02 novembro 2017

Resenha Crítica: "It's Always Fair Weather" (1955)

 Pontuado por uma série de números musicais cheios de ritmo, diversificados e magnificamente coreografados, uma química indelével entre o trio de protagonistas e um sentimento agridoce a envolver a reunião dos personagens principais, "It's Always Fair Weather" coloca-nos diante de Ted Riley (Gene Kelly), Doug Hallerton (Dan Dailey) e Angie Valentine (Michael Kidd), três antigos militares que se reencontram dez anos depois de se terem separado e jurado amizade para toda a vida. Claro está que esse reencontro não decorre inicialmente como estes esperavam, com o esquecimento em relação aos motivos que os conduzia a brindar em honra de "Old Bootsie" a marcar de forma simbólica um momento menos risonho desta amizade que parecia ter tudo para perdurar. Estamos diante de um musical de sabores melancólicos e algo pragmáticos, ainda que mesclados com diversos momentos de humor, romance e até de pancadaria, com Stanley Donen e Gene Kelly a acertarem nesta reunião de tons no interior daquela que seria a última parceria de ambos como realizadores.

Se a parceria de Gene Kelly e Stanley Donen não resistiu às desavenças no set de filmagens de "It's Always Fair Weather", já a amizade de Doug, Angie e Ted parece inicialmente inquebrável, algo paradigmaticamente demonstrado num número musical que envolve uma noite louca em Nova Iorque, onde o trio dança, bebe, canta e diverte-se, após o personagem interpretado pelo primeiro ter sofrido uma desilusão amorosa. Gene Kelly, Dan Dailey e Michael Kidd avançam pelas ruas, enquanto correm, utilizam tampas de caixotes do lixo para sapatearem, ou um táxi para dançarem, com o trio a exibir um talento notório para estes números musicais ao mesmo tempo que exprime de forma muito eficaz os laços fortes que unem os personagens que interpretam. É uma noite de grande folia que termina praticamente onde começou, nomeadamente, no bar do Tim (David Burns), um estabelecimento nova iorquino que os três ex-militares frequentavam antes de terem partido para a Europa, tendo em vista a participarem na II Guerra Mundial. Segue-se mais um número musical, marcado por tons relativamente brandos e melancólicos, após o trio tomar consciência de que está de regresso à vida de civil, enquanto efectua juras de amizade para toda a vida. Ficamos diante de um momento que exprime paradigmaticamente uma faceta por vezes mais contida de "It's Always Fair Weather", com a canção "The Time For Parting", cantada pelo trio de protagonistas em pleno Tim's Bar, a transmitir a sensação de que um ciclo está a terminar e outro na iminência de começar.

A entrada dos ex-militares nesse novo ciclo é marcada pela incerteza e melancolia, bem como pela esperança em relação aos projectos para o futuro, com Ted, Doug e Angie a contarem com a típica ingenuidade de quem acredita que pode domar o destino e fazer com que a amizade que os une consiga superar quer uma separação prolongada, quer as mudanças inerentes à passagem do tempo. Será possível que o trio mantenha o companheirismo e união fora do ambiente militar? Como enfrentar as mudanças inerentes ao avançar da idade e da passagem do tempo? "It's Always Fair Weather" responde rapidamente à primeira questão, enquanto desperta um sentimento agridoce no interior da nossa mente ao fazer com que pensemos não só nas amizades que perdemos ao longo do tempo, mas também nas mudanças de algumas características da nossa personalidade, ou nos sonhos que se desfizeram diante da realidade. São temáticas nem sempre fáceis de digerir, sobretudo quando o filme pede que tenhamos uma atitude mais introspectiva em relação aos seus temas, embora não faltem situações marcadas pelo bom humor e uma série de números musicais que decorrem numa miríade de cenários distintos. Desde ginásios, a hotéis, passando pelas ruas e os bares, "It's Always Fair Weather" não poupa nos cenários onde decorrem os números musicais, com Stanley Donen e Gene Kelly a fazerem uso das características dos mesmos ao serviço do enredo, enquanto nos colocam diante destes três indivíduos que oscilam entre uma atitude optimista e pessimista em relação à amizade que os une ou unia.

Tal como nunca esperamos que algumas das nossas amizades mais fortes acabem, também Ted, Doug e Angie acreditam que é possível manter os laços que os unem, embora Tim exiba uma atitude mais pragmática ao salientar que é provável que daqui a um mês estes nem se recordem uns dos outros. Os três ex-militares recusam prontamente a hipótese aventada pelo personagem interpretado por David Burns, algo que os conduz a fazerem uma aposta que envolve uma reunião no Tim's Bar a 11 de Outubro de 1955, ou seja, dez anos depois do dia em que decorre este episódio. Stanley Donen e Gene Kelly recorrem a uma série de split screens tripartidos para exporem o destino de cada um destes antigos militares ao longo do período de tempo compreendido entre 1945 e 1955, com todos a terem seguido rumos muito distintos em relação às suas ambições. Doug tinha como objectivo ser um pintor de renome, mas acaba por virar agulhas para o ramo publicitário, um sector onde não exerce a sua criatividade da forma como pretendia. Ted queria ser um advogado, embora o rumo da sua vida tenha sido bem distinto, nomeadamente, a ganhar dinheiro em apostas e a promover combates de boxe, bem como a gerir a carreira de Kid Mariachi (Steve Mitchell), um pugilista, enquanto lida com figuras pouco recomendáveis, tais como Charles Z. Culloran (Jay C. Flippen), um gangster conhecido por viciar resultados de eventos desportivos. Angie pretendia ser um cozinheiro de um restaurante gourmet mas acaba por abrir um espaço onde vende hambúrgueres.

