12 novembro 2017

Resenha Crítica: "It Comes at Night" (Ele Vem à Noite)

 Trey Edward Shults insere uma atmosfera opressiva, misteriosa, inquietante e desoladora a "It Comes at Night", enquanto joga com as nossas emoções e sensações, opta quase sempre pela subtileza, utiliza o poder da sugestão, sabe despertar um nervoso miudinho no interior da nossa mente e deixa-nos diante dos ténues equilíbrios de uma família que vive praticamente em cativeiro. O que é dito tem quase tanta relevância como aquilo que não é mencionado, com o rosto da maioria dos intérpretes a surgir como um meio fulcral para que os personagens expressem as suas emoções ou reprimam as convulsões que vagueiam pelo âmago da alma. A começar por Joel Edgerton, um intérprete que insere um estilo duro, inflexível e intenso a Paul, um pai de família que leva a protecção dos seus entes queridos ao extremo. As expressões do rosto de Edgerton permitem discernir o peso da responsabilidade que o antigo professor de História colocou aos seus ombros, bem como os receios que contaminam o seu estado de espírito, algo que atribui uma carga acrescida a este personagem. Paul é casado com Sarah (Carmen Ejogo), de quem tem um filho adolescente (Kelvin Harrison Jr.), com o quotidiano do trio a ser marcado por um conjunto de regras rigorosas impostas pelo primeiro, algo que remete para o receio de ser contaminado, ou atacado por invasores que pretendam os recursos aprovisionados. O contexto que os rodeia propicia este tipo de comportamento e a desconfiança, ou não estivéssemos perante uma realidade pós-apocalíptica em que uma estranha e perigosa doença devastou uma parte considerável do planeta e da população.

São os efeitos dessa doença que observamos em acção nos primeiros cinco minutos do filme, bem como o instinto de defesa de Paul, nomeadamente, quando elimina Bud (David Pendleton), o seu sogro, devido a este último estar infectado. Tudo é exposto com um misto de subtileza e crueza: os silêncios dominam, com Travis (o filho do casal), Sarah e Bud a exibirem alguma dor no seu olhar (os dois primeiros com as faces cobertas por máscaras), enquanto Paul encara o acto como uma inevitabilidade. Acima de tudo, este pretende proteger o futuro do filho (nunca colocamos em causa as suas boas intenções), embora o adolescente nem sempre consiga compreender o pai, apesar de existir um sentimento de respeito a envolver as dinâmicas destes personagens. Sarah também tenta proteger o rebento e o lar, embora apresente um lado mais ponderado e conciliador do que o esposo, algo realçado pelo eficiente trabalho de Carmen Ejogo. O elemento mais em foco do elenco é Kelvin Harrison Jr., com o actor a imprimir um estilo temeroso e inseguro a este jovem que tem de reprimir os seus impulsos, respeitar uma série de regras, enfrentar os delírios que apoquentam a sua mente e lidar com o luto inerente à perda do avô, tendo em Stanley, um cão, um dos seus poucos companheiros. Pouco tempo depois de assistirmos à morte de Bud e à queima do corpo, "It Comes at Night" deixa-nos diante de um jantar do trio que permite não só exibir as dinâmicas pouco efusivas desta família, mas também o cuidado de Shults na composição dos planos. Ficamos perante um plano de conjunto, fixo e de longa duração, composto com algum rigor, enquanto a luz inerente a um candeeiro de campismo exacerba a melancolia e o ambiente taciturno que rodeia este refeição onde os diálogos escasseiam, os rostos estão fechados e a comida é mastigada sem grande energia ou prazer.

 O cenário onde o trio janta é despojado de luxos, sendo acima de tudo marcado pela simplicidade e um estilo prático. Diga-se que a decoração dos cenários (excelente trabalho neste quesito) permite fornecer alguma informação fundamental sobre o quotidiano desta família e o seu passado. Note-se a presença de uma fotografia de Travis com o avô em que ficamos a perceber a enorme proximidade entre ambos sem ser necessária uma única linha de diálogo, ou a foto onde encontramos o adolescente ao lado dos pais, com o trio a apresentar um semblante bastante leve, algo que contrasta com o presente. As duas fotografias mencionadas encontram-se situadas no quarto do adolescente, um local onde também é possível encontrar uma réplica do quadro "O Triunfo da Morte", de Pieter Bruegel, uma obra de arte que conta com enorme simbolismo e significado no interior de "It Comes at Night" (de realçar que o título da pintura encaixa na perfeição no espírito do filme). Temos ainda um travelling (um recurso muito utilizado ao longo do filme), que desliza por um corredor coberto de fotografias que fornecem alguma informação sobre o passado desta família, até a câmara chegar a uma porta vermelha que surge praticamente como o único ponto de entrada e saída da habitação. A tonalidade vermelha aparece associada ao perigo e inquietação, com o significado desta cor a deixar antever o reboliço que se vai suceder no interior da casa destes personagens a partir do momento em que um estranho entra no local. O estranho é Will, com a sua chegada a trazer alguns salpicos de tensão e inquietação, com Christopher Abbott a imprimir uma postura ambígua a este personagem.

