitação vague, ou seja considerado um mulherengo por Mildred (Naomi Stevens), a sua senhoria, uma senhora conservadora que tem pouca paciência para com as festarolas do apartamento do lado. Todo este contexto é apresentado inicialmente em voiceover pelo protagonista, com Jack Lemmon a inserir um estilo afável, espirituoso, algo atrapalhado e educado ao seu personagem, um indivíduo que tanto tem de ambicioso como de altruísta, que conta com uma habilidade inata para se envolver em imbróglios difíceis de resolver.

Baxter tem um fraquinho por Miss Kubelik, a ascensorista, embora inicialmente não saiba que ela mantém um caso com Sheldrake. Muito menos tem conhecimento que está a emprestar a casa a este último para que ele se reúna com a ascensorista. Sheldrake é um indivíduo casado, poderoso, algo frio, que tem em Fred MacMurray um intérprete capaz de expressar a sua faceta pragmática e pouco dada a grandes demonstrações de afecto. Note-se quando encontramos este indivíduo a trocar prendas com a amante na véspera de Natal. Ela oferece um disco em vinil do cantor que toca no restaurante onde jantam às escondidas. Ele dá-lhe dinheiro, quase como se estivesse a comprar um serviço. De cabelos curtos, olhar expressivo e um rosto que não se esquece com facilidade, Shirley MacLaine consegue transmitir a doçura, a humanidade e a delicadeza da sua personagem, uma ascensorista que se encontra presa a uma relação sem futuro. A actriz conta com uma química saliente com Lemmon, com a dupla a aproveitar as qualidades do argumento de Wilder e Diamond e a conseguir que acreditemos nos encontros e desencontros que pontuam as dinâmicas de Kubelik e Baxter. Diga-se que argumento não só contribui e muito para o trabalho notável do elenco, mas também surge como uma das principais forças da fita.

21 agosto 2018

Crítica: "Frantz" (2016)

 Não falta a abordagem a assuntos relacionados com o luto, a morte, o amor, a mentira, a guerra, a intolerância e os nacionalismos em "Frantz", uma envolvente e requintada adaptação da peça "L'homme que j'ai tué" de Maurice Rostand (que já tinha servido de material para "Broken Lullaby", no qual este filme também retira inspiração). François Ozon mexe estes ingredientes com habilidade, enquanto explora os sentimentos contraditórios e intrincados que perpassam pela mente e a alma da dupla de protagonistas, sempre tendo como pano de fundo o contexto delicado do período após a I Guerra Mundial. Nos momentos iniciais do filme ficamos perante uma legenda que indica que estamos em 1919, em Quedlinburg, com "Frantz" a transportar-nos para o interior dos derrotados, de uma pequena cidade alemã onde é possível perceber que existe todo um sentimento nacionalista e revanchista muito forte em alguns sectores da sociedade. Imensas vidas foram perdidas, vários soldados regressaram estropiados, diversos territórios foram destruídos e o Tratado de Versalhes contribuiu para exacerbar um sentimento de revolta devido às fortes medidas punitivas para com a Alemanha. O sofrimento pelas perdas também é notório, que o diga Anna (Paula Beer), a protagonista, uma mulher que perdeu o noivo nos palcos franceses do conflito.

Com uma idade a rondar os vinte anos, Anna vive na casa de Hans (Ernst Stötzner) e Magda (Marie Gruber), os pais de Frantz, com o trio a encontrar-se a enfrentar a dor provocada pela morte deste último. Hans é um médico respeitado, de feições algo rígidas e marcado por um forte sentimento anti-francês, fruto do filho ter sido morto em terras gaulesas. Também Magda sofre com a ausência permanente de Frantz, embora exiba uma postura mais afável e maternal. O quotidiano do trio sofre um abanão com a entrada em cena de Adrien (Pierre Niney), um francês misterioso, que começa por deixar flores no túmulo do personagem do título, até entrar em contacto com Hans. O veterano rejeita falar com o violinista e antigo soldado, mas Magda e Anna logo tentam entrar em contacto com o mesmo, sobretudo por acreditarem que este era amigo do falecido. Inicialmente não sabemos se aquilo que este fala é verdade ou mentira, mas o que é certo é que as suas descrições bem vivas sobre Frantz parecem trazer algum conforto a esta família, inclusive a Hans, com Pierre Niney a inserir um tom simultaneamente atormentado, frágil e confiável ao seu Adrien. François Ozon joga com o mistério em redor de Adrien. Será um amigo de Frantz? Estaremos perante o soldado que matou o personagem do título? Terá mantido um caso com o noivo de Anna? São imensas dúvidas que contribuem para incutir uma certa incógnita no que diz respeito a este antigo soldado que carrega consigo um segredo em forma de mentira.

