07 novembro 2017

Resenha Crítica: "Arabesque" (1966)

 David Pollock (Gregory Peck), um professor da Universidade de Oxford, especialista em hieróglifos, tem uma técnica rápida e prática para acordar os alunos que adormecem a meio das aulas, nomeadamente, dizer a palavra sexo, algo que desperta rapidamente a atenção dos seus ouvintes. Em "Arabesque", Stanley Donen não grita a palavra sexo para despertar a atenção do espectador, mas opta por incutir uma série de fugas alucinantes, alianças trocadas, reviravoltas, enganos, imensos momentos de humor, correria e alguma acção a esta obra cinematográfica delirante e cheia de ritmo, que reúne no seu interior diversos elementos de comédia e espionagem, enquanto aproveita para tentar distrair-nos em relação ao facto de que a conspiração internacional que marca boa parte do enredo nem sempre faz sentido (já para não salientar o whitewashing à bruta). Se a conspiração internacional desafia imenso o sentido de credibilidade do espectador, já a dinâmica entre Gregory Peck e Sophia Loren convence e de que maneira, com a dupla a contribuir para elevar e muito os diversos momentos que protagonizam, sejam estes um episódio pontuado pelo humor, sedução e tensão que decorre no interior de uma banheira, ou uma fuga perigosa por um jardim zoológico.

Gregory Peck imprime um estilo simultaneamente polido e espirituoso a David, um professor universitário que acaba por se ver envolvido no interior de uma conspiração internacional de características rocambolescas, nomeadamente, quando é contratado para decifrar um criptograma, enquanto que Sophia Loren incute alguma ambiguidade e imensa sensualidade a Yasmin Yazir, uma personagem misteriosa que ganha toda outra dimensão graças ao carisma e talento da actriz. Yasmin tem uma série de ligações inicialmente pouco claras com diversos elementos que pretendem descobrir a mensagem que se encontra escondida no criptograma que David tenta decifrar. Note-se a relação que Yasmin mantém com Nejim Beshraavi (Alan Badel), um empresário do sector da construção naval, notoriamente endinheirado, que se opõe de forma violenta a Hassan Jena (Carl Duering), o Primeiro-Ministro do Egipto. Beshraavi inicia o contacto com David Pollock através de Sylvester Pennington Sloane (John Merivale), um dos seus capangas, tendo em vista a que o professor decifre o conteúdo de um criptograma, ou a mensagem secreta não estivesse escrita em hieróglifos (que poderiam ser decifrados por qualquer especialista da área, embora o protagonista pareça ser o único que está qualificado para desempenhar essa tarefa). David ainda rejeita encontrar-se com Beshraavi, pelo menos até ser contactado por Hassan Jena, com o político a incumbir o protagonista de descobrir os planos do inimigo.

 O personagem interpretado por Gregory Peck é assim envolvido no interior de uma grande conspiração internacional que engloba figuras como Beshraavi e os seus homens, bem como Yussef Kasim (Kieron Moore), um guerrilheiro de personalidade violenta e pouco recomendável que não pactua com Hassan Jena, nem com o empresário do sector naval, embora tenha uma estranha ligação com Yasmin e uma enorme apetência para proferir diálogos risíveis e ridículos. É ao contactar com Beshraavi que David Pollock depara-se com Yasmin, ou o primeiro não estivesse instalado no interior da casa desta mulher misteriosa. De olhar felino, um guarda-roupa que realça a sua elegância e sensualidade (a cargo da Channel), Yasmin desperta desde cedo a atenção de David e vice-versa, com as conversas e trocas de olhares entre estes dois elementos a provocarem alguns ciúmes em Beshraavi, um indivíduo disposto a quase tudo para alcançar os seus intentos. O argumento incute uma série de estereótipos a Beshraavi que vão desde gostar de tâmaras a ter um falcão como animal de estimação, com Alan Badel a abraçar o tom quase caricatural e desprovido de dimensão do personagem que interpreta. Já Sophia Loren contribui para que Yasmin se transforme num enigma difícil de decifrar, com a protagonista a tanto deixar a entender que pretende ajudar David como transmite a sensação de que se encontra a conspirar para que os planos do professor universitário sejam frustrados ou que este seja eliminado.

