13 dezembro 2017

Resenha Crítica: "20th Century Women" (Mulheres do Século XX)

Num determinado momento do desenvolvimento de "20th Century Women", Dorothea (Annette Bening), uma das protagonistas, salienta o seguinte em voice-over: "It's 1979. I'm 55 years old, and in 1999, I will die of cancer from the smoking (...) They don't know this is the end of punk. They don't know that Reagan's coming. It's impossible to imagine that kids will stop dreaming about nuclear war, and have nightmares about the weather. It's impossible to imagine HIV, what will happen with skateboard tricks, the internet (...)". É um momento dotado de sensibilidade, que permite expor alguns pormenores sobre o contexto histórico e criar uma sensação de melancolia, ou não ficássemos perante uma demonstração da efemeridade da vida e da puerilidade das nossas certezas em relação ao futuro. Também ficamos diante de uma fala que permite realçar a excelência do argumento de Mike Mills, com o realizador e argumentista a elaborar um filme sensível, delicado, terno e profundamente humano, que valoriza o trabalho dos actores e tem nas dinâmicas entre os personagens um dos seus maiores atributos.

Tal como em "Beginners", Mills volta a inserir elementos autobiográficos no interior do enredo de um filme da sua autoria. Se "Beginners" aborda a "saída do armário" do pai do cineasta, sempre com algum humor e enorme sensibilidade, já o foco de "20th Century Women" está em algumas das mulheres da vida de Mills, tais como a progenitora e as irmãs. Nesse sentido, Jamie (Lucas Jade Zumann), um dos protagonistas, aparece praticamente como o alter-ego do cineasta, enquanto Dorothea surge como uma figura inspirada na progenitora deste último. Dorothea é divorciada, proto-feminista, fuma imenso, gosta de se vestir de forma simples e moderna, aprecia fazer obras em casa e apresenta alguma abertura no relacionamento com Jamie, o seu filho, embora nem sempre esteja certa da sua capacidade para educar o rebento. Annette Bening incute complexidade, carisma e personalidade a esta personagem, com a actriz a colocar em evidência o sentido de humor, a sagacidade e inteligência desta mulher que tenta reprimir as suas fraquezas e a solidão.

A ligação entre Dorothea e Jamie é um dos ingredientes essenciais do filme, com a progenitora a ter um papel fulcral na formação do jovem. Diga-se que essa proximidade entre mãe e filho é visível não só nos episódios que protagonizam, mas também na forma como falam um sobre o outro em voice-over. A narração em off surge como um elemento fulcral não só para transmitir informação sobre os protagonistas e o contexto, mas também para criar uma sensação de empatia entre o espectador e os personagens, com Mills a fazer com que nos transformemos praticamente em confidentes dos mesmos, enquanto nos transporta para o interior de um universo narrativo marcado por um adolescente que se encontra a formar a sua personalidade e as mulheres que marcam esta fase da sua vida, nomeadamente, Dorothea, Abby (Greta Gerwig) e Julie (Elle Fanning). Todas são personagens bem construídas e dotadas de personalidade, contam com dinâmicas extremamente convincentes, representam gerações distintas e permitem que as suas intérpretes sobressaiam.

 Dorothea nasceu na década de 20 do Século XX, lidou com o contexto da Grande Depressão e a II Guerra Mundial, é fã de Humphrey Bogart e teve o filho aos quarenta anos da idade. Julie tem dezassete anos de idade, uma personalidade rebelde, trabalha numa loja e conta com uma relação de grande afinidade e amizade com Jamie. Estes reúnem-se regularmente no quarto do adolescente, embora não namorem, com Julie a não pretender estragar a amizade que os une, algo que apoquenta o protagonista. Elle Fanning imprime uma faceta simultaneamente madura e inexperiente a esta personagem, com a intérprete a contar com uma química convincente com Lucas Jade Zumann. Outra mulher que conta com enorme relevância na formação deste jovem é Abby, uma apreciadora de música punk que dança quando está triste. Os seus cabelos vermelhos exacerbam a sua faceta instável, rebelde e peculiar, com Greta Gerwig a imprimir uma mescla de fragilidade e força a esta feminista que tanto consegue provocar o nosso sorriso como despertar comoção, que se encontra a recuperar de um cancro no colo do útero, é viciada em fotografia e habita como inquilina num quarto da casa de Dorothea.

