10 outubro 2017

18ª Festa do Cinema Francês: "L'armée des ombres" (O Exército das Sombras)

 Com uma enorme crueza, uma mescla de elementos históricos e ficção, uma paleta de cores que acentua a dureza e frieza do meio que rodeia os protagonistas, "L'armée des ombres" coloca-nos diante de um grupo da Resistência Francesa que procura sobreviver em plena II Guerra Mundial. Mais do que procurar apresentar uma visão romântica do combate da Resistência aos Nazis, "L'armée des ombres" coloca o espectador perante um conjunto de personagens que vive em constante sobressalto, enquanto cada elemento é obrigado a tomar decisões complicadas, sejam estas fugir, manter o silêncio, denunciar ou eliminar companheiros.

Tendo como base o livro homónimo da autoria de Joseph Kessel, um membro da Resistência Francesa, "L'armée des ombres" é o terceiro filme onde a França Ocupada surge como pano de fundo para o enredo de uma obra cinematográfica realizada por Jean-Pierre Melville (as outras duas são "Le Silence de la mer" e "Léon Morin, prêtre"). O enredo tem início a 20 de Outubro de 1942, com Melville a efectuar uma representação relativamente fiel da época e a abordar a luta pela sobrevivência de um grupo da Resistência, enquanto explana a complexidade destas células. Cada um tem de seguir as ordens à risca, o silêncio entre estes elementos por vezes é de "ouro", enquanto as suas vidas são colocadas constantemente em perigo ao serviço de uma causa que consideram maior.


O início de "L'armée des ombres" é marcado por Philippe Gerbier (Lino Ventura), um engenheiro que lidera uma célula da Resistência, a ser transportado para o interior de um campo de prisioneiros, por elementos da França de Vichy, enquanto a chuva embate fortemente sobre o veículo e exacerba a faceta lúgubre da situação. O quotidiano degradante dos campos de prisioneiros é exposto de forma seca e exemplar, com a cinematografia a adensar as cores frias e esbatidas, enquanto somos colocados perante um cenário que conta com um conjunto heterogéneo de prisioneiros. Não faltam franceses comunistas e apoiantes de Charles de Gaulle, argelinos, polacos, ciganos, entre outros, com Gerbier a procurar traçar um plano de fuga.

Lino Ventura consegue transmitir a aura de respeito e experiência deste indivíduo que é considerado apoiante de Charles de Gaulle, um engenheiro que revela uma frieza exímia em momentos onde as emoções nem sempre parecem fáceis de controlar. Veja-se quando Gerbier é transportado para ser questionado, como quem diz, torturado, e consegue eliminar o guarda com uma facada e correr de forma astuta em direcção à liberdade temporária. O design de som é relevante para o impacto destes momentos: o som do relógio é sentido enquanto Gerbier se encontra na sala de espera, com a fuga a ser marcada pelo "ribombar" dos seus sapatos no solo ao mesmo tempo que o protagonista corre em direcção a uma barbearia. Mais tarde, encontramos Gerbier reunido com Félix Lepercq (Paul Crauchet) e "Le Bison" (Christian Barbier), dois elementos desta célula situada em Marselha, tendo em vista a capturarem e eliminarem um jovem integrante da Resistência que denunciou o primeiro às autoridades de Vichy, algo que permite exacerbar uma temática transversal a diversas obras de Melville, nomeadamente, o valor do silêncio.

No caso de "L'armée des ombres", o silêncio é vital para manter o funcionamento de um grupo da Resistência durante a II Guerra Mundial. Em "Le Cercle Rouge", aqueles que revelam informações às autoridades ou ao inimigo estão longe de serem bem vistos, com Vogel (Gian Maria Volontè), Corey (Alan Delon) e Jansen (Yves Montand) a poderem protagonizar um assalto e contarem com uma série de defeitos, embora apresentem valores de lealdade uns para com os outros. Por sua vez, em "Le Deuxième Souffle", Gustave Minda (Lino Ventura), mais conhecido como "Gu", é um foragido procurado pelas autoridades, relativamente respeitado no mundo do crime, que abomina a ideia de poder ser considerado um delator. Mesmo Jef Costello (Alain Delon), o protagonista de "Le Samouraï", um assassino a soldo, é ajudado graças ao silêncio de diversas figuras que o rodeiam.

