10 dezembro 2018

Crítica: "Zimna wojna" (Cold War - Guerra Fria)

 É trágico quando duas pessoas se amam mas tardam em conseguir estar juntas. Se a vida não nos ensinou isso, François Truffaut já tratou de o fazer em obras como "Jules et Jim" e "La femme d'à côté" e Pawel Pawlikowski comprova com subtileza, perícia e classe em "Zimna wojna" (em Portugal: "Cold War - Guerra Fria"). Uma parte considerável dos ingredientes desta fita respeita os constantes avanços e recuos que marcam a relação da dupla de protagonistas. A câmara de filmar movimenta-se com graciosidade em busca dos sentimentos e dos corpos de onde estes fervilham. As elipses omitem informação, avançam o enredo e compelem-nos a imaginar o que terá acontecido aos personagens principais, sobretudo nos longos períodos em que se encontram separados, enquanto utilizamos as nossas experiências pessoais para ligar alguns pontos, uma situação que contribui para adensar um certo vínculo entre o espectador e os primeiros. Diga-se que para estes saltos temporais funcionarem e criarem no nosso âmago o desejo de especularmos o que terá acontecido nos tempos omitidos muito contribui a densidade dos protagonistas, as interpretações sublimes de Tomasz Kot e Joanna Kulig e a exposição eficaz do contexto histórico.

Pawel Pawlikowski volta a envolver-se pelo passado da sua Polónia, um pouco como em "Ida", com os acontecimentos que decorrem entre o final da década de 40 e a primeira metade dos anos 60 a influenciarem as dinâmicas de Wiktor (Tomasz Kot) e Zula (Joanna Kulig), duas figuras com personalidades amplamente distintas. A história do amor impossível desta dupla é exposta em fragmentos que deambulam pelo tempo e pelos diversos territórios. Polónia, Alemanha, França e Jugoslávia são alguns dos países por onde circulam por um período de quinze anos. O enredo começa precisamente na Polónia, em 1947, quando encontramos Irena (Agata Kulesza) e Wiktor a gravarem músicas tradicionais junto da população rural polaca, tendo a companhia de Kaczmarek (Borys Szyc), o gerente administrativo da Mazurka. Estes pretendem reunir canções e danças típicas da Polónia e atribuir-lhes novos arranjos de forma a tornarem-nas mais apelativas para o público. Nesse sentido, decidem efectuar um concurso para encontrarem alguns elementos com potencial para integrar a banda. É neste concurso que Zula sobressai. Primeiro a cantar em dueto com uma colega. Posteriormente a solo, quando capta toda a atenção do olhar de Wiktor, com este a não esconder o forte efeito provocado pela jovem.

07 dezembro 2018

Entrevista a Bruno Gascon sobre "Carga"

Filme-denúncia duro, onde a felicidade raramente é sentida, a redenção é improvável de ser alcançada e a desesperança percorre os seus poros, "Carga" é uma das agradáveis surpresas do panorama cinematográfico nacional em 2018. O filme estreou originalmente a 8 de Novembro do corrente ano, tendo efectuado um percurso interessante em circuito comercial. O Rick's Cinema (via Take Cinema Magazine) teve a oportunidade de entrevistar o realizador Bruno Gascon sobre a sua primeira longa-metragem. Ao longo da entrevista foram abordados assuntos relacionados com o que compeliu o cineasta a abordar o tema do tráfico humano, o trabalho de preparação com o elenco, a escolha dos cenários, entre outros assuntos. Entrevista originalmente publicada na Take Cinema Magazine.

Take Cinema Magazine: O Bruno Gascon escreveu o argumento de todos os filmes que realizou. Sente que essa é uma forma de manter os seus projectos mais pessoais? Como é que o "Bruno Gascon realizador" convive com o "Bruno Gascon argumentista" e vice-versa? Pode falar um pouco do seu processo de escrita? 

Bruno Gascon: É sempre mais pessoal quando é algo que é escrito por mim, claro. Por vezes é desafiante porque nem sempre tudo o que escrevemos é viável do ponto de vista da realização e nesse sentido tenho que fazer cedências como argumentista para bem do filme. Por outro lado, acaba por ser uma vantagem porque quando chega a hora de filmar garantidamente sei o que quero fazer e qual era a intenção de cada cena quando a escrevi e permite-me também conseguir lidar melhor com imprevistos que levem a eventuais alterações durante a filmagem. Quanto ao processo de escrita, antes de escrever seja o que for investigo bastante e, sobretudo, falo com algumas pessoas ligadas ao tema sobre o qual vou escrever, mas na verdade o essencial para mim é perceber de que forma eu, ou as pessoas que me rodeiam reagiriam a determinadas situações de forma a conseguir que o argumento se torne o mais real possível. Acima de tudo é um trabalho de observação.

TCM: Sabemos que já respondeu a esta questão várias vezes. No entanto, é praticamente impossível deixar de perguntar. O que o compeliu a abordar a temática do tráfico humano? Pode falar um pouco do trabalho que efectuou para pesquisar elementos sobre o assunto?

BG: Quando estudei em Amesterdão foi algo com que tive contacto, pois o tráfico para fins sexuais era algo bastante frequente, portanto já existia um interesse pelo tema. Ao regressar a Portugal comecei a trabalhar sobretudo na área documental e pude ter contacto com sobreviventes e as suas histórias ficaram-me na memória e inspiraram-me a pesquisar mais e a escrever o guião da Carga. Em termos de pesquisa foi muito importante esse background e também tudo o que pude ler sobre o tema. De igual modo foi muito importante ouvir o lado de quem trabalha no resgate às vítimas, ou seja, a Associação para o Planeamento da Família que se tornaram parceiros do filme. Queria que o argumento e o filme levassem a que as pessoas se colocassem nos sapatos de quem passa por esta situação (tanto das vítimas como dos traficantes e que as personagens tivessem zonas cinzentas levando a que o espectador saísse do cinema a pensar que isto não só acontece, como lhe poderia acontecer a ele.

06 dezembro 2018

Crítica: "Kimi no na wa." (Your Name)

 Não são raros os momentos em que "Kimi no na wa." deixa que as emoções tomem conta do enredo e do espectador. É um filme dotado de romantismo, candura e sentimento, que engloba no seu interior uma série de especificidades da cultura e sociedade japonesa e uma miríade de temáticas amplamente universais. No centro do enredo encontram-se Mitsuha (Mone Kamishiraishi) e Taki (Ryûnosuke Kamiki), a dupla de protagonistas, dois adolescentes que despertam empatia e um certo fascínio. Estranhamente, começam a trocar de corpo, algo que os obriga a terem de aprender a conviver com a situação e provoca uma panóplia de situações mais leves e alguns momentos de maior comoção. O argumento explora eficazmente esta premissa e consegue que ela se desenvolva em algo complexo, enérgico, fascinante e extremamente terno ao mesmo tempo em que ficamos a conhecer a personalidade dos dois protagonistas. Estes encontram-se numa fase fervilhante das suas vidas, a lidar com dilemas muito próprias da idade, a afirmar as suas personalidades e a sentir tudo com a intensidade típica desta etapa, com a troca de corpo a fazer não só com que se deparem com uma nova realidade, mas também que se comecem a conhecer melhor a si próprios e um ao outro.

Mitsuha vive com Hitoha (Etsuko Ichihara) e Yotsuha (Kanon Tani), respectivamente, a avó e a irmã mais nova, em Itomori, uma pequena cidade situada na região de Hida. O seu pai, com quem mantém uma relação afastada, é o presidente da câmara local, enquanto a sua mãe faleceu pouco tempo depois de dar à luz a jovem Yotsuha, com a adolescente a ter em Tessie (Ryô Narita) e Sayaka (Aoi Yûki), os seus melhores amigos. Taki é um adolescente que habita em Tóquio, está a completar o ensino secundário, trabalha em part-time num restaurante, vive com o pai (Kazuhiko Inoue) e gosta de desenhar. Os seus melhores amigos são Tsukasa (Nobunaga Shimazaki) e Shinta (Kaito Ishikawa), dois prestáveis e simpáticos companheiros de escola, tendo ainda um fraquinho por Okudera (Masami Nagasawa), uma colega de trabalho. Se Taki tem uma vida atarefada em Tóquio, já Mitsuha aborrece-se imenso com o sossego excessivo do local onde vive, um espaço onde quase todos se conhecem e a tradição está muito presente. Note-se os rituais religiosos levados a cabo pela avó da protagonista, uma senhora que respeita as memórias do território e das divindades. Diga-se que existe uma faceta quase mística a rodear o enredo de "Kimi no na wa.", seja no ritual efectuado para fabricar kuchikamizake, protagonizado por Hitoha e as netas, ou na entrega dessa bebida como oferenda num trecho dotado de imensa poesia.

03 dezembro 2018

Crítica: "Sleepwalk" (2018)

 Dissociar os EUA e a tarte de maçã é uma tarefa praticamente impossível de concretizar. Não foi inventada por lá, embora seja um dos seus símbolos quer na gastronomia, quer na cultura popular. Em "Sleepwalk", esta encontra-se no centro da jornada de Lloyd Jenkins (Greg Lucey). Com um chapéu à cowboy, roupas de tonalidades discretas (prontas a realçar esse traço da sua personalidade), um semblante que carrega uma certa sobriedade e mistério, o personagem eficazmente interpretado por Greg Lucey pretende uma tarde de maçã confeccionada por Dolores Barrett (Joy Greenno), uma cozinheira. A investigação leva esta espécie de Xerife do Velho Oeste a viajar desde o Texas até a um diner no Arizona, após ter passado a noite num motel e percorrido uma série de espaços que atribuem uma faceta de road movie a esta curta de Filipe Melo. No motel observa na televisão um discurso de Ronald Reagan que dialoga com uma célebre frase de campanha de Donald Trump, ao passo que no restaurante à beira da estrada depara-se com um índio misterioso e um dono que não esconde a estupefacção pela obstinação do protagonista.

