07 dezembro 2017

Crítica: "Night Shift" (1982)

 A premissa de "Night Shift" é absurda, mas relativamente bem aproveitada, com a simplicidade do argumento a ser compensada pela ingenuidade que marca os diversos episódios do enredo e pelas interpretações de Michael Keaton, Henry Winkler e Shelley Long. Qual é a premissa? Dois empregados de uma morgue resolvem envolver-se pelos meandros do proxenetismo, com a dupla a utilizar o local de trabalho para efectuar negócios. A ideia do espaço de uma morgue nova-iorquina como centro de operações para um negócio ligado ao proxenetismo tem tanto de desconcertante como de apelativa, algo exacerbado pelos episódios rocambolescos que são vividos pelos personagens principais. Ambos são inexperientes, não calculam os sarilhos em que se estão a meter e encaram o negócio com uma leveza que exprime paradigmaticamente o tom naïf desta obra cinematográfica.

Não existe qualquer tentativa de entrar pelos meandros do drama social, ou de abordar com aspereza o lado negro da prostituição e a imoralidade do proxenetismo, embora estes sejam mencionados, com "Night Shift" a colocar-nos diante de uma realidade que apenas existe no interior desta obra cinematográfica. É certo que logo no início do enredo somos colocados diante do assassinato de um proxeneta, mas o choque e a violência raramente são sentidos ao longo do filme, embora sejamos capazes de acreditar nos personagens e nos seus sentimentos. Os dois trabalhadores da morgue são Chuck (Henry Winkler) e Bill Blazejowski (Michael Keaton), uma dupla de personalidade bastante distinta. Winkler exacerba o lado introvertido, contido e polido do seu personagem, um antigo corretor da bolsa de valores que se encontra noivo de Charlotte (Gina Hecht), uma mulher algo frígida e pouco dada a conseguir conter o seu gosto por doces. Se Hecht imprime um estilo frio a Charlotte, já Keaton (no seu primeiro papel de relevo numa obra cinematográfica) insere uma personalidade extrovertida, intensa, faladora e peculiar a Bill, o novo colega de turno de Chuck. 

Entre Bill e Chuck forma-se uma amizade improvável, com Keaton e Winkler a exibirem dinâmicas convincentes, enquanto protagonizam uma série de situações peculiares e dotadas de algum humor. Observe-se o momento em que encontramos Bill e Chuck a tentarem explicar o seu método de trabalho às prostitutas, ou um episódio deveras caricato no último terço que envolve a presença dos protagonistas no interior de um clube nocturno que se encontra decorado como se fosse uma selva pré-histórica. A entrada de Chuck e Bill no mundo do proxenetismo remete para o assassinato que ocorre no início de "Night Shift", com esta morte a levar a que Belinda (Shelley Long), uma prostituta, fique sem o seu "pimp". Esta situação conduz a um dos grandes problemas do filme: alguns personagens encararem o proxeneta como uma figura "protectora". É problemático e falso, mas é abordado de forma tão ingénua, leve e caricatural que a espaços resulta no interior do enredo, sobretudo se encararmos que Chuck começa a desenvolver uma paixoneta por Belinda e quer efectivamente proteger estas mulheres.

A química entre Winkler e Long é fulcral para as cenas entre Chuck e Belinda funcionarem, com a dupla a protagonizar alguns momentos pontuados pela comédia, romance e alguma ternura. A atracção é mútua, algo adensado pelo facto de habitarem no mesmo prédio e chegarem a casa à mesma hora, com a relação destes personagens a ser trabalhada de forma simples, previsível e eficiente. Algumas reviravoltas e revezes são esperados, tais como os problemas no interior da relação de Chuck e Charlotte, enquanto assistimos aos imbróglios protagonizados por estes personagens, com Ron Howard, na sua segunda longa-metragem como realizador, a desenvolver uma comédia bastante eficaz a cumprir os seus propósitos, ou seja, proporcionar algumas doses de escapismo. A banda sonora capta na perfeição esta atmosfera delirante e muito "anos 80", enquanto o elenco exibe um domínio notório dos ritmos do humor e conta com dinâmicas que elevam os episódios protagonizados pelos personagens deste filme despretensioso, leve e extremamente divertido. 

Título original: "Night Shift".
Título em Portugal: "Turno da Noite".
Realizador: Ron Howard.
Argumento: Lowell Ganz e Babaloo Mandel.
Elenco: Henry Winkler, Michael Keaton, Shelley Long, Gina Hecht.

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