Quem também é um inquilino na habitação de Dorothea é William (Billy Crudup), um mecânico e carpinteiro que conta com uma personalidade calma e insere-se na perfeição no interior deste universo narrativo pontuado por personagens femininas fortes. Estas contam com uma preponderância notável no quotidiano e na formação de Jamie, um adolescente que se encontra em plena transição para a idade adulta e a lidar com os sentimentos muito próprios desta fase. Num determinado momento do enredo, Dorothea pede a Abby e Julie que a ajudem a cuidar do filho, algo que exibe uma certa dificuldade desta mulher em lidar com as transformações do jovem, com as dinâmicas destes personagens a contarem com uma certa dose de complexidade. Zumann imprime uma personalidade sensível a este jovem que se está a afirmar, a formar a sua personalidade e os seus gostos, com o intérprete a surgir como um dos elementos em maior destaque ao longo da obra, ou Jamie não estivesse a atravessar um período marcante da sua existência e a desfrutar da época em que vive.

O enredo tem como pano de fundo o ano de 1979, com os pormenores sobre o contexto a serem inseridos de forma homogénea e criativa no interior da história, seja através da narração em off, ou simplesmente nos gostos dos personagens e nas suas dinâmicas, ou em imagens de arquivo e notícias, ou nos espaços frequentados por estes elementos. Observe-se os bares que contam com música típica deste período, ou o momento em que um grupo se reúne na casa de Abby para ouvir o discurso de Jimmy Carter sobre a "crise de confiança". A decoração dos cenários, a banda sonora, o guarda-roupa e os penteados remetem e muito para a época, embora as temáticas abordadas ao longo do filme contem com uma universalidade e actualidade notórias. Não faltam os choques de gerações, a relação entre uma mãe e o seu filho, a transição de adolescentes para a idade adulta, a sexualidade, a maternidade, as desilusões amorosas, entre outras que são desenvolvidas de forma sensível e delicada, sempre com algum humor à mistura.  

A informação sobre os diversos personagens é exposta de forma gradual, por vezes com recurso a flashbacks, com a interacção entre estas figuras a permitir explorar as dinâmicas entre os intérpretes e colocar em evidência o refinamento do argumento de Mills. A certa altura de "20th Century Women", encontramos Abby a salientar o seguinte: "Whatever you think your life is going to be like, just know, it's not gonna be anything like that", algo que exprime paradigmaticamente as surpresas que o destino pregou a esta personagem. Diga-se que é um comentário que também se aplica às obras cinematográficas, inclusive naquilo que diz respeito ao filme em análise. Esperamos um drama rotineiro, mas aquilo que Mills efectua é uma obra plena de coração e sentimento, dotada de humanidade e sensibilidade, que desperta sorrisos, melancolia, tristeza e aquece a alma, enquanto deixa as suas actrizes brilharem e os seus actores sobressaírem. A cereja no topo do bolo é a entrada em cena da canção "As Time Goes By" e a certeza que fomos atingidos que nem uma flecha por este magnífico filme. 

Título original: "20th Century Women".
Título em Portugal: "Mulheres do Século XX".
Realizador: Mike Mills.
Argumento: Mike Mills.
Elenco: Annette Bening, Lucas Jade Zumann, Elle Fanning, Greta Gerwig, Billy Crudup.

1 comentário:

Unknown disse...

Muito bom filme, de fato. A forma com que Mills decide fazer narrativas que aludam ao futuro e não ao passado- apesar de já terem se concretizado para nós do séc. XXI- transforma as próprias personagens em um filtro de nostalgia happy/sad. Algo muito claro na progenitora é a sinceridade com que trata as coisas, o que só é realçado quando narra o fim da própria vida; quase como se dissesse "não tem nada na morte de que me envergonhar". E em grande contraste tem-se a personagem de Zumann, que é sempre pego entre confusão e entendimento do mundo e, ao contrário da mãe, se expressa por ações.
Concordo plenamente quanto à profundidade concedida a cada um, pois percebi, ao final do filme, que a "flecha" só é capaz de nos atingir pelo fato de que testemunhamos vidas completas no filme, não só de cinco pessoas, mas de várias gerações conflitantes e congruentes.