Como já podem ter reparado não faltam símbolos ou elementos associados aos EUA e à sua cultura em "Sleepwalk". Essa evocação das memórias deste país encontra-se presente nas particularidades dos personagens, nos cenários, no guarda-roupa e em vários elementos do enredo que revelam não só um cuidadoso design de produção, mas também um interesse pelos traços que marcam e marcaram esta nação. Note-se ainda a presença da música country a tocar na rádio do diner, ou um episódio em que a pena de morte não é esquecida, entre outros exemplos que podem ser encontrados ao longo desta curta que adapta ao cinema o conto de BD homónimo de Filipe Melo e Juan Cavia. Realizador e argumentista, Filipe Melo tem em "Sleepwalk" uma curta que nos transporta para o passado e o presente de um país, bem como para uma busca dotada de mistério. O cineasta joga inicialmente com as nossas dúvidas em relação aos objectivos de Lloyd, com a faceta discreta e lacónica desta figura a ajudar e muito a essa tarefa. Mais tarde percebemos que o gesto deste encerra uma enorme humanidade. Até lá desfrutamos desta viagem por uns EUA de ontem e hoje, representado com algumas marcas bem reconhecidas, sobretudo aquelas com quem já contactámos regularmente no cinema ou na literatura.

02 dezembro 2018

Crítica: "Soldado Milhões" (2018)

 A participação de Portugal na I Guerra Mundial esteve longe de ser bem-sucedida. Pouco preparado e sem grandes condições, o Corpo Expedicionário Português partiu para a Flandres com o objectivo de efectuar uma campanha digna. No entanto, o resultado final desse envolvimento confirmou e de que maneira a impreparação lusa e a virulência deste conflito. Como é mencionado na conclusão de "Soldado Milhões", "entre o corpo expedicionário português houve 1341 mortos, 4626 feridos, 1932 desaparecidos e 7440 prisioneiros". Com uma estrutura narrativa que ziguezagueia entre 1943 e 1913/1914, o filme realizado por Gonçalo Galvão Teles e Jorge Paixão da Costa procura efectuar algo mais do que expor o conflito a partir da perspectiva de Aníbal Augusto Milhais, o militar do título. Os cineastas envolvem-se quer pela participação lusa na I Guerra Mundial, quer pela forma como o Soldado Milhões foi utilizado como um símbolo pelo Estado Novo. E estes são precisamente alguns dos elementos que mais elevam o filme, em particular, a sua capacidade de deambular pelo tempo e de abordar questões relacionadas com a formação dos mitos e lendas, enquanto assistimos a um desconstruir da figura do herói tendo em vista a deixar o lado humano sobressair.

O Aníbal Milhais que observamos em "Soldado Milhões" é um indivíduo simples, longe de ser um predestinado, que tem em João Arrais (passado) e Miguel Borges (presente) dois intérpretes à altura. Após um breve prólogo que nos coloca diante de uma situação intrincada nas trincheiras (um episódio ao qual regressamos mais tarde), somos deixados perante o protagonista em 1943. Prepara-se para ser homenageado em Murça, onde o Presidente da Câmara (Dinarte Branco) efectua uma cerimónia para alterar o nome da freguesia de Valongo para Valongo de Milhais, um acto populista que visa a criação de símbolos nacionais. A homenagem deixa-o desconfortável, tal como o uso das medalhas para aproveitamento político, algo que demonstra junto de Adelaide (Carminho Gomes), a sua filha. Miguel Borges consegue expressar essa simplicidade e humanidade do personagem, bem como a proximidade que este tem com a petiz e a importância que a religião tem na sua vida. Essa relevância da religião é visível quer nos trechos do presente, quer nos do passado. Note-se quando encontramos Aníbal Milhais e Adelaide a sussurrarem quando se encontram a dialogar junto à Nossa Senhora do Vale da Veiga, naquela que é uma subtil demonstração de respeito para com a mesma, ou as rezas que o primeiro efectua durante a I Guerra Mundial.

01 dezembro 2018

Lista de vencedores da 24ª edição do festival Caminhos do Cinema Português

Já são conhecidos os grandes vencedores do 24º Caminhos do Cinema Português. A edição de 2018 do certame contou com vinte e seis longas-metragens, cento e dez curtas, dezassete documentários e vinte e uma animações. Entre os vencedores encontram-se obras como "Terra Franca" (Prémio D.Quijote e Melhor Longa-Metragem de Ficção), "Até que o porno nos separe" (Melhor Documentário), "Cabaret Maxime" (Grande Prémio, Melhor Realizador, Melhor Banda Sonora Original e Melhor Actor Secundário), "Entre Sombras" (Melhor Animação), "Anteu" (Melhor Curta), entre outras.

Júri FICC:

- Prémio D.Quijote: Leonor Teles, com o filme “Terra Franca” - Produtora Uma Pedra no Sapato.
- Prémio Menção Honrosa: Catarina Neves Ricci, “Maria” - Produtora UKBAR Filmes.

Júri Caminhos:

- Grande Prémio: Bruno de Almeida, "Cabaret Maxime" - Produtora BaFilmes, Lda.
- Melhor Longa-Metragem de Ficção Europcar: Leonor Teles, “Terra Franca” - Produtora Uma Pedra no Sapato.
- Melhor Documentário: Jorge Pelicano, "Até Que o Porno Nos Separe" - Produtora Até Ao Fim do Mundo.
- Melhor Animação: Mónica Santos e Alice Guimarães, “Entre Sombras” - Produtora Animais AVPL/ Vivement Iundi!/Um Segundo Filmes.
- Melhor Curta: João Vladimiro, “Anteu” - Produtora Terratreme Filmes.
- Melhor Realizador: Bruno de Almeida “Cabaret Maxime” – Produtora BaFilmes, Lda.
- Melhor Actriz: Valerie Bradell, “Maria” - Produtora UKBAR Filmes.
- Menção Honrosa: Grace Passô, “Praça Paris” - Produtora Fado Filmes / CEAA Audiovisual / Taiga Filmes.
- Melhor Actriz Secundária: Rita Martins, “Aparição” – Produtora David e Golias.
- Melhor Actor: Fernando Rodrigues, “Por Tua Testemunha” - Produtora Terratreme Filmes.
- Melhor Actor Secundário: John Ventimiglia, “Cabaret Maxime” - Produtora BaFilmes, Lda.
- Prémio Revelação: Mónica Chen, “Califórnia” - Produtor Nuno Baltazar.
- Melhor Comunicação e Promoção IVITY CORP: João Vladimiro, “Anteu” – Produtora Terratreme Filmes.
- Melhor Banda Sonora Original: Manuel João Vieira, “Cabaret Maxime” – Produtora BaFilmes, Lda.
- Prémio Melhor Argumento adaptado: João Pupo, “Por sua testemunha” – Produtora Terratreme Filmes.
- Melhor Argumento Original: Eugène Green, “Como Fernando Pessoa Salvou Portugal” – Produtora O Som e a fúria.
- Melhor Som: Artur Cyaneto e Emilio Alicante, “Caminhos Magnétykos” - Produtora Bando a Parte.
- Melhor Montagem: Marco Amaral e João Braz, “3 anos depois” – Produtora UKBAR Filmes.
- Melhor Caracterização: Catarina Santiago “A Estranha Casa na Bruma” – Produtora Suspicio Filmes.
- Melhor Guarda-Roupa: Patrícia Doria “Aparição” – Produtora David e Golias.
- Melhor Direcção Fotografia: João Ribeiro AIP, "A Árvore" – Produtora CRIM.
- Melhor Direcção Artística: João Torres, “Cabaret Maxime” – Produtora BaFilmes, Lda.


Júri Ensaios:

Ensaio Internacional:

- Leonardo Martinelli, Universidade Estácio de Sá, “Vidas Cinza” - Universidade Estácio de Sá
- Menção honrosa: Don Senoc, Instituto de Cinema da Universidade das Filipinas, “In Between Spaces” - Instituto de Cinema da Universidade das Filipinas”.


Ensaio Nacional:

- José Caetano, Universidade Beira Interior, “Um Marco no Futebol" - UBI.
. Menção Honrosa: Isabel Gomes, Colégio das Artes da Universidade de Coimbra, “Manuel Casimiro - Pintar a Ideia” - Produtora MUI CONCEPT / Colégio das Artes UC.


Júri Imprensa:

- Prémio de Imprensa CISION: Paulo Carneiro, “Bostofrio, oú le ciel rejoint la terre” - Produtora Paulo Carneiro / Red Desert.
- Menção Honrosa do Júri de Imprensa CISION: Mónica Santos; Nuno Amorim, “Entre Sombras” - Produtora Animais AVPL / Vivement Iundi! / Um Segundo Filmes.

30 novembro 2018

Crítica: "Bostofrio, où le ciel rejoint la terre" (2018)

 A pequena aldeia de Bostofrio que é apresentada em "Bostofrio, où le ciel rejoint la terre" surge como um espaço onde as dualidades ou as dicotomias se reúnem: o céu e a terra; o passado e o presente; a aspereza e a delicadeza. O território e as suas gentes aparecem em destaque ao longo deste documentário, enquanto acompanhamos Paulo Carneiro em busca de informações sobre o avô. Para efectuar essa tarefa intrincada, o cineasta decidiu entrevistar os locais, aqueles que conviveram com o familiar, ao mesmo tempo em que se torna protagonista da obra. É este quem questiona as gentes da terra, que se embrenha pelo território e as suas particularidades, enquanto nos transporta para um "outro" Portugal, um espaço de ontem e hoje, simultaneamente próximo e isolado de tudo e todos, que mexe com a maneira de ser daqueles que o habitam. Muito é captado através de planos de longa duração, que transmitem as cadências próprias de cada momento e se envolvem pelas singularidades dos espaços onde decorrem as entrevistas. Note-se as especificidades da casa de Maria, uma senhora de idade avançada que expõe alguma informação sobre o avô de Paulo Carneiro, ou a festa popular que o realizador interrompe para perguntar se alguém que está ali conhece o seu familiar.

