09 novembro 2017

Resenha Crítica: "Assault on Precinct 13" (Assalto à 13.ª Esquadra)

 O filme de cerco está no sangue de John Carpenter, com o cineasta a demonstrar uma perícia indelével a inquietar o espectador e os personagens, enquanto utiliza os espaços fechados com mestria e cria uma atmosfera opressora e fervilhante em volta do enredo. Esse gosto pelo filme de cerco é exposto desde logo em "Assault on Precinct 13" (em Portugal: "Assalto à 13.ª Esquadra"), a segunda longa-metragem de John Carpenter, o "Rio Bravo" deste admirador de Howard Hawks, com as referências a acumularem-se e a serem utilizadas ao serviço do enredo. Seja uma parceria improvável, a mulher hawksiana, a utilização certeira do cenário fechado de uma esquadra, ou situações como o sangue que escorre e revela informação preciosa, ou uma arma que é atirada de forma sagaz a um aliado, não faltam elementos a unir "Assault on Precinct 13" a "Rio Bravo". Não estamos no interior de uma cidade de fronteira do Velho Oeste (embora por vezes pareça), mas sim em Anderson, um gueto de Los Angeles, onde se encontra localizada a esquadra do distrito nove, da divisão treze, aquela que se prepara para ser cercada e palco de uma intensa luta pela sobrevivência.

O crime e a insegurança encontram-se presentes em quase todos os poros de "Assault on Precinct 13", com John Carpenter a arquitectar o receio e o medo, a jogar com a nossa percepção dos eventos que estão a ser apresentados e a demonstrar que não está aqui para brincadeiras. É certo que deixa o humor entrar em alguns trechos do enredo, mas é quase sempre Sol de pouca dura, sobretudo quando a noite aparece, as luzes são cortadas e a atmosfera de incerteza é exacerbada a níveis consideráveis. Tudo é pensado ao pormenor, sempre com uma falsa simplicidade e uma grande precisão, com a insegurança a ser a palavra de ordem, enquanto os acontecimentos se sucedem e culminam num cerco. Esse cerco é antecedido de uma breve apresentação do contexto que rodeia a cidade e dos eventos que conduziram diversos personagens a esta esquadra. Um desses personagens é Ethan Bishop (Austin Stoker), um indivíduo afável, correcto no cumprimento do dever, que é designado para cumprir a sua primeira tarefa como tenente, nomeadamente, supervisionar uma esquadra que se encontra a ser desmantelada. No interior da esquadra encontram-se elementos como Leigh (Laurie Zimmer) e Julie (Nancy Kyes), duas secretárias, bem como o Sargento Chaney (Henry Brandon), com a primeira a surgir em grande destaque quer pela sua personalidade bem definida, quer pela capacidade para enfrentar os desafios.

 Quem também tem uma missão a cumprir é Starker (Charles Cyphers), um agente da autoridade que se encontra a liderar o transporte de Napoleon Wilson (Darwin Joston), Wells (Tony Burton) e Caudell (Peter Frankland), três prisioneiros perigosos que estão a ser transferidos para outra prisão. No entanto, a partir do momento em que Caudell adoece de forma grave, Starker é praticamente forçado a ter de parar na esquadra que serve de cenário primordial a esta obra cinematográfica, tendo em vista a aguardar por ajuda médica. Começam a ser atados todos os cordelinhos, com estes elementos a circularem pelas estradas até chegarem à esquadra, embora o maior perigo ainda esteja a caminho. Esse perigo advém da presença de alguns membros do Street Thunder, um grupo de delinquentes que possui imenso armamento e uma predisposição para provocar a morte alheia e a barbárie. Note-se quando encontramos quatro membros deste gang no interior de um carro, enquanto observam alguns elementos que circulam por Anderson.

Um membro do grupo destaca-se ao simular disparos sobre os transeuntes, até eliminar de vez uma jovem rapariga num episódio pontuado pela brutalidade, que permite exibir de forma paradigmática que ninguém está seguro ao longo de "Assault on Precinct 13". Se uma jovem inocente é morta de forma implacável por um destes delinquentes, então é quase certo que podemos esperar o pior dos membros do Street Thunder, com os momentos que precedem e sucedem este assassinato a serem marcados pelo suspense. A banda sonora adensa a inquietude que envolve a presença dos elementos deste grupo, enquanto estes entram no interior de um carro preto, quase sem proferirem uma única palavra, com os seus rostos a transmitirem malícia e ferocidade. A presença destes personagens a circularem de carro pelas estradas potencia a sensação de insegurança ao mesmo tempo que esperamos que algo de mau aconteça. Claro que não esperamos o assassinato a sangue frio de uma rapariga, mas John Carpenter desfere-nos um golpe brutal e ao pai da jovem.

