19 dezembro 2017

Mini-pausa natalícia

A partir de hoje o Rick's Cinema inicia a sua habitual mini-pausa natalícia. O regresso está marcado para Janeiro de 2018, com textos sobre "Get Out", "Silence", "Neruda", "The Party", entre outros. Bom Natal e Boas Entradas.

18 dezembro 2017

Crítica: "I Am Not Your Negro" (2016)

 As palavras de James Baldwin são cruciais para o realizador Raoul Peck abordar temáticas relacionadas com as questões raciais ao longo de "I Am Not Your Negro". Em 1979, Baldwin encetou um projecto complexo, nomeadamente, contar a História dos EUA a partir da vida e dos assassinatos de Medgar Evers, Malcolm X e Martin Luther King, Jr., três defensores dos direitos dos negros. O manuscrito que nunca chegou a ser concluído conta com trinta páginas e o título "Remember This House", com as suas palavras a serem expostas com alma e convicção por Samuel L. Jackson e a surgirem como ponto de partida e fio condutor do documentário. A narração é essencial para atribuir voz ao escritor, bem como para transmitir a sensação de que este se dirige directamente ao espectador, enquanto os seus escritos são acompanhados por fotografias, vídeos de arquivo e trechos de filmes. Ao longo do documentário somos ainda brindados com fragmentos de entrevistas concedidas por Baldwin e de participações deste em conferências e debates, com o material de arquivo a permitir desenvolver ou reforçar as ideias colocadas em "Remember This House" e apresentar o autor e alguns dos seus pensamentos.

O material de arquivo é utilizado de forma pertinente, dinâmica e estimulante, tal como a informação que permite ligar o presente e o passado, com "I Am Not Your Negro" a colocar os dois tempos em diálogo e a demonstrar que muito está por resolver e discutir. "History is not the past. It is the present. We carry our history with us. We are our history (...)", salienta Baldwin no manuscrito, um pensamento que é reforçado pelo documentário e por outras palavras do escritor: "The story of the Negro in America is the story of America". A escravatura e a segregação são temáticas abordadas ao longo do documentário, tal como a forma como a imagem do negro foi construída na cultura popular (seja no cinema, na televisão, ou em anúncios), a inoperância dos políticos e as medidas que contribuem para as desigualdades, com os negros a carregarem na pele a discriminação sofrida ao longo da História. Essa intolerância é exposta em diversos momentos do filme, seja através de actos claros de racismo, tais como a discriminação cometida sobre Dorothy Counts, em 1957, ou de imagens aparentemente inócuas que exacerbam os estereótipos e o preconceito.

14 dezembro 2017

Crítica: "A Floresta das Almas Perdidas" (2017)

 "Qualquer um que vem para aqui vem por um motivo, até eu e tu", comenta Carolina (Daniela Love) junto de Ricardo (Jorge Mota), em plena Floresta das Almas Perdidas. Ela é uma jovem adulta. Ele conta com os seus cinquenta e poucos anos. Ambos encontram-se neste local para supostamente cometerem suicídio e surgem como os personagens mais marcantes de "A Floresta das Almas Perdidas", a primeira longa-metragem realizada por José Pedro Lopes. O título remete para um espaço onde diversas pessoas cometem suicídio, algo demonstrado logo no início do filme, quando encontramos Irene (Lília Lopes) a terminar com a sua vida. A morte desta personagem é um acontecimento que reverbera ao longo da película, sobretudo a partir do momento em que conhecemos alguns dos familiares da falecida, para além de permitir expor a faceta lúgubre deste local dominado pelas dicotomias.

Nunca sabemos ao certo onde fica situado o local do título, algo que adensa o mistério em volta do mesmo. É um espaço algo opressivo, onde a luz e a sombra convivem, tal como a vida e a morte, as certezas e as incertezas, que conta com diversos elementos que exacerbam o negrume e o terror que envolve o enredo, seja um boneco pendurado, ou uma seta a apontar para o caminho dos suicídios. O facto de "A Floresta das Almas Perdidas" ser filmado a preto e branco permite adensar as dicotomias deste cenário e a sua atmosfera misteriosa, seja quando encontramos Irene neste local, ou Carolina e Ricardo, uma dupla de personalidade distinta. Daniela Love conta com uma dinâmica convincente com Jorge Mota, algo que transparece na relação dos personagens que interpretam, com o paternalismo e a afabilidade de Ricardo a contrastar com a faceta desprendida e sardónica da jovem. A dupla protagoniza alguns momentos pontuados pelo bom humor, mas também pela tristeza e pessimismo, com José Pedro Lopes a inserir uma miríade de registos no interior do filme e a permitir que os dois intérpretes sobressaiam.