Essa interrupção do evento tem algo de corajoso e comovente no seu interior, um pouco à imagem desta investigação efectuada pelo cineasta. Domingos Espada não perfilhou o progenitor de Paulo Carneiro. A relação que o primeiro mantinha com o filho e Profetina, a avó do realizador, encontra-se envolta por um nevoeiro de parca informação e imensas dúvidas. Uns dizem que não se falavam. Outros que apenas contactavam em privado. O que é certo é que passavam por dificuldades e que na época a lei não actuava de forma ágil em relação aos pais que não queriam reconhecer os filhos. Ao longo do documentário ficamos a conhecer um pouco de Domingos Espada e de Profetina a partir das recordações difusas de diversas pessoas, com "Bostofrio, où le ciel rejoint la terre" a usar a história oral como um meio de chegar a um passado que não consta nas fontes escritas. No interior desses discursos encontramos também um pouco dos traços da personalidade dos seus entrevistados. Observe-se a facilidade de Casemira em praguejar, ou a crença de Albertina, Ana e Domingos em algo sobrenatural, ou a afabilidade de Maria, com todos a contribuírem um pouco para que Paulo Carneiro obtenha mais peças para completar este "puzzle".

29 novembro 2018

Crítica: "Leviano" (2017)

 Podemos inferir algo sobre um realizador a partir dos seus filmes? Se a resposta for sim, então o mais provável é que Justin Amorim tenha uma predilecção pela utilização da câmara lenta e por pontuar uma miríade de momentos do enredo com música, imenso estilo e ritmo. Estilo é algo que não falta a "Leviano", a primeira longa-metragem do cineasta. A substância está em falta, é certo. Os personagens contam quase todos com a densidade de um guardanapo de folha fina, o enredo está longe de ser tão intrincado e irreverente como inicialmente deixa transparecer, as temáticas pouco são desenvolvidas e a espaços tudo parece demasiado inconsequente (com excepção do seu desfecho, deliciosamente negro e delirante, ou de uma caminhada acelerada em direcção a uma casa de banho, filmada com enorme brilhantismo). No entanto, a sua atmosfera é estranhamente envolvente e inebriante ao ponto de não conseguirmos descartar "Leviano", mesmo quando pouco parece fazer sentido. Ou seja, aquilo que também podemos inferir sobre Justin Amorim é que conta com uma certa capacidade para criar um ambiente que nos predispõe a seguir os acontecimentos da fita, tendo como aliados a errática banda sonora, a fotografia e alguns elementos do elenco.

O trabalho de Edward Herrera na cinematografia exacerba as características solarengas do território algarvio onde decorre o enredo, com a luminosidade bem viva e os tons quentes a estarem muito presentes durante uma fase considerável da narrativa e a banharem os corpos e os cenários. Diga-se que o guarda-roupa, muito marcado por vestimentas leves, é outro dos componentes que contribuem para sublinhar as altas temperaturas que percorrem os espaços e os corpos, ou não estivéssemos perante uma obra que gosta de realçar a fisionomia dos seus intérpretes. "Leviano" começa in media res, nomeadamente, quando Anita Paixão (Anabela Teixeira) e as suas filhas, Adelaide (Diana Marquês Guerra), Júlia (Mikaela Lupu) e Carolina (Alba Baptista), preparam-se para conceder uma entrevista a uma jornalista sobre um crime controverso que envolveu este núcleo familiar. A primeira procura transmitir a ideia de que mantém uma relação de proximidade com as jovens, algo que contrasta com os rostos e os gestos amorfos deste trio. Percebemos que qualquer coisa não bate certo, ao mesmo tempo em que ficamos diante de um trecho que demonstra a eficiência das suas intérpretes. Logo recuamos um ano, com o enredo a ziguezaguear entre o passado e o presente, enquanto ficamos a conhecer aos poucos aquilo que as levou a estarem diante da repórter e alguns traços das mesmas.

28 novembro 2018

Crítica: "Porque é este o meu ofício" (2018)

 A banda sonora e o tom de voz que João Reis incute às palavras do protagonista e narrador de serviço contribuem e muito para a atmosfera comovente, terna e melancólica de "Porque é este o meu ofício", um filme que é pequeno em duração mas enorme nas suas qualidades. Essas falas remetem para as memórias que um filho guarda do seu pai, ou não estivéssemos perante uma curta-metragem de animação sobre essa relação muito especial entre rebentos e progenitores, uma ligação que ganha características distintas ao longo do tempo, mas nem por isso é esquecida ou apagada. Em "Porque é este o meu ofício" as recordações de um adulto chegam acompanhadas por palavras e imagens que remetem para a criatividade da infância, onde dragões marinhos, sereias e anjos podem aparecer da forma mais inesperada e revelar todo um mundo que se encontra a ser descoberto. Um mundo que em parte é dado a conhecer pelo nosso pai, que é mantido no nosso interior através das memórias quer estas estejam bem vivas ou encobertas por essa grande névoa que é a passagem do tempo, que o diga o protagonista desta fita.

O personagem principal de "Porque é este o meu ofício" é um artista que ganha a vida a contar histórias através de desenhos. Parece-nos que é o realizador a trazer as suas recordações para a curta-metragem e a prestar uma homenagem ao seu pai. Se é verdade, torna a vida complicada a qualquer filho. É difícil igualar um tributo tão belo, sentido e tocante. Se não é inspirado no próprio realizador e na relação deste com o pai, podemos elogiar a sua capacidade de nos embalar para o interior do enredo e de criar algo extremamente doce, melancólico e capaz de fazer com que as palavras do protagonista ressoem na nossa mente e tragam consigo as nossas memórias. Essa situação acontece praticamente desde os momentos iniciais, quando o personagem principal pergunta ao pai "Lembras-te como eu ficava feliz quando diziam que eu era parecido contigo?" A questão é feita em voiceover, um pouco à imagem de todas as palavras proferidas no filme, algo que atribui um tom quase confessional ao discurso do artista e contribui para transformar-nos em cúmplices dessa manifestação de apreço.

27 novembro 2018

Crítica: "Terra Franca" (2018)

 Depois de partir a loiça toda na curta "Balada de um Batráquio", Leonor Teles avança com desenvoltura pelo formato de longa-metragem em "Terra Franca", um documentário quase tão singelo e fascinante como as figuras que observa. É um filme sobre os pequenos episódios do quotidiano, que se embrenha quer pelo dia-a-dia de um pescador e da sua família, quer por alguns dos espaços de uma antiga comunidade piscatória à beira do Tejo. O quanto a câmara influencia ou não os comportamentos daqueles que nos são apresentados é algo que desconhecemos. No entanto, sentimos toda uma sensação de genuinidade e empatia em volta das acções de Albertino Lobo e do seu núcleo familiar. Os actos destes elementos são regularmente captados com recurso a planos de longa duração, prontos a deixarem tudo fluir com enorme naturalidade e a sublinharem a faceta observadora da câmara. Note-se quando somos colocados perante um jantar onde os diálogos se sobrepõem e os sentimentos aquecem, ou ficamos diante de Albertino e a sua esposa, Dália, a efectuarem uma viagem de carro em plena madrugada.

Na viagem mencionada encontramos o pescador a conduzir o carro, enquanto transporta a mulher para o café do qual é proprietária. Ambos acordam bastante cedo: Albertino para pescar; Dália para preparar o estabelecimento antes dos clientes aparecerem. A cumplicidade do casal é evidente, seja nos diálogos que troca ou no espaço que um cônjuge dá ao outro. Veja-se o trecho em que Dália salienta a facilidade que tem em sair sem a companhia do esposo, ou os fragmentos de "Terra Franca" onde encontramos o pescador sozinho enquanto observa o rio ou o território que o rodeia. A pesca é a sua fonte de sustento, embora tenha perdido recentemente a licença, algo que o preocupa e permite a Leonor Teles abordar este assunto a partir de uma perspectiva bastante particular. Diga-se que o acompanhamento deste indivíduo e da sua família surge praticamente como ponto de partida para a cineasta deixar-nos diante de situações que trazem ao de cima assuntos relacionados com o conflito de gerações, as relações entre pais e filhos, o matrimónio e a insegurança profissional, entre outros temas.

26 novembro 2018

Crítica: "Entre Sombras" (2018)

 Uma das obras mais imaginativas, delirantes e marcantes da 24ª edição do festival Caminhos do Cinema Português, "Entre Sombras" aparece como uma daquelas agradáveis surpresas que qualquer cinéfilo gosta de ter. Por vezes parece saída dos filmes noir (o forte contraste entre luz e sombras, os personagens de carácter dúbio, as figuras fumadoras, o clube nocturno), ainda que esteja disposta a desconstruir algumas das suas convenções (o facto da narradora ser mulher não é obra do acaso). A certa altura indica ter ido buscar uma certa criatividade, peculiaridade e saudável loucura a alguns dos trabalhos de Jean-Pierre Jeunet. Em outros momentos aparenta ter bebericado em fontes de inspiração como os filmes de assalto ou as inventivas obras de Georges Méliès. No final é algo com vida própria, que sobrevive às comparações e às possíveis referências, enquanto aproveita técnicas de animação como stop-motion e pixilation para apresentar-nos a um universo narrativo onde os corações podem ser guardados num banco, o irreal convive com o real e a criatividade não parece ter limites.

Brilhantemente realizada por Mónica Santos e Alice Guimarães, a curta coloca-nos diante de Natália (Sara Costa), uma empregada de um banco. Esta conta com rotinas laborais monótonas e enfadonhas, muito marcadas pela repetição diária das funções e uma relação nem sempre pacífica com a passagem do tempo. Para aumentar a produtividade, utiliza dois braços postiços, uma invenção que certamente agradaria a boa parte das empresas ansiosas por rentabilizarem ao máximo os seus funcionários, com "Entre Sombras" a efectuar um breve comentário sobre o mundo laboral, até rapidamente partir para outra. É filme sem tempo a perder, que sabe que conta com uma curta duração e precisa de expor tudo de modo preciso e conciso. Note-se a forma célere como Natália recebe um bilhete, entra no clube nocturno Private Eye e toma contacto com o indivíduo misterioso (Gilberto Oliveira) que enviou a missiva. O coração deste foi supostamente roubado e depositado no banco, algo que o conduz a procurar o auxílio da protagonista, um pedido que esta encara como um desafio às suas rotinas.