Regressemos a "L'armée des ombres". Aos poucos, Melville apresenta-nos mais personagens, enquanto coloca-os em acção em diversos espaços quer seja em Paris, Londres, Marselha, a viajarem num submarino, ou num avião, ou num carro, com a narração em off a permitir muitas das vezes agilizar e expor alguma informação essencial sobre estas figuras complexas que lutam por um objectivo comum. Veja-se o caso de Jean-François, um antigo piloto de aviões, galanteador e corajoso, que é contratado para ajudar nas missões, tais como transportar um aparelho transmissor para Mathilde, com Jean-Pierre Cassel a destacar-se como este indivíduo que a espaços nos consegue surpreender com as suas acções.

Também Simone Signoret tem espaço para sobressair como Mathilde, uma mulher corajosa e inteligente, que procura ser fiel ao grupo, embora também tenha os seus pontos fracos. Signoret transmite a calma e inteligência desta mulher, uma figura de personalidade forte, que é capaz de protagonizar missões arriscadas. O líder de Philippe é Luc Jardie (Paul Meurisse), um indivíduo culto, irmão de Jean-François, com o personagem interpretado por Paul Meurisse a ganhar preponderância com o avançar da narrativa. Note-se o momento em que Luc e Philippe deslocam-se a Londres tendo em vista a procurarem mais apoios dos ingleses e reunirem-se com Charles de Gaulle. É em Londres que se encontra sediada a França Livre, um Governo francês fundado pelo General Charles de Gaulle a 18 de Junho de 1940, com o grupo que nos é apresentado a ser retratado como apoiante do mesmo, com o argumento a mesclar elementos verídicos com personagens ficcionais (inspirados em figuras reais).

 "L'armée des ombres" não concentra as suas atenções nos grandes discursos ou nas acções bombásticas contra os elementos da França de Vichy, mas sim nas dinâmicas intrincadas que envolvem o funcionamento de uma célula da Resistência, com Melville a realizar uma obra cinematográfica que tanto tem de crua como de intensa e complexa, onde controla todos os pormenores de forma minuciosa. Os planos são bem arquitectados, os cenários decorados e utilizados com eficácia, a cinematografia contribui para adensar a representação algo crua do quotidiano destes indivíduos, enquanto o elenco tem espaço para exibir algum do seu talento. A relação entre o cineasta e Ventura era nula, devido a um desentendimento entre ambos em "Le deuxième souffle", embora o actor tenha um desempenho notável, a par de elementos como Signoret, Cassel, Meurisse entre outros.

Se a relação entre Melville e Ventura não era a melhor, já a maneira como o cineasta explora as relações entre estes membros da Resistência e a procura de manterem a organização a funcionar é algo que roça a perfeição. Observe-se o momento em que encontramos dois personagens a preferirem manter o silêncio e serem torturados ao invés de falarem, com a dupla a exibir uma enorme integridade, enquanto "L'armée des ombres" expõe o esforço de algumas destas figuras, bem como os actos mais duros que cometiam ou sofriam. Melville elabora assim um retrato cru, duro e complexo sobre o quotidiano de uma célula da Resistência durante a França Ocupada, enquanto aborda temáticas associadas aos códigos de conduta e lealdade entre estes elementos, com "L'armée des ombres" a contar com uma plêiade de personagens que facilmente intrigam o espectador e dão espaço para os intérpretes destacarem-se.

Título original: "L'armée des ombres".
Título em Portugal: "O Exército das Sombras".
Realizador: Jean-Pierre Melville.
Argumento: Jean-Pierre Melville.
Elenco: Lino Ventura, Paul Meurisse, Jean-Pierre Cassel, Simone Signoret, Paul Crauchet, Alain Libolt.

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