17 outubro 2017

Crítica: "Jeune femme" (2017)

 Nem sempre é fácil atingir a independência, ou sentir confiança em nós próprios, que o diga Paula (Laetitia Dosch), a protagonista de "Jeune femme", uma mulher de trinta e um anos de idade, olhos bipolares e expressivos, uma personalidade explosiva e uma dificuldade notória para lidar com a solidão. No início do filme encontramo-la a bater na porta da casa de Joachim (Grégoire Monsaingeon), o seu companheiro, após ter sido abandonada pelo mesmo. A violência e o descontrolo são enormes, tal como a desilusão pelo final abrupto da relação, algo notório quando embate com a cabeça na porta e abre uma ferida na testa.

Pouco depois, ficamos perante um close-up que nos deixa diante do rosto da personagem principal, quando esta se encontra no hospital. Paula discute com o médico e procura escapulir-se do local, enquanto a sua voz expressa uma certa instabilidade emocional, uma dor lancinante que percorre a alma e exacerba uma sensação de incerteza em relação ao futuro. O destaque ao seu rosto e à sua voz não acontece ao acaso, com o corpo, a alma, os sentimentos e a personalidade de Paula a estarem no centro de quase tudo. É a jornada desta personagem que acompanhamos ao longo da primeira longa-metragem realizada por Léonor Serraille, enquanto a Jeune femme protagoniza uma série de episódios que a marcam e conhece ou reencontra uma miríade de pessoas que influenciam a sua existência.

São acontecimentos que permitem explanar a personalidade contraditória de Paula, com Laetitia Dosch a demonstrar com enorme à vontade e naturalidade a faceta simultaneamente irresponsável, peculiar, sensível, infantil e destrambelhada desta mulher que está à procura de si própria. Sem dinheiro, sem emprego, sem casa própria, Paula tem de aprender a desenvencilhar-se sozinha, a enfrentar os receios e amadurecer, tendo a cidade de Paris como pano de fundo, a gata de Joachim como companheira e um casaco cor de tijolo como vestimenta primordial (uma tonalidade que permitir exacerbar a fase instável desta personagem). Uma cicatriz marca a sua face e aparece como uma metáfora para a necessidade de ter de sarar as suas mazelas interiores e superar o final doloroso de uma relação de longa duração, com "Jeune femme" a desenvolver quase sempre com acerto os "pequenos" episódios que contribuem para o amadurecimento da protagonista e para que esta comece a confiar nas suas capacidades.

Pelo caminho, Paula tenta entrar no mercado de trabalho e conhece diversas pessoas com quem protagoniza situações de maior ou menor relevo, algo que dá espaço para a entrada em cena de personagens secundários que contam com algum destaque. Entre os elementos secundários de relevo encontra-se Ousmane (Souleymane Seye Ndiaye), um segurança ponderado, afável e afectuoso, bem como a mãe (Nathalie Richard) da personagem principal, uma mulher com quem esta comunica pouco, ou Yuki (Léonie Simaga), uma suposta amiga da escola. O uso certeiro das elipses permite agilizar estes acontecimentos e a entrada e saída destes personagens, enquanto a câmara de filmar acompanha a protagonista de forma atenta e segura, muitas das vezes em planos de longa duração que adensam o tom imediato e intenso de alguns episódios.

Por vezes fica a sensação de que alguns episódios são redundantes ou desnecessários, tais como a presença da protagonista numa festa e o regresso ao local onde o evento decorreu, ou que o filme segue os caminhos mais óbvios, embora esses pequenos deslizes não cheguem a manchar este interessante estudo de personagem. "Jeune femme" coloca-nos ainda diante da abordagem de temáticas relacionadas com a solidão e alienação nos espaços urbanos, o desemprego e os dramas familiares, sempre com Paula como elemento primordial, seja quando está a ser alvo de rejeição ou consegue algumas vitórias. Dosch está quase sempre em destaque, com a actriz a contar com uma interpretação digna de interesse, enquanto convence quer nas situações em que a personagem que interpreta desperta a nossa compreensão, quer quando assume uma faceta menos agradável.

É o amadurecimento de Paula que é exposto e desenvolvido ao longo deste drama competente, pontuado por uma interpretação de grande nível de Laetitia Dosch e uma mescla improvável de sensibilidade e crueza.

Título original: "Jeune femme".
Título alternativo: "Montparnasse Bienvenue".
Realizadora: Léonor Serraille.
Argumento: Léonor Serraille, Clémence Carré, Bastien Daret.
Elenco: Laetitia Dosch, Souleymane Seye Ndiaye, Grégoire Monsaingeon, Nathalie Richard.

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