30 novembro 2017

Resenha Crítica: "Bamui haebyun-eoseo honja" (On the Beach at Night Alone)

 Num determinado momento de "Bamui haebyun-eoseo honja" (On the Beach at Night Alone), encontramos Young-hee (Kim Min-hee), a protagonista, a questionar Sang-won (Moon Sung-keun), um realizador com quem manteve um affair, sobre a forma como este pretende desenvolver o seu próximo filme. O cineasta responde o seguinte: "Como forem surgindo as ideias, sem muito planeamento. Filmo a primeira cena e deixo ela levar-me". Estas palavras levam a personagem principal ao desespero, sobretudo a partir do momento em que percebe que o enredo da nova obra de Sang-won é inspirado em alguém que este amou, nomeadamente, Young-hee. Se existiam dúvidas de que o enredo de "Bamui haebyun-eoseo honja" conta no seu interior com diversos elementos da vida de Hong Sang-soo, estas ficam claramente dissipadas nesta troca de diálogos, com o realizador-personagem a surgir quase como um duplo do autor, inclusive no método de desenvolver as obras cinematográficas. É possível dissociar a obra de arte do artista que a concebeu, mas neste caso é algo praticamente impossível de efectuar, sobretudo devido ao facto deste último inserir episódios da sua vida privada no cerne do seu trabalho. Vale a pena recordar que Hong Sang-soo e Kim Min-hee iniciaram um affair quando o primeiro era casado, uma situação que gerou um certo burburinho na Coreia do Sul e aparece de certa forma plasmada no interior da história de Young-hee, uma actriz que protagonizou um enorme escândalo ao manter um caso com um realizador comprometido.

26 novembro 2017

Resenha Crítica: "120 battements par minute" (120 Batimentos por Minuto)

 Tudo termina praticamente como começa, ou seja, com um protesto protagonizado por militantes do Act Up-Paris, um grupo activista que luta contra a SIDA. São momentos de pura energia, pontuados pelo extravasar das emoções e demonstrações categóricas da procura destes elementos em serem ouvidos e encarados com seriedade por aqueles que os rodeiam. No início observamos tudo como algo pulsante. No final somos assolados por uma sensação agridoce. Fomos atirados para o interior da jornada destes personagens e envolvidos para o meio das suas batalhas, conquistas, derrotas, debates, relações, desejos e para o triste destino de alguns elementos contaminados com o vírus da SIDA. É uma experiência plena esta que Robin Campillo proporciona ao longo de "120 battements par minute", que capta o fervor dos debates entre os membros do Act Up-Paris e o contexto histórico, com as temáticas a serem desenvolvidas com precisão, muitas das vezes com um toque surpreendente de humor, embora o drama também esteja bastante presente, com quase tudo a centrar-se nos objectivos do grupo e num romance deveras intenso.

O enredo desenrola-se no início dos anos 90, em Paris, numa fase em que a SIDA ceifa vidas a uma velocidade assustadora, embora exista uma enorme indiferença e desconhecimento em relação a este assunto. A certa altura do filme, encontramos uma jovem a dizer que não precisa de utilizar preservativo, pois não é homossexual. É um momento revoltante e revelador de desconhecimento, que logo é contrastado com a atitude sagaz de Sean (Nahuel Pérez Biscayart), um dos protagonistas do filme, nomeadamente, beijar Nathan (Arnaud Valois), um militante que se juntou recentemente ao Act Up-Paris. Esta jovem é essencial para transmitir o pensamento generalizado da época, embora o foco de Robin Campillo esteja acima de tudo nas lutas e nas dinâmicas deste grupo, sempre sem retratar os seus membros como elementos unidimensionais. Existem personagens dotados de dimensão em "120 battements par minute" e intérpretes capazes de atribuírem massa humana a estas figuras que deixam marca no enredo e na nossa mente. Note-se as diversas cenas que envolvem as reuniões semanais do Act-Up Paris, marcadas por debates intensos e regras muito próprias, com Robin Campillo e Jeanne Lapoirie (a directora de fotografia) a captarem o fervilhar e a alma destes encontros.

