18 novembro 2017

Resenha Crítica: "Geu-hu" (O Dia Seguinte)

 Vamos imaginar que os filmes de Hong Sang-soo são efectuados com a mesma receita. Nessa receita é provável que encontremos estes ingredientes: personagens ligados ao meio cultural; diálogos muitas das vezes improvisados (seja sobre assuntos mais profundos ou completamente banais); momentos em que os protagonistas bebem soju em doses consideráveis e trocam imensas palavras; desgostos amorosos ou traições; relações intrincadas entre homens e mulheres; os inevitáveis zooms inquietos, imagem de marca desde "Tale of Cinema"; os jogos com o tempo da narrativa; a presença de intérpretes que já trabalharam com o realizador. Qualquer um pode pegar nestes ingredientes, mas poucos conseguem ter a capacidade de Hong Sang-soo para atribuir-lhes um tom único, muito particular e extremamente envolvente, algo que se repete em "Geu-hu" (em Portugal: "O Dia Seguinte"), uma das três obras cinematográficas do realizador que estrearam em 2017.

 A proficuidade é outra das imagens de marca do cineasta, bem como a sua capacidade para colocar-nos diante de personagens que apenas parecem existir nos seus filmes. Um desses personagens é Kim Bongwan (Kwon Hae-hyo), o peculiar dono de uma pequena editora. No início do filme encontramos o protagonista a ser confrontado por Song Haejoo (Cho Yunhee), a sua esposa. Ela pretende saber se está a ser traída. Ele fica sem saber o que dizer, com as expressões faciais de Kwon Hae-hyo a permitirem exprimir não só a perplexidade de Bongwan, mas também uma sensação de nervosismo e desconforto. Pouco depois, Bongwan sai de casa, ainda de madrugada, até o passado entrar sem aviso no presente e ficarmos perante alguns episódios relacionados com o caso do protagonista com Lee Changsook (Kim Sae-byeok), uma antiga funcionária. Se os sonhos entram muitas das vezes sem aviso no interior das obras de Hong Sang-soo, também estes trechos relacionados com os episódios de outrora irrompem inesperadamente por "Geu-hu" e permitem uma ligação entre o presente e um passado que continua bem vivo e a deixar rasto.

Esses fragmentos do passado que aterram no presente contribuem para fornecer informação relevante sobre os personagens e trazer uma nova perspectiva sobre os mesmos, ou em relação a alguns trechos do enredo. Veja-se quando somos colocados diante de Bongwan e Changsook de mãos dadas, a efectuarem uma viagem de metro, num momento que é subtilmente cortado pela presença do primeiro a deslocar-se sozinho no mesmo meio de transporte, enquanto lê e exibe um semblante pensativo, encontrando-se muito provavelmente a pensar nas palavras da esposa, ou na amada. Estes trechos permitem ainda sublinhar algumas das especificidades deste affair e efectuar um diálogo com o território e os seus espaços, seja uma escada que é testemunha de beijos apaixonados, ou um parque onde se encontra uma máquina de musculação que ampara a dor e o corpo do personagem principal, com o aproveitamento das características dos cenários (sobretudo externos) a ser outra das imagens de marca do cineasta que aparece em "Geu-hu".

Quando chega ao seu local de trabalho, Bongwan depara-se com Song Areum (Kim Min-hee), a sua nova funcionária, aquela que veio substituir Changsook. Ambos bebem café e iniciam uma longa conversa, naquele que é um momento "puramente Hong Sang-soo", com o cineasta a deixar-nos perante um plano de longa duração (um recurso muito utilizado pelo realizador ao longo do filme), enquanto a câmara desliza na direcção de quem dialoga. Esperamos que falem sobre livros, sobretudo devido a estarem numa editora dedicada ao mercado livreiro, mas não é isso que acontece, com Bongwan a preferir efectuar questões pessoais a Areum, algo que permite subverter as nossas expectativas e dar a conhecer de forma rápida alguma informação sobre esta personagem. Pouco depois vão almoçar fora, em mais um momento em que entramos no território do cineasta (comida, bebida e diálogos reveladores) e ficamos na presença de mais alguns traços da personalidade dos personagens, bem como de algumas das suas inquietações, dúvidas e fraquezas, com este trecho a ser desenvolvido com recurso a planos de longa duração (algo que permite exacerbar a forma genuína como os intérpretes interagem) e a falas que contam com algumas doses de improviso e sinceridade. 