17 agosto 2018

Crítica: "An" (Uma Pastelaria em Tóquio)

 Dotado de enorme sensibilidade e lirismo, "An" (Uma Pastelaria em Tóquio) é um filme terno, que enche a alma, comove, segue em sentido contrário aos ritmos acelerados do nosso quotidiano e concede uma atenção notável aos pormenores. Não é fast food aquilo que Naomi Kawase serve ao espectador, bem pelo contrário, com a cineasta a confeccionar um drama recheado de alguma doçura, delicadeza e imensas doses de humanidade, que aborda com sobriedade temáticas como a solidão, a busca por um sentido para a vida, o sentimento de culpa, a procura da felicidade, os preconceitos e a amizade. A banda sonora sublinha essa delicadeza, sendo capaz de realçar a vulnerabilidade, a solitude e a afabilidade de Sentaro (Masatoshi Nagase), Tokue (Kirin Kiki) e Wakana (Kyara Uchida). As dinâmicas destes três personagens são expostas e desenvolvidas com uma sensibilidade assinalável, tal como os traços da personalidade de cada um e os episódios que protagonizam, com a realizadora a deslindar gradualmente alguns segredos que envolvem o passado e o presente dos dois primeiros.

Masatoshi Nagase insere um tom inicialmente circunspecto ao seu Sentaro, o gerente de uma pequena pastelaria de rua, situada em Tóquio. O estabelecimento apenas vende dorayakis, tendo como clientes uma série de elementos que habitam as redondezas e estudantes, tais como a jovem Wakana. Esta vive num meio intrincado, é relativamente solitária, formou amizade com Sentaro e pondera começar a trabalhar no estabelecimento deste indivíduo. Quem também pretende laborar nesta diminuta pastelaria é Tokue, uma veterana que se encontra prestes a completar setenta e seis anos de idade. Kirin Kiki é a alma e o coração do filme. A intérprete incute uma personalidade doce, amável, gentil e poética à sua Tokue. As mãos desta personagem estão visivelmente desgastadas e exibem as marcas de uma doença, a sua alma é de uma generosidade assinalável e os seus gestos e as suas falas demonstram a maneira muito própria como esta observa os espaços que a rodeiam. Observe-se a curiosidade que manifesta para saber quem plantou a cerejeira que rodeia o estabelecimento de Sentaro, ou o modo peculiar como dialoga com as folhas e tenta entender os seus movimentos. O argumento estabelece estes traços da personagem de modo bastante natural, sem resvalar para a caricatura ou pieguice, um pouco à imagem da forma como desenvolve a ligação da veterana com o gerente da pastelaria.

12 agosto 2018

Crítica: "Ana, mon amour" (Ana, Meu Amor)

 Quando consultamos o Priberam, o substantivo feminino "memória" aparece descrito como: faculdade pela qual o espírito conserva ideias ou imagens, ou as readquire sem grande esforço. Não é mentira. Muitas das vezes um simples cheiro, ou peça de roupa, ou local, pode dissipar as brumas que envolvem uma ou mais memórias. Estas contam quase sempre com enormes doses de subjectividade, ou os acontecimentos não surgissem filtrados pelo nosso ponto de vista. Por vezes deixamos o lado positivo de algum episódio sobressair sobre o negativo, ou pura e simplesmente efectuamos o inverso, ou em algumas ocasiões nem recordamos com precisão aquilo que vivenciámos. No entanto, qual a razão para essa memória específica (re)aparecer? "Essa coisa de livre associação parece muito complicada", diz Toma (Mircea Postelnicu) para o seu psicanalista (Adrian Titieni), enquanto recorda alguns episódios que marcaram a sua relação conturbada com Ana (Diana Cavallioti) e diversos sonhos que podem contar com algum significado especial. Estas recordações pautam a estrutura narrativa de "Ana, mon amour", com o enredo a deambular entre o presente o passado, seja pelos momentos relevantes de uma codependência quase tóxica do protagonista com a personagem do título ou pelas suas sessões no psicanalista, enquanto ficamos a conhecer os dois membros do casal e as especificidades da sua relação.

O primeiro contacto que temos com Ana e Toma tem lugar quando estes se encontram a dialogar sobre assuntos como a filosofia de Friedrich Nietzsche, as políticas de Adolf Hitler, ou os sonoros barulhos de cariz sexual da vizinha do segundo (oriundos do fora de campo). Ambos são estudantes de literatura, cultos e parecem contar com alguma afinidade. A atmosfera amena do encontro e do diálogo é interrompida por um ataque de pânico da protagonista. Esta padece de depressão e de uma insegurança notória. Mais tarde sabemos que a doença começou a manifestar-se quando a estudante universitária tinha dezassete anos de idade, nomeadamente, após saber que o padrasto não era o seu pai biológico. Também Toma tem uma relação conturbada com o progenitor, embora mantenha alguma proximidade da mãe, com estas dinâmicas a remeterem para situações problemáticas do passado desta família. Diga-se que as dinâmicas familiares, as especificidades da relação de um casal e a depressão surgem como temáticas em foco ao longo do filme, com o argumento a incutir diversas camadas a este constante vaivém de memórias de Toma e a explorar com precisão as mudanças dos dois protagonistas ao longo do tempo. 