 Lawson (Martin West), o pai da rapariga, ainda persegue os membros do grupo e acaba por eliminar o indivíduo que assassinou a sua filha. O resultado: é perseguido e tem de esconder-se no interior de uma esquadra. Já sabem qual é a esquadra não sabem? Diga-se que o espaço da esquadra já tinha conhecido alguma tensão com a entrada em cena de Starker. É o primeiro disruptor da acalmia que até então grassava pela esquadra, com a chegada de Napoleon Wilson a exigir cuidados redobrados. Nunca chegamos a saber as razões para Napoleon ter eliminado um grupo de indivíduos. Aquilo que sabemos é que Darwin Joston imprime carisma, uma mescla de leveza e perigo e um tom desprendido e insolente a Napoleon. A importância que este personagem tem no interior do enredo é paradigmaticamente visível desde o momento em que é apresentado, com a câmara a aproximar-se do seu rosto e a deixar bem claro que é uma figura que incomoda as autoridades.

Ao sair da prisão, Napoleon exprime alguma da sua rebeldia, bem como o gosto por fumar, embora, a partir de uma fase mais adiantada do enredo exiba uma faceta desconhecida. É uma fase em que a esquadra já está cercada, com os criminosos a rodearem este estabelecimento durante a noite e a trazerem consigo o medo e a incerteza. O telefone e a luz são cortados, enquanto lá fora o cerco é montado e a morte começa a chegar a diversos elementos que se encontram no interior da esquadra. As armas são poucas, tal como as munições, com o espaço da esquadra a ganhar características gradualmente claustrofóbicas, sobretudo quando as balas surgem do fora de campo e começam a penetrar pelos vidros e a aventurarem-se pelo interior deste posto policial. John Carpenter utiliza o cenário de forma exímia ao mesmo tempo que desenvolve as dinâmicas entre os elementos que se encontram no interior do posto policial e permite que Austin Stoker, Darwin Joston, Laurie Zimmer e Tony Burton sobressaiam pela positiva.

Austin Stoker exibe o espírito de liderança e a ponderação de Ethan, bem como a sua capacidade de encontrar aliados nos locais mais improváveis. Um desses aliados é o personagem interpretado por Darwin Joston, com o actor a espelhar que estamos diante de um criminoso que conta com mais dimensão do que poderíamos imaginar aquando da sua apresentação. Já Laurie Zimmer incute uma mescla de fragilidade e segurança a Leigh, enquanto que Tony Burton transmite o receio e o nervosismo de Wells. A insegurança percorre todos os poros de "Assault on Precinct 13", com John Carpenter a exacerbá-la em diversas ocasiões, enquanto deixa a tensão apoderar-se do enredo. Note-se a forma como a falta de luz é aproveitada para adensar a agitação que envolve o cerco, com a iluminação que irrompe pelas persianas a conspurcar as sombras e a trazer a sensação de que estamos diante de enormes grades que agrilhoam os personagens que lutam pela sobrevivência. A juntar a tudo isto, não existem pessoas a habitarem nas redondezas e as armas dos criminosos contam com silenciadores, algo que imprime características ainda mais claustrofóbicas ao posto policial. Ficamos perante um grupo heterogéneo que se encontra preso no interior da esquadra, sem grandes hipóteses de sobreviver ou de se defender, enquanto vidros são partidos, diversos tiros são disparados e estratégias de última hora são alinhavadas.

 É a Batalha do Álamo de John Carpenter, em pleno espaço urbano, onde os lados distintos da lei se diluem perante uma luta pela sobrevivência, um combate brutal no qual os nervos estão à flor da pele e a noite é uma testemunha que parece ter prazer em adensar a insegurança. No último terço, a violência aumenta de tom, mas o efeito que esta provoca remete e muito para a imensa capacidade que John Carpenter exibe para construir toda uma atmosfera de inquietação em volta dos acontecimentos retratados. Os personagens e os eventos são bem apresentados, o espaço da esquadra é aproveitado ao máximo, a banda sonora é fulcral para sublinhar a atmosfera opressora do filme, enquanto somos embalados para o interior dos acontecimentos deste thriller puramente carpentiriano. Intenso, inquietante, violento, claustrofóbico, marcante, envolvente e assustador, "Assault on Precinct 13" é um excelente ponto de entrada para a filmografia de John Carpenter e um thriller de eleição que parece ganhar mais fulgor a cada nova visualização.

Título original: "Assault on Precinct 13".
Título em Portugal: "Assalto à 13.ª Esquadra".
Realizador: John Carpenter.
Argumento: John Carpenter.
Elenco: Austin Stoker, Darwin Joston, Laurie Zimmer, Tony Burton, Martin West, Charles Cyphers, Peter Frankland, Nancy Kyes, Henry Brandon.

Sem comentários: