18 dezembro 2017

Crítica: "I Am Not Your Negro" (2016)

 As palavras de James Baldwin são cruciais para o realizador Raoul Peck abordar temáticas relacionadas com as questões raciais ao longo de "I Am Not Your Negro". Em 1979, Baldwin encetou um projecto complexo, nomeadamente, contar a História dos EUA a partir da vida e dos assassinatos de Medgar Evers, Malcolm X e Martin Luther King, Jr., três defensores dos direitos dos negros. O manuscrito que nunca chegou a ser concluído conta com trinta páginas e o título "Remember This House", com as suas palavras a serem expostas com alma e convicção por Samuel L. Jackson e a surgirem como ponto de partida e fio condutor do documentário. A narração é essencial para atribuir voz ao escritor, bem como para transmitir a sensação de que este se dirige directamente ao espectador, enquanto os seus escritos são acompanhados por fotografias, vídeos de arquivo e trechos de filmes. Ao longo do documentário somos ainda brindados com fragmentos de entrevistas concedidas por Baldwin e de participações deste em conferências e debates, com o material de arquivo a permitir desenvolver ou reforçar as ideias colocadas em "Remember This House" e apresentar o autor e alguns dos seus pensamentos.

O material de arquivo é utilizado de forma pertinente, dinâmica e estimulante, tal como a informação que permite ligar o presente e o passado, com "I Am Not Your Negro" a colocar os dois tempos em diálogo e a demonstrar que muito está por resolver e discutir. "History is not the past. It is the present. We carry our history with us. We are our history (...)", salienta Baldwin no manuscrito, um pensamento que é reforçado pelo documentário e por outras palavras do escritor: "The story of the Negro in America is the story of America". A escravatura e a segregação são temáticas abordadas ao longo do documentário, tal como a forma como a imagem do negro foi construída na cultura popular (seja no cinema, na televisão, ou em anúncios), a inoperância dos políticos e as medidas que contribuem para as desigualdades, com os negros a carregarem na pele a discriminação sofrida ao longo da História. Essa intolerância é exposta em diversos momentos do filme, seja através de actos claros de racismo, tais como a discriminação cometida sobre Dorothy Counts, em 1957, ou de imagens aparentemente inócuas que exacerbam os estereótipos e o preconceito.

Dorothy Counts é uma afro-americana que tinha quinze anos quando entrou numa escola situada em Charlotte, na Carolina do Norte, que era frequentada apenas por brancos. Peck exibe uma fotografia da época, a preto e branco, na qual observamos o rosto de Dorothy em destaque, enquanto um jovem efectua um gesto de chifres com as mãos, tendo em vista a insultar a adolescente. Pouco depois, o cineasta exibe a restante fotografia e encontramos uma turba a insultar a rapariga. A fotografia é acompanhada por mais imagens de protestos da época, em que o racismo de uma parte considerável da população é visível, com Peck a colocar o material que tem à disposição em diálogo e a expor o ambiente deste período. Diga-se que as fotografias da adolescente a ser insultada compeliram Baldwin a sair de França e a regressar aos EUA: "I could simply no longer sit around Paris, discussing the Algerian and the Black American problem. Everybody else was paying their dues, and it was time I went home and paid mine". Esta é uma das muitas falas que permitem dar a conhecer não só o contexto, mas também alguns fragmentos das ideias e da personalidade de Baldwin, algo exacerbado pelas imagens de arquivo que contribuem para conceder uma imagem e protagonismo ao escritor.

Baldwin descreve-se como "testemunha" dos acontecimentos e das figuras que o rodeiam, entre as quais Malcom X, Martin Luther King, Jr. e Medgar Evers, três ícones com quem partilha preocupações e a defesa dos direitos dos negros, enquanto expõe aquilo que unia e separava estes elementos. O discurso pacificador de Martin Luther King Jr. é contrastado com o estilo mais afoito de Malcom X, enquanto Medgar Evers era um respeitado membro da NAACP. Baldwin demonstra uma admiração notória pelo trio, um sentimento evidenciado em diversos comentários, enquanto aborda uma série de questões raciais que envolvem a História dos EUA e a sua vida pessoal. Veja-se quando menciona alguns episódios da juventude e salienta que "In these days, no one resembling my father has yet made an appearance on the American cinema scene.", algo que reflecte a falta de representação do negro no cinema. Diga-se que Baldwin ainda acrescenta: "No, it's not entirely true. There were, for example, Stepin Fetchit and Willie Best and Mantan Moreland, all of whom, rightly or wrongly, I loathed. It seemed to me that they lied about the world I knew, and debased it, and certainly I did not know anybody like them, as far as I could tell", uma situação que espelha outra das temáticas do filme, nomeadamente, a representação dos negros na cultura popular.

Não faltam trechos de filmes e comentários sobre cinema, seja para expor a forma estereotipada como os negros foram representados, ou como algumas obras começaram a apresentar um retrato diferente dos mesmos. Veja-se o caso de "Imitation of Life" (1934), que aborda precisamente o preconceito de uma jovem afro-americana, de pele bastante clara, em relação à sua raça. Temos ainda a reunião de uma série de anúncios onde os negros são representados como empregados de limpezas, criados, ou funcionários do McDonald's, com esta imagética a contribuir para exacerbar o preconceito e os estereótipos. A acompanhar de forma mordaz estes anúncios encontra-se a música "Black, Brown and White", uma canção que toca nas questões raciais, sobretudo no que diz respeito à intolerância para com os negros. A banda sonora é utilizada com acerto, tal como as imagens contemporâneas que dialogam com o passado. Observe-se as fotografias da repressão policial, ou os protestos do movimento "Black Lives Matter", ou os discursos de arrependimento dos políticos.

A chegada de Obama ao cargo de Presidente também é mencionada através de algumas imagens que ilustram o feito e reforçam a incapacidade do primeiro para resolver os problemas relacionados com a discriminação racial. Diga-se que as preocupações de Baldwin em relação ao futuro do seu país continuam assustadoramente actuais, com o escritor a tocar por diversas vezes com o dedo na ferida. Também Peck participa neste debate, sobretudo a partir da escolha e da reunião de imagens, algo que enriquece o documentário. Veja-se a forma como "The Land We Love" (1960), um filme do Governo dos EUA, pronto a exibir as características fantásticas do território, é contrastado com a violência dos protestos de Watts, em Los Angeles, em 1965. Se "The Land We Love" coloca-nos perante a versão da realidade que o Governo quer dar a conhecer, já os trechos do protesto demonstram uma situação bem mais complexa. Peck coloca assim o passado e o presente em diálogo, expõe o racismo e as questões raciais nos EUA, apresenta a eloquência de James Baldwin e a profundidade dos seus pensamentos, exibe um notável trabalho de pesquisa e demonstra uma enorme arte a reunir o material que preparou para a elaboração deste documentário dotado de pertinência, relevância e uma actualidade assustadoramente surpreendente.

Título original: "I Am Not Your Negro".
Título em Portugal: "I Am Not Your Negro - Eu Não Sou o Teu Negro".
Realizador: Raoul Peck.
Escrito por James Baldwin.
Montagem: Alexandra Strauss.
Narração: Samuel L. Jackson.

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