25 novembro 2018

Crítica: "Carga" (2018)

 Apontem nas vossas agendas ou cadernos o nome de Bruno Gascon. A sua primeira longa-metragem tem uma força e uma intensidade que afastam a indiferença. Por vezes utiliza uma ou outra coincidência escusada para potenciar a carga dramática de algumas situações ou tentar surpreender, ou descura o desenvolvimento de um ou outro personagem, mas os feitos positivos ultrapassam quase sempre os desacertos. "Carga" é um filme-denúncia duro, onde a felicidade raramente é sentida, a redenção é improvável de ser alcançada e a desesperança percorre os seus poros. Não é motivo para menos. Bruno Gascon envolve-se pelo mundo obscuro do tráfico humano, quase sempre de forma crua, sem ter receio de chocar o espectador ou de expor a violência que percorre este negócio ilegal, imoral e desumano. A espaços parece caminhar para um certo sensacionalismo, mas rapidamente percebemos que a intenção é outra. É explanar a violência que os olhos querem fingir que não observam, é deixar os gritos de desespero ecoarem quando os nossos ouvidos pretendem escapar aos seus sons, ao mesmo tempo em que procura alertar a sociedade e deixar-nos diante de um enredo onde o destino teima em entrelaçar a vida de Viktoriya (Michalina Olszanska) e António (Vítor Norte).

Viktoriya é uma imigrante clandestina que viaja em direcção a Portugal em conjunto com outros elementos oriundos de um país do Leste. Estes procuram melhores condições de vida, embora preparem-se para encontrar um pesadelo. A transportá-los rumo ao tormento encontra-se António, um camionista na casa dos sessenta anos que trabalha a contragosto para Viktor (Dmitry Bogomolov), um traficante do Leste. Se Viktoriya foge do seu país devido a estar desempregada e ter perdido a sua avó, já o camionista aceita este emprego para escapar aos efeitos da crise em Portugal e sustentar a esposa (Rita Blanco) e a neta (Beatriz Pires). Com uma barba saliente e cabelos brancos que teimam em expor os efeitos da passagem do tempo, António exibe no seu rosto e nos seus gestos claros sinais de arrependimento, ressentimento e desprezo pelo seu empregador, algo exposto de forma sublime por Vítor Norte. O carisma e o enorme talento do actor surgem ao de cima em diversos momentos do filme. Note-se quando o transportador confronta Viktor verbalmente, ou expõe as suas tormentas e a repulsa que sente por si próprio num monólogo poderosíssimo. Quando não fala, o seu olhar e o seu rosto tratam de expor aquilo que sente e deixar-nos diante de mais uma demonstração da perícia do intérprete, com Vítor Norte a contribuir e muito para que percebamos as atitudes do seu personagem.

16 novembro 2018

Crítica: "Manbiki kazoku" (Shoplifters: Uma Família de Pequenos Ladrões)

 Em determinado ponto de "Manbiki kazoku" (em Portugal: "Shoplifters: Uma Família de Pequenos Ladrões"), encontramos Osamu Shibata (Lily Franky), Nobuyo (Sakura Andô), Hatsue (Kirin Kiki), Aki (Mayu Matsuoka), Shota (Jyo Kairi) e Yuri (Miyu Sasaki) a observarem o fogo de artifício a subir às alturas e a colorir o céu de novas tonalidades. Hirokazu Koreeda não exibe o fogo de artifício. Apenas escutamos o mesmo a rebentar em fora de campo. Nos planos, no campo, na mira do espectador, estão os membros desta família, expostos a partir das alturas, em plongées que assinalam a união deste grupo, naquele que é um breve momento que resume um pouco a essência de "Manbiki kazoku": sensível, delicado, pronto a esconder algo e a fugir ao fogo de artifício enquanto abraça a subtileza. É filme onde uma fuga pode simbolizar uma vontade de contactar com o destino. É filme em que o conceito de família é problematizado, onde a crueza e a ternura caminham lado a lado, tal como a verdade e a mentira, a bondade e a maldade, a proximidade e a distância. É filme no qual os valores morais do espectador são colocados em conflito, um pouco à imagem do que acontece com alguns personagens. É filme que não julga os protagonistas e deixa-os explanarem toda a sua dimensão. É filme que mexe com o espectador, agarra a alma e apenas a larga quando a lágrima desliza vagarosamente pelo rosto e o soluço trava as palavras que pretendem verbalizar os sentimentos.

As relações familiares intrincadas e as ligações muito próprias dos membros de uma família encontram-se no cerne de diversas obras de Hirokazu Koreeda, sendo na maioria das vezes expostas com uma precisão, humanidade, subtileza e um estilo observacional que fazem com que facilmente associemos o seu toque pessoal ao de mestres como Yasujiro Ozu e Mikio Naruse. Os núcleos familiares depauperados, a falta de dinheiro de algumas figuras e a ligação das mesmas com o vil metal também estiveram no cerne de vários trabalhos do cineasta. Diga-se que o realizador também já nos tinha colocado perante protagonistas que se encontram numa zona cinzenta de difícil descrição, que não podem ser catalogados como bons ou maus, uma situação paradigmaticamente demonstrada a partir do personagem principal de "Umi yori mo mada fukaku". Em "Manbiki kazoku", Hirokazu Koreeda volta a alguns destes assuntos e estilo de personagens, ou seja, avança com aparente simplicidade por temas relacionados com a família, o crime, a velhice, a infância, a sexualidade, as dificuldades financeiras, a amizade e as injustiças sociais. Diga-se que a simplicidade é apenas aparente, algo que se torna evidente com o decorrer do enredo e a chegada a uma reviravolta que provoca impacto nos personagens e na audiência.

12 novembro 2018

Sobre a programação da 24ª edição do Festival Caminhos do Cinema Português

 Local de reunião do Cinema Português e de união entre este e o público, o festival Caminhos do Cinema Português chega à sua 24ª edição com uma programação marcada pela heterogeneidade e um número assinalável de obras lusas a descobrir ou reencontrar. Ao todo foram seleccionadas vinte e seis longas-metragens, cento e dez curtas, dezassete documentários e vinte e uma animações. Se quisermos ser mais precisos, contamos com setenta e quatro horas, cinco minutos e cinquenta e cinco segundos dedicados à exibição de fitas. A jóia da Coroa do evento é a Selecção Caminhos, onde podemos encontrar uma mescla de experiência e sangue novo. Tanto somos colocados diante de nomes bem conhecidos como João Botelho ("Peregrinação"), Eugène Green ("Como Fernando Pessoa Salvou Portugal"), Lúcia Murat ("Praça Paris"), Edgar Pêra ("O Homem-Pykante" e "Caminhos Magnétykos") e Bruno de Almeida ("Cabaret Maxime") como de cineastas em busca de afirmação no formato de longas como Paulo Carneiro ("Bostofrio oú le ciel rejoindre la terre"), Justin Amorim ("Leviano"), Bruno Gascon ("Carga"), Leonor Teles ("Terra Franca"), entre outros.

A duração não é motivo para separação entre as diferentes secções da Selecção Caminhos. Curtas e longas convivem entre si, algo que podemos observar desde logo na secção de documentários. Observe-se como curtas como "Madness", um documentário de João Viana, vencedor do Grande Prémio de Documentário na edição de 2018 do Curtas de Vila do Conde, ou "Os Mortos" (Gonçalo Robalo) e "Pele da Luz" (André Guiomar) convivem com longas como "Terra Franca", "Turno do Dia" (Pedro Florêncio) e "O Canto do Ossobó" (Silas Tiny). O mesmo se aplica para a riquíssima secção de ficção, onde encontramos longas como "A Árvore" (André Gil Mata), "Aparição" (Fernando Vendrell), "Amantes na Fronteira" (Atsushi Funahashi), "Mariphasa" (Sandro Aguilar), "Soldado Milhões" (Gonçalo Galvão Teles e Jorge Paixão da Costa) a partilharem o mesmo espaço com curtas como "Aquaparque" (Ana Moreira), "A Estranha Casa na Bruma" (Guilherme Daniel), "Equinócio" (Ivo M. Ferreira), "Russa" (João Salaviza e Ricardo Alves Jr.") entre outras películas que fazem parte do certame. Já as animações aparecem curtas em formato mas grandes em qualidade, ou não estivéssemos perante a secção que conta com duas das grandes obras desta edição do Caminhos do Cinema Português: "Entre Sombras" (Mónica Santos e Alice Guimarães) e "Porque este é o meu ofício" (Paulo Monteiro).

05 novembro 2018

Crítica: "Fahavalo, Madagascar 1947"

 A presença colonial francesa em Madagáscar ainda continua bem viva nas memórias de diversos habitantes desta nação insular. Em "Fahavalo, Madagascar 1947" a realizadora Marie Clémence Andriamonta-Paes regressa a um pedaço dessas memórias que marcaram a identidade e a História do seu país, em particular, a revolta malgaxe contra as autoridades coloniais gaulesas. A rebelião ocorreu entre 1947 e 1948, tendo resultado em fortes medidas repressivas da França e num número elevado de mortos. Marie Clémence Andriamonta-Paes revisita estes anos a partir da fala de diversos sobreviventes que recordam as suas experiências. "Existem algumas coisas que não consigo esquecer. Vou tentar contar aquilo que aconteceu. Não fique surpreendida no caso de algumas coisas escorregarem da minha mente ou parecerem enlameadas" diz Martial Korambelo à realizadora. Um dos participantes na insurreição, Martial esteve preso oito anos e nove meses, sendo um dos vários elementos que permitem a "Fahavalo, Madagascar 1947" apanhar o comboio do passado e transportá-lo para o presente a partir das recordações e das palavras daqueles que sobreviveram.

Todas as nossas memórias encontram-se rodeadas por uma névoa de subjectividade inerente ao facto de conterem no seu interior o modo como percepcionamos diversos acontecimentos das nossas vidas. Esta subjectividade resulta a favor de "Fahavalo, Madagascar 1947" ao contribuir para que o documentário aborde o contexto histórico e alguns eventos marcantes a partir da perspectiva muito particular daqueles que a viveram de perto. Note-se o caso de Iamby, um indivíduo de idade avançada que acredita no poder dos talismãs e das poções. Não é situação para menos. Se o contingente francês, pontuado pela presença senegalesa e argelina, contava com armamento pesado e mortal, já os guerrilheiros malgaxes tinham apenas ao seu dispor lanças, machetes, a magia e o desejo de se tornarem independentes. O combate era extremamente desigual, sendo marcado pela violência das forças gaulesas, algo notório quando encontramos os relatos da destruição e dos massacres provocados pelos colonialistas. Diga-se que o ressentimento e a desilusão fazem parte do discurso de Iamby, sobretudo para com a França e a atitude de alguns elementos de Nosy Varika que apoiaram os gauleses.