13 dezembro 2017

Resenha Crítica: "20th Century Women" (Mulheres do Século XX)

Num determinado momento do desenvolvimento de "20th Century Women", Dorothea (Annette Bening), uma das protagonistas, salienta o seguinte em voice-over: "It's 1979. I'm 55 years old, and in 1999, I will die of cancer from the smoking (...) They don't know this is the end of punk. They don't know that Reagan's coming. It's impossible to imagine that kids will stop dreaming about nuclear war, and have nightmares about the weather. It's impossible to imagine HIV, what will happen with skateboard tricks, the internet (...)". É um momento dotado de sensibilidade, que permite expor alguns pormenores sobre o contexto histórico e criar uma sensação de melancolia, ou não ficássemos perante uma demonstração da efemeridade da vida e da puerilidade das nossas certezas em relação ao futuro. Também ficamos diante de uma fala que permite realçar a excelência do argumento de Mike Mills, com o realizador e argumentista a elaborar um filme sensível, delicado, terno e profundamente humano, que valoriza o trabalho dos actores e tem nas dinâmicas entre os personagens um dos seus maiores atributos.

Tal como em "Beginners", Mills volta a inserir elementos autobiográficos no interior do enredo de um filme da sua autoria. Se "Beginners" aborda a "saída do armário" do pai do cineasta, sempre com algum humor e enorme sensibilidade, já o foco de "20th Century Women" está em algumas das mulheres da vida de Mills, tais como a progenitora e as irmãs. Nesse sentido, Jamie (Lucas Jade Zumann), um dos protagonistas, aparece praticamente como o alter-ego do cineasta, enquanto Dorothea surge como uma figura inspirada na progenitora deste último. Dorothea é divorciada, proto-feminista, fuma imenso, gosta de se vestir de forma simples e moderna, aprecia fazer obras em casa e apresenta alguma abertura no relacionamento com Jamie, o seu filho, embora nem sempre esteja certa da sua capacidade para educar o rebento. Annette Bening incute complexidade, carisma e personalidade a esta personagem, com a actriz a colocar em evidência o sentido de humor, a sagacidade e inteligência desta mulher que tenta reprimir as suas fraquezas e a solidão.

11 dezembro 2017

Resenha Crítica: "Jackie" (2016)

 "I believe that the characters we read about on the page end up being more real than the men who stand beside us", diz Jacqueline "Jackie" Kennedy (Natalie Portman) a um padre (John Hurt). É uma frase que ecoa ao longo de "Jackie", uma obra cinematográfica que coloca em diálogo os factos e a ficção, a lenda e a realidade, enquanto acompanha a personagem do título nos dias que se seguiram ao assassinato do esposo, o Presidente John F. Kennedy (Caspar Phillipson). O homicídio ocorreu a 22 de Novembro de 1963 e paira por quase todos os poros de "Jackie", com o filme realizado por Pablo Larraín a apresentar uma perspectiva muito particular sobre a forma como Jacqueline lidou com este episódio e os acontecimentos que se sucederam ao mesmo. É um retrato emotivo e profundo, que tem Jackie no seu cerne, com Larraín a explorar questões relacionadas com a construção da imagem, o diálogo entre a lenda e os factos, a dicotomia entre o público e o privado.

Numa fase prematura do filme, encontramos Jackie a receber um jornalista (Billy Crudup) no interior da sua casa, em Hyannis Port, tendo em vista a conceder uma entrevista. Esta conversa surge como ponto de partida para uma série de flashbacks, expostos a partir do ponto de vista de Jackie, que permitem explanar quer o modo como esta viveu os acontecimentos, quer a maneira como pretende que os eventos sejam transmitidos para o público. A câmara é colocada de forma frontal, quase sempre fechada sobre os rostos, pronta a exacerbar os objectivos distintos dos dois personagens e as suas feições, algo adensado pelos diálogos trocados entre ambos. "You understand that I will be editing this conversation? Just in case I don't say exactly what I mean", salienta Jackie num tom de voz glacial, tendo em vista a avisar o seu interlocutor de que ela é que dita as regras. "With all due respect, that seems very unlikely, Mrs. Kennedy", responde o jornalista num tom sarcástico, próprio de quem conhece a fama da entrevistada, embora, aos poucos, seja surpreendido pela mesma.

07 dezembro 2017

Crítica: "Night Shift" (1982)

 A premissa de "Night Shift" é absurda, mas relativamente bem aproveitada, com a simplicidade do argumento a ser compensada pela ingenuidade que marca os diversos episódios do enredo e pelas interpretações de Michael Keaton, Henry Winkler e Shelley Long. Qual é a premissa? Dois empregados de uma morgue resolvem envolver-se pelos meandros do proxenetismo, com a dupla a utilizar o local de trabalho para efectuar negócios. A ideia do espaço de uma morgue nova-iorquina como centro de operações para um negócio ligado ao proxenetismo tem tanto de desconcertante como de apelativa, algo exacerbado pelos episódios rocambolescos que são vividos pelos personagens principais. Ambos são inexperientes, não calculam os sarilhos em que se estão a meter e encaram o negócio com uma leveza que exprime paradigmaticamente o tom naïf desta obra cinematográfica.