Areum é crente, sincera, inteligente, gosta de ler e escrever, não tem obras publicadas e apresenta alguma sensibilidade, com Kim Min-hee, uma actriz que não sabe representar mal (colaboradora habitual de Hong Sang-soo), a imprimir uma postura sensível e questionadora esta aspirante a escritora que se vê envolvida no interior de um meio de trabalho caótico. Essa confusão é particularmente notória quando Haejoo aparece no interior da editora e começa a agredir a personagem interpretada por Kim Min-hee devido a pensar que esta é a amante do esposo, algo que gera um momento de tensão, com a primeira a nunca acreditar na palavra de Bongwan. Kwon Hae-hyo, outro colaborador habitual de Hong Sang-soo, exprime com acerto a faceta simultaneamente segura, frágil, conquistadora, cobarde e recheada de dúvidas deste editor que ainda está a enfrentar as dores inerentes ao finalizar da relação extraconjugal. Bongwan gosta de ser tratado como chefe (algo demonstrativo da forma como utiliza o seu pequeno poder como editor para se impor), é chamado de cobarde por boa parte das mulheres com quem contacta (com alguma razão, sobretudo se considerarmos a sua incapacidade para tomar decisões difíceis no que diz respeito a Haejoo e Changsook), tem uma filha, gosta imenso de beber soju e de ter longas conversas, algo notório quando almoça e janta com Areum. 

 As dinâmicas entre Kim Min-hee e Kwon Hae-hyo funcionam, seja quando Bongwan revela alguma inaptidão para responder às perguntas de Areum, ou em momentos maior tensão ou leveza, enquanto ficamos na dúvida se o editor inicialmente tinha ou não a ideia de seduzir esta mulher. A chegada inesperada de Changsook traz um tempero acrescido ao enredo, com Hong Sang-soo a explorar de forma simples e rápida as tensões que se geram com a entrada em cena desta última. Kim Sae-byeok é outra das intérpretes a ter espaço para dar um ar da sua graça, com o regresso de Changsook a fazer ressurgir sentimentos que estavam adormecidos e a permitir explanar as consequências de misturar sexo e trabalho. Existe uma mescla de densidade e leveza a pontuar estes episódios que vagueiam pelas margens do humor e do drama, com o toque de Hong Sang-soo a fazer-se sentir no interior desta obra filmada em preto e branco (tal como o realizador efectuara em "" e "").

 Se as potencialidades de filmar a obra com estas tonalidades nem sempre são aproveitadas, já os assuntos que são lançados para o interior do enredo são desenvolvidos de forma bastante precisa, simples e concisa, sejam estes relacionados com os desgostos amorosos, a vida, as expectativas profissionais e o sentimento de perda, com tudo a desenrolar-se maioritariamente ao longo de um dia, a ser regado com muito soju e adornado com as célebres refeições em que o protagonista e diversos personagens falam imenso. "Geu-hu" surge assim como um filme visualmente simples, bastante simpático e honesto, que conta com um enredo despretensioso, dotado de algumas doses de humor, melancolia e um dissecar muito próprio das relações humanas, bem como um cunho deveras pessoal de Hong Sang-soo e interpretações bastante sólidas de Kwon Hae-hyo e Kim Min-hee

Título original: "Geu-hu".
Título em inglês: "The Day After". 
Título em Portugal: "O Dia Seguinte". 
Realizador: Hong Sang-soo.
Argumento: Hong Sang-soo.
Elenco: Kim Min-hee, Kwon Hae-hyo, Kim Sae-byeok, Cho Yunhee.

Sem comentários: