11 dezembro 2017

Resenha Crítica: "Jackie" (2016)

 "I believe that the characters we read about on the page end up being more real than the men who stand beside us", diz Jacqueline "Jackie" Kennedy (Natalie Portman) a um padre (John Hurt). É uma frase que ecoa ao longo de "Jackie", uma obra cinematográfica que coloca em diálogo os factos e a ficção, a lenda e a realidade, enquanto acompanha a personagem do título nos dias que se seguiram ao assassinato do esposo, o Presidente John F. Kennedy (Caspar Phillipson). O homicídio ocorreu a 22 de Novembro de 1963 e paira por quase todos os poros de "Jackie", com o filme realizado por Pablo Larraín a apresentar uma perspectiva muito particular sobre a forma como Jacqueline lidou com este episódio e os acontecimentos que se sucederam ao mesmo. É um retrato emotivo e profundo, que tem Jackie no seu cerne, com Larraín a explorar questões relacionadas com a construção da imagem, o diálogo entre a lenda e os factos, a dicotomia entre o público e o privado.

Numa fase prematura do filme, encontramos Jackie a receber um jornalista (Billy Crudup) no interior da sua casa, em Hyannis Port, tendo em vista a conceder uma entrevista. Esta conversa surge como ponto de partida para uma série de flashbacks, expostos a partir do ponto de vista de Jackie, que permitem explanar quer o modo como esta viveu os acontecimentos, quer a maneira como pretende que os eventos sejam transmitidos para o público. A câmara é colocada de forma frontal, quase sempre fechada sobre os rostos, pronta a exacerbar os objectivos distintos dos dois personagens e as suas feições, algo adensado pelos diálogos trocados entre ambos. "You understand that I will be editing this conversation? Just in case I don't say exactly what I mean", salienta Jackie num tom de voz glacial, tendo em vista a avisar o seu interlocutor de que ela é que dita as regras. "With all due respect, that seems very unlikely, Mrs. Kennedy", responde o jornalista num tom sarcástico, próprio de quem conhece a fama da entrevistada, embora, aos poucos, seja surpreendido pela mesma.

Jackie utiliza esse poder de veto para evitar que o jornalista insira um trecho em que a protagonista se deixa levar pelas emoções, nomeadamente, após recordar alguns dos momentos que se seguiram ao assassinato do esposo, naquele que é um dos vários flashbacks em que ficamos diante da vulnerabilidade e complexidade desta mulher de personalidade forte. Esse cuidado de Jackie em relação ao discurso e à linguagem, bem como à imagem que passa para a opinião pública é uma das temáticas de relevo deste filme de pendor biográfico. Note-se quando encontramos Jackie a observar-se por diversas vezes ao espelho, a preparar a sua imagem, ou as cenas em que treina afincadamente o discurso e as expressões faciais nos bastidores do "A Tour of the White House with Mrs. John F. Kennedy", um programa televisivo onde apresenta a Casa Branca aos espectadores e exibe toda uma preocupação com a História e a memória. Também Larraín demonstra algum cuidado com o rigor histórico, com o cineasta a filmar o programa a preto e branco, pronto a emular as características e o estilo de "A Tour of the White House with Mrs. John F. Kennedy", enquanto tenta recuperar e explanar a "alma" do período retratado.

"Objects and artifacts last far longer than people, and they represent important ideas in history, identity, beauty", comenta Jackie junto do jornalista, após revisitar alguns momentos do programa que abriu as portas da Casa Branca ao grande público. É uma frase que representa a atenção que a protagonista concede ao legado deixado por aqueles que viveram neste local, entre os quais ela e o esposo, para além de reflectir o cuidado que a então Primeira-Dama teve a redecorar a Casa Branca e a recuperar os objectos que contribuem para atribuir identidade a este espaço que foi a sua casa durante pouco mais de dois anos. Diga-se que a Casa Branca aparece praticamente como uma das protagonistas do filme, com as suas paredes a surgirem como testemunhas e intervenientes de alguns episódios de relevo. Observe-se o momento em que encontramos a câmara a seguir Jackie de noite, a caminhar pelas diversas divisórias deste cenário, vestida com um roupão e de copo na mão, quase como se fosse uma figura espectral, até colocar a música "Camelot" a tocar no gira-discos e começar a debater-se com as suas memórias e os seus problemas.

A música "Camelot" é utilizada de forma marcante em dois momentos do filme, com ambos a remeterem para um certo misticismo, ou para as lendas em volta de John F. Kennedy e daqueles que o rodeavam. O primeiro momento em que Jackie ouve esta música é particularmente marcante quer pela sua carga emocional, quer pela subtileza com que Natalie Portman exprime o turbilhão de emoções que percorre a personagem que interpreta. Portman insere uma mescla de frieza, fragilidade e delicadeza a Jackie, enquanto expõe a complexidade desta figura histórica. É um trabalho notável aquele que Portman efectua a compor a personagem, sempre dotado de alma e sentimento, sem cair no mero mimetismo, embora consiga emular alguns gestos, expressões e modo de falar de Jackie. A câmara de filmar segue regularmente esta personagem, seja a captar o seu rosto em close-ups intensos, capazes de transmitirem o mistério deste ícone mas também as suas emoções, ou em travellings bem arquitectados.