25 novembro 2017

Resenha Crítica: "Posoki" (Táxi Sófia)

 Composto por episódios maioritariamente filmados em planos-sequência ou de longa duração, algo que lhes atribui um tom imediato, "Posoki" (em Portugal: "Táxi Sófia") coloca-nos diante de um retrato da sociedade, economia, política e cultura da Bulgária a partir do contacto entre seis taxistas e os seus clientes, ou entre os primeiros e outros intervenientes. A espaços quase que traz "Taxi" de Jafar Panahi à memória, uma obra onde o cineasta iraniano conduz um táxi pelas ruas de Teerão e filma as conversas com os clientes ou a sobrinha, com estes diálogos a permitirem traçar um fresco sobre a realidade local. Quase todos os episódios de "Posoki" decorrem durante uma noite, enquanto ficamos perante diversos acontecimentos que dão a conhecer alguns traços da personalidade destes taxistas e dos seus clientes, bem como da cidade de Sófia, onde se desenrola uma boa parte do enredo. Nada é exposto de forma unidimensional, bem pelo contrário, com o realizador Stephan Komandarev a apresentar-nos a um grupo heterogéneo de personagens e de acontecimentos ao mesmo tempo que efectua alguns comentários de foro social. 

Tanto encontramos taxistas cumpridores como outros que escapam às regras, ou clientes que variam entre a afabilidade e a falta de educação, com "Posoki" a contar com uma série de eventos maioritariamente verosímeis que permitem o despertar de uma certa empatia com alguns personagens e os seus sentimentos. Note-se o segmento em que encontramos um cirurgião a ser transportado por Radoslava (Irini Zhambonas), uma taxista, até ao hospital. Estes fumam e falam durante o percurso, seja sobre um transplante de coração que o médico vai ter de efectuar a um doente, ou em relação ao facto do primeiro ir emigrar, nomeadamente, para Hamburgo. "A Bulgária é o país dos optimistas (...). Todos os realistas e pessimistas já foram embora", diz o cirurgião num tom desencantado que permite expor a vaga emigratória dos búlgaros para outros países, tendo em vista a escaparem do estado caótico em que se encontra a sua nação. Essa crise económica e de valores é exposta de forma bem viva logo no prólogo, naquele que é um trecho inquietante, tenso e marcante, cujas repercussões são sentidas ao longo do enredo. 

22 novembro 2017

Resenha Crítica: "A Ciambra" (2017)

 A câmara agita-se frequentemente em "A Ciambra", enquanto segue os personagens atentamente, sempre num tom observador, inquieto e documental, num estilo que traz "Mediterranea" à memória, a primeira longa-metragem realizada por Jonas Carpignano. O pendor social está bem presente, tal como o gosto do cineasta em utilizar a universalidade da música pop para dialogar com o espectador, sublinhar as emoções de diversos episódios e expressar os gostos musicais de alguns personagens. A unir estas duas obras cinematográficas encontra-se ainda a inclusão de situações da vida pessoal dos intérpretes no interior da história dos protagonistas, bem como a presença de Pio Amato (a dar vida uma versão de si próprio) e Ayiva (Koudous Seihon), com a relação de amizade e proximidade da dupla a ser um dos ingredientes de peso de "A Ciambra".

Se em "Mediterranea" ficámos diante de Ayiva e Abas, dois migrantes do Burkina Faso que chegaram a Itália em busca de melhores condições de vida, já em "A Ciambra" o enredo centra-se em Pio, um adolescente de catorze anos de idade, de etnia cigana, que se encontra a lidar com dilemas típicos da idade, ainda que inseridos no contexto intrincado em que está envolvido. O silêncio é raro no interior da sua casa, um espaço extremamente povoado, onde quase todos falam alto e o agregado familiar conta com rotinas muito próprias. Note-se uma refeição regada a álcool e tabaco, em que a maioria fuma e bebe, sejam estes adultos ou petizes. Carpignano envolve-se pelo interior deste espaço, capta os diálogos muito próprios destes personagens e o barulho que provocam, aborda as suas dinâmicas e os seus rostos, com Pio a estar no centro de quase tudo. O seu rosto transmite uma certa inocência, mas também rebeldia e a espaços alguma melancolia, ou a infância não lhe tivesse fugido de forma demasiado rápida, enquanto as responsabilidades da idade adulta batem-lhe regularmente à porta, com Pio Amato a dominar frequentemente as atenções quer como intérprete, quer como personagem.