03 novembro 2018

Crítica: "Friedkin Uncut" (2018)

 "Eu não estou à procura da perfeição nos filmes que faço, estou à procura de espontaneidade" comenta William Friedkin em determinado ponto de "Friedkin Uncut". Essa originalidade que o cineasta procura captar e transmitir está presente não só nos seus trabalhos, mas também no seu modo de se expressar, algo notório ao longo desta masterclass em formato de documentário. O realizador Francesco Zippel aproveita o carisma, o talento nato de William Friedkin para dialogar e a relevância das obras que este criou para efectuar um documentário dinâmico, interessante e capaz de escapar a algumas armadilhas inerentes aos convencionalismos que fazem parte desta película. Marcado por uma reunião de entrevistas, trechos de filmes, vídeos e imagens de arquivo, "Friedkin Uncut" leva-nos a uma viagem guiada às fitas do cineasta do título, bem como às peripécias que envolveram o desenvolvimento das mesmas e aos métodos de trabalho deste nome de relevo da Sétima Arte.

"Para mim, as duas principais figuras da História do Mundo são Hitler e Jesus" diz William Friedkin numa fase inicial do documentário, quase como aquecimento para falar sobre a relação entre o bem e o mal, um tema que serve para Francesco Zippel chegar a "The Exorcist". Ficamos diante de algumas cenas poderosas do filme e de um dos principais atributos de "Friedkin Uncut", nomeadamente, a assertividade com que coloca em diálogo a matéria-prima que tem à disposição, seja esta as falas dos entrevistados, os trechos das fitas ou as imagens de arquivo. No caso de "The Exorcist" encontramos nomes como Wes Anderson, Ellen Burstyn, Walter Hill, Francis Ford Coppola a abordarem elementos sobre o que torna a obra tão especial, a sua relação com a mesma, ou algumas curiosidades relacionadas com os bastidores ou o contexto da época. Note-se o caso de Ellen Burstyn a salientar o momento em que Max Von Sydow bloqueou a proferir um diálogo, ou a ocasião em que encontramos o realizador de "Pulp Fiction" a mencionar que foi proibido pela progenitora de ir ao cinema ver aquele que foi um filme-evento em 1973.

01 novembro 2018

Crítica: "Yonlu" (2018)

 A depressão e os pensamentos suicidas andam regularmente lado a lado. Formam uma companhia difícil de travar, que ataca muitas das vezes quando menos se espera e pode provocar estragos irreparáveis. É algo complicado de enfrentar em qualquer idade. Na adolescência esta combinação explosiva chega acompanhada das inseguranças próprias da idade e das emoções fervilhantes que a espaços contribuem para tudo ser sentido de modo mais intenso. Junte-se à equação uma sensação de deslocamento constante e a dificuldade dessa pessoa em conviver consigo própria nos momentos de solidão e tudo pode ganhar um carácter mais perigoso. Essa situação é particularmente notória quando observamos os receios, desejos, angústias e anseios do protagonista de "Yonlu". Simultaneamente sensível, angustiante, bela e poética, a primeira longa-metragem realizada por Hique Montanari capta a essência do personagem principal, o jovem Vinicius Gageiro Marques, mais conhecido como Yoñlu. Natural de Porto Alegre, fluente em cinco línguas, músico, ilustrador, participante em diversos fóruns online, Vinicius cometeu suicídio aos dezasseis anos de idade, um acto desesperado que provocou perplexidade e debate.

Nos momentos iniciais do filme, encontramos o terapeuta (Nélson Diniz) do protagonista a ser entrevistado por uma jornalista. Nélson Diniz incute credibilidade e sobriedade aos diálogos do seu personagem, enquanto este fala sobre os perigos dos fóruns online, a sua relação com o paciente e expõe algumas das especificidades do caso do mesmo, tendo em vista a alertar a opinião pública e a gerar debate sobre o tema. Estes trechos contribuem e muito para atribuir uma faceta positivamente pedagógica ao filme e expor alguns dos elementos que conduziram o protagonista a cometer este acto. Observe-se a posição contundente do psicólogo contra o fórum frequentado por pessoas potencialmente suicidas, um espaço do qual Yoñlu fazia parte e de onde tirou ideias e recebeu uma parte do gatilho para avançar para a morte. A partir daqui, Hique Montanari apresenta-nos o personagem do título em toda a sua complexidade. Para essa tarefa recorre não só a um argumento de grande nível e a uma interpretação sublime de Thalles Cabral, mas também a uma mistura de linguagens. Não faltam trechos de animação, linguagem de videoclipe e elementos musicais, com esta reunião a remeter para as diferentes facetas deste jovem e para a sua criatividade. Diga-se que as músicas, boa parte dos desenhos e algumas falas de Yoñlu são da autoria do jovem e introduzidas de modo harmonioso e preciso no interior do enredo.

31 outubro 2018

2016 em revista

 Não faltaram acontecimentos históricos marcantes em 2016. Marcelo Rebelo de Sousa foi eleito o 20º Presidente da República Portuguesa e começou a distribuir abraços e a tirar selfies como poucos. Barack Obama visitou Cuba e Donald Trump foi eleito Presidente dos EUA. Por sua vez, Dilma Rouseff foi afastada da Presidência da República do Brasil e David Cameron renunciou ao cargo de Primeiro-Ministro do Reino Unido. Pelo meio ocorreram uma série de atentados que chocaram o Mundo, Portugal ganhou o Europeu de futebol com um golo do improvável Éder e estrearam uma série de obras cinematográficas que prometem deixar marca ao longo do tempo, bem como outras que vão ser esquecidas com uma facilidade assinalável. É precisamente sobre esses filmes que se centra este artigo que procura traçar um breve retrato de um ano profícuo em termos da Sétima Arte.

Desde Ah-ga-ssi, Lumière! e Paterson, passando por I Am Not Your Negro e Forushande, até Ma vie de Courgette, Elle e Silence, a colheita cinematográfica de 2016 conta com uma série de exemplares extremamente recomendáveis, pontuados por alguma diversidade e oriundos de uma miríade de proveniências. Como é que cada uma destas obras vai enfrentar o teste do tempo? Filmes como La La Land, Hail Caesar! e Lumière! respondem a essa questão com um recuperar das memórias do cinema, enquanto fitas como I Am Not Your Negro, Hidden Figures, Aquarius, Martírio, Moonlight envolvem-se por temas relacionados com os direitos LGBT, as questões raciais, os direitos indígenas, ou a desregulação do mercado imobiliário. E como sobreviverão alguns dos campeões das bilheteiras como Captain America: Civil War e Finding Dory? Ou os grandes vencedores da temporada de prémios? Ou fracassos de crítica e público como Gods of Egypt e Ben-Hur?

30 outubro 2018

Crítica: "The Endless" (O Interminável)

 Pontuado por uma atmosfera que regularmente desperta o receio ou a sensação de que algo nefasto está para acontecer, "The Endless" esgueira-se habilmente pelas margens do drama familiar, do terror, da ficção-científica e das obras que envolvem cultos, enquanto reforça a ideia de que Justin Benson e Aaron Moorhead merecem o nosso interesse e admiração. Esse ambiente misterioso que pontua o filme não é obra do acaso. Uma parte advém do argumento e da ligação que criamos com os personagens. A outra parte remete e muito para o trabalho de Aaron Moorhead na cinematografia e de Jimmy Lavalle na banda sonora, bem como para o labor dos elementos responsáveis pelo design sonoro. Observe-se um plongée absoluto que realça o carro dos protagonistas a percorrer o território, quase que a transmitir a sensação de que estão a ser observados por uma entidade, ou o modo como a iluminação é utilizada para adensar a incerteza em volta de um convívio nocturno, ou a faceta desvanecida das cores que percorrem o âmago do filme, um recurso que sublinha a dubiedade e o cepticismo que envolvem alguns episódios do enredo.

Inseridos de maneira extremamente harmoniosa, a banda sonora e os efeitos sonoros permitem potenciar essa sensação de receio. Note-se como os elementos mencionados sublinham a faceta bizarra de um desenho e o seu significado, ou como uma caminhada solitária de um dos protagonistas ganha uma tensão acrescida devido à utilização precisa desses ingredientes. Diga-se que não estamos perante um filme de sustos avulsos, ou que permite que os mesmos dominem a narrativa. Já "Resolution", com quem "The Endless" partilha o mesmo universo narrativo, era assim, com Justin Benson e Aaron Moorhead a criarem uma espécie de franquia de baixo orçamento que tem na mescla de géneros e no ambiente misterioso alguns dos seus principais atributos. Em "The Endless", a dupla assume o protagonismo quer atrás das câmaras, quer à frente das mesmas, nomeadamente, a dar vida aos dois personagens principais, com quem partilha os nomes próprios. Ou seja, Aaron Moorhead interpreta Aaron, enquanto Justin Benson é Justin, com a dupla de intérpretes a contar com um trabalho eficiente quer a expor as especificidades de cada um dos irmãos, quer a explanar aquilo que os une e separa.

28 outubro 2018

Crítica: "Over the Limit" (2017)

 Como enfrentar a pressão? Será possível que um desportista de alta competição consiga despir a mente e o corpo dos problemas ou das emoções que o rodeiam antes de alguns momentos relevantes da sua carreira? Com acesso privilegiado aos bastidores da caminhada da atleta russa Margarita Mamun rumo aos Jogos Olímpicos de 2016 no Rio de Janeiro, "Over the Limit" coloca-nos diante destas questões, enquanto exibe as inquietações, dilemas, desafios e o enorme talento da ginasta, bem como a larga pressão a que esta estava sujeita. "Não és um ser humano, mas sim uma atleta" diz Amina Zaripova, a treinadora adjunta de Margarita, em um momento onde a jovem ameaça deixar-se controlar pelas emoções. É uma frase que resume paradigmaticamente o rigor inerente ao treino desta atleta especializada em ginástica rítmica, um desporto que exige talento, treino e uma enorme capacidade de sofrimento, uma combinação que nem é sempre fácil de colocar em prática quando se tem apenas vinte anos de idade. Curiosamente, Amina é quase o "polícia bom" da dupla de treinadoras, com a técnica a exibir regularmente uma faceta mais carinhosa e humana junto da ginasta, ainda que a espaços também tenha os seus ataques de fúria.

