05 dezembro 2017

Crítica: "Teströl és lélekröl" (Corpo e Alma)

 O amor pode muitas das vezes ser encontrado nos locais mais improváveis, que o digam Endre (Géza Morcsányi) e Mária (Alexandra Borbély), a dupla de protagonistas de "Teströl és lélekröl", um filme terno, belo, delicado e peculiar, que é capaz de contrastar a frieza e a crueza de um matadouro com os sentimentos calorosos que marcam o iniciar de uma relação que floresce de modo invulgar. Os sonhos são o palco privilegiado para estes dois personagens soltarem os sentimentos e iniciarem uma relação de proximidade que começa progressivamente a encontrar paralelo na realidade. Demora algum tempo a florescer, é certo, mas aos poucos começamos a perceber que existe alguma coisa muito especial e profundamente humana a rodear a relação de Endre e Mária, algo desenvolvido com enorme sensibilidade pela realizadora e argumentista Ildikó Enyedi.

A cineasta dota estes personagens de espessura, de pequenos traços que gradualmente ganham enorme relevância, de alguns gestos que contribuem para a empatia que formamos com os mesmos, ou para a interpretação que efectuamos dos episódios que estes protagonizam. A realizadora desenvolve a personalidade destes elementos com conta, peso e medida, para além de estabelecer com acerto as suas rotinas no local de trabalho. O trabalho de Máté Herbai na cinematografia permite realçar a faceta fria e algo impessoal de alguns espaços do matadouro, com o tom vermelho do sangue, pronto a realçar a morte, a contrastar com as cores mais esbatidas deste espaço. A morte é presença regular neste cenário, com "Teströl és lélekröl" a não poupar em um ou outro momento que a espaços revira o nosso estômago, seja quando uma vaca é decapitada ou encontramos as peças de carne a serem cortadas. Diga-se que este é um filme de contrastes, com a crueza do fim da vida a ser colocada em diálogo com a candura dos sonhos da dupla de protagonistas, ou de alguns momentos que estes partilham.

Mária chegou recentemente ao matadouro para trabalhar temporariamente como técnica de controlo de qualidade. A sua timidez e rigidez é confundida com arrogância, embora, aos poucos, seja notório que padece de problemas de confiança e sofre de síndrome de Asperger. Alexandra Borbély incute uma enorme candura a esta personagem, enquanto transmite as suas dificuldades a contactar com outras pessoas, tanto a nível do diálogo como do contacto corporal. Existe imensa sensibilidade quer no trabalho de Borbély, com a actriz a incutir inicialmente uma falsa inexpressividade à personagem, quer na forma meticulosa como esta condição neurológica do espectro autista é retratada. Este síndrome afecta a vida pessoal e profissional da protagonista, algo notório quando a encontramos a não conseguir inicialmente manter uma conversa com Endre, o director financeiro deste matadouro. Géza Morcsányi insere uma faceta confiável e respeitável a este personagem, um indivíduo simples nos seus gestos, ponderado nas suas acções e no seu tom de voz, que conta com um estatuto de peso no interior deste espaço.

O braço esquerdo de Endre está incapacitado, algo que limita alguns dos seus movimentos, mas não o impede de trabalhar, ou o florescer dos sentimentos. A química entre Morcsányi e Borbély é significativa, com ambos a conseguirem transmitir a confiança que se estabelece paulatinamente entre os personagens que interpretam e os sentimentos que começam a formar um pelo outro. Durante o dia tardam em conseguir entrar abertamente em contacto, mas ao longo da noite algo de estranho acontece: começam a sonhar que são cervos que estão numa floresta. Enyedi coloca os sonhos e a realidade em diálogo, com os primeiros a representarem e muito os desejos contidos dos protagonistas. A partir do momento em que descobrem que partilham os sonhos, Mária e Endre começam a protagonizar alguns episódios que variam entre a leveza, o romance e o drama, bem como a formar laços e a criar uma ligação que nos faz torcer para que sejam felizes. Diga-se que ambos vivem sozinhos e são figuras algo solitárias, sobretudo Mária, com Borbély a explanar com enorme eficiência as tentativas desta mulher para tentar ultrapassar a sua inabilidade para comunicar.

 A certa altura de Teströl és lélekröl" encontramos Mária a tentar adaptar-se ao toque, a ouvir música e a observar outros seres humanos a interagir, tendo em vista a procurar conseguir expressar os seus sentimentos. A canção que esta ouve é "What He Wrote", cuja letra e ritmo transmitem uma sensação de melancolia e tristeza, ou seja, sublinham os seus sentimentos, enquanto ficamos diante de mais alguns traços da personalidade desta personagem inteligente, complexa e extremamente intrigante. Os seus longos cabelos loiros despertam a atenção, bem como a sua rigidez e a sua capacidade de memorizar, com Borbély a compor uma personagem dotada de dimensão. A atenção que Enyedi concede ao quotidiano no matadouro permite ainda que diversos personagens secundários alcancem algum destaque, tais como Jenö (Zoltán Schneider), o chefe de recursos humanos, um indivíduo com pouca confiança na esposa, também ela uma trabalhadora neste espaço, ou Sanyi (Ervin Nagy), um funcionário recém-contratado que apresenta uma atitude extrovertida e insolente.

 No cerne do filme estão Mária e Endre, dois protagonistas que despertam empatia e conquistam a nossa atenção, sobretudo a partir do momento em que percebemos que existe uma estranha ligação entre ambos que se forma no interior dos sonhos, quase como se as suas almas entrassem em contacto. A escolha do cervo não parece ter sido ao acaso, ou não estivéssemos perante um animal que simboliza alguns traços da personalidade dos protagonistas, tais como a solidão e a melancolia, para além de realçar a fecundidade, renascimento e temor, com a entrada em cena destas espécies a trazer um tom onírico a esta belíssima obra cinematográfica. Com uma enorme atenção aos gestos e aos olhares, ao Sol que brilha e aos sentimentos que florescem, "Teströl és lélekröl" é um pedaço encantador de cinema, simultaneamente estranho, romântico, cru e poético, com Ildikó Enyedi a realizar uma das grandes obras cinematográficas a estrearem comercialmente em Portugal em 2017.

Título original: "Teströl és lélekröl". 
Título em Portugal: "Corpo e Alma". 
Realizadora: Ildikó Enyedi.
Argumento: Ildikó Enyedi.
Elenco: Géza Morcsányi, Alexandra Borbély, Zoltán Schneider e Ervin Nagy.

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