29 outubro 2017

Doclisboa 2017 - Entrevista a Fernanda Pessoa sobre "Histórias que nosso cinema (não) contava"

 A cineasta Fernanda Pessoa esteve em Portugal para apresentar "Histórias que nosso cinema (não) contava" na edição de 2017 do Doclisboa. O Rick's Cinema aproveitou a presença da realizadora no certame para efectuar algumas perguntas sobre este recomendável documentário. Ao longo da entrevista foram abordados assuntos relacionados com o interesse de Fernanda Pessoa pela "pornochanchada", a forma como a crítica recebia estes filmes, a ligação forte destas obras com o presente, o estado de conservação de algumas destas fitas, entre outros assuntos. A fotografia ficou a cargo de Roni Nunes. A condução e a transcrição ficou a cargo deste blogger e o mérito pelas respostas extremamente interessantes é todo da realizadora.
 

Rick's Cinema: A "pornochanchada" está no centro de "Histórias que nosso cinema (não) contava" e da exposição Prazeres Proibidos. Como surgiu o seu interesse neste género que é muitas das vezes encarado com algum desdém?

Fernanda Pessoa: Na verdade, o meu interesse começa bem antes de ter a ideia de trabalhar sobre esse tema. Quando estava no último ano da faculdade de cinema, eu trabalhava nos arquivos de fotografia de cinema brasileiro de um montador do período, que se chama Máximo Barro, que montou uma série de filmes dos anos 70. O acervo de fotografias da minha universidade era basicamente o acervo do Máximo. Então existiam muitas fotos dessa época. Eu precisava de assistir a esses filmes para saber de onde é que vinham essas fotografias e começar a catalogá-las. Então comecei a ter um conhecimento muito grande daquela cinematografia que não se estuda muito no Brasil. Na Faculdade de Cinema quando chegamos nos anos 70 falam que a "pornochanchada" é muito ruim e no máximo assistes um filme e acabou. Não vês mais nada, não aprofundas esse assunto.
 Teve um filme que despertou a minha vontade de trabalhar em cima destas obras do ponto de vista histórico, que se chama "E agora José?", um filme que eu uso. O filme tem um subtítulo super politizado: "A Tortura do Sexo", que, para mim, já conta com imensa contradição que está aí no género. Eu vi esse filme e falei "tem aqui alguma coisa que a gente não está olhando". Fiquei com isso na cabeça. Isso em 2010. Em 2012, fui fazer o mestrado em França e fiz uma aula sobre reutilização de imagens de cinema experimental. Foi aí que tive a ideia de começar a observar esses filmes com um olhar histórico. Então, fui rever todos os filmes que tinha visto para o meu trabalho, procurando esses traços de História. Eu nasci em 1986, um ano depois da abertura democrática. Eu não vivi esse período, então queria aprender algo sobre o mesmo a partir desses filmes. Foi assim que surgiu a minha vontade de trabalhar em cima deles.


RC: Essa exposição coloca em diálogo os papéis da censura com as imagens e os sons. Quais eram os principais temas que eram alvo da censura? A censura teve alguma influência nos temas abordados nestes filmes? 

FP: Quando falamos na censura durante a Ditadura Militar no Brasil, pensamos acima de tudo em censura política, porque muitos cineastas foram perseguidos pela questão política. Os censores eram treinados para encontrarem mensagens subversivas, comunistas, etc, que se encontravam escondidas nos filmes. O que nos esquecemos muitas das vezes é que também existia uma censura moral muito forte. As obras da "pornochanchada" passaram acima de tudo por uma censura moral. Uma censura moralizadora e educadora. Não podia ter cenas em que as pessoas urinavam em via pública. Os palavrões eram cortados. No caso das cenas de sexo, inicialmente a censura só deixava destapar um seio, depois os dois, até que para o final já podiam mostrar quase tudo. A censura também vai evoluindo. Eles também procuravam coisas políticas, mas nestes filmes bem menos. Eles pensavam que estas obras cinematográficas não tinham teor político.
 Uma coisa que é interessante é que os realizadores começaram a inserir planos para serem censurados. Todos os filmes tinham pelo menos um plano que era censurado. Então eles pensavam: "Vou fazer um plano bem ousado para eles cortarem este plano e o resto poder continuar". Mas, como a censura não era tão objectiva, era muito personalizada, dependia do censor que pegava no filme para censurar, muitas das vezes esse plano ficava e outro que eles não imaginavam acabava por sair. Daria para pensar numa história da evolução desses planos. De como esses filmes foram ficando cada vez mais ousados, porque os realizadores estavam a tentar enganar a censura e esta encontra-se a ir para outros lados. Eles estão a tentar entender a censura e esta encontra-se a reagir de uma forma contrária àquela que tinham imaginado. 


RC: Como se explica que um género como este consiga prosperar durante uma ditadura?

FP: O regime militar odiava esses filmes. No Brasil pensa-se que a Ditadura Militar gostava desses filmes, porque eles eram alienantes e não abriam os olhos da população para o que estava a acontecer. Mas isso não é verdade, quando lemos os arquivos da censura percebemos que eles abominavam esses filmes, consideravam-nos imorais, de mau gosto, horríveis. A crítica e a teoria de esquerda também odiavam esses filmes. Tanto o Estado como os órgãos oficiais do cinema não gostavam desses filmes. No entanto, foi criada uma mini-indústria, muito baseada no Rio de Janeiro e em São Paulo, mais neste último, numa região que se chama Boca do Lixo, onde foi produzido o cinema marginal. Hoje não tem mais, mas até aos anos 80 foi um pólo importante de cinema. Era mesmo muito independente. O produtor juntava-se com o exibidor, iam na sala de cinema e pediam dinheiro adiantado para fazer o próximo filme. Com a receita do filme, eles já investiam no próximo. Eles faziam muitos filmes. É uma das épocas em que temos mais produção de cinema no Brasil, porque os filmes são muito rápidos e baratos de fazer, são muito inventivos e independentes do Estado. Foi assim que foram conseguindo sobreviver e burlar de certa forma a censura. Tem algumas coisas nesses filmes que é impossível de ver hoje, como a cena das mulheres a "paquerar" os pedreiros em "As Aventuras Amorosas de um Padeiro".


 RC: Antes de começar a pesquisa já pensava que seria possível encontrar estes elementos políticos, sociais e económicos no interior das obras? É que surpreende os elementos relacionados com o investimento estrangeiro, a prosperidade económica, a tortura...

FP: A tortura foi quando vi "E Agora José? - Tortura do Sexo", um filme que me alertou de que existia algo mais nesses filmes. Os críticos criaram vários subgéneros para falar sobre a "pornochanchada". O "E Agora José?" não é exactamente uma comédia, é aquilo que os críticos na época chamavam de porno-político. Temos o porno-western, porno-social (como o "Noite em Chamas", utilizado em "Histórias que nosso cinema não contava"), porno-drama, porno-político, qualquer filme que pudesse entrar na "pornochanchada" eles colocavam porno na frente e o género é que mudava.
 É muito interessante, porque quando comecei a rever estes filmes com um olhar histórico, comecei a entender que o milagre económico era um dos assuntos mais fortes. Era algo de que não tinha a menor ideia. Ao ver os filmes separadamente não conseguia observar tanto esse aspecto histórico-político. No entanto, ao vê-los todos juntos, tudo isto fazia sentido. A "pornochanchada" carioca mostra muito esse lado económico. Os primeiros vinte minutos do meu filme são sobre isso. Essa ideia de um "milagre económico" e o corpo feminino como uma metáfora desse progresso económico. Ou é um objecto de troca, ou metáfora de um grande empreendimento, como a ponte de Niterói, a rodovia Transamazônica, esses grandes empreendimentos. É algo que não tinha a menor ideia de que iria ser assunto, mas há medida que vi mais filmes, estes começaram a contar-me a história do "milagre económico". Foi ao ver o todo que comecei a ter essa perspectiva melhor daquilo que os filmes me contavam.


RC: Qual foi o principal critério que utilizou para seleccionar as trinta obras que constam no documentário?

FP: Primeiro tive de definir o que é "pornochanchada". É uma definição difícil. Os críticos inventaram essa nomenclatura, embora muitos realizadores rejeitem a mesma. Não querem ser "pornochanchada". Existem filmes que eu assisto e digo "isto não é pornochanchada", mas um crítico dos anos 70 falou que era. Então é muito difícil. Tive de criar os meus critérios e decidir se os filmes encaixavam ou não no meu critério de "pornochanchada". Quis evitar realizadores que viraram cânones do cinema brasileiro. Muita gente diz que o Walter Hugo Khouri faz "pornochanchada". É um grande ícone no Brasil, que ficou conhecido como um realizador que tem um estilo, uma forma. Carlos Reichenbach também é um realizador que muita gente diz que fez "pornochanchadas", mas quis deixar ele de fora. Também deixei de fora as adaptações de obras de Nelson Rodrigues.
  Criei essas categorias para fechar um pouco o corpus fílmico. Posteriormente, escolhi os filmes com base naquilo que eles ensinavam sobre a História. Aqueles que tinham coisas mais interessantes para me revelar a História dos anos 70 no Brasil. Alguns filmes foram muito difíceis de encontrar, não encontrámos em cópia boa. As diferenças entre cópias são grandes. Algumas estão em HD, outras estão horríveis, mas não deixei que isso fosse um critério de exclusão. Considero que isso também conta algo sobre a nossa preservação da memória cinematográfica no Brasil.


RC: Pegando no tema da crítica. As críticas aos filmes que seleccionou eram maioritariamente negativas?

FP: A maioria sim. Um ou outro filme foi melhor com a crítica. Hoje em dia tem existido sobretudo um resgate do cinema da Boca do Lixo. Existem dois cineastas da Boca do Lixo que hoje são muito bem vistos, o Jean Garrett e o Ody Fraga. O Cláudio Cunha também tem alguns filmes que mais tarde foram reconhecidos, algumas obras dele foram exibidas recentemente no Festival Internacional de Cinema de Rotterdam. No Rio de Janeiro temos o Antônio Calmon, que é um cineasta que fez alguns filmes que resultaram mais ou menos bem com a crítica, embora de forma um pouco posterior. Na época poucos críticos tinham coragem para escrever bem sobre estes filmes. Um dos filmes que foram bem recebidos na época é o "As Aventuras Amorosas de Um Padeiro", do Waldir Onofre, uma das poucas longas-metragens que foram realizadas por um negro no Brasil. Num Festival que se chama Cine BH, no Brasil, fizemos uma sessão dupla do meu filme com o "As Aventuras Amorosas de Um Padeiro", em 35mm. Estou a tentar efectuar um resgate do Waldir, que é um cineasta bastante importante, mas apenas conseguiu fazer um filme.
  A maioria dos filmes eram rotulados com esse prefixo do porno, algo que afectava a recepção deles. No entanto, o público via muito estes filmes. A Ancine tem a lista dos filmes mais vistos de cada década. Se observarmos a lista dos dez filmes mais vistos de 73, oito são "pornochanchadas". Eram muito vistos, quase todos tinham 500 mil espectadores, o que é um número bem elevado para a realidade do Brasil dos anos 70.


RC: Você falou do estado das cópias. Qual era o estado de preservação destes filmes? É que fazem parte do património histórico brasileiro...

FP: Hoje temos pessoas que estão a tentar lutar por uma preservação. A Cinemateca do Rio de Janeiro tem o Hernâni Heffner, que é uma figura essencial, faz um trabalho incrível. No Brasil não temos um trabalho muito forte de preservação do cinema brasileiro. Nem as grandes obras do cinema brasileiro são muito preservadas, então imagina esses filmes que eram considerados como lixo. Ninguém ia depositar uma cópia de uma "pornochanchada" na Cinemateca. Tem uma história, que não sei se é verdade, em que dizem que o Jean-Claude Bernardet, um crítico super-importante dessa época (que já falava um pouco sobre como as "pornochanchadas" mostravam o quotidiano do brasileiro real), comprava todos os VHS desses filmes e preservava os mesmos. No entanto, ao falarmos com ele hoje em dia, o Jean-Claude Bernardet diz que não tem essas cópias.
 Vários produtores não sabem onde estão esses filmes. Eu adquiri os direitos de todos os filmes e pedi a cópia de todos, mas vários falavam: "eu dou-te os direitos, mas tens de achar o filme". Então tive de ir atrás. Alguns achei, outros não. Um achava que tinha o filme em enomatic, mas não tinha. Outro achou que tinha em BETA, mas aí descobriu que metade do filme estava estragada, então só tinha uma cópia de 35mm que estava na Cinemateca. No entanto, ele estava doente, no Sul do Brasil e não podia ir buscar. Tive algumas histórias mirabolantes assim, não conseguíamos ter acesso a muitos dos filmes.
 A Cinemateca Nacional do Brasil, que fica em São Paulo, está numa crise institucional há cinco anos. Sabíamos que três filmes estavam lá, tínhamos a certeza. O detentor dos direitos disse que estavam na Cinemateca, mas não conseguíamos aceder aos mesmos. Estivemos mais de seis meses a tentar obter acesso, mas não conseguíamos. Numa determinada semana escreverem-nos a dizer que iam conseguir, que estavam a renovar o pessoal e iam conseguir atender o pedido. Nessa semana, um dos departamentos de nitrato da Cinemateca pegou fogo. Aí parou tudo de novo. Então é uma loucura, foi muito difícil. Por exemplo, no caso do "Café na Cama" utilizámos uma cópia que baixei da internet, de alguém que algum dia gravou quando passou na TV e subiu o filme. Essa é a única cópia que existe. O detentor dos direitos sumiu, o realizador morreu, todo o mundo sumiu, é um mistério.
 Alguns dos filmes são restaurados pelo Canal Brasil, que tem ainda uma sessão da meia noite, ou das duas da manhã, em que passam esses filmes. Muitos desses filmes estão perdidos, são muito difíceis de achar. Alguns pesquisadores individuais ou da Cinemateca é que estão a tentar encontrar esses filmes.


RC: Conseguiu entrar em diálogo com algum dos cineastas que trabalharam nestas obras? Algum não quis ser ligado a estes trabalhos ou apresentaram receptividade?

FP: Vários morreram, nem estão mais aí. Alguns não ligam muito mais para isso, querem é saber quanto é que eu vou pagar. Outros ficaram muito felizes por terem o filme visto e acharam super importante. O Carlo Mossy, o Rei da Pornochanchada do Rio, e o Davi Cardoso, que é o Rei da Pornochanchada de São Paulo, são pessoas que amam a obra deles e são muito generosos, querem é que o filme passe, ficaram super felizes. A família de um dos realizadores não quis libertar os direitos, em grande parte por não querer estar associada ao rótulo de "pornochanchada". No fim, a maioria das pessoas acabou por libertar os direitos e participar no filme.


RC: Uma das opções que mais surpreende pela positiva é a ausência de narração em off e de talking heads. Sente que este jogo entre as imagens e os sons é algo que favorece o diálogo entre o espectador e o filme, que o obriga praticamente a pensar?

FP: Eu queria muito que os filmes contassem esta história ao invés de ser eu a contar. O título é um convite para a pessoa pensar: "Histórias que nosso cinema (não) contava". Quem está a contar esta história é a realizadora na montagem ou esses filmes? O espectador está sempre a ser questionado e a tentar desvendar esse quebra-cabeça do filme. Em certo momento pensámos se o filme deveria ter cartelas a indicar os temas. Ele segue eixos temáticos, quase uma cronologia: começa no golpe e termina no final dos anos 70, com a perspectiva de abertura, a amnistia, as greves. No meio do terceiro ano tínhamos cartelas que apontavam "milagre económico". No entanto, começámos (a realizadora e o montador Luiz Cruz) a pensar que não era necessário, que a própria montagem estava a contar a história e tinha um fluxo narrativo. Não queria fazer uma coisa didáctica, apesar do filme ser de fácil acesso. Conta uma história muito clara, mas parte do pressuposto que o espectador sabe pensar e conectar as coisas.


RC: Sente que o "Histórias que nosso cinema (não) contava" pode contribuir para uma releitura destes filmes, para o regresso da sua popularidade?

FP: O filme está a ir para alguns festivais internacionais, lugares onde achava que nunca chegaria. Foi para a Grécia e os gregos adoraram o filme, relacionaram-se e identificaram-se bastante com aquilo. Também foi para o Canadá. Esses filmes estão a chegar a lugares e a ser mais conhecidos. No Brasil tem esse pessoal que está a resgatar o cinema da Boca do Lixo, mas a palavra "pornochanchada" ainda é muito um tabu, muita gente ainda tem medo de se associar a isso.
 É parte da nossa História, é o cinema que fazíamos nos anos 70. O grande cinema que fazíamos e assistíamos. Precisamos de olhar para o nosso passado. O Brasil tem vários tabus. Por exemplo, no que diz respeito à Ditadura Militar. Na Argentina e no Chile tiveram comissões da verdade grandes, que foram a fundo para descobrir o que aconteceu e os torturadores foram julgados. No Brasil isso não aconteceu, tivemos uma comissão de verdade muito pequena, várias das pessoas que estavam no Regime Militar continuam a trabalhar. O Brasil não abriu esse passado e olhou para ele. No cinema também, as pessoas ficaram com vergonha e resolveram não olhar mais para isso. [O filme] ajuda as pessoas a olharem com outros olhos. As próprias críticas do meu filme têm apontado para isso, de que precisamos olhar para esses filmes com um olhar que seja um pouco mais generoso do que foi na época.


RC: A Fernanda Pessoa começou a desenvolver o filme em 2012. Pensava que o material que estava a trabalhar iria dialogar de forma tão directa com o presente? 

FP: No Brasil, uma das coisas que mais ouço depois que acaba a sessão é: "é impressionante como as coisas não mudaram, como é muito parecido com o que é hoje". Quando comecei a fazer o filme, já entendia que este continha várias questões que ainda são muito fortes na sociedade brasileira, tais como o machismo e o racismo. Esses movimentos por direitos sociais das minorias já era uma coisa muito presente, mas eu não tinha a menor ideia de que iríamos passar por um golpe institucional, a Dilma ainda nem tinha sido reeleita. Lembro-me do dia em que estava a ser votado o Impeachment na Câmara dos Deputados. Eu estava a finalizar o filme, uma arte gráfica. O Brasil inteiro assistiu àquilo, um show de horrores, uma coisa abominável. Eu vi esses filmes e estudei muito a ditadura e aquilo que mais me impressionava era como é que um golpe acontece e a sociedade não consegue reagir. Agora entendi, já que também não conseguimos fazer nada. Nós vimos a coisa a acontecer, um processo ilegal, mas disfarçado de legal e ninguém conseguiu fazer nada. É absurdo, toda a gente vê que é um absurdo, mas ninguém sabe o que fazer. Vai para a rua mas não adianta, é uma coisa muito perversa.


RC: O debate está muito polarizado. O próprio anti-comunismo, que encontramos no filme, está muito presente. Basta entrarmos nas redes sociais em que ser de esquerda parece quase que é insulto...

FP: Está muito polarizado. Essa coisa moralizadora e anti-comunista voltou, parece quase que estamos na mesma época. Não sei se vocês têm acompanhado, mas está a "rolar" uma volta da censura no Brasil....


RC: Li algo relacionado com uma mostra que foi censurada por alguém achar que tinha motivos relacionados com pedofilia...

FP: O Santander Cultural patrocinou uma exposição do Queermuseum e algumas pessoas falaram que a exposição tinha imagens de nudez e as crianças podiam ver. Agora o Masp (Museu de Arte de São Paulo Assis Chateaubriand), que é uma das instituições mais importantes do Brasil, acabou de fazer uma exposição sobre a História da Sexualidade que é proibida para maiores de dezoito anos. É um absurdo, agora só adultos podem discutir nudez. É muito complicado o que está a acontecer no Brasil. Tem uma volta muito forte dos religiosos. O Espírito Santo também está a votar uma lei que proíbe exposições que tenham arte erótica. É uma cruzada moral que estão a fazer novamente.


RC: O "Histórias que nosso cinema (não) contava" vai estrear em circuito comercial?

FP: Esperamos que sim. Estou com uma distribuidora no Brasil. Estamos a tentar recursos para distribuir, porque distribuir filmes sem dinheiro no Brasil é quase um suicídio económico. Estamos a tentar conseguir dinheiro para fazer isso. Se tudo der certo vamos lançar o filme no ano que vem. Provavelmente vai passar na TV. O Canal Brasil, que costuma exibir esse tipo de filme, já demonstrou interesse. Espero que ele chegue [ao circuito comercial]. O meu grande desejo é que este filme seja visto por muitas pessoas, que chegue a um público maior do que o de festival. O público de festival é "legal", porque entende, é mais especializado, mas o meu desejo é que o "Histórias que nosso cinema (não) contava" chegue para além do público cinéfilo, especializado.


RC: Muito obrigado por conceder esta entrevista. 

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