30 novembro 2017

Resenha Crítica: "Bamui haebyun-eoseo honja" (On the Beach at Night Alone)

 Num determinado momento de "Bamui haebyun-eoseo honja" (On the Beach at Night Alone), encontramos Young-hee (Kim Min-hee), a protagonista, a questionar Sang-won (Moon Sung-keun), um realizador com quem manteve um affair, sobre a forma como este pretende desenvolver o seu próximo filme. O cineasta responde o seguinte: "Como forem surgindo as ideias, sem muito planeamento. Filmo a primeira cena e deixo ela levar-me". Estas palavras levam a personagem principal ao desespero, sobretudo a partir do momento em que percebe que o enredo da nova obra de Sang-won é inspirado em alguém que este amou, nomeadamente, Young-hee. Se existiam dúvidas de que o enredo de "Bamui haebyun-eoseo honja" conta no seu interior com diversos elementos da vida de Hong Sang-soo, estas ficam claramente dissipadas nesta troca de diálogos, com o realizador-personagem a surgir quase como um duplo do autor, inclusive no método de desenvolver as obras cinematográficas. É possível dissociar a obra de arte do artista que a concebeu, mas neste caso é algo praticamente impossível de efectuar, sobretudo devido ao facto deste último inserir episódios da sua vida privada no cerne do seu trabalho. Vale a pena recordar que Hong Sang-soo e Kim Min-hee iniciaram um affair quando o primeiro era casado, uma situação que gerou um certo burburinho na Coreia do Sul e aparece de certa forma plasmada no interior da história de Young-hee, uma actriz que protagonizou um enorme escândalo ao manter um caso com um realizador comprometido.

A inclusão de elementos pessoais no interior do enredo não é novidade nas obras de Hong Sang-soo, ou o seu ADN não estivesse sempre muito presente em todos os poros dos seus trabalhos, com "Bamui haebyun-eoseo honja" a não fugir à regra. Não faltam os longos e reveladores diálogos durante as célebres refeições onde são consumidas bebidas alcoólicas (o inevitável soju, enquanto a cerveja coreana também tem algum destaque), o dissecar das relações humanas, os zooms inquietos, os planos de longa duração, os sonhos que entram sem aviso, a câmara de filmar a acompanhar as trocas de palavras de alguns elementos como se fosse uma bola de ping-pong a saltar de um lado para o outro da mesa, o aproveitamento dos territórios e das condições climatéricas ao serviço do enredo, a presença de uma série de colaboradores habituais e os desgostos amorosos. Temos ainda os personagens pertencentes ao meio cultural, o tom muito pessoal deste cineasta que tem o condão de nos transportar para o interior de universos narrativos que muito têm de seu e da sua interpretação do Mundo que nos rodeia, bem como os diálogos improvisados e livres. São estes ingredientes que pontuam o filme em análise e a história de Young-hee, uma intérprete que se encontra a lidar com as dores provocadas pelo final do affair com Sang-won.

Quando a conhecemos, Young-hee encontra-se em Hamburgo na companhia de Jee-young (Seo Young-hwa), uma amiga com quem tem alguma proximidade e protagoniza uma série de passeios, com o realizador a aproveitar com acerto alguns espaços desta cidade e as dinâmicas convincentes entre as intérpretes. Observe-se logo no início de "Bamui haebyun-eoseo honja", quando nos deparamos com as duas amigas a comerem queijo e salsicha num mercado de rua, ou a passagem de ambas por uma ponte que permite a Kim Min-hee deixar em evidência a as inquietações e as dúvidas que envolvem o âmago da personagem que interpreta, nomeadamente, quando se curva e efectua uma prece. Ao longo da fase inicial do enredo encontramos a protagonista a questionar se o amado está a pensar em si, ou se ele pondera viajar até à Alemanha, enquanto divaga sobre o amor, passeia pelo território com a amiga e trava conhecimentos. A amizade entre ambas é notória, embora contem com personalidades distintas, algo que se torna clarividente não só pelos diálogos que trocam, mas também pelas características que as actrizes incutem às suas personagens.

Seo Young-hwa imprime uma postura introvertida, receosa e pouco decidida a Jee-young, uma personagem que apenas conta com influência nos primeiros vinte e seis minutos do filme. Por sua vez, Kim Min-hee permanece quase sempre em destaque, ou não estivesse no centro do enredo e de quase todos os acontecimentos. A colaboradora habitual de Hong Sang-soo tanto é capaz de transmitir uma enorme sensação de candura, melancolia e fragilidade como de expressar a faceta bastante directa e o lado mais magoado da personagem que interpreta, enquanto exibe carisma e capacidade para estabelecer dinâmicas convincentes com os seus colegas de elenco. Não são raros os momentos em que encontramos Young-hee a duvidar do amor ou a tentar esquecer Sang-won. No entanto, também não faltam situações em que esta recorda o amado, algo que revela a multitude de sentimentos antagónicos que fervem no âmago da protagonista. Kim Min-hee consegue explanar estes sentimentos e a fase de indefinição em que se encontra a protagonista, embora também seja praticamente impossível deixar de realçar que a intérprete está acompanhada por um elenco talentoso, algo notório quer quando Young-hee está em Hamburgo, quer a partir do momento em que esta regressa à Coreia do Sul.

O regresso da protagonista ao país natal, nomeadamente, para visitar o território de Gangneung, permite um reencontro desta com uma série de amigos e conhecidos, bem como uma miríade de "situações Hong Sang-soo" nas quais muito álcool é consumido, sentimentos são extravasados e alguns personagens exprimem os seus sentimentos de forma bem viva. Note-se quando encontramos Young-hee a falar sobre o amor durante um jantar, notoriamente alcoolizada, enquanto hostiliza o grupo com quem está reunida, composto por Myung-soo (Jung Jae-young), Jun-hee (Song Seon-mi), Dohee (Park Yeaju) e Chun-woo (Kwon Hae-hyo), até voltar a apresentar uma postura amigável. É um momento para o elenco sobressair, com as falas a centrarem-se em assuntos relacionados com o amor e a vida, ainda que regadas a álcool e condimentadas por boa comida. Diga-se que estes quatro elementos protagonizam alguns momentos de destaque ao lado da protagonista, seja em situações de humor, ou de maior seriedade, com Hong Sang-soo a saber balancear as diferentes vertentes do seu filme.

 Outro dos trechos em destaque é um sonho de Young-hee. Não vamos aqui revelar o conteúdo do sonho, embora este permita que Hong Sang-soo realce algumas das inquietações desta mulher, seja a nível da sua vida amorosa, ou dos problemas laborais. Diga-se que é mais um momento típico dos filmes deste realizador: dotado de planos de longa duração, a câmara a ziguezaguear de acordo com quem fala, enquanto a presença das garrafas de soju é sentida e as palavras trocadas permitem expor as forças e fraquezas de alguns personagens. Os diálogos convencem, tal como o trabalho dos actores, algo que se estende não só a este trecho, mas também a toda a obra cinematográfica. Tudo é desenvolvido e elaborado com o recomendável toque pessoal do cineasta, sempre de forma simples e humana, com uma mistura de drama, humor e um olhar muito próprio sobre as relações, o amor e os episódios aparentemente banais que tanta relevância têm no nosso quotidiano, enquanto ficamos diante de uma protagonista dotada de interesse, que beneficia imenso da interpretação de bom nível de Kim Min-hee.

Título original: "Bamui haebyun-eoseo honja".
Título em inglês: "On the Beach at Night Alone".
Realizador: Hong Sang-soo.
Argumento: Hong Sang-soo.
Elenco: Kim Min-hee, Seo Young-hwa, Jung Jae-young, Song Seon-mi, Kwon Hae-hyo, Seo Young-hwa, Moon Sung-keun.

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