19 novembro 2017

Crítica: "Western" (2017)

 O título de "Western" remete não só para o encontro entre a Europa Ocidental e do Leste que observamos o longo do filme, mas também para o género cinematográfico que partilha o nome com o título da nova longa-metragem realizada por Valeska Grisebach. Não temos a grandiosidade do Monument Valley em planos bem abertos, embora não faltem elementos como a cidade de fronteira, o protagonista lacónico, bem como um estaleiro que a espaços traz à memória os postos da cavalaria de obras como "She Wore a Yellow Ribbon" ou "Fort Apache". O estaleiro pertence a uma empresa da construção civil oriunda da Alemanha, que foi contratada para uma obra intrincada numa zona rural da Bulgária, com o espaço onde estes elementos vivem e trabalham a ser exposto e aproveitado ao pormenor, sendo exibido muitas das vezes em planos abertos que permitem exacerbar as características simultaneamente belas e hostis deste território. Não faltam espaços verdejantes e plantações de tabaco, bem como uma série de caminhos não alcatroados que dificultam a circulação dos veículos e uma sensação de isolamento que é quebrada em alguns momentos pela presença dos locais. 

 A presença do calor e do Sol é sentida, quase que a trazer a falsa sensação de um ambiente acolhedor, embora ao longo do filme não faltem situações tensas, seja no interior deste grupo de trabalhadores, ou inerentes ao choque de culturas entre alguém que vem de fora e aqueles que já se encontram no território. Esse embate é um dos temas primordiais do filme: a língua separa os alemães dos búlgaros, tal como os seus hábitos, objectivos e preconceitos. A própria presença da bandeira alemã, colocada a sinalizar o estaleiro, indica desde logo um sentimento de tomada do território (e uma sensação de intrusão), com diversos trabalhadores a apresentarem em alguns momentos uma postura a roçar o chauvinismo e a xenofobia. Note-se quando encontramos Vincent (Reinhardt Wetrek), o elemento que controla a obra, a salientar que regressaram 70 anos depois (numa alusão à II Guerra Mundial), ou a forma como este personagem não tem problemas em desviar água para poder manter a obra a funcionar, ou a sua atitude desprezível e machista para com Vyara (Viara Borisova) num episódio definidor que ocorre no início do filme. 

18 novembro 2017

Resenha Crítica: "Geu-hu" (O Dia Seguinte)

 Vamos imaginar que os filmes de Hong Sang-soo são efectuados com a mesma receita. Nessa receita é provável que encontremos estes ingredientes: personagens ligados ao meio cultural; diálogos muitas das vezes improvisados (seja sobre assuntos mais profundos ou completamente banais); momentos em que os protagonistas bebem soju em doses consideráveis e trocam imensas palavras; desgostos amorosos ou traições; relações intrincadas entre homens e mulheres; os inevitáveis zooms inquietos, imagem de marca desde "Tale of Cinema"; os jogos com o tempo da narrativa; a presença de intérpretes que já trabalharam com o realizador. Qualquer um pode pegar nestes ingredientes, mas poucos conseguem ter a capacidade de Hong Sang-soo para atribuir-lhes um tom único, muito particular e extremamente envolvente, algo que se repete em "Geu-hu" (em Portugal: "O Dia Seguinte"), uma das três obras cinematográficas do realizador que estrearam em 2017.

 A proficuidade é outra das imagens de marca do cineasta, bem como a sua capacidade para colocar-nos diante de personagens que apenas parecem existir nos seus filmes. Um desses personagens é Kim Bongwan (Kwon Hae-hyo), o peculiar dono de uma pequena editora. No início do filme encontramos o protagonista a ser confrontado por Song Haejoo (Cho Yunhee), a sua esposa. Ela pretende saber se está a ser traída. Ele fica sem saber o que dizer, com as expressões faciais de Kwon Hae-hyo a permitirem exprimir não só a perplexidade de Bongwan, mas também uma sensação de nervosismo e desconforto. Pouco depois, Bongwan sai de casa, ainda de madrugada, até o passado entrar sem aviso no presente e ficarmos perante alguns episódios relacionados com o caso do protagonista com Lee Changsook (Kim Sae-byeok), uma antiga funcionária. Se os sonhos entram muitas das vezes sem aviso no interior das obras de Hong Sang-soo, também estes trechos relacionados com os episódios de outrora irrompem inesperadamente por "Geu-hu" e permitem uma ligação entre o presente e um passado que continua bem vivo e a deixar rasto.

16 novembro 2017

Críticas sobre filmes estreados em 2017 (circuito comercial)

Janeiro:

- Miss Sloane.
- Silence (brevemente).

Fevereiro:

- 20th Century Women.
- Jackie.

Março:

- Personal Shopper.
- Neruda
- Valley of Love.
- Ah-ga-ssi.

Abril:

- Fai bei sogni.
- Se Dio vuole.
- Ugetsu monogatari (reposição).
- Ma Loute.

Maio:

- Perfetti sconosciutti.
- Get Out.
- Ma vie de Courgette.
- I Am Not Your Negro

Junho:

- Mulholland Dr. (reposição).
- Zangiku monogatarai (reposição).
- Hymyilevä mies.
- Le confessioni.
- Paterson.

Julho:

- Baywatch
- Cars 3.
- Dunkirk.
- Lady Macbeth.
- The History of Love.
- Valerian and the City of a Thousand Planets.


Agosto:

- À bras ouverts.
- London Town
- Princess.
- Hampstead.
- Une vie.
- Wiener-Dog.
- Wind River.
- Sangailes vasara.
- Les parapluies de Cherbourg (reposição).
- Les demoiselles de Rochefort (reposição).
- Dog Eat Dog.
- La madre.
- Stop Making Sense.
- American Made.
- I Am Michael


Setembro:

- High-Rise.
- Logan Lucky.
- The Trip to Spain.
- The Limehouse Golem.
- La fille de Brest.
- The Bad Batch.
- It.
- Detroit.
- Kingsman: The Golden Circle.
- Home Again.
- Once Upon a Time in Venice.

Outubro:

- Lumière!.
- Les fantômes d'Ismaël.
- A Floresta das Almas Perdidas.
- The Big Sick.
- The Love Witch.
- Toivon tuolla puolen.
- Qualcosa di nuovo.  

Novembro:

- The Party (brevemente).
- Geu-hu.
- Verão Danado.
- Centro Histórico.
- Posoki

Dezembro:

- 120 battements par minute.
- Teströl és lélekröl.
- It Comes at Night.
- The Bachelors.
- Cherchez la femme.

14 novembro 2017

Resenha Crítica: "Loulou" (1980)

 A relação de Nelly (Isabelle Huppert) e Loulou (Gérard Depardieu) alimenta-se do desejo e da incerteza, dos prazeres efémeros e do improviso. Parece estar sempre por um fio, embora o seu fim também não esteja à vista, com as diferenças entre ambos a ficarem bem estabelecidas, tal como aquilo que os une. Estes são os dois personagens principais de "Loulou", um romance embebido de drama, no qual o pragmatismo e a razão são regularmente despedaçados pelo doce sabor da incerteza e a ferocidade da libido. É essa curiosidade pela indefinição que parece compelir Nelly a envolver-se com Loulou, algo que a leva a trair André (Guy Marchand), o seu esposo, após mais uma discussão violenta.

O primeiro encontro entre os protagonistas ocorre numa discoteca. Ela estava na companhia do marido. Ele resolveu tentar seduzir a protagonista. Dançam, separam-se temporariamente, até esta ceder rapidamente ao prazer e à curiosidade, sem pensar muito nas consequências do seu acto, ou naquilo que vai fazer após o Sol nascer e trazer consigo as lembranças daquilo que foi feito com a complacência da Lua. O que fizeram estes dois durante a noite? Trocam mais uns passos de dança, com os corpos bastante aproximados, naquele que é o aquecimento para o movimento seguinte. Pouco depois vão fazer sexo, mas a sensualidade e o erotismo são deixados de lado, sobretudo a partir do momento em que a cama se parte. É o resumo paradigmático da ligação que se forma entre Nelly e Loulou, ou seja, instável e quebradiça, com o realizador Maurice Pialat a desenvolver a relação destes personagens de forma credível, sem acordes em falso ou excessos melodramáticos.

12 novembro 2017

Resenha Crítica: "It Comes at Night" (Ele Vem à Noite)

 Trey Edward Shults insere uma atmosfera opressiva, misteriosa, inquietante e desoladora a "It Comes at Night", enquanto joga com as nossas emoções e sensações, opta quase sempre pela subtileza, utiliza o poder da sugestão, sabe despertar um nervoso miudinho no interior da nossa mente e deixa-nos diante dos ténues equilíbrios de uma família que vive praticamente em cativeiro. O que é dito tem quase tanta relevância como aquilo que não é mencionado, com o rosto da maioria dos intérpretes a surgir como um meio fulcral para que os personagens expressem as suas emoções ou reprimam as convulsões que vagueiam pelo âmago da alma. A começar por Joel Edgerton, um intérprete que insere um estilo duro, inflexível e intenso a Paul, um pai de família que leva a protecção dos seus entes queridos ao extremo. As expressões do rosto de Edgerton permitem discernir o peso da responsabilidade que o antigo professor de História colocou aos seus ombros, bem como os receios que contaminam o seu estado de espírito, algo que atribui uma carga acrescida a este personagem. Paul é casado com Sarah (Carmen Ejogo), de quem tem um filho adolescente (Kelvin Harrison Jr.), com o quotidiano do trio a ser marcado por um conjunto de regras rigorosas impostas pelo primeiro, algo que remete para o receio de ser contaminado, ou atacado por invasores que pretendam os recursos aprovisionados. O contexto que os rodeia propicia este tipo de comportamento e a desconfiança, ou não estivéssemos perante uma realidade pós-apocalíptica em que uma estranha e perigosa doença devastou uma parte considerável do planeta e da população.

09 novembro 2017

Resenha Crítica: "Assault on Precinct 13" (Assalto à 13.ª Esquadra)

 O filme de cerco está no sangue de John Carpenter, com o cineasta a demonstrar uma perícia indelével a inquietar o espectador e os personagens, enquanto utiliza os espaços fechados com mestria e cria uma atmosfera opressora e fervilhante em volta do enredo. Esse gosto pelo filme de cerco é exposto desde logo em "Assault on Precinct 13" (em Portugal: "Assalto à 13.ª Esquadra"), a segunda longa-metragem de John Carpenter, o "Rio Bravo" deste admirador de Howard Hawks, com as referências a acumularem-se e a serem utilizadas ao serviço do enredo. Seja uma parceria improvável, a mulher hawksiana, a utilização certeira do cenário fechado de uma esquadra, ou situações como o sangue que escorre e revela informação preciosa, ou uma arma que é atirada de forma sagaz a um aliado, não faltam elementos a unir "Assault on Precinct 13" a "Rio Bravo". Não estamos no interior de uma cidade de fronteira do Velho Oeste (embora por vezes pareça), mas sim em Anderson, um gueto de Los Angeles, onde se encontra localizada a esquadra do distrito nove, da divisão treze, aquela que se prepara para ser cercada e palco de uma intensa luta pela sobrevivência.

O crime e a insegurança encontram-se presentes em quase todos os poros de "Assault on Precinct 13", com John Carpenter a arquitectar o receio e o medo, a jogar com a nossa percepção dos eventos que estão a ser apresentados e a demonstrar que não está aqui para brincadeiras. É certo que deixa o humor entrar em alguns trechos do enredo, mas é quase sempre Sol de pouca dura, sobretudo quando a noite aparece, as luzes são cortadas e a atmosfera de incerteza é exacerbada a níveis consideráveis. Tudo é pensado ao pormenor, sempre com uma falsa simplicidade e uma grande precisão, com a insegurança a ser a palavra de ordem, enquanto os acontecimentos se sucedem e culminam num cerco. Esse cerco é antecedido de uma breve apresentação do contexto que rodeia a cidade e dos eventos que conduziram diversos personagens a esta esquadra. Um desses personagens é Ethan Bishop (Austin Stoker), um indivíduo afável, correcto no cumprimento do dever, que é designado para cumprir a sua primeira tarefa como tenente, nomeadamente, supervisionar uma esquadra que se encontra a ser desmantelada. No interior da esquadra encontram-se elementos como Leigh (Laurie Zimmer) e Julie (Nancy Kyes), duas secretárias, bem como o Sargento Chaney (Henry Brandon), com a primeira a surgir em grande destaque quer pela sua personalidade bem definida, quer pela capacidade para enfrentar os desafios.

07 novembro 2017

Resenha Crítica: "Arabesque" (1966)

 David Pollock (Gregory Peck), um professor da Universidade de Oxford, especialista em hieróglifos, tem uma técnica rápida e prática para acordar os alunos que adormecem a meio das aulas, nomeadamente, dizer a palavra sexo, algo que desperta rapidamente a atenção dos seus ouvintes. Em "Arabesque", Stanley Donen não grita a palavra sexo para despertar a atenção do espectador, mas opta por incutir uma série de fugas alucinantes, alianças trocadas, reviravoltas, enganos, imensos momentos de humor, correria e alguma acção a esta obra cinematográfica delirante e cheia de ritmo, que reúne no seu interior diversos elementos de comédia e espionagem, enquanto aproveita para tentar distrair-nos em relação ao facto de que a conspiração internacional que marca boa parte do enredo nem sempre faz sentido (já para não salientar o whitewashing à bruta). Se a conspiração internacional desafia imenso o sentido de credibilidade do espectador, já a dinâmica entre Gregory Peck e Sophia Loren convence e de que maneira, com a dupla a contribuir para elevar e muito os diversos momentos que protagonizam, sejam estes um episódio pontuado pelo humor, sedução e tensão que decorre no interior de uma banheira, ou uma fuga perigosa por um jardim zoológico.

Gregory Peck imprime um estilo simultaneamente polido e espirituoso a David, um professor universitário que acaba por se ver envolvido no interior de uma conspiração internacional de características rocambolescas, nomeadamente, quando é contratado para decifrar um criptograma, enquanto que Sophia Loren incute alguma ambiguidade e imensa sensualidade a Yasmin Yazir, uma personagem misteriosa que ganha toda outra dimensão graças ao carisma e talento da actriz. Yasmin tem uma série de ligações inicialmente pouco claras com diversos elementos que pretendem descobrir a mensagem que se encontra escondida no criptograma que David tenta decifrar. Note-se a relação que Yasmin mantém com Nejim Beshraavi (Alan Badel), um empresário do sector da construção naval, notoriamente endinheirado, que se opõe de forma violenta a Hassan Jena (Carl Duering), o Primeiro-Ministro do Egipto. Beshraavi inicia o contacto com David Pollock através de Sylvester Pennington Sloane (John Merivale), um dos seus capangas, tendo em vista a que o professor decifre o conteúdo de um criptograma, ou a mensagem secreta não estivesse escrita em hieróglifos (que poderiam ser decifrados por qualquer especialista da área, embora o protagonista pareça ser o único que está qualificado para desempenhar essa tarefa). David ainda rejeita encontrar-se com Beshraavi, pelo menos até ser contactado por Hassan Jena, com o político a incumbir o protagonista de descobrir os planos do inimigo.

05 novembro 2017

Resenha Crítica: "The Fog" (1980)

 John Carpenter tem uma apetência especial para colocar os personagens em situações intrincadas, sobretudo quando estes se encontram em espaços circunscritos, tais como uma esquadra ("Assault on Precinct 13"), ou uma casa ("Halloween"), ou uma prisão de segurança máxima ("Escape From New York"), ou uma estação situada na Antárctida ("The Thing"). No caso de "The Fog" (em Portugal: "O Nevoeiro"), a quarta longa-metragem realizada por John Carpenter, os habitantes da cidade costeira de Antonio Bay têm de enfrentar uma ameaça sobrenatural e misteriosa, nomeadamente, um nevoeiro que percorre diversos espaços deste território e traz consigo uma série de criaturas ameaçadoras. É uma ameaça que não podemos observar na totalidade, nem os personagens, ou a fisionomia destas figuras fantasmagóricas não estivesse encoberta pelas sombras, algo que exacerba a sua faceta aterrorizadora, enquanto diversos espaços circunscritos são palco de acontecimentos intensos.

A tensão apodera-se de forma amiúde do corpo e da alma de "The Fog", com John Carpenter a conseguir jogar com os receios do espectador e dos personagens. O nevoeiro do título traz consigo o medo, a incerteza e um grupo de seres fantasmagóricos, com os objectivos destas criaturas a remeterem para uma lenda que é exposta numa espécie de prólogo. Diga-se que o prólogo é uma forma hábil de John Carpenter incutir desde o início uma faceta misteriosa e inquietante a "The Fog", enquanto cria uma atmosfera opressora e claustrofóbica em volta dos acontecimentos que rodeiam o enredo. A lenda é contada por Mr. Machen (John Houseman) a um grupo de petizes, na praia, quando o relógio marca cinco para a meia noite e o calendário está quase a virar para o dia 21 de Abril, uma data comemorativa para os habitantes de Antonio Bay, uma cidade que se prepara para completar cem anos de existência. Foi exactamente a 21 de Abril, ainda que há cem anos (mais precisamente em 1880), que o navio Elizabeth Dane se afundou, após os seus tripulantes terem sido ludibriados por uma estranha luz que penetrou pelo interior de um denso nevoeiro. Mais tarde descobrimos que este acidente não ocorreu ao acaso, com a história dos tripulantes do Elizabeth Dane a entroncar nos episódios que se sucedem ao longo de "The Fog" e a trazer repercussões para os herdeiros daqueles que fundaram este espaço com recurso a um ardil que provocou a morte alheia.

02 novembro 2017

Resenha Crítica: "It's Always Fair Weather" (1955)

 Pontuado por uma série de números musicais cheios de ritmo, diversificados e magnificamente coreografados, uma química indelével entre o trio de protagonistas e um sentimento agridoce a envolver a reunião dos personagens principais, "It's Always Fair Weather" coloca-nos diante de Ted Riley (Gene Kelly), Doug Hallerton (Dan Dailey) e Angie Valentine (Michael Kidd), três antigos militares que se reencontram dez anos depois de se terem separado e jurado amizade para toda a vida. Claro está que esse reencontro não decorre inicialmente como estes esperavam, com o esquecimento em relação aos motivos que os conduzia a brindar em honra de "Old Bootsie" a marcar de forma simbólica um momento menos risonho desta amizade que parecia ter tudo para perdurar. Estamos diante de um musical de sabores melancólicos e algo pragmáticos, ainda que mesclados com diversos momentos de humor, romance e até de pancadaria, com Stanley Donen e Gene Kelly a acertarem nesta reunião de tons no interior daquela que seria a última parceria de ambos como realizadores.

Se a parceria de Gene Kelly e Stanley Donen não resistiu às desavenças no set de filmagens de "It's Always Fair Weather", já a amizade de Doug, Angie e Ted parece inicialmente inquebrável, algo paradigmaticamente demonstrado num número musical que envolve uma noite louca em Nova Iorque, onde o trio dança, bebe, canta e diverte-se, após o personagem interpretado pelo primeiro ter sofrido uma desilusão amorosa. Gene Kelly, Dan Dailey e Michael Kidd avançam pelas ruas, enquanto correm, utilizam tampas de caixotes do lixo para sapatearem, ou um táxi para dançarem, com o trio a exibir um talento notório para estes números musicais ao mesmo tempo que exprime de forma muito eficaz os laços fortes que unem os personagens que interpretam. É uma noite de grande folia que termina praticamente onde começou, nomeadamente, no bar do Tim (David Burns), um estabelecimento nova iorquino que os três ex-militares frequentavam antes de terem partido para a Europa, tendo em vista a participarem na II Guerra Mundial. Segue-se mais um número musical, marcado por tons relativamente brandos e melancólicos, após o trio tomar consciência de que está de regresso à vida de civil, enquanto efectua juras de amizade para toda a vida. Ficamos diante de um momento que exprime paradigmaticamente uma faceta por vezes mais contida de "It's Always Fair Weather", com a canção "The Time For Parting", cantada pelo trio de protagonistas em pleno Tim's Bar, a transmitir a sensação de que um ciclo está a terminar e outro na iminência de começar.