12 outubro 2017

18ª Festa do Cinema Francês: "Le Cercle Rouge" (O Círculo Vermelho)

 Entre traições, alianças, um furto minuciosamente preparado, fugas às autoridades e interpretações de grande nível, "Le Cercle Rouge" desafia regularmente as nossas expectativas em relação aos personagens e aos seus destinos, enquanto Jean-Pierre Melville mescla harmoniosamente elementos dos filmes noir, de gangsters e de assalto. Em certa medida, "Le Cercle Rouge" quase que nos remete para "Du rififi chez les hommes", um filme realizado por Jules Dassin onde também ficamos perante temáticas como as relações de lealdade e traições entre um grupo de assaltantes, bem como a colocação em prática de um furto meticulosamente arquitectado. "Le Cercle Rouge" remete ainda para outras obras cinematográficas de Melville, tais como "Bob le Flambeur" e "Le Samouraï", com o cineasta e argumentista a voltar a colocar-nos diante de criminosos com valores muito próprios.

Tal como em "Le Samouraï", Alain Delon interpreta um criminoso lacónico e competente, que anda quase sempre acompanhado pela sua gabardina. Não estamos perante Jef Costello, mas sim de Corey, um criminoso que passou os últimos cinco anos na prisão. No início do filme, Corey ainda se encontra no interior da prisão, em Marselha, onde é convidado a efectuar um assalto a uma joalharia. O plano é apresentado por um polícia corrupto (Pierre Collet), cujo cunhado trabalhou para uma firma que instalou o sistema de segurança da joalharia, tendo acesso a informações privilegiadas sobre o estabelecimento. O polícia procura lucrar com esta informação através de Corey, considerando que o presidiário é a pessoa ideal para efectuar o assalto com sucesso. De feições algo rígidas, poucas falas, roupas discretas e implacável nas suas acções, Corey rege-se por alguns valores de lealdade, tendo uma atitude pouco temerosa diante das adversidades. Essa impassibilidade diante do perigo e o desejo de vingança ajudam a explicar o facto de Corey dirigir-se à casa de Rico (André Ekyan) assim que recebe ordem de soltura. Rico é um gangster que gere uma rede alargada de criminosos, tendo estado envolvido no assalto que conduziu à detenção do protagonista.

Corey rouba, ou melhor, pede dinheiro emprestado a Rico, para além de furtar a arma deste último. O gangster é surpreendido no interior da sua própria habitação, onde se encontra a viver com a ex-namorada de Corey, embora procure desde logo contactar alguns dos seus conhecidos para "tratarem" do problema. Pouco tempo depois, o personagem interpretado por Delon decide visitar um salão de jogos, tendo em vista a passar algum tempo até à abertura do stand de automóveis, onde espera adquirir um veículo. No entanto, o descanso de Corey não dura muito, ou este não fosse confrontado por dois indivíduos ao serviço de Rico. Este é um episódio crucial para Melville nos dar a conhecer não só um pouco do perfil do protagonista, mas também algum do brilhantismo que marca diversos momentos de "Le Cercle Rouge". O silêncio domina o local, enquanto Corey joga bilhar sozinho, até a câmara deixar o espectador diante de um plano da mesa, filmado a partir de cima, com esta a ocupar o espaço do ecrã. É então que ficamos perante um taco a aparecer a partir do fora de campo, sendo criado todo um mistério em volta do indivíduo ou dos indivíduos que se encontram a rodear o protagonista. Seguem-se alguns planos rápidos para exibir os dois indivíduos que ameaçam Corey, até Jean-Pierre Melville colocar o trio em confronto, com a tensão e os silêncios a serem geridos de forma exímia.