Doug e Angie contraem matrimónio, com o segundo a contar com um numeroso contingente de filhos, enquanto que o primeiro está a atravessar a estrada tortuosa de uma crise conjugal. Por sua vez, Ted é um mulherengo que colecciona conquistas e vive de forma boémia, ou seja, no presente o trio conta com poucos elementos em comum. Tanto Ted como Doug e Angie desconhecem aquilo que aconteceu a cada um ao longo destes dez anos, pelo que a reunião no bar de Tim reveste-se de uma certa expectativa que gradualmente se transforma em desilusão. A alegria que Doug, Angie e Ted apresentavam no início do filme, quando cantavam "March, March" ou efectuavam juras de amizade em "The Time For Parting" é substituída pela desilusão quando cantam separadamente "I Shouldn't Have Come" (ao ritmo de "The Blue Danube"), uma canção que permite um número musical marcado por uma mescla de humor e tragédia. A canção "I Shouldn't Have Come" permite que o trio exponha em pensamento e de forma maioritariamente separada o seu desagrado em relação ao encontro e naquilo em que se tornaram, com as expressões dos rostos de Ted, Doug e Angie a dizerem muito sobre o fracasso aparente desta reunião.

No fundo estamos diante de três indivíduos que tomam consciência de que nem sempre souberam cultivar a amizade que os unira, enquanto são praticamente obrigados a confrontar os sonhos de outrora com alguns dos fracassos pessoais e profissionais que acumularam com o decorrer dos anos. Diga-se que nem todos estes elementos mudaram assim tanto, com Angie a manter a personalidade extrovertida, simples e enérgica, algo demonstrado de forma competente por Michael Kidd. Veja-se quando Angie apresenta uma atitude espalhafatosa no interior do Torquoise, um restaurante caro onde se prepara para almoçar com Ted e Doug. É neste espaço que Doug, Ted e Angie encontram Mr. Fielding (Paul Maxey), um dos chefes do personagem interpretado por Dan Dailey, bem como Jackie Leighton (Cyd Charisse), uma das funcionárias mais elogiadas da agência de publicidade onde o primeiro trabalha. Cyd Charisse imprime uma postura confiante, forte e inteligente a Jackie, uma especialista em marketing que coordena o "Midnight With Madeline" (um programa que apela ao sentimento dos espectadores, com "It's Always Fair Weather" a satirizar os espectáculos televisivos do género) e desperta facilmente a atenção de Ted. Diga-se que o interesse é mútuo, com Gene Kelly e Cyd Charisse a contarem com uma química convincente, com ambos a protagonizarem uma série de episódios que captam facilmente a nossa atenção.

Pelo caminho não faltam alguns salpicos de romance (a envolver Ted e Jackie), uma crise conjugal (algo típico das obras de Stanley Donen, tais como "Seven Wives for Seven Brothers", "Two for the Road", "The Grass is Greener", "The Pajama Game"), uma participação inesperada dos ex-militares no programa televisivo apresentado pela espampanante Madeline (Dolores Gray), um combate de boxe que se encontra prestes a ser viciado, bem como uma série de situações rocambolescas e uma plêiade de números musicais. Os números musicais tanto envolvem danças coreografadas com enorme brio e muito sapateado como momentos em que encontramos os personagens a pensarem, ou a apresentarem alguma melancolia, com Gene Kelly e Stanley Donen a aproveitarem os cenários e o talento do elenco para elevarem ainda mais estes trechos. Observe-se a sequência em que Ted foge dos capangas de Charles Culloran, até começar a patinar pela cidade e a cantar "I Like Myself", ou Cyd Charisse a encher o Stillman's Gym com o seu talento para a dança como Jackie, ou Doug a causar estragos sob o efeito do álcool, com o elenco a ter espaço para sobressair. Veja-se os casos já mencionados de Michael Kidd e Cyd Charisse, bem como Gene Kelly e Dan Dailey.

Gene Kelly transmite com enorme naturalidade o carisma e o espírito de liderança do personagem que interpreta, um indivíduo bem falante e mulherengo, que se movimenta por um mundo algo nebuloso e acaba por se apaixonar por Jackie. Por sua vez, Dan Dailey exibe de forma precisa as transformações de Doug ao longo do tempo, bem como a desilusão que este indivíduo começa a exibir no que diz respeito ao rumo da sua vida. Vale ainda a pena realçar Dolores Gray como Madeline, com a actriz a surgir num registo deliciosamente exagerado e caricatural como esta figura feminina egocêntrica que permite a "It's Always Fair Weather" satirizar alguns programas televisivos que eram populares na época. Estamos assim perante mais um musical de grande nível realizado por Stanley Donen e Gene Kelly (inicialmente concebido como uma sequela de "On the Town"), com a dupla a colocar-nos diante de uma amizade que se desvanece com a passagem do tempo, enquanto nos compele a acompanhar um trio de ex-militares que prende facilmente a nossa atenção e uma série de números musicais coreografados com algum requinte e inspiração.

Título original: "It's Always Fair Weather".
Título em Portugal: "Dançando nas Nuvens".
Realizador: Gene Kelly e Stanley Donen.
Argumento: Betty Comden e Adolph Green.
Elenco: Gene Kelly, Dan Dailey, Michael Kidd, Cyd Charisse, David Burns, Dolores Gray, Jay C. Flippen, Steve Mitchell.

Sem comentários: