05 novembro 2017

Resenha Crítica: "The Fog" (1980)

 John Carpenter tem uma apetência especial para colocar os personagens em situações intrincadas, sobretudo quando estes se encontram em espaços circunscritos, tais como uma esquadra ("Assault on Precinct 13"), ou uma casa ("Halloween"), ou uma prisão de segurança máxima ("Escape From New York"), ou uma estação situada na Antárctida ("The Thing"). No caso de "The Fog" (em Portugal: "O Nevoeiro"), a quarta longa-metragem realizada por John Carpenter, os habitantes da cidade costeira de Antonio Bay têm de enfrentar uma ameaça sobrenatural e misteriosa, nomeadamente, um nevoeiro que percorre diversos espaços deste território e traz consigo uma série de criaturas ameaçadoras. É uma ameaça que não podemos observar na totalidade, nem os personagens, ou a fisionomia destas figuras fantasmagóricas não estivesse encoberta pelas sombras, algo que exacerba a sua faceta aterrorizadora, enquanto diversos espaços circunscritos são palco de acontecimentos intensos.

A tensão apodera-se de forma amiúde do corpo e da alma de "The Fog", com John Carpenter a conseguir jogar com os receios do espectador e dos personagens. O nevoeiro do título traz consigo o medo, a incerteza e um grupo de seres fantasmagóricos, com os objectivos destas criaturas a remeterem para uma lenda que é exposta numa espécie de prólogo. Diga-se que o prólogo é uma forma hábil de John Carpenter incutir desde o início uma faceta misteriosa e inquietante a "The Fog", enquanto cria uma atmosfera opressora e claustrofóbica em volta dos acontecimentos que rodeiam o enredo. A lenda é contada por Mr. Machen (John Houseman) a um grupo de petizes, na praia, quando o relógio marca cinco para a meia noite e o calendário está quase a virar para o dia 21 de Abril, uma data comemorativa para os habitantes de Antonio Bay, uma cidade que se prepara para completar cem anos de existência. Foi exactamente a 21 de Abril, ainda que há cem anos (mais precisamente em 1880), que o navio Elizabeth Dane se afundou, após os seus tripulantes terem sido ludibriados por uma estranha luz que penetrou pelo interior de um denso nevoeiro. Mais tarde descobrimos que este acidente não ocorreu ao acaso, com a história dos tripulantes do Elizabeth Dane a entroncar nos episódios que se sucedem ao longo de "The Fog" e a trazer repercussões para os herdeiros daqueles que fundaram este espaço com recurso a um ardil que provocou a morte alheia.


 A data comemorativa traz consigo o regresso de um grupo de almas (e corpos) do outro mundo, que conta com sede de vingança, com os momentos que se seguem ao prólogo a serem acompanhados não só pela apresentação de alguns personagens que pontuam a narrativa, mas também de alguns acontecimentos estranhos. Não faltam buzinas a apitarem sozinhas, garrafas a caírem das prateleiras de uma loja, uma pedra que resvala no interior da igreja local e destapa um diário que pertence a um familiar do Padre Malone (Hal Holbrook), uma mangueira de um posto de gasolina a libertar-se, entre outros episódios marcados pela tensão e pela bizarria. Alguma coisa se está a passar, embora John Carpenter não abra logo o jogo. Primeiro exibe que algo está a sair do controlo, que os ténues equilíbrios da cidade estão a quebrar-se de forma inexorável, enquanto as sementes do medo começam a ser plantadas na mente do espectador, até florescerem e ganharem características inquietantes. Entre essas sementes encontram-se a descoberta do diário, a exposição da lenda e os outros episódios já assinalados, algo que deixa antever que uma vingança pode estar a caminho, que o digam os diversos elementos que povoam o enredo de "The Fog".

O Padre Malone é um dos vários personagens que nos são apresentados ao longo do filme, com Hal Holbrook a incutir uma faceta solitária e atormentada a este indivíduo alcoólico que descobre o lado negro dos "pais fundadores" de Antonio Bay. Outra das personagens de relevo de "The Fog" é Stevie Wayne (Adrienne Barbeau), a dona da KAB, uma pequena rádio local. Stevie é uma mãe solteira, relativamente solitária e bastante dedicada ao seu ofício, que gosta de desfrutar da companhia do filho, o jovem Andrew (Ty Mitchell), um dos petizes que ouviu a história contada por Mr. Machen no início do filme. Temos ainda elementos como Nick Castle (Tom Atkins), Elizabeth Solley (Jamie Lee Curtis), Sandy Fadel (Nancy Loomis) e Kathy Williams (Janet Leigh), com todos a serem apresentados ao espectador quando o relógio vagueia pelas imediações da meia noite de dia 21 de Abril. Nick e Elizabeth conhecem-se no início de "The Fog", quando esta pede boleia ao primeiro, com a dupla a formar uma ligação relativamente sólida. Por sua vez, Kathy está a trabalhar nas cerimónias comemorativas dos cem anos de Antonio Bay, tendo muitas das vezes a companhia de Sandy, a sua assistente, uma figura algo sardónica e trabalhadora. É um número alargado de personagens, mas John Carpenter consegue que acreditemos nestes e nos preocupemos com os seus destinos, sobretudo com Stevie, aquela que tem mais espaço para sobressair.

  Adrienne Barbeau insere uma faceta simultaneamente forte e frágil a esta radialista que sabe comunicar com os seus ouvintes e é ouvida por um número significativo de habitantes de Antonio Bay, com John Carpenter a utilizar a rádio desta personagem para transmitir alguma informação importante e adensar o pânico e o receio que percorrem alguns episódios do enredo. Diga-se que, durante a madrugada de 21 de Abril, Stevie ainda chega a alertar um grupo de pescadores de que um banco de névoa se está a aproximar, mas estes não concedem grande atenção à informação fornecida pela radialista. É um dos primeiros momentos em que John Carpenter mescla a faceta atmosférica de "The Fog" com um lado slasher, com as tonalidades vermelhas (associadas ao perigo) e o nevoeiro a contribuírem para intensificar a sensação de perigo e apreensão, enquanto a entrada em cena de um grupo de seres fantasmagóricos traz a morte, seja através de ganchos ou de espadas. Mais episódios estranhos se sucedem e contribuem para aumentar o receio de Stevie, seja quando o filho traz para casa um pedaço de madeira que aos poucos começa a verter água, ou a partir do momento em que o nevoeiro invade a cidade. A juntar a tudo isto, a estação de rádio encontra-se situada numa espécie de farol com vista para o mar, algo que a espaços contribui para adensar a faceta solitária do trabalho da protagonista e os perigos que podem rodear este cenário.

A banda sonora composta por John Carpenter, por vezes a fazer recordar os ritmos de "Suspiria", sublinha o nervosismo crescente que pontua os acontecimentos que decorrem ao longo do enredo, seja a invasão do nevoeiro ou as sensações claustrofóbicas despertadas pela presença de um grupo de personagens no interior de uma igreja que se prepara para ser dominada por seres fantasmagóricos. Estes seres trazem consigo a vingança, o frio, a morte e o medo, enquanto surgem encobertos pelas sombras, em plena noite, prontos a provocarem calafrios no espectador e a colocarem Stevie, Andrew, Nick, Malone, Elizabeth, Kathy, Sandy e outros elementos em perigo. Note-se os momentos do último terço, quando John Carpenter transforma a igreja do Padre Malone num espaço claustrofóbico que tanto é capaz de trazer a protecção como o perigo, enquanto as criaturas aproximam-se e o contraste entre luz e sombras é aproveitado com habilidade. Temos ainda um momento marcante que envolve a casa de Stevie, com as paredes de vidro a contribuírem para que os personagens consigam observar a névoa a percorrer o território circundante, algo que adensa a sensação de perigo. 


 A noite é palco de diversos episódios mencionados, com John Carpenter a ter nesta uma boa companheira para infernizar os personagens, sobretudo quando o nevoeiro começa a sair do mar, avança pela areia e chega à cidade. A presença do nevoeiro traz quase sempre uma certa dose de mistério e incerteza, com "The Fog" a conseguir transmitir a inquietação que percorre a mente dos personagens e dos episódios que estes protagonizam. Se é certo que "The Fog" não aposta excessivamente nos sustos avulsos, também não deixa de ser notório que arquitecta algumas situações que procuram acelerar o batimento cardíaco do espectador, tais como o aparecimento repentino de um padre, ou um rádio que começa a trabalhar sozinho, ou um corpo que cai inesperadamente, ou um cadáver que se levanta, entre outros episódios que inserem um impacto acrescido ao filme. "The Fog" conta ainda com diversos traços em comum com outros trabalhos de John Carpenter, tais como a atmosfera inquietante, o final em aberto, os personagens que enfrentam situações complicadas em espaços circunscritos (os ingredientes do "filme de cerco" também andam por aqui), a presença de alguns colaboradores habituais, uma banda sonora que estimula as emoções, elementos relacionados com a religião e ligados ao sobrenatural, entre outros ingredientes. Note-se ainda a já mencionada presença da noite como palco primordial de alguns episódios, ou o gosto por despertar o medo e a inquietação no espectador, com "The Fog" a surgir como um dos grandes exemplares (ou, pelo menos, um dos mais apreciados por esta pessoa) da magnífica colheita de John Carpenter. Estamos diante de um filme pontuado pelo mistério e pelo terror, que joga com os nossos medos e inquietações, que gera ilusão e hipnotiza a nossa mente, sempre com algumas doses de malaise e situações que permanecem na memória.

Título original: "The Fog".
Título em Portugal: "O Nevoeiro".
Realizador: John Carpenter.
Argumento: John Carpenter e Debra Hill.
Elenco: Adrienne Barbeau, Hal Holbrook, Jamie Lee Curtis, Tom Atkins, John Houseman, Janet Leigh.

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