05 outubro 2017

Crítica: "Les fantômes d'Ismaël" (Os Fantasmas de Ismael)

 É de elogiar quando um realizador atinge um estatuto que lhe permite ter uma liberdade quase total ao ponto de poder realizar os filmes como bem pretende. Assim começam e terminam os elogios a "Les fantômes d'Ismaël", o filme de abertura da edição de 2017 do Festival de Cannes. A sua presença em diversos certames de prestígio é apenas justificável se focarmos a nossa atenção nos nomes de todos os envolvidos e esquecermos o resultado final da nova longa-metragem realizada por Arnaud Desplechin. O elenco é composto por nomes como Mathieu Almaric (actor-fetiche de Desplechin), Marion Cotillard, Louis Garrel, Charlotte Gainsbourg, Alba Rohrwacher, ou seja, um grupo dotado de enorme talento. O nome de Desplechin também é motivo de sobra para despertar a nossa curiosidade, embora o cineasta falhe redondamente. 

 O que poderia falhar? É algo que perguntamos antes do início do filme. Infelizmente, falha quase tudo. Comecemos por abordar a incapacidade de Desplechin em materializar a sua ambição. "Les fantômes d'Ismaël" quer abordar as crises de criatividade e as tormentas de um realizador, quer aventurar-se pelos meandros intrincados de uma espécie de triângulo amoroso, quer explorar as dinâmicas complexas das relações familiares, quer apresentar a história de um filme. Também quer ter ingredientes hitchcockianos, com a mulher que regressa dos mortos a atormentar a mente do protagonista e a mexer com os seus sentimentos, qual Judy diante Scottie. Diga-se que "Les fantômes d'Ismaël" também se quer envolver pelos meandros do melodrama, da comédia e do drama familiar. É certo que quer, mas não consegue, enquanto somos brindados com um desperdício colossal que desespera, desilude, desgasta e inquieta. 

Queremos gostar do filme, mas este afasta-nos. Queremos preocupar-nos com os personagens e as suas relações, mas Desplechin apenas consegue despertar o nosso desinteresse. Queremos seguir as figuras que pontuam o enredo, mas o realizador prefere expor as tramas e subtramas de forma desconjuntada e caótica, quase sempre sem conceder tempo para nos agarrarmos às mesmas ou focarmos a nossa atenção naquilo que está a ser apresentado. No início de "Les fantômes d'Ismaël" ficamos diante do filme no interior do filme que se encontra a ser desenvolvido por Ismaël (Mathieu Amalric), o protagonista. A película que este desenvolve centra-se num diplomata atípico (Louis Garrel completamente desperdiçado), que é inspirado no irmão do personagem principal. É algo que permite incutir ingredientes de espionagem a "Les fantômes d'Ismaël", embora Desplechin nunca consiga que a obra realizada pelo protagonista desperte interesse.

Ismaël também está longe de parecer muito interessado no filme que realiza, com Amalric a interpretar um personagem algo neurótico, impulsivo e atormentado, que faz recordar o elemento a quem deu vida em "Rois et Reine". O quotidiano do protagonista sofre uma reviravolta quando Carlotta (Marion Cotillard) regressa dos mortos. Esta foi casada com Ismaël, tendo desaparecido misteriosamente há vinte e um anos e sido dada como morta. O regresso afecta o protagonista e a relação que este mantém com Sylvia (Charlotte Gainsbourg). O que aconteceu a Carlotta? Esta responde a tudo e retira quase todo o mistério em volta da sua pessoa, enquanto Cotillard prova mais uma vez que uma actriz de excelência consegue fazer maravilhas, mesmo quando o argumento não ajuda. Note-se o momento memorável de Cotillard a dançar ao som de "It Ain't Me, Babe" de Bob Dylan, ou o encontro emocionalmente poderoso de Carlotta com o pai (László Szabó).

 Num determinado momento de "Les fantômes d'Ismaël", o produtor (Hippolyte Girardot) amarra o personagem do título, tendo em vista a obrigá-lo a finalizar o filme. Alguém poderia ter pensado nesta ideia, mas para travar Desplechin. Nada contra um cineasta fazer o filme que pretende. O problema está quando este é incapaz de estar à altura das suas ambições. Temos muitos personagens, mas poucos são verdadeiramente desenvolvidos. Temos intérpretes de grande valia, embora não tenham espaço para provar o seu talento. Temos vários acontecimentos a serem expostos, mas quase nenhum é verdadeiramente sentido. Temos ingredientes de vários géneros, embora quase todos sejam reunidos de forma caótica e incoerente. No final saímos de "Les fantômes d'Ismaël" com um certo amargo de boca, ou não estivéssemos diante de uma obra cinematográfica que conta com um realizador e um elenco que já provaram ter capacidade para muito mais.

Título original: "Les fantômes d'Ismaël".
Título em Portugal: "Os Fantasmas de Ismael".
Realizador: Arnaud Desplechin.
Argumento: Arnaud Desplechin, Léa Mysius,
Elenco: Mathieu Amalric, Marion Cotillard, Charlotte Gainsbourg, Louis Garrel, Alba Rohrwacher, László Szabó, Hippolyte Girardot.

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