25 novembro 2017

Resenha Crítica: "Posoki" (Táxi Sófia)

 Composto por episódios maioritariamente filmados em planos-sequência ou de longa duração, algo que lhes atribui um tom imediato, "Posoki" (em Portugal: "Táxi Sófia") coloca-nos diante de um retrato da sociedade, economia, política e cultura da Bulgária a partir do contacto entre seis taxistas e os seus clientes, ou entre os primeiros e outros intervenientes. A espaços quase que traz "Taxi" de Jafar Panahi à memória, uma obra onde o cineasta iraniano conduz um táxi pelas ruas de Teerão e filma as conversas com os clientes ou a sobrinha, com estes diálogos a permitirem traçar um fresco sobre a realidade local. Quase todos os episódios de "Posoki" decorrem durante uma noite, enquanto ficamos perante diversos acontecimentos que dão a conhecer alguns traços da personalidade destes taxistas e dos seus clientes, bem como da cidade de Sófia, onde se desenrola uma boa parte do enredo. Nada é exposto de forma unidimensional, bem pelo contrário, com o realizador Stephan Komandarev a apresentar-nos a um grupo heterogéneo de personagens e de acontecimentos ao mesmo tempo que efectua alguns comentários de foro social. 

Tanto encontramos taxistas cumpridores como outros que escapam às regras, ou clientes que variam entre a afabilidade e a falta de educação, com "Posoki" a contar com uma série de eventos maioritariamente verosímeis que permitem o despertar de uma certa empatia com alguns personagens e os seus sentimentos. Note-se o segmento em que encontramos um cirurgião a ser transportado por Radoslava (Irini Zhambonas), uma taxista, até ao hospital. Estes fumam e falam durante o percurso, seja sobre um transplante de coração que o médico vai ter de efectuar a um doente, ou em relação ao facto do primeiro ir emigrar, nomeadamente, para Hamburgo. "A Bulgária é o país dos optimistas (...). Todos os realistas e pessimistas já foram embora", diz o cirurgião num tom desencantado que permite expor a vaga emigratória dos búlgaros para outros países, tendo em vista a escaparem do estado caótico em que se encontra a sua nação. Essa crise económica e de valores é exposta de forma bem viva logo no prólogo, naquele que é um trecho inquietante, tenso e marcante, cujas repercussões são sentidas ao longo do enredo. 

Antes do título do filme aparecer somos apresentados a Mihail (Vassil Vassilev), um indivíduo que é confrontado por um agente de execução (Ivan Barnev) que pretende penhorar os seus bens. Mihail está endividado, trabalha como taxista para pagar as contas e espera reunir-se com Popov (Georgi Kadurin), um banqueiro que supostamente vai conceder-lhe um empréstimo mediante um suborno. No entanto, este logo exige o dobro da quantia inicialmente pedida, algo que desperta a revolta do protagonista. Resultado: Mihail pega na arma, dispara contra o banqueiro corrupto e a seguir tenta cometer suicídio. Em cerca de quinze minutos (a duração desta espécie de prólogo) ficamos perante comentários sobre a corrupção, a crise financeira, o desespero daqueles que estão endividados, para além de sermos brindados com uma interpretação poderosa de Vassil Vassilev. O episódio que antecede o título do filme ecoa noite fora pelos rádios dos táxis, enquanto as suas temáticas são transversais a diversos trechos que decorrem ao longo do enredo, tais como a crise financeira e a corrupção.

A crise económica é visível, seja em comentários de alguns elementos, ou quando observamos um professor de educação física (Assen Blatechki) e um padre (Dobrin Dosev) a trabalharem à noite como taxistas para pagarem as contas, enquanto a corrupção é notória em casos como o de uma personagem que viu a sua vida entrar numa espiral descendente a partir do momento em que recusou os avanços de um indivíduo com contactos em lugares de poder. Estes episódios tanto contam com uma faceta mais terna, humana e comovente como violenta e inquietante, com Komandarev a balancear relativamente bem os diferentes tons destes trechos, enquanto nos apresenta à forma como estes taxistas reagem às situações com que são confrontados. As interpretações são maioritariamente marcadas por um tom sóbrio e naturalista, sobretudo após o prólogo, com o elenco a contar com prestações globalmente positivas, algo que eleva os momentos protagonizados por estes taxistas e os seus clientes.

 Vassil Vassilev e Irini Zhambonas são destaques óbvios, com ambos a protagonizarem alguns trechos intensos, embora nomes como Dobrin Dosev, Assen Blatechki e Vasil Banov também consigam dar um ar da sua graça. Blatechki tem um momento de grande destaque quando Zhoro - o personagem a quem dá vida - consegue impedir um indivíduo de cometer suicídio. Ambos são professores e contam com problemas financeiros, embora Zhoro acumule a função com o trabalho de taxista, com a solidariedade e a humanidade a marcar este episódio comovente. Também Banov tem alguns momentos de realce como um viúvo solitário que perdeu recentemente o filho, com o seu semblante triste e melancólico a não enganar em relação aos seus sentimentos. Já Dosev insere um tom prestável ao seu personagem, um padre que transporta um padeiro desempregado que se prepara para se submeter a um transplante de coração, com a fé, a crise e o desespero a aparecerem no cerne dos diálogos trocados pela dupla. Não podemos deixar ainda de realçar um trecho que envolve um taxista peculiar que tenta ludibriar um cliente e apresenta uma postura agressiva, com ambos a protagonizarem algumas cenas intensas. Diga-se que o cliente é o agente de execução do prólogo, com os destinos de alguns personagens a entrelaçarem-se no interior desta noite.

Outra personagem de relevo é a cidade de Sófia, seja as suas estradas ou as suas ruas, com os veículos a circularem por estes espaços, enquanto os cenários exteriores são aproveitados ao serviço do enredo. Também as casas de jogo e as lojas de penhores são realçadas, uma das quais tem o irónico nome de Generosity, com o destaque dado a estes estabelecimentos a realçar paradigmaticamente como os mesmos prosperam em tempos de crise, seja pela necessidade que os cidadãos têm de vender os seus bens, ou pela ânsia de recorrerem a algo incerto para ultrapassarem os problemas financeiros. Uma parte considerável dos personagens que nos são apresentados luta para sobreviver no interior de um país que não é capaz de os amparar, com "Posoki" a abordar esta batalha quixotesca de forma directa e eficiente. Por vezes encontramos estes personagens a lutarem de forma mais feroz, em outras ocasiões protagonizam um ou outro episódio dotado de brandura e até de algum humor, ou pontuado por uma sensação de desilusão, algo representado ao longo destas viagens que protagonizamos no interior dos seus táxis. 

Nem todos os episódios provocam o mesmo efeito, mas a maioria resulta, com os diálogos a prenderem a atenção e a exporem a realidade quotidiana destes elementos e da Bulgária. O que também funciona é a utilização da rádio ao serviço do enredo, seja para expor os gostos musicais dos taxistas, exacerbar a atmosfera mais tensa de algum momento, ou exibir a forma como a opinião pública recebeu o assassinato de Popov. A revolta contra os banqueiros é visível, bem como alguma xenofobia, com a introdução de um comentário contra os migrantes a não aparecer ao acaso e a reflectir uma realidade indesejada que é exacerbada em situações de crise. Tudo é sentido e credível, exposto com uma mescla de subtileza e fúria, enquanto ficamos perante um retrato da Bulgária que dialoga imenso com alguns problemas que ocorrem pelo resto da Europa.

Título original: "Posoki".
Título em Portugal: "Táxi Sófia".
Realizador: Stephan Komandarev
Argumento: Stephan Komandarev e Simeon Ventsislavov.
Elenco: Irini Jambonas, Vasil Banov, Ivan Barnev, Assen Blatechki, Georgi Kadurin, Dobrin Dosev.

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