 Shults aproveita a chegada deste indivíduo para aumentar ainda mais a atmosfera de desconfiança que rodeia todos os poros do filme. Diga-se que o cineasta e Drew Daniels, o seu director de fotografia, revelam-se exímios a criar uma sensação de receio, com o trabalho de câmara e a composição dos planos a serem sublimes, seja para apresentar informação, como no travelling já mencionado, ou adensar o perigo. Note-se quando encontramos Paul a observar Will no espelho retrovisor, com o foco a estar na observação que o primeiro efectua ao segundo, até um tiro ser disparado e surpreender os personagens e o espectador. Este é um dos vários exemplos em que o trabalho de câmara e de montagem, o design de som, a composição dos planos e os intérpretes contribuem para alguns momentos mais intensos. Os alicerces da família de Paul e as suas dinâmicas são testadas a partir do momento em que estes entram em contacto com Will. Este procura abrigo para si e para o seu núcleo familiar, nomeadamente, Kim (Riley Keough), a esposa, e Andrew (Griffin Robert Faulkner), o filho do casal, um rapaz de tenra idade. Habituado a duvidar de tudo e todos, Paul acaba surpreendentemente por aceder ao pedido, com o receio inicial a ser contrastado com alguns raros momentos de leveza, até a desconfiança e a tensão dominarem o enredo. Mais uma vez é Kelvin Harrison Jr. quem tem imenso espaço para sobressair, com o intérprete a exibir o misto de confiança e desconfiança de Travis em relação a estes personagens, bem como a estranha atracção que este tem por Kim. 

 Não podemos revelar mais informação sobre a história, embora seja impossível não realçar a inquietação que envolve as dinâmicas entre as duas famílias, bem como o aproveitamento do espaço da casa (com a geografia deste espaço a nunca ser estabelecida para desconcertar o espectador) e os desempenhos assinaláveis de Riley Keough (um nome cada vez mais consolidado) e Christopher Abbott. A casa encontra-se situada nas imediações de uma floresta, aparentemente longe da restante Humanidade, algo que adensa a sensação de perigo deste local que tanto traz abrigo como irrisão, com a entrada em cena de uma nova família a mexer com algumas das dinâmicas do trio que é inicialmente apresentado. Diga-se que este lar a espaços parece potenciar a confusão e as inquietações que percorrem a mente de Travis, um adolescente que está a finalizar a formação da sua identidade, ainda que num contexto hostil, opressivo, recheado de regras e pontuado pela solidão, com os seus comportamentos a exacerbarem os tumultos que contaminam a sua alma. Tudo aquece a partir do momento em que o instinto de sobrevivência e a falta de confiança começam a dominar as duas famílias, com os comportamentos destes personagens a serem claramente moldados pelo contexto em que vivem. A moralidade, a humanidade e os valores destes elementos são testados, enquanto o espectador é convidado a ponderar o que efectuaria numa situação semelhante. Tanto Paul e Sarah como Will e Kim apenas procuram defender os seus filhos, embora pareçam estar a lutar contra algo inevitável, nomeadamente, a chegada da morte (convém não esquecer que "It Comes at Night" também é um filme sobre a mortalidade). Isso não impede que continuem a lutar pela sobrevivência e pela protecção daqueles que mais amam, mas no final é provável que questionem se tudo o que fizeram valeu a pena.

 No último terço a brutalidade e a desesperança tomam conta do enredo, enquanto o espaço da casa transforma-se praticamente numa representação daquilo que acontece ao seu redor. "It Comes at Night" aparece assim como um terror psicológico de traços pós-apocalípticos, que foge a situações espalhafatosas e utiliza o poder da sugestão para colocar o enredo e o espectador em ebulição, enquanto são abordadas temáticas como as relações entre pais e filhos, a paternidade e a maternidade, o instinto de sobrevivência do ser humano em situações delicadas, as inquietações de um adolescente, as dinâmicas de uma família e o poder dos sonhos. Note-se a chegada dos sonhos e delírios de Travis, enquanto estes aparecem recheados de significado, ou não representassem os medos e os desejos deste jovem que se encontra a lidar com uma realidade caótica. A juntar a tudo isto temos uma série de perguntas que nem sempre recebem uma resposta peremptória, com "It Comes at Night" a tentar estimular a percepção e interpretação do espectador. O que aconteceu aos outros habitantes? Como é que esta epidemia surgiu? Onde terminam os sonhos sem aviso e começa a realidade? Será que as medidas de segurança de Paul são suficientes para evitar a epidemia? Onde fica localizada a casa dos protagonistas? Existem algumas perguntas que se formam na nossa mente, embora nem todas recebam resposta, ou pelo menos não de forma peremptória, com a ambiguidade a marcar alguns episódios do enredo. Não é filme para dar uma enormidade de sustos avulsos, com o medo a ser semeado de forma subtil na mente do espectador, enquanto floresce gradualmente e exacerba as qualidades da segunda longa-metragem realizada por Trey Edward Shults.

Título original: "It Comes at Night".
Título em Portugal: "Ele Vem à Noite".
Realizador: Trey Edward Shults.
Argumento: Trey Edward Shults.
Elenco: Joel Edgerton, Christopher Abbott, Carmen Ejogo, Kelvin Harrison Jr., Riley Keough.

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