14 dezembro 2017

Crítica: "A Floresta das Almas Perdidas" (2017)

 "Qualquer um que vem para aqui vem por um motivo, até eu e tu", comenta Carolina (Daniela Love) junto de Ricardo (Jorge Mota), em plena Floresta das Almas Perdidas. Ela é uma jovem adulta. Ele conta com os seus cinquenta e poucos anos. Ambos encontram-se neste local para supostamente cometerem suicídio e surgem como os personagens mais marcantes de "A Floresta das Almas Perdidas", a primeira longa-metragem realizada por José Pedro Lopes. O título remete para um espaço onde diversas pessoas cometem suicídio, algo demonstrado logo no início do filme, quando encontramos Irene (Lília Lopes) a terminar com a sua vida. A morte desta personagem é um acontecimento que reverbera ao longo da película, sobretudo a partir do momento em que conhecemos alguns dos familiares da falecida, para além de permitir expor a faceta lúgubre deste local dominado pelas dicotomias.

Nunca sabemos ao certo onde fica situado o local do título, algo que adensa o mistério em volta do mesmo. É um espaço algo opressivo, onde a luz e a sombra convivem, tal como a vida e a morte, as certezas e as incertezas, que conta com diversos elementos que exacerbam o negrume e o terror que envolve o enredo, seja um boneco pendurado, ou uma seta a apontar para o caminho dos suicídios. O facto de "A Floresta das Almas Perdidas" ser filmado a preto e branco permite adensar as dicotomias deste cenário e a sua atmosfera misteriosa, seja quando encontramos Irene neste local, ou Carolina e Ricardo, uma dupla de personalidade distinta. Daniela Love conta com uma dinâmica convincente com Jorge Mota, algo que transparece na relação dos personagens que interpretam, com o paternalismo e a afabilidade de Ricardo a contrastar com a faceta desprendida e sardónica da jovem. A dupla protagoniza alguns momentos pontuados pelo bom humor, mas também pela tristeza e pessimismo, com José Pedro Lopes a inserir uma miríade de registos no interior do filme e a permitir que os dois intérpretes sobressaiam.

Daniela Love imprime uma faceta mordaz, aparentemente confiante e hipster à personagem que interpreta, uma jovem algo imatura e carismática, que a partir de um determinado momento do filme começa a surpreender-nos e a exibir um lado distinto. Por sua vez, Jorge Mota insere um tom experiente, desolado e caloroso a Ricardo, um indivíduo que conta com problemas familiares e sofreu recentemente uma enorme desilusão. A entrada em cena de Carolina mexe com o veterano e o enredo. "Hey! Um pouco de privacidade, não? Uma floresta tão grande e tinhas que vir para o meu sítio" grita a jovem a partir do fora de campo, até surgir com o seu estilo extrovertido, pronta a alterar por completo o rumo da história. Ela traz comida de bebé, tem tudo planeado para o suicídio, apresenta uma confiança surpreendente e fuma imenso (um vício que adensa as suas características enigmáticas). Ele aparece acompanhado por uma faca e um mar de incertezas, sobretudo a partir do momento em que encontra Carolina, uma jovem que lhe traz a filha à memória.

Tudo muda quando ocorre um homicídio e "A Floresta das Almas Perdidas" apresenta-nos a uma das suas muitas das faces e a uma das suas duas grandes reviravoltas. A faceta slasher do filme emerge das profundezas, a morte chega sem aviso e a banda sonora acompanha os ritmos intensos deste episódio-charneira. A banda sonora exibe a mescla de influências e de tons de "A Floresta das Almas Perdidas". Tanto encontramos ritmos que evocam os filmes de John Carpenter (o momento em que Irene tomba na água do lago é um exemplo paradigmático) como as fitas asiáticas (o trecho em que Carolina apanha uma sombrinha), ou as obras de Dario Argento (os sons bem vivos, intensos e desconcertantes, por vezes a trazer "Suspiria" à memória), com esta reunião de estilos a enriquecer e muito a narrativa. A influência asiática é ainda visível numa reviravolta inspirada em "Audition", de Takashi Miike, algo reforçado pelo realizador em entrevista ao Sapo, bem como no facto deste espaço florestal ser claramente baseado na Floresta de Aokigahara.

O cenário do título conta com um passado macabro associado ao Estado Novo, quando os idosos e os inválidos eram abandonados para morrer neste local afastado de tudo e todos, com o argumento a conceder alguma informação que não só deslinda um pouco as "raízes" da floresta, mas também potencia as características pouco apolíneas da mesma e de alguns episódios da nossa História. A saída temporária deste cenário surge como uma consequência de um twist que altera o rumo do filme e a nossa percepção sobre os personagens. A mudança é brusca e pode dividir opiniões, um pouco à imagem de "Survivalismo", uma curta de José Pedro Lopes que conta com uma reviravolta que mexe com o espectador e o enredo. No caso de "A Floresta das Almas Perdidas", o cineasta leva-nos ao engano, a acreditar nas dinâmicas entre dois personagens e a afeiçoar-nos aos mesmos, até partir para a matança. Pelo meio são abordadas temáticas relacionadas com a solidão, as relações familiares, o luto e o sentimento de perda - umas com mais profundidade do que outras -, que permitem incutir conteúdo a uma obra cinematográfica que é bastante concisa e conta com alguns enigmas.

 Quais as razões para estes crimes serem cometidos? Nunca recebemos uma explicação cabal, algo que incrementa o mistério em volta desta figura que consegue surpreender-nos até nos momentos finais do filme, com Daniela Love a estar imensas vezes em destaque. Se a actriz e Jorge Mota contam com desempenhos assinaláveis e conseguem compor personagens dignos de atenção, já o restante elenco não consegue sobressair ao mesmo nível da dupla, ou ter espaço para desenvolver as figuras a quem dão vida. Veja-se o caso dos familiares de Ricardo, ou o pouco desenvolvimento da relação conturbada entre uma filha e a sua mãe. No final fica a ideia de que muito foi conseguido e de que mais poderia ser alcançado, com "A Floresta das Almas Perdidas" a contar com quase tudo para tornar-se num filme de culto do cinema português. A protagonista é carismática, o mistério e a tensão são sentidos, o cenário do título é utilizado com eficácia, os planos compostos com cuidado, a fotografia a preto e branco atribui uma dimensão acrescida aos acontecimentos, enquanto a mescla de géneros é feita de forma feliz e o enredo prende facilmente a atenção.

 "A tristeza durará para sempre" é uma frase que marca "A Floresta das Almas Perdidas", embora esta certamente não se aplique aos vários dos envolvidos no filme, já que para esses o futuro parece ser bastante risonho.

Título original: "A Floresta das Almas Perdidas".
Realizador: José Pedro Lopes.
Argumento: José Pedro Lopes.
Elenco: Daniela Love, Jorge Mota, Lília Lopes, Mafalda Banquart, Tiago Jácome, Débora Ribeiro.

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