23 outubro 2017

Crítica: "The Love Witch" (A Feiticeira do Amor)

 O vermelho é a cor dominante de "The Love Witch", uma tonalidade que exacerba a sedução, a morte, o desejo, a inquietação, o perigo e o sangue. Note-se logo nos momentos iniciais, quando encontramos Elaine (Samantha Robinson), a protagonista, a utilizar um vestido vermelho, com o seu batom, o verniz das suas unhas e o seu carro a partilharem esta cor. O cor-de-rosa também é utilizado de forma amiúde pela personagem principal, com esta tonalidade a encontrar-se associada à ingenuidade, fragilidade e delicadeza. Estamos perante duas cores que permitem exacerbar de forma rápida e eficaz os contrastes que permeiam os comportamentos e a personalidade desta bruxa, com Elaine a tanto ter um lado mortal, sensual e perigoso como uma faceta de ingénua, frágil e trágica.

Como já podem ter reparado, a paleta de cores é utilizada com enorme fulgor e inspiração ao longo de "The Love Witch", quase a fazer recordar a série "Bewitched", ou um melodrama de Douglas Sirk filmado em technicolor, com Anna Biller, a responsável pela realização, argumento, montagem e produção, a exibir um enorme cuidado neste quesito. Uma atenção que é colocada ainda na decoração dos cenários interiores. Observe-se a casa onde a protagonista se instala. A habitação sobressai quer pelas tonalidades vermelhas e azuis garridas, quer pelos quadros, candeeiros, vasos e potes associados à bruxaria ou aos seus rituais, com a sua decoração a contribuir para Biller transmitir a extravagância que envolve algumas das práticas ligadas à feitiçaria, bem como a explosão de cores que rodeia o mundo destes personagens. 

Outro exemplo desse trabalho sublime na direcção de arte é a Casa de Chá Vitoriana, um estabelecimento que se destaca não só pela decoração relacionada com a época, mas também pelas tonalidades claras e pelo requinte dos seus bolos e das suas louças. É neste espaço que encontramos a protagonista a salientar que é viciada em amor, bem como a expor que se deve dar aos homens aquilo que eles querem. Inicialmente esta personagem parece saída dos fetiches masculinos, pronta a agradar e disponível para os prazeres sexuais, embora, mais tarde, seja notório que se encontra fragilizada por ser constantemente objectificada e reprimida pelos homens. Ao longo do filme encontramos Elaine a exibir a sua obsessão por amar e ser amada, algo que a leva a desenvolver uma poção para o efeito, enquanto seduz, provoca a morte alheia, desilude-se, apaixona-se e exibe a dor e os traumas que pontuam a sua alma. 

Tudo é exposto do ponto de vista feminino, sempre com algum humor, erotismo, uma atmosfera camp e elementos de terror e melodrama à mistura, embora "The Love Witch" acabe por derrapar na fragilidade do seu argumento, incapaz de sustentar as duas horas de duração do filme, ou de convencer nos momentos de algum impacto dramático. É certo que tem algumas ideias interessantes, sobretudo a abordagem do desejo e do amor a partir do ponto de vista feminino, a subversão de elementos associados ao género, os peculiares rituais de feitiçaria, o destroçar das fantasias masculinas e os comentários sobre os abusos morais e sexuais, embora estes elementos positivos contribuam para exaltar a ideia de que existia potencial para mais. Não conseguimos acreditar nos personagens, nem nos seus sentimentos, muito menos nos seus diálogos ou nas suas dinâmicas, com a artificialidade que envolve o enredo e a puerilidade de algumas falas a sabotarem e muito o nosso envolvimento com estas figuras e os episódios que protagonizam

 Boa parte dos personagens, sobretudo os homens, surgem acima de tudo como caricaturas desprovidas de dimensão, com Biller a efectuar uma representação jocosa e simplista das figuras masculinas. Já Elaine tanto está no comando como numa posição de fragilidade, enquanto procura o amor ao longo de uma série de episódios que nem sempre despertam interesse, com Samantha Robinson a conseguir explanar as diferentes vertentes desta bruxa. O argumento está longe de sustentar a duração do filme, tal como os diálogos propositadamente artificiais e melodramáticos, enquanto Biller exibe uma incapacidade notória para discernir aquilo que interessa ou não ao enredo, com "The Love Witch" a balancear constantemente entre os acertos admiráveis (tais como o seu visual inebriante) e os tropeções lamentáveis.

Título original: "The Love Witch".
Título em Portugal: "A Feiticeira do Amor".
Realizadora: Anna Biller.
Argumento: Anna Biller.
Elenco: Samantha Robinson, Gian Keys, Laura Waddell, Jeffrey Vincent Parise, Jared Sanford, Robert Seeley, Jennifer Ingrum.

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