Alguns episódios são expostos de forma cronológica. Outros aparecem consoante as recordações de Toma, sejam estas completas ou incompletas, ordenadas ou desordenadas. A estrutura narrativa respeita o modo como o protagonista liberta as suas ideias ou sonhos, enquanto transforma o casal numa espécie de puzzle cujas peças despertam a nossa reflexão, seja quando estão juntas ou dispersas. Como lidar com alguém com depressão? Toma procura ajudar a amada e protegê-la, embora não pareça preparado para lhe dar espaço ou deixá-la emancipar-se, mesmo quando esta dá sinais visíveis de melhoras. Mircea Postelnicu espelha a afeição que o seu Toma sente por Ana, as obsessões que este indivíduo cria e o quanto a relação mexe com o seu âmago. O seu físico acompanha o seu desgaste mental, algo notório na sua perda de cabelo e no seu semblante, com o o trabalho de caracterização e o actor a contribuírem para expor o quanto Toma se deixou consumir ao longo do tempo. Será que este ama a personagem do título ou é o seu instinto protector a falar mais alto? Como lidar com alguém que parece em auto-destruição? "Ana, mon amour" envolve-se a fundo pelos meandros de uma depressão e de como esta afecta não só quem padece da doença, mas também aqueles que a rodeiam, uma situação notória quando observamos os dois protagonistas.

05 agosto 2018

Crítica: "Yu wo wakasuhodo no atsui ai" (Her Love Boils Bathwater)

 Filme dotado de alma e coração, que concilia harmoniosamente o humor e o drama, "Yu wo wakasuhodo no atsui ai" conta com doses assinaláveis de humanidade e ternura, deixa os intérpretes comporem personagens que despertam empatia e aborda a complexidade que envolve o conceito de família. O que é fazer parte de um núcleo familiar? Esta é uma pergunta a que os personagens vão ter de responder e atravessa boa parte do enredo, com o realizador Ryôta Nakano a deixar-nos diante de uma série de figuras que nem sempre estão ligadas por laços de sangue, mas encontram-se unidas por sentimentos muito fortes. A cinematografia é sóbria o suficiente para deixar quase todo o destaque nos actores e actrizes, enquanto estes correspondem e elevam o argumento. O nome que se encontra mais em evidência é o de Rie Miyazawa, com a actriz a incutir simpatia, credibilidade, força e bondade à sua Futaba Sachino, a protagonista. A notícia de que padece de cancro no pâncreas e a certeza de que tem pouco tempo de vida conduz a protagonista a ter de lidar com o aproximar da morte, enquanto tenta resolver uma série de pontas soltas da sua vida e criar alicerces para que Azumi (Hana Sugisaki), a sua filha, uma adolescente, não fique desamparada.

Kazuhiro (Joe Odagiri), o esposo da protagonista e progenitor da jovem, desapareceu há um ano e desde aí não deu sinais de vida, um acto que conduziu ao fecho temporário do negócio desta família, nomeadamente, um sênto (casa de banho comunal). Perante a descoberta de que lhe resta pouco tempo de vida, Futaba decide entrar em contacto com o desaparecido, fruto de ter recorrido aos serviços de Takimoto (Tarô Suruga), um detective privado. O reencontro do casal permite sublinhar a capacidade de Ryôta Nakano para mesclar elementos cómicos e trágicos, ou a reunião destes personagens não contasse com humor físico e uma revelação importante, com Futaba a deixar claro que não quer gastar o pouco tempo que tem de vida em ressentimentos que não levam a lado nenhum. Kazuhiro regressa a casa após este episódio, tendo a companhia de Ayuko (Aoi Itô), uma rapariga de nove anos de idade, que supostamente é sua filha, fruto de um affair passageiro. A mãe da jovem desapareceu misteriosamente, algo que conduziu este indivíduo a cuidar do suposto rebento, com a entrada em cena destes dois elementos a mexer com o dia a dia da protagonista e de Azumi.

