26 outubro 2017

Crítica: "Qualcosa di nuovo" (Algo de Novo)

 Comédia de enganos que não ludibria ninguém, "Qualcosa di nuovo" não tem estofo para cumprir os objectivos mínimos, pese a simpatia despertada pelos seus intérpretes. É certo que dão vida a lugares-comuns ambulantes, embora consigam incutir alguma energia aos personagens que interpretam, enquanto protagonizam uma série de episódios que variam entre o pueril, redundante, o suportável e o excruciante. Falamos de Lucia (Paola Cortellesi), Maria (Micaela Ramazzotti) e Luca (Eduardo Valdarnini). A primeira é uma cantora de jazz divorciada, algo frígida e introvertida. A segunda é divorciada, tem dois filhos e envolve-se regularmente em conquistas de uma noite. As duas são amigas desde o liceu, trocam regularmente confidências e exibem as suas diferenças de forma amiúde. O terceiro é um estudante de dezanove anos de idade, que terminou recentemente um namoro e está a finalizar o ensino secundário.

Os destinos dos três personagens reúnem-se após uma noite de farra em que Maria acorda sem saber lá muito bem o que aconteceu, tendo levado mais um estranho para a sua casa. Para o caso de não terem adivinhado, o desconhecido é Luca, com o jovem a demonstrar uma enorme surpresa pelo seu feito. Um mal-entendido leva a que o estudante pense que Lucia é Maria e que Maria é Lucia, com estas a tentarem manter a mentira. Aos poucos gera-se uma espécie de triângulo amoroso, com as duas amigas a envolverem-se com o estudante, embora mantenham este caso em segredo uma da outra, apesar de parecer quase certo que mais tarde ou mais cedo vão descobrir que se encontram a protagonizar um romance com o mesmo indivíduo.

Por sua vez, Luca vive o sonho de quase todos os adolescentes ou jovens adultos, enquanto "Qualcosa di nuovo" envolve-se pelos meandros deste caso em que a imaturidade pontua os comportamentos de todos os personagens. Entre cenas íntimas de Luca com Maria ou com Lucia, diálogos desprovidos de interesse, situações em que o primeiro exibe uma sapiência que surpreende algumas das suas interlocutoras e reviravoltas previsíveis, "Qualcosa di nuovo" gasta rapidamente os seus truques e mostra que não tem nada de novo para dar.

Tudo é bastante superficial, dotado de momentos de humor mal-enjorcados e assuntos que são atirados para o ar com a mesma facilidade com que são esquecidos. Note-se o caso da maternidade de Maria, com os filhos desta a serem mencionados apenas para decorar, pese esta viver com os petizes, ou a maneira completamente destrambelhada e incomodamente manipuladora como é inserida a informação de que Lucia perdeu um rebento. Quando tenta entrar pelos caminhos mais sérios, "Qualcosa di nuovo" falha por completo e espalha-se ao comprido, enquanto que nas situações mais leves encontramos um filme a pensar quase sempre que tem mais graça do que aquela que tem na realidade.

 Percebemos que a realizadora Cristina Comencini pretende proporcionar uma dose de escapismo ao espectador. No entanto, a cineasta confunde escapismo com desmazelo, com "Qualcosa di nuovo" a nunca conseguir sobressair na maioria dos quesitos. Os seus cenários raramente são aproveitados, o guarda-roupa é completamente genérico, tal como o seu argumento, com os intérpretes a fazerem o que podem ao longo de um filme completamente desprovido de interesse.

Título original: "Qualcosa di nuovo".
Título em Portugal: "Algo de Novo".
Realizadora: Cristina Comencini.
Argumento: Giulia Calenda, Cristina Comencini e Paola Cortellesi.
Elenco: Paola Cortellesi, Micaela Ramazzotti, Eduardo Valdarnini.

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