Não existe qualquer tentativa de entrar pelos meandros do drama social, ou de abordar com aspereza o lado negro da prostituição e a imoralidade do proxenetismo, embora estes sejam mencionados, com "Night Shift" a colocar-nos diante de uma realidade que apenas existe no interior desta obra cinematográfica. É certo que logo no início do enredo somos colocados diante do assassinato de um proxeneta, mas o choque e a violência raramente são sentidos ao longo do filme, embora sejamos capazes de acreditar nos personagens e nos seus sentimentos. Os dois trabalhadores da morgue são Chuck (Henry Winkler) e Bill Blazejowski (Michael Keaton), uma dupla de personalidade bastante distinta. Winkler exacerba o lado introvertido, contido e polido do seu personagem, um antigo corretor da bolsa de valores que se encontra noivo de Charlotte (Gina Hecht), uma mulher algo frígida e pouco dada a conseguir conter o seu gosto por doces. Se Hecht imprime um estilo frio a Charlotte, já Keaton (no seu primeiro papel de relevo numa obra cinematográfica) insere uma personalidade extrovertida, intensa, faladora e peculiar a Bill, o novo colega de turno de Chuck. 

05 dezembro 2017

Crítica: "Teströl és lélekröl" (Corpo e Alma)

 O amor pode muitas das vezes ser encontrado nos locais mais improváveis, que o digam Endre (Géza Morcsányi) e Mária (Alexandra Borbély), a dupla de protagonistas de "Teströl és lélekröl", um filme terno, belo, delicado e peculiar, que é capaz de contrastar a frieza e a crueza de um matadouro com os sentimentos calorosos que marcam o iniciar de uma relação que floresce de modo invulgar. Os sonhos são o palco privilegiado para estes dois personagens soltarem os sentimentos e iniciarem uma relação de proximidade que começa progressivamente a encontrar paralelo na realidade. Demora algum tempo a florescer, é certo, mas aos poucos começamos a perceber que existe alguma coisa muito especial e profundamente humana a rodear a relação de Endre e Mária, algo desenvolvido com enorme sensibilidade pela realizadora e argumentista Ildikó Enyedi.

A cineasta dota estes personagens de espessura, de pequenos traços que gradualmente ganham enorme relevância, de alguns gestos que contribuem para a empatia que formamos com os mesmos, ou para a interpretação que efectuamos dos episódios que estes protagonizam. A realizadora desenvolve a personalidade destes elementos com conta, peso e medida, para além de estabelecer com acerto as suas rotinas no local de trabalho. O trabalho de Máté Herbai na cinematografia permite realçar a faceta fria e algo impessoal de alguns espaços do matadouro, com o tom vermelho do sangue, pronto a realçar a morte, a contrastar com as cores mais esbatidas deste espaço. A morte é presença regular neste cenário, com "Teströl és lélekröl" a não poupar em um ou outro momento que a espaços revira o nosso estômago, seja quando uma vaca é decapitada ou encontramos as peças de carne a serem cortadas. Diga-se que este é um filme de contrastes, com a crueza do fim da vida a ser colocada em diálogo com a candura dos sonhos da dupla de protagonistas, ou de alguns momentos que estes partilham.

02 dezembro 2017

Resenha Crítica: "Ah-ga-ssi" (A Criada)

 "Ah-ga-ssi" é um filme de enganos e seduções, que inebria, contagia, repele e ludibria. O desejo está sempre muito presente, algo notório nas dinâmicas do trio de protagonistas, com Park Chan-wook a partir de uma premissa aparentemente simples para criar uma obra cinematográfica dotada de mistério, erotismo, alguma complexidade e uma mescla de classe, vulgaridade e extravagância que potencia as peripécias que são apresentadas. A premissa é a seguinte: um vigarista pretende seduzir uma rica herdeira japonesa, tendo em vista a roubar-lhe a fortuna e interná-la num hospício. Ele é conhecido como "Conde Fujiwara" (Ha Jung-woo). Ela é Izumi Hideko (Kim Min-hee). A ajudar o protagonista está Sook-hee (Kim Tae-ri), uma jovem coreana que trabalha para um grupo de pequenos criminosos e farsantes, sendo contratada como criada de Hideko. As três partes distintas do enredo incidem acima de tudo sobre este trio, com Park Chan-wook a inserir dinamismo à estrutura narrativa desta memorável obra cinematográfica e às ligações deste grupo de personagens.

Não faltam perspectivas distintas dos acontecimentos, algo que traz algumas surpresas e contribui para dar a conhecer novas facetas e planos dos personagens, bem como uma série de flashbacks que entram regularmente em acção e permitem discernir informação fulcral. O trabalho de montagem contribui para este dinamismo, enquanto o trabalho de câmara adensa o mistério, a tensão e a sensação de inquietação que pontua os episódios. Observe-se o momento em que Sook-hee abre a porta dos aposentos de Kouzuki (Cho Jin-woong), o tio da herdeira, com a câmara a avançar em direcção deste último e de Hideko, num movimento que adensa o efeito de surpresa, enquanto a banda sonora potencia o mistério. Sook-hee logo é proibida de entrar nesta divisória, ou não estivéssemos no interior de uma habitação dotada de imensos segredos, alguns deles escabrosos. A habitação tem uma dimensão imponente, mescla um estilo inglês e japonês e conta com uma série de luxos, algo que reforça o estatuto social de Kouzuki, um indivíduo cheio de taras, que vende livros raros, muitos deles falsificados.