 Os momentos iniciais de "Le Cercle Rouge" são marcados não só pela saída de Corey da prisão, mas também pela fuga de Vogel (Gian Maria Volontè), um prisioneiro que se encontrava a ser transportado num comboio pelo Comissário Mattei (André Bourvil). Vogel consegue escapar, enquanto Melville exibe mais uma vez a sua capacidade para jogar com as nossas expectativas e dominar os ritmos da narrativa a seu bel-prazer. Inicialmente encontramos Vogel a ser transportado pelas autoridades até ao comboio, onde fica instalado na mesma carruagem de Mattei, com ambos a encontrarem-se unidos por um par de algemas. A certa altura, Mattei decide reduzir a iluminação, tendo em vista a descansar, enquanto Vogel procura utilizar um alfinete para tirar as algemas. O espaço fechado da carruagem, o contexto que levou à reunião destes dois indivíduos, a parca iluminação, os silêncios entrecortados pelo som do comboio em movimento (excelente trabalho de sonoplastia) surgem como elementos que adensam uma certa sensação de perigo, com Melville a deixar estes ingredientes a marinar em banho-maria, até avançar para a fuga de Vogel.

Servem estes dois exemplos para realçar não só a capacidade de Melville para jogar com as nossas expectativas e salpicar a narrativa de alguma tensão, mas também a utilização exímia dos silêncios e dos sons que rodeiam os personagens, bem como o trabalho de Henri Decaë na cinematografia (note-se o já mencionado plano da mesa de bilhar, ou a utilização das cores frias e esbatidas para aumentar a sensação de crueza e perigo a envolver a fuga de Vogel), e as interpretações de bom nível de Delon e Gian Maria Volontè. Delon pela impassibilidade que transmite, com o personagem que interpreta a parecer não temer nada nem ninguém, mesmo quando se encontra em situações adversas. Volontè como este criminoso inteligente, impulsivo, violento e leal para com aqueles em que confia. Diga-se que "Le Cercle Rouge" surpreende-nos imensas vezes em relação a alguns personagens e aos seus comportamentos. Note-se que Vogel e Corey são dois criminosos que apresentam alguns valores morais, enquanto figuras como o polícia que delineou o plano para o segundo assaltar a joalharia aparecem desprovidas de escrúpulos.

 Os destinos de Vogel e Corey acabam por se cruzar, com o primeiro a esconder-se no interior do porta-bagagens do carro recentemente adquirido pelo personagem interpretado por Delon, enquanto as autoridades procuram capturá-lo a todo o custo, iniciando uma série de acções, ainda que tardem em ter sucesso. "Le Cercle Rouge" coloca-nos assim diante do planeamento de um assalto, bem como perante uma investigação encetada pelas autoridades, enquanto somos apresentados a um miríade de personagens cujos destinos, mais tarde ou mais cedo, acabam por se cruzar. Vogel e Corey apresentam inicialmente alguma desconfiança, embora formem rapidamente uma relação de lealdade, com o primeiro a ser integrado nos planos do segundo para o assalto. A dinâmica entre os dois criminosos é estabelecida logo nos primeiros momentos em que dialogam, com Vogel a apresentar algum receio, enquanto Corey denota uma impassibilidade surpreendente. A esta dupla junta-se ainda Jansen (Yves Montand), um antigo polícia que deixara o seu ofício devido a ser corrupto e apresenta uma habilidade exímia para o disparo.

A apresentação de Jansen é inesquecível, com "Le Cercle Rouge" a colocar-nos diante de um momento meio surreal e aterrorizador ao mesmo tempo que exibe a personalidade atormentada do personagem interpretado por Yves Montand. Não faltam répteis, roedores e afins a invadirem a cama de Jansen, até este acordar de um sonho delirante, enquanto Melville se diverte a inquietar o espectador. Jansen é um dos vários personagens que desafiam as nossas expectativas, ou não estivéssemos diante de um polícia que foi obrigado a largar o seu ofício devido aos seus comportamentos pouco condignos com a sua actividade. Este exibe uma lealdade latente para com Vogel e Corey, com o trio a formar uma relação de respeito que é exacerbada pela dinâmica convincente entre Delon, Montand e Volontè, algo notório quando assistimos à colocação do furto em prática.