Se Amina é o Raul José de Jorge Jesus, já Irina Viner assume uma postura que a espaços traz à memória o antigo timoneiro de Benfica e Sporting. Pronta a praguejar como um pirata, dura com os atletas e a roçar uma insensibilidade que faz com que a associemos facilmente ao estereótipo do treinador da União Soviética, Irina Viner quer transformar Margarita Mamun numa máquina de vencer, livre de falhas e de receios. "Vai-te foder, tu e a porra da tua gentileza! Vaca estúpida" vocifera a técnica durante um treino no Rio de Janeiro, na véspera da atleta entrar na competição. A realizadora Marta Prus não julga a treinadora, mas também não matiza os seus comportamentos, enquanto exibe em diversas ocasiões o olhar estupefacto ou simplesmente revoltado de Amina perante as atitudes e as palavras da colega, quase como se esta surgisse como um duplo do espectador. No entanto, embora seja possível questionar estes métodos de treino desumanos, também não deixa de ser notório que estes resultam no contexto de espicaçar a ginasta. Será que os fins justificam os meios? Valerá tudo para desafiar os limites de um atleta e extrair todo o seu potencial? São perguntas que ficam em aberto, com a cineasta a deixar quase sempre que o espectador julgue estas figuras por si próprio, enquanto evita utilizar as imagens que captou para criar um enredo com heróis e vilões.

27 outubro 2018

Crítica: "Fotbal Infinit" (2018)

 A premissa de "Fotbal Infinit" é relativamente simples. Ao ser confrontado com a informação de que Laurentiu Ginghina, o irmão de um amigo, inventou um desporto a partir da alteração das regras do futebol, o realizador Corneliu Porumboiu partiu para Vaslui, a sua terra Natal, acompanhado por uma pequena equipa e imensa curiosidade, tendo em vista a saber um pouco mais sobre o tema. Essa simplicidade é contrastada com a capacidade do cineasta para aproveitar este ponto de partida e as falas do entrevistado para abordar assuntos como as expectativas frustradas, os sonhos por realizar, a burocracia da Roménia, a sensação de imobilidade laboral e a procura de fugir às regras, enquanto se exibe como um excelente entrevistador e co-protagonista. Capaz de fazer as perguntas certas e de captar a realidade de Laurentiu Ginghina, Corneliu Porumboiu conta com algo fundamental para elevar uma entrevista ou um documentário: um entrevistado disponível e interessante. Ginghina expõe diversos pormenores que atribuem vivacidade ao seu discurso, lança-se em quase monólogos que estimulam a nossa curiosidade e a nossa capacidade de imaginar ao mesmo tempo em que demonstra a sua criatividade e obstinação para alterar as regras do futebol ou contribuir para uma espécie de segunda versão deste desporto.

Como surge esta ligação do protagonista ao desporto-rei? Os momentos iniciais do documentário permitem que fiquemos a conhecer um pouco dessa relação, com a figura central de "Fotbal Infinit" a exibir o espaço onde jogava futebol com os amigos durante o Verão e a relatar os episódios que viveu no local, sobretudo um que deixou marcas no seu corpo, em particular, um jogo no qual levou um forte pontapé numa disputa de bola que resultou num perónio partido e na impossibilidade de efectuar os testes para entrar no curso que pretendia. Diga-se que essa lesão contribuiria ainda para outro problema, nomeadamente, uma tíbia partida durante o cumprimento de uma tarefa, um episódio que ocorreu a 31 de Dezembro de 1987, quando esta figura se encontrava a trabalhar numa fábrica. Ginghina relata este acontecimento com detalhe quer através das palavras, quer dos gestos, uma situação particularmente notória quando o encontramos a simular o esforço que teve de fazer para ir a pé do trabalho até casa. É então que "Fotbal Infinit" começa a apresentar-nos as ideias do protagonista para o futebol: o campo perde a sua faceta rectangular e adquire características octogonais, a regra do fora de jogo é repensada, tal como o posicionamento dos jogadores em campo. Todos estes processos têm sido maturados ao longo do tempo e conhecido uma série de avanços e recuos, com estas transformações a estarem umbilicalmente ligadas ao contexto pessoal e profissional de Ginghina. 

25 outubro 2018

Crítica: "Of Fathers and Sons" (2017)

 "O Kathab queria matá-lo. Colocou uma faca no peito do pássaro e ele começou a chiar. Colocámos a cabeça dele para baixo e cortámos, tal como fizeste com aquele homem" diz Osama, um adolescente de treze anos de idade, junto de Abu Osama, o seu pai. O facto de Osama saber que o progenitor cortou a cabeça a alguém e tratar o acto de eliminar a pequena ave como uma brincadeira sublinha e muito o quanto estes elementos estão habituados a lidar com a violência – uma atitude que também remete para o contexto caótico que os rodeia. É Abu Osama e o seu núcleo familiar que ficamos a conhecer em "Of Fathers and Sons", um documentário que se envolve pelo interior de uma família islâmica radical da Síria tendo em vista a captar o quotidiano da mesma e a tentar perceber o que leva alguém a radicalizar-se e a participar num conflito que não parece ter fim à vista. Para ser bem-sucedido nessa tarefa o realizador Talal Derki finge não só que é um repórter fotográfico, mas também que comunga destes ideais radicais – isto enquanto ganha a confiança de Abu Osama, um dos fundadores da Al-Nusra, o "braço" sírio da Al-Qaeda.

Com uma barba farta, crente, conservador nos seus valores, Abu Osama acredita piamente na Xaria e no Califado, é um dedicado pai de família e extremista até ao tutano. Note-se como escolheu os nomes dos seus filhos: Mohammad-Omar em homenagem ao príncipe dos Talibans no Afeganistão; Osama devido ao amor por Osama bin Laden; Ayman em honra do Dr. Ayman Al-Zawari. A felicidade por Mohammad-Omar ter nascido a 11 de Setembro 2007, seis anos após um episódio que o enche de orgulho, também é reveladora do fanatismo deste indivíduo, um pouco à imagem dos seus actos quotidianos. Observe-se quando o encontramos a disparar contra inimigos ou a capturar sunitas em conjunto com outros membros da Al-Nusra, entre outras práticas pontuadas pela violência que marcam as rotinas deste especialista a desarmar armas e a detectar minas. No rádio escuta acima de tudo canções que evocam a sua luta e os seus ideais extremistas, enquanto em casa procura transmitir os seus ideais e valores aos seus filhos. Diga-se que as dinâmicas deste indivíduo com os rebentos e o dia-a-dia dos petizes são alguns dos ingredientes fulcrais do documentário, algo que permite atribuir alguma complexidade a estas figuras.

24 outubro 2018

Crítica: "Les tombeaux sans noms" (2018)

 Rithy Panh sabe utilizar o poder da imagem e da palavra de forma sublime. Se dúvidas existissem, "Les tombeaux sans noms" está aqui para as dissipar por completo, bem como para demonstrar a perícia do cineasta a revisitar as memórias de um passado que ainda se encontra bem vivo no âmago do seu povo. Em determinado momento do documentário encontramos um machado a embater contra uma árvore. Não sai apenas madeira, mas também sangue. É uma maneira simultaneamente poética e dura de Rithy Panh explanar o quanto o território de Trum contém no interior do seu corpo e da sua alma uma série de feridas por sarar. Estas foram abertas pelas várias atrocidades cometidas neste espaço durante o Regime do Khmer Vermelho. Nas suas areias podemos encontrar pedaços de ossos, memórias perdidas, uma certa desilusão e a ilusão de um possível reencontro com os espíritos daqueles cujos corpos foram enterrados em lugar incerto. Foi precisamente para Trum que o cineasta foi deportado em 1976 com a sua família. Onze membros deste núcleo familiar partiram de Phnom Pehn, mas apenas dois elementos sobreviveram, algo que deixou marcas no realizador. Nesse sentido, "Les tombeaux sans noms" resulta em parte da decisão deste regressar ao local para onde foi deportado tendo em vista a efetuar uma busca espiritual e pessoal, enquanto revisita a História do seu país e deste espaço.

No início do filme ficamos perante um ritual que visa um certo contacto com os espíritos. Um contacto que pode ou não acontecer e mexe com o nosso lado mais pragmático, com "Les tombeaux sans noms" a convidar-nos a conhecer uma série de rituais e crenças que remetem não só para a religião, mas também para um profundo desejo de um povo em comunicar com os seus ancestrais, com a sua identidade e sarar feridas profundas. Ao convocar os espíritos, Rithy Panh traz também o passado para o presente. Para isso recorre a entrevistas a alguns dos sobreviventes destes massacres, enquanto exibe ser exímio quer a extrair profundidade do discurso dos entrevistados, quer a utilizar essas palavras bem vivas e descritivas para compelir o espectador a sentir estas memórias quase como se fossem suas. Claro que é impossível de acontecer, até por nunca termos sentido a fome, a dor, a violência e o desespero que estes homens e mulheres sentiram. No entanto, podemos nutrir empatia e perceber o impacto daquilo que visualizamos através destes elementos. As privações, a violência, a morte e o desespero surgem bem patentes nestas falas, bem como a sensação de um certo vazio e uma tristeza própria de quem sentiu na pele as atrocidades cometidas pelos Khmer Vermelhos.

