14 outubro 2017

Crítica: "Le fils de Jean" (2016)

 "Le fils de Jean" tem uma reviravolta sacana. Não salva o filme, é completamente previsível e açucarada, mas ao menos contribui para que este assuma a sua faceta melodramática e dê o devido destaque aos únicos personagens dignos de interesse. Esses personagens são Mathieu (Pierre Deladonchamps) e Pierre (Gabriel Arcand). O primeiro não sabe quem é o seu pai, pelo menos até receber a notícia de que este era canadiano e faleceu recentemente. Descobre ainda que tem dois irmãos, Ben (Pierre-Yves Cardinal) e Sam (Patrick Hivon), algo que o conduz a deslocar-se de Paris a Montreal, onde vai decorrer o funeral.

Quem dá a notícia é Pierre, um amigo de longa data de Jean, o falecido. É o personagem interpretado por Arcand quem recebe o protagonista em Montreal, onde trabalha como médico e habita com Angie (Marie-Thérèse Fortin), a sua esposa, com quem teve duas filhas. Uma das filhas do casal é Bettina, uma das poucas pessoas que recebe Mathieu de forma afável, com Catherine de Léan a ter algum espaço para sobressair. O protagonista pretende conhecer os irmãos a todo o custo, embora raramente acreditamos neste desejo, enquanto Pierre tenta impedir que o primeiro revele a sua identidade junto dos familiares. Quais as razões para Pierre evitar que o protagonista divulgue que é filho de Jean? Quais os segredos que esconde? São perguntas que efectuamos, com as respostas a serem concedidas de forma gradual, até à reviravolta em que tudo é exposto de forma escancarada. 

A dinâmica entre Pierre e Mathieu, quase de pai e filho, é algo que funciona, com Deladonchamps e Arcand a transmitirem que existe uma relação de respeito e amizade que se forma entre estes personagens, com a dupla a contar com interpretações dotadas de alguma competência. Tanto Arcand como Deladonchamps incutem calma e ponderação aos personagens que interpretam. Mathieu tem um filho, é divorciado e parte de forma extemporânea para o Canadá, embora pareça demasiado passivo para alguém que comete actos que desafiam a razão. Pierre guarda alguns segredos, tem uma faceta espirituosa e uma figura que emana respeito. 

Se Pierre e Mathieu merecem algum destaque pela positiva, já Ben e Sam são dois dos vários personagens desprovidos de dimensão e interesse de "Le fils de Jean". Nunca saem dos lugares-comuns, as discussões que protagonizam são completamente anódinas e pouco convincentes, enquanto o realizador Philippe Lioret exibe uma incapacidade gritante para criar alguma tensão palpável ou incutir alguma vida a esta tentativa do protagonista conhecer dois seus familiares mais próximos. O desinteresse é a palavra de ordem ao longo do filme, seja de Ben e Sam para com Mathieu, ou deste espectador para com diversos episódios do enredo, com Lioret a depender imenso da já mencionada reviravolta sacana.

É uma reviravolta que permite deitar fora uma parte considerável dos ingredientes que não convenceram e exibir que perdemos algum tempo a seguir trechos completamente desnecessários. Diga-se que o cineasta perde-se imenso em episódios que pouco ou nada acrescentam ao enredo, nem permitem desenvolver os personagens, seja uma ida à loja de Ben, ou uma busca por um corpo quando já se sabe que é impossível encontrá-lo. Temos ainda a miríade de situações em que encontramos personagens a conversarem de forma redundante ao telemóvel, com a primeira metade de "Le fils de Jean" a parecer em alguns momentos um tutorial de como não introduzir estes aparelhos no enredo. Junte-se um argumento frágil e a incapacidade de Lioret incutir algum mistério ou credibilidade aos anseios de Mathieu e ao contacto que este tenta efectuar com os irmãos e ficamos com uma série de ingredientes amplamente indesejáveis. 

Os problemas de "Le fils de Jean" são imensos, enquanto que o seu maior trunfo é a relação de Mathieu e Pierre, dois personagens que, quando estão juntos, merecem alguma da nossa atenção. A dinâmica entra ambos quase que chega para o filme atingir a mediania, mas não é suficiente.

Título original: "Le fils de Jean".
Título em inglês: "A Kid". 
Realizador: Philippe Lioret.
Argumento: Philippe Lioret e Nathalie Carter.
Elenco: Pierre Deladonchamps, Gabriel Arcand, Catherine de Léan, Marie-Thérèse Fortin, Pierre-Yves Cardinal, Patrick Hivon.

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