Os close-ups favorecem e muito o trabalho de Portman, enquanto a banda sonora adensa o tumulto interior da então Primeira-Dama, com Larraín a efectuar um interessantíssimo estudo de personagem e a fugir a algumas armadilhas dos filmes de pendor biográfico. O realizador chileno, pela primeira vez a realizar um filme fora do seu país, opta por centrar-se num período circunscrito de tempo, algo que lhe permite desenvolver as temáticas de forma mais aprofundada e explorar o modo muito específico como a protagonista lidou com os episódios que são expostos ao longo do enredo. No fundo, "Jackie" é um filme sobre uma esposa que perdeu o marido, sobre uma mulher que procura paz interior e reencontrar-se com a sua fé, sobre uma mãe que tenta cuidar dos filhos e protegê-los, sobre uma figura pública que sabe o poder da sua imagem, sobre um ícone que pretende vincar o seu lugar e da sua família na História. Portman convence em todas estas facetas, enquanto protagoniza uma série de episódios merecedores de enorme atenção que exacerbam a densidade da figura que interpreta.

Ao longo do filme encontramos Jackie a tentar conduzir a preparação do funeral do esposo e a procurar que o evento se torne memorável, a expor o seu lado mais emotivo e uma frieza glacial, a cuidar dos filhos e a exibir as suas dúvidas junto de um padre, com estes episódios a serem unidos pelo diálogo com o personagem interpretado por Billy Crudup. Esses diálogos são inspirados na entrevista concedida por Jackie a Theodore H. White, da revista "Life", com Crudup a inserir um tom respeitoso e a espaços algo desafiador ao personagem que interpreta. O elenco secundário não tem espaço para criar personagens que cresçam no interior do enredo, embora quase todos deixem alguma marca. Greta Gerwig cumpre como Nancy Tuckerman, a assistente pessoal de Jackie, uma mulher compreensiva e prestável, enquanto Peter Sarsgaard, o actor que dá vida a Robert Kennedy, tem apenas um grande momento, em particular, quando expõe as suas dúvidas em relação ao legado que a sua família vai deixar. Já John Hurt tem alguns diálogos relativamente profundos e sensatos com a protagonista, enquanto John Carrol Lynch transmite a perplexidade de Lyndon Johnson diante dos acontecimentos e da forma abrupta como chega à Presidência dos EUA.

O contexto histórico é abordado a partir da perspectiva de Jackie, enquanto ficamos diante de uma representação bastante cuidada do período. A decoração dos cenários é notável, algo particularmente evidente quando visualizamos a Casa Branca e as suas divisórias, enquanto o guarda-roupa e os penteados também contribuem para Larraín conseguir capturar a atmosfera da época. É praticamente impossível deixar de mencionar o vestido cor de rosa da Channel que Jackie utiliza quando ocorre o assassinato do esposo, uma tonalidade que contrasta com a atmosfera lúgubre do acontecimento, ou as roupas brancas que usa para receber o jornalista. As tonalidades brancas contribuem para o cunho impessoal que Jackie pretende impor à entrevista, embora, por diversas vezes, encontremos esta personagem a expor o seu lado mais vulnerável. Note-se quando encontramos a protagonista com o rosto e as mãos cobertas com o sangue do falecido esposo, enquanto está ao espelho num estado visivelmente fragilizado, ou quando corre para a sala onde JFK está a ser autopsiado e a câmara acompanha a sua agitação.

 Como enfrentar as memórias do assassinato de alguém que nos é muito próximo? Jackie estava ao lado de John F. Kennedy quando o então Presidente foi baleado, com este episódio a ser inserido com acerto no interior do filme e a permitir explanar o trauma que provocou na protagonista e nos EUA. Esta encontra-se a lidar com o luto e o fim dos seus sonhos, com a incerteza após ter procurado controlar tudo aquilo que podia, enquanto enfrenta as suas memórias e os seus sentimentos e tenta nunca perder a perspectiva que é uma figura pública. "Jackie" deixa-nos assim perante as várias dimensões desta mulher que tanto consegue ser sincera como dissimulada, frágil e forte, simples e superficial, algo exposto ao longo desta obra que se embrenha pelos diálogos entre a História e a memória, os factos e a ficção, o poder da imagem e da palavra, sempre tendo Jaqueline Kennedy como figura central e os dias que se seguiram à morte de John F. Kennedy como pano de fundo.

Título original: "Jackie".
Realizador: Pablo Larraín.
Argumento: Noah Oppenheim.
Elenco: Natalie Portman, Billy Crudup, John Hurt, Peter Sarsgaard, Greta Gerwig, John Carroll Lynch, Caspar Phillipson.

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