22 outubro 2018

Nove anos de Rick's Cinema

Como explicar a manutenção do Rick's Cinema ao longo de nove anos? A minha estranha paixão pelo cinema está entre os principais motivos, bem como uma enorme vontade de continuar a aprender (seja sobre a Sétima Arte ou a tentar evoluir a nível da escrita), alguma teimosia e a necessidade de me expressar através das palavras escritas. Dessa mistura pouco explosiva resultaram algumas críticas (ou algo que se pareça com isso), diversas entrevistas (uma das quais é o ponto alto destes nove anos de Rick's Cinema), imensas gralhas (as minhas companheiras inseparáveis), erros (os meus compinchas indesejados), alegrias, frustrações (isto nunca vai passar de um hobbie), dúvidas e uma aprendizagem contínua. O grande objectivo passa agora por continuar a manter este espaço até ao décimo aniversário, seja com mais ou menos críticas ou entrevistas. Obrigado a quem tem acompanhado este espaço ao longo deste percurso.

21 outubro 2018

Crítica: "Westwood: Punk, Icon, Activist" (2018)

 Tanto no início como no final de "Westwood: Punk, Icon, Activist" encontramos Vivienne Westwood a exibir algum desconforto ou a apresentar um certo cepticismo em relação aos planos e ideias da realizadora Lorna Tucker para o documentário. Ao entrarmos na página do IMDB do filme somos colocados perante a informação de que a estilista esteve longe de apreciar a obra, algo expresso na sua conta do Twitter: "Lorna Tucker asked to film Vivienne's activism and followed her around for a couple of years, but there's not even five minutes activism in the film, instead there's lots of old fashion footage which is free and available online. It's a shame because the film is mediocre, and Vivienne and Andreas are not". O que não surpreende. Embora contenha informação digna de algum interesse sobre o percurso de Vivienne Westwood, o documentário apresenta uma estrutura algo convencional e pouco estimulante, com estas características a contrastarem de maneira gritante com a primeira. É o "documentário Wikipedia", que procura dizer um pouco de tudo e muitas das vezes acaba por não aprofundar nada, embora a espaços até consiga prender a atenção e expor a relevância da protagonista. No entanto, sabe a pouco, sobretudo quando estamos diante de uma fita sobre uma figura tão icónica e provocadora como Vivienne Westwood. 

Com uma mescla de entrevistas à estilista e a alguns elementos que contactam regularmente com a mesma, vídeos de arquivo (tais como trechos de desfiles), fotografias e momentos filmados durante a elaboração do documentário, "Westwood: Punk, Icon, Activist" aborda diversos episódios de relevo da vida da grande dama do Punk Rock, sejam estes relacionados com a sua curta presença na Faculdade de Arte de Harrow, o casamento e divórcio com Derek Westwood, a união com Malcom McLaren (que viria a ser o seu sócio) e o início da caminhada no mundo na moda (através de uma loja que mudou imensas vezes de nome), as roupas para os Sex Pistols e o seu papel de relevo para a cultura punk. Lorna Tucker inclui ainda elementos sobre a ida da artista para Viena, a colaboração com Andreas Kronthaler (aluno desta e futuro esposo), os revezes, a troça da crítica, o reconhecimento e o sucesso ao ponto desta procurar controlar o crescimento da sua marca, entre outros acontecimentos. Diga-se que as tentativas que a estilista efectua para impedir que a marca fuja ao seu controlo permitem sublinhar a personalidade vincada e os fortes valores desta figura e surgem como alguns dos elementos mais interessantes de "Westwood: Punk, Icon, Activist". 

17 outubro 2018

Crítica: "Paraíso Perdido" (2018)

 A boa notícia sobre as excessivas reviravoltas de "Paraíso Perdido" é que em algumas situações somos surpreendidos pelas mesmas. A má notícia é que essa estupefacção acontece precisamente por não estarmos à espera de algo que ofenda tanto a nossa inteligência. Alguns twists até funcionam, mas a certa altura parece que estamos a entrar no interior de uma paródia cujo objectivo passa pelos personagens terem mais ligações familiares entre si do que as figuras que pontuam a saga "Star Wars". É certo que o romantismo piroso que permeia o ambiente da fita a espaços ajuda a baixar o nosso pragmatismo no que diz respeito às reviravoltas, ou em relação à redundância de alguns diálogos. No entanto, não ajuda a escamotear a superficialidade com que boa parte das temáticas são abordadas ou o modo pouco harmonioso como uma miríade subtramas e figuras são introduzidas e começam a retirar peso umas às outras. O que não deixa de ser uma oportunidade perdida, ou não estivéssemos perante uma obra que conta no elenco com nomes tão talentosos como Júlio Andrade, Marjorie Estiano, Erasmo Carlos, Seu Jorge, entre outros, embora poucos tenham matéria-prima para trabalhar, com a realizadora e argumentista Monique Gardenberg a apostar no estilo e a deixar regularmente de lado a substância.

"Esqueçam a vida lá fora. Esqueçam quem são ou o que voltarão a ser amanhã e sejam felizes aqui, o Paraíso Perdido, o lugar para aqueles que sabem amar", diz José (Erasmo Carlos), o dono do clube nocturno do título. Marcado por uma profusão de luzes de cores que sublinham a multitude de sentimentos que percorrem o seu interior, o estabelecimento surge como um espaço onde o tom vermelho tanto simboliza paixão como perigo, enquanto o azul incute uma certa melancolia e o verde traz a esperança de que alguns personagens podem vir a ser felizes. Após a apresentação, logo ficamos perante Eva (Hermila Guedes), grávida e visivelmente ferida, a cometer um assassinato. Pouco depois, o enredo avança no tempo e somos colocados quer diante de um número musical protagonizado por Imã (Jaloo) no clube nocturno do título, quer do polícia Odair (Lee Taylor) a abordar Teylor (Seu Jorge) numa operação stop. Este último menciona que é cantor e convida o agente da autoridade a assistir a um espectáculo no Paraíso Perdido. Pouco depois, encontramos o polícia a deparar-se com uma agressão a Imã nas imediações do espaço do título e a ser contratado por José para ser segurança do seu neto. E assim ficamos desde cedo perante um dos problemas de "Paraíso Perdido", nomeadamente, a sua incapacidade para deixar os episódios que apresenta respirarem ou ganharem peso no interior do enredo, enquanto somos expostos aos diversos personagens e às diversas ligações que têm entre si.

14 outubro 2018

Crítica: "Nelyubov" (Loveless - Sem Amor)

 Angustiante, emocionalmente devastador e extremamente preciso na abordagem das suas temáticas, "Nelyubov" envolve-nos pelo interior de um matrimónio a conhecer o seu ocaso e de um desaparecimento que traz ao de cima uma série de especificidades da sociedade russa. Diga-se que essas particularidades são reunidas no interior de uma miríade de temas amplamente universais. Um desses assuntos é a alienação no espaço urbano, o isolamento a que estamos sujeitos e ao qual nos sujeitamos, enquanto aceitamos a frivolidade como algo banal e deixamos os sentimentos calorosos à deriva num mar de incertezas. Outro desses temas é a dicotomia entre o ser e o parecer, com a apetência que vários personagens demonstram para captarem uma felicidade artificial ou lampejos de alegria para colocarem nas redes sociais e assim criarem uma imagem radiante das suas pessoas a contrastar com um quotidiano mais cinzento e desprovido de emoção. Uma dessas personagens é Zhenya (Maryana Spivak), uma mulher que se encontra prestes a divorciar de Boris (Aleksey Rozin), de quem tem um filho, Alyosha (Matvey Novikov), um jovem de doze anos de idade.

O ressentimento, a frustração e a aspereza marcam uma fatia considerável das falas trocadas por Zhenya e Boris, com ambos a tentarem livrar-se da responsabilidade de cuidar de Alyosha. Tanto ele como ela encaram o rapaz como um fardo, como um símbolo de uma relação falhada e uma recordação viva de anos que consideram irremediavelmente perdidos, algo que expressam através dos gestos e das palavras. O casal encontra-se ainda a tentar vender a casa, com estes dois personagens a demonstrarem por diversas vezes que não convivem bem com as marcas que produziram durante o tempo em que estiveram juntos. A certa altura do filme, encontramos os dois cônjuges a discutirem, a colocarem em palavras o quanto estão afastados e a exibirem uma notória falta de vontade em permanecerem com a guarda do filho. Se estes fazem questão de se esquecer do rapaz, já a câmara de filmar segue o caminho diametralmente oposto e efectua um desvio que resulta num dos momentos mais poderosos do filme, em que um choro compulsivo é silenciado e abafado, quase que a remeter para a invisibilidade de Alyosha junto dos pais. Matvey Novikov transmite a dor do seu personagem e a falta de calor humano que recebe dos progenitores, com os poucos trechos em que está presente a permitirem expor o efeito que os comportamentos dos pais provocam nos filhos.

13 outubro 2018

Crítica: "Como Fernando Pessoa Salvou Portugal" (2018)

 Com um sentido de humor muito peculiar, uma elegância notória na composição dos planos e um cuidado no figurino que permite transportar-nos para o Portugal do final da década de 20, "Como Fernando Pessoa Salvou Portugal" coloca-nos perante o episódio em que o poeta do título é designado para elaborar um slogan para a Coca-Louca. Nesta fase, o escritor trabalhava numa agência de publicidade e criou o célebre slogan para a Coca-Cola que perdurou no tempo e ainda é recordado, em particular, "Primeiro estranha-se, depois entranha-se". Provavelmente impedido de utilizar o nome da Coca-Cola devido a uma questão de direitos, o realizador e argumentista Eugène Green altera a nomenclatura do produto, mas mantém o seu visual e essência, enquanto aborda, sempre com algum humor à mistura, os motivos que levaram o poeta a criar o slogan, o impacto que este provocou e a procura do Estado em impedir que a bebida chegasse a Portugal. O cineasta expõe estes episódios de forma concisa e leve, enquanto despe praticamente os intérpretes de emoções, coloca-os no centro dos planos (um recurso semelhante ao utilizado em "A Religiosa Portuguesa") e permite que estes sobressaiam, sobretudo Carloto Cotta.