A faceta ambígua desta figura feminina é utilizada de forma exímia ao serviço da narrativa, um pouco à imagem daquilo que Stanley Donen efectuara com o personagem interpretado por Cary Grant em "Charade". O realizador repete em parte a fórmula de "Charade", uma obra cinematográfica onde reuniu de forma certeira elementos de espionagem, humor, suspense e romance, com o cineasta a saber utilizar estes ingredientes para criar filmes envolventes e cheios de ritmo. Tal como em "Charade", Stanley Donen tem em "Arabesque" uma dupla de protagonistas que conta com uma química deliciosamente convincente, algo notório quer nos momentos de humor, quer de maior suspense, romance e sedução. Veja-se quando encontramos David Pollock e Yasmin Azir na banheira, com ambos a procurarem que Beshraavi não descubra que estiveram em contacto, com a primeira a alertar o segundo para as más intenções deste indivíduo. Não falta muita atrapalhação, um sabonete a cair e imenso humor, naquele que é um dos vários episódios em que Gregory Peck e Sophia Loren elevam "Arabesque". Note-se ainda o momento em que David e Yasmin procuram o criptograma em invólucros de bombons, ou efectuam uma fuga pelo jardim zoológico, entre outros exemplos.

 O espaço do jardim zoológico é utilizado de forma eficiente ao serviço do enredo, com a parca iluminação, as jaulas e os aquários a contribuírem para adensar a tensão que envolve uma fuga que decorre neste estabelecimento. Diga-se que Stanley Donen efectua um aproveitamento relativamente competente dos cenários interiores e exteriores. Note-se o caso da habitação de Yasmin e Beshraavi, um espaço decorado a preceito (bom trabalho neste quesito) quer para reflectir o poderio financeiro dos seus habitantes, quer para transmitir diferentes estados de espírito (as tonalidades castanhas da biblioteca, discretas e prontas a sublinharem a formalidade do encontro inicial entre a personagem interpretada por Sophia Loren com David Pollock, ou o espaço do quarto de banho da protagonista, propiciador da atmosfera quente que rodeia a mencionada cena na banheira). Temos ainda o consultório onde Sloane elimina Ragheeb (George Coulouris), um egiptólogo, nos momentos iniciais do filme, tendo em vista a furtar o criptograma, com o espaço deste cenário a ser marcado pela frieza, algo realçado pelos ângulos de câmara que incrementam a tensão e o nervosismo que pontua este episódio.

 Vale ainda a pena salientar a forma exímia como Stanley Donen utiliza os reflexos ao longo do filme, com o cineasta a aproveitar eficazmente os espelhos, os vidros das jaulas, as lentes de microscópios, entre outros elementos, quer para exacerbar a ambiguidade que marca os comportamentos de diversos personagens, quer para transmitir uma sensação de perigo ou a confusão que permeia alguns episódios protagonizados por David Pollock. O perigo marca o quotidiano do personagem interpretado por Gregory Peck, sobretudo a partir do momento em que este é envolvido no interior de uma conspiração internacional de características rocambolescas. Não faltam fugas a pé, de carro, ou a cavalo, seja por locais tão distintos como o mencionado jardim zoológico, ou um hipódromo, com Stanley Donen a não dar descanso ao protagonista. Inspirado livremente no livro "The Cypher", de Gordon Cotler, o argumento de Julian Mitchell, Stanley Price e Peter Stone estica ao máximo as peripécias que envolvem a dupla de protagonistas, embora seja notório que nem sempre tem algo para nos dar a não ser uma série de episódios delirantes que permitem a Sophia Loren e Gregory Peck evidenciarem que contam com enorme talento e carisma. Essa dinâmica entre Sophia Loren e Gregory Peck chega e sobra para envolver o espectador, bem como o ritmo enérgico que Stanley Donen incute a esta obra cinematográfica deliciosamente delirante.

Título original: "Arabesque".
Título em Portugal: "Arabesco".
Realizador: Stanley Donen.
Argumento: Julian Mitchell, Stanley Price e Peter Stone.
Elenco: Gregory Peck, Sophia Loren, Alan Badel, John Merivale, Kieron Moore, Carl Duering.

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