A execução do assalto é um dos momentos mais inspirados do filme, com os silêncios a dominarem, enquanto "Le Cercle Rouge" transporta-nos para um furto que nos traz à memória um acontecimento do género em "Du rififi chez les hommes", ou seja, silencioso, realista e capaz de nos "prender pelos colarinhos". O assalto é investigado por Mattei, com o comissário a estar em amplo destaque. André Bourvil incute uma faceta solitária e ponderada a este representante das autoridades que habita com três gatos e procura cumprir o seu ofício com sucesso, algo que inclui tomar medidas nem sempre agradáveis, inclusive praticamente obrigar indivíduos a servirem de informadores. Um dos elementos que acaba por se ver envolvido no meio dos planos de Vogel, Corey e Mattei é Santi (François Périer), o dono de um clube nocturno que é amigo do primeiro. Este procura não ceder informações a Mattei, embora o personagem interpretado por André Bourvil não tenha problemas em utilizar os meios mais variados para convencê-lo a ajudar a capturar Vogel.

Em certa medida, "Le Cercle Rouge" remete-nos também para os filmes noir. Não falta a atmosfera de malaise, os personagens de carácter dúbio, o clube nocturno, as figuras fumadoras, a noite como testemunha de diversos episódios de relevo, entre outros elementos, enquanto Melville consegue interligar com sucesso as histórias destes elementos que facilmente despertam a nossa atenção. Delon, Montand, Volontè, Bourvil e Périer sobressaem, com "Le Cercle Rouge" a dar espaço para que a maioria dos personagens sejam apresentados e desenvolvidos. Veja-se o caso de Santi, um indivíduo que procura antagonizar Mattei, embora acabe por, mais tarde ou mais cedo, ter de ceder à vontade deste último (Melville regressa à temática da delação, com o carácter de diversos personagens, tal como em "L'armée des ombres", a definir-se muitas das vezes pela sua capacidade de conseguirem manter ou não os segredos).

 Santi gere um clube nocturno onde não faltam números musicais, fumo, bebidas alcoólicas e negócios obscuros a decorrerem, com este a ser um dos vários cenários aproveitados de forma exímia ao longo do filme. Veja-se o assalto ao edifício da joalharia, com Melville a efectuar uma utilização sublime do cenário quer para transmitir a sua dimensão, quer para colocar em evidência as fortes medidas de segurança do estabelecimento. Existem muitos outros exemplos que confirmam o bom trabalho na decoração e aproveitamento dos cenários interiores. Note-se ainda o caso da habitação de Jansen, um espaço que ganha inicialmente características claustrofóbicas devido à alucinação desta figura que se encontra a passar por uma fase complicada da sua vida, ou a casa de Mattei, um cenário relativamente acolhedor, onde este cuida dos seus gatos. Se preferirem exemplos do aproveitamento de cenários exteriores, podemos desde logo realçar a fuga de Vogel por um espaço florestal, enquanto existe todo um aparato policial para capturar este indivíduo. Não faltam polícias acompanhados de cães, helicópteros, operações stop nos espaços circundantes, embora Vogel apresente um instinto de sobrevivência e inteligência notórios.

"Le Cercle Rouge" é também o exemplo paradigmático de uma obra de arte de um cineasta no topo da sua maturidade, com Melville a controlar os ritmos da narrativa, a reunir e desenvolver as diferentes tramas de forma orgânica, a extrair interpretações de relevo e a conseguir inquietar o espectador em relação ao destino dos protagonistas. Cada plano é composto com detalhe ou assim parece, os silêncios explorados de forma exímia, enquanto ficamos diante de uma obra cinematográfica envolvente, marcante e dotada de enorme brilhantismo, que desafia muitas das vezes as nossas expectativas em relação aos actos dos diversos personagens, com Melville a exibir mais uma vez que é um cineasta notável.

Título original: "Le Cercle Rouge".
Título em Portugal: "O Círculo Vermelho".
Realizador: Jean-Pierre Melville.
Argumento: Jean-Pierre Melville.
Elenco:Alain Delon, Yves Montand, Gian Maria Volontè, André Bourvil.

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