11 outubro 2018

Entrevista a F.J. Ossang sobre "9 Doigts"

 Escritor, músico e cineasta, F.J. Ossang conta com uma série de obras de respeito, tais como "9 Doigts", a sua nova longa-metragem, um noir com ingredientes de aventura marítima. O realizador esteve em Portugal para promover o filme, algo que foi encarado pelo Rick's Cinema como uma oportunidade única para entrevistá-lo. A entrevista decorreu no interior dos escritórios da O Som e a Fúria, a co-produtora da fita, tendo sido marcada pela disponibilidade, simpatia e expressividade desta figura singular do cinema francês. Ossang começou por salientar que fala francês, inglês e espanhol. Ainda sabia falar um pouco da nossa língua, ainda que, como salientou, "em Madrid e sobretudo na América do Sul perdi o meu português" (risos). No entanto a presença nos Açores não foi esquecida, "Fui pela primeira primeira vez aos Açores em 1988. Em 1989 filmei 'Le trésor des îles chiennes', em Cinemascope, a preto e branco. O filme vai ser restaurado. Sou fascinado pelos Açores. A reunião entre os três continentes. Nesses tempos era muito mais difícil do que agora, nomeadamente, do ponto de vista material. Mas fui muito feliz. Então, voltei para os Açores para filmar o meu primeiro filme neste espaço, 'Dharma Guns', também em preto e branco".

Outro dos territórios onde "9 Doigts" foi filmado é Biarritz. Em entrevista ao canal do International Film Festival Rotterdam, F.J. Ossang realçou o clima tempestuoso deste lugar, algo que nos levou a querer saber um pouco mais. De acordo com o cineasta, "Já estava presente no argumento que precisávamos de temperatura de inverno. Por acaso filmámos em Biarritz. O filme entrou em produção e tivemos de começar a filmar rapidamente. Não podíamos perder dinheiro. Nós filmámos duas semanas em França. O tempo era terrível. Para ires de carro de Paris a Biarritz tinhas de fazer três ou quatro quilómetros a mais. As inundações eram imensas. No entanto, a tempestade foi muito boa para o filme". Ainda no campo dos líquidos e da Sétima Arte, decidimos colocar o realizador perante o célebre comentário que efectuou ao À Pala de Walsh, em particular, "o verdadeiro cinema é como gin tónico" e questioná-lo sobre a preparação desta bebida noir com ecos de aventura marítima: "Para mim o bom cinema, aquele que eu gosto, é como um psicotrópico. Coloca-te em outro estado, um pouco como o álcool. Eu gosto bastante de cinema. Algumas boas ideias dos meus filmes resultam frequentemente de beber duas noites. E, depois, começo a escrever (enquanto isso, simula de forma bem viva o processo de escrever). Por vezes, é bom. Desta vez tinha de me apressar, pois tinha uma semana para terminar. Saiu do fundo do coração, da minha alma. Decidi fazer um filme sobre barcos porque sempre fui fascinado pelas histórias do capitão Frederick Marryat e de Joseph Conrad, então no '9 Doigts' existe quase sempre um grande fantasma a um canto, o Marryat".

10 outubro 2018

Crítica: "9 Doigts" (9 Dedos)

 "É preciso uma autoridade! Algo que mande no Tempo, senão o tempo estende-se! Nós é que temos de nos impor a ele!" comenta Ferrante (Pascal Greggory) num estado visivelmente alterado quer pelos revezes de uma viagem que adensa a paranóia, quer pelo álcool que consumiu em excesso. Se este gangster anseia por algo que controle o tempo, já F. J. Ossang demonstra ser exímio nesta tarefa. Hábil a transmitir a rapidez e a intensidade com que os personagens sentem tudo o que ocorre no primeiro acto de "9 Doigts", o realizador é igualmente competente a explanar a lentidão com que as figuras que percorrem o enredo vivem os episódios do segundo e terceiro acto. Essa sensação de tempo está indubitavelmente associada ao espaço. Note-se como no segundo e terceiro acto a presença prolongada de uma parte considerável dos personagens no interior de um barco contribui para exponenciar todo um ambiente de imobilidade e incerteza. Fora do veículo marítimo, em particular, no primeiro acto, tudo decorre com mais ritmo, seja pelas perseguições e fugas, ou pelo contacto de Magloire (Paul Hamy), o protagonista, com o gang liderado por Kurtz (Damien Bonnard). Mais do que tomar a iniciativa dos acontecimentos, Magloire depara-se com uma série de eventos que mexem com o seu quotidiano sem rumo, sobretudo a partir do momento em que encontra um indivíduo prestes a falecer.

O moribundo entrega vinte mil dólares ao protagonista e logo o avisa para fugir. Com mais dinheiro no bolso, Magloire começa a correr desenfreadamente, enquanto é perseguido por um grupo de criminosos. São trechos pontuados por alguma tensão e uma utilização sublime do contraste entre luz e sombras ao serviço do enredo, ou não estivéssemos diante de uma obra marcada por uma série de ingredientes associados aos filmes noir. Não faltam as sombras salientes e vincadas, dignas herdeiras do expressionismo e capazes de adensarem a inquietação e a sensação de malaise, os personagens de moral ambígua, a insegurança no espaço citadino, os ângulos de câmara que acentuam a inquietação, o fumo dos cigarros que exacerba a fugacidade e a transitoriedade da vida. Diga-se que a influência dos noir é notória em diversas situações que parecem surgir como referências a outras fitas, sejam estas menções propositadas ou casuais. Observe-se o aquário que cedo traz "The Lady From Shanghai" à memória, ou uma fuga à "The Third Man", ou uma ameaça atómica que muito tem de "Kiss Me Deadly". Temos ainda um assalto e um grupo de criminosos que faz recordar ao de leve alguns noir franceses, tais como "Rififi", ou diversas fitas de Jean-Pierre Melville. No entanto, pese a miríade de referências que já foram inseridas no texto, "9 Doigts" é filme com vida própria. E que vida estranha e inebriante tem esta obra.

06 outubro 2018

Crítica: "Joaquim" (2017)

 O que leva alguém a desafiar o sistema? Como surge a tomada de consciência de alguém em relação ao mundo que o rodeia? Estas são perguntas a que "Joaquim" procura responder através da figura do título, com Marcelo Gomes a deixar-nos perante um filme sobre o passado e o presente do Brasil. O enredo tem lugar em pleno Século XVIII. No entanto, a sociedade que é apresentada permite que encontremos traços de problemas e especificidades que marcam esta Nação nos dias de hoje, algo particularmente notório quando somos confrontados com a corrupção e as desigualdades promovidas pela Coroa de Portugal no interior do território canarinho. O realizador e argumentista Marcelo Gomes foge aos caminhos fáceis e previsíveis. Não temos uma obra de pendor biográfico que abarca um período alargado da vida de Tiradentes, ou uma representação do mesmo como uma figura messiânica, ou o culminar do enredo com o auge da conhecida Inconfidência Mineira. Marcelo Gomes prefere concentrar as suas atenções num período específico da existência de Joaquim José da Silva Xavier, em particular, os momentos que antecederam a sua tomada de consciência, enquanto efectua um retrato complexo desta personalidade histórica.

Júlio Machado consegue expressar as dúvidas, defeitos, virtudes e contradições do seu Joaquim, um dentista e alferes que tem como principal função capturar contrabandistas de ouro em Minas Gerais. Com longos e descuidados cabelos compridos, muitos deles recheados de piolhos, Joaquim diz que é filho de portugueses, mas sabe que não tem os mesmos benefícios dos mesmos. Essas discrepâncias são desde logo visíveis a partir da figura de Manoel (Miguel Pinheiro), um alferes corrupto que acompanha o protagonista na caça aos contrabandistas e demonstra uma certa sobranceria e desprezo para com este e os locais, tendo mais hipóteses de ser promovido do que o segundo devido a ser português. É um exemplo paradigmático de uma sociedade estratificada e recheada de assimetrias, que promove as desigualdades e parece esquecer-se que contém no seu interior uma enorme diversidade. No topo dos cargos de poder e chefia encontramos os portugueses, sendo seguidos dos brasileiros, enquanto os mestiços ocupam uma posição mais baixa que estes últimos. Por sua vez, os escravos negros e os indígenas são tratados quase como mercadoria, com o argumento a explorar o quanto esta estrutura delineada pelos colonizadores contribui para fomentar as desigualdades e o racismo, algo que, em certa medida, permite efectuar um diálogo com as assimetrias do Brasil de hoje.

03 outubro 2018

Crítica: "Thelma" (2017)

 Drama poderoso e inquietante, que se embrenha pelo terror e a fantasia, "Thelma" deixa-nos perante uma jovem adulta que se encontra a descobrir a sua sexualidade e o seu corpo, a lidar com uma série de sentimentos e sensações contraditórias, bem como a enfrentar o despertar de poderes que se encontravam adormecidos e aparecem ao sabor do desejo, da liberdade e da culpa. O prólogo é fulcral para Joachim Trier marcar o tom enigmático e tenso do filme, com o cineasta a colocar-nos diante de um episódio da infância da personagem do título. No trecho mencionado, encontramos Thelma (Grethe Eltervåg) e o pai no interior de uma floresta recheada de neve, enquanto este se prepara para caçar um cervo. A presença da neve e a profusão de tonalidades frias tanto reforçam a hostilidade do cenário como transmitem uma certa sensação de pureza, algo que contrasta com o casaco vermelho da protagonista, uma cor forte e exacerbadora do perigo, com esta discrepância tonal entre a frieza e o calor a sublinhar o mistério e a sensação de ameaça que rodeiam os momentos iniciais do filme.

Essa ameaça é reforçada quando Trond muda de alvo. Inicialmente focado no cervo, o pai da protagonista desloca o olhar e a espingarda na direcção da filha, um acto que explana de forma paradigmática o desejo de eliminar a petiz. O que leva um pai a ponderar assassinar o seu rebento? É uma pergunta que colocamos e é respondida com o avançar do enredo, sobretudo a partir de uma fase em que ficamos na posse de mais elementos sobre os personagens e o seu passado. O trabalho de Jakob Ihre na cinematografia é essencial para exacerbar a inquietação e mistério que percorrem o prólogo e o restante enredo. Note-se o plano geral que nos deixa diante de Trond, Thelma, o cervo, a neve e a tentação, ou a eficácia com que o director de fotografia realça as cores frias que adensam a hostilidade do território onde se desenrola o trecho inicial do filme. A tonalidade vermelha da roupa de Thelma aparece como um elo de ligação entre o prólogo e o episódio seguinte da fita, nomeadamente, quando ficamos diante da protagonista a deslocar-se até à universidade, onde se prepara para assistir a uma aula.