31 julho 2018

Crítica: "Visages villages" (Olhares Lugares)

 O acaso tem um papel fundamental em "Visages villages". É este que acompanha Agnès Varda e JR ao longo das suas viagens, enquanto a dupla demonstra a sua criatividade e a sua capacidade para extrair algo especial de pessoas, locais e situações aparentemente comuns. O documentário começa desde logo por jogar com as nossas expectativas ao exibir uma série de episódios onde ficamos perante as diversas formas como Agnès Varda e JR não se conheceram, com a reunião improvável destes dois artistas a resultar numa obra que parte de uma ideia simples para chegar a algo mais profundo e extremamente envolvente. Ele é um conhecido fotógrafo e muralista. Ela é um dos nomes icónicos do cinema francês e da Nouvelle Vague. Ambos são apaixonados pela fotografia e pelas imagens, contam com uma sensibilidade muito própria, têm uma diferença de idades assinalável e decidem partir em viagem pela França e as suas aldeias. Procuram olhares e lugares, mas também construir algo em conjunto, um pedaço de cinema que nasce do inesperado e encontra a certeza e a incerteza, sempre com alguma leveza e doses assinaláveis de humor.

A melancolia também está presente, tal como o drama. Veja-se quando Varda recorda Guy Bourdin e visita a casa do falecido fotógrafo, ou as fotografias que trazem uma série de memórias de outros tempos da vida da realizadora, ou uma atitude de Jean-Luc Godard que resulta num episódio de partir o coração (fruto da personalidade intragável do cineasta). Inesperadamente ou propositadamente, a atitude de Godard resulta num momento disruptivo do filme e permite expor alguns dos revezes da vida e as portas que se fecham, bem como as amizades que se desfazem ao longo da nossa existência, para além de reforçar o papel que o ocaso tem no interior deste documentário com ares de road movie. Em diversos momentos de "Visages villages" encontramos Varda e JR a viajarem na carrinha fotográfica deste último, enquanto tiram fotografias, criam retratos gigantes, efectuam uma união entre estes e os espaços que os rodeiam, para além de conversarem com uma série de pessoas. Uma parte considerável destas interacções tem como ponto de partida um conjunto de ideias soltas e resultam maioritariamente em diálogos amenos e dotados de situações que permitem perceber um pouco da humanidade e das transformações do território e da sociedade. Note-se como uma colecção de cartões postais sobre a vida dos mineiros serve como fonte de inspiração para uma viagem ao Norte.

25 julho 2018

Crítica: "Ant-Man and the Wasp" (Homem-Formiga e a Vespa)

 Pouco propenso a efectuar grandes surpresas ou a demonstrar ambição, "Ant-Man and the Wasp" partilha com "Ant-Man" a faceta comedida, o carisma de Paul Rudd e a honestidade da sua proposta. Também partilha a incapacidade de atribuir densidade dramática aos acontecimentos que apresenta, alguns diálogos genéricos e um antagonista sensaborão (neste caso, dois), bem como a eficácia a apresentar a escala a que os personagens percepcionam aquilo que os rodeia ou a dimensão que certos elementos adquirem devido à tecnologia criada por Hank Pym (Michael Douglas). Não faltam carros em miniatura que ganham dimensões mais elevadas, ou um fato de Ant-Man com problemas que faz com que o protagonista se envolva em situações caricatas, ou o herói do título a ganhar características gigantescas, com Paul Rudd a sobressair quer no humor físico, quer de situação. O actor incute carisma e simpatia ao seu Scott Lang, para além de conseguir que as falas mais simples ou pueris soem sinceras junto do espectador. Note-se logo nos momentos iniciais do filme, quando encontramos Scott a brincar com Cassie (Abby Ryder Fortson), a sua filha, com a dupla a simular que se encontra a efectuar um assalto e a exibir uma união assinalável.

Numa fase inicial do filme, o protagonista encontra-se a cumprir os últimos dias de prisão domiciliária, após ter sido detido devido a ter quebrado os Acordos de Sokovia. Essa situação supostamente impede-o de sair de casa, embora um sonho com Janet van Dyne (Michelle Pfeiffer), a desaparecida esposa de Hank Pym e mãe de Hope van Dyne (Evangeline Lilly), conduza Scott a contactar com estes, após um longo período sem dialogarem. Janet encontra-se perdida no quantum realm desde 1987, quando ficou em tamanho subatómico para desintegrar uma bomba que colocava um número elevado de população em risco, um episódio exposto de forma rápida no prólogo. No entanto, o facto de Scott ter conseguido sair do quantum realm conduz Hank a trabalhar num túnel quântico que permite transportar a esposa para a nossa realidade. Escusado será dizer que o sonho do protagonista pode conter informação valiosa, bem como que o personagem do título vai reunir-se com Hank e Hope, embora estes apresentem inicialmente algum ressentimento devido aos episódios que ocorreram na Alemanha (em "Captain America: Civil War").