30 outubro 2017

Crítica: "Le vénérable W." (2017)

 O monge budista Wirathu, líder do movimento ultranacionalista Ma Ba Tha, está no cerne de "Le vénérable W.", bem como o poder destrutivo do racismo e do ódio. Na capa da revista "Time" de 1 de Julho de 2013, encontramos o rosto deste indivíduo em destaque, acompanhado pelo título: "The Face of Budhist Terror". É uma descrição acertada, que provavelmente até peca por ser demasiado branda, ou não estivéssemos diante de uma figura abjecta, fria e assustadora, que não tem problemas em soltar um pérfido sorriso após proferir as mais variadas barbaridades, ou exibir um semblante carregado de convicção, algo demonstrado por diversas vezes ao longo do documentário. O "Bin Laden budista" é o elemento escolhido para encerrar a "Trilogia do Mal" de Barbet Schroeder, iniciada em 1974 com o documentário "Général Idi Amin Dada: Autoportrait", ao qual se seguiu "L'avocat de la terreur" (2007), um trio de filmes que permite que o cineasta se envolva pelas entranhas das trevas.

Se o budismo aparece muitas das vezes associado a um modo de vida pacifista e tolerante, já os valores de Wirathu são diametralmente opostos. O seu apreço por Donald Trump não surpreende, tal como a sua capacidade de utilizar notícias falsas para incitar o ódio e a revolta, enquanto o seu sentimento anti-muçulmano conta com doses carregadas de malícia e xenofobia. Schroeder deixa este indivíduo falar à vontade, sem contrariá-lo ou limitar o seu discurso, enquanto ficamos a observar o mal a transcorrer a partir das palavras, os actos e os gestos do monge. É uma medida certeira, que permite deixá-lo a expressar as suas ideias ao mesmo tempo que desperta a nossa perplexidade e coloca em evidência os traços da sua personalidade. Note-se quando pega no telemóvel para expor com demasiado entusiasmo um filme que reencena a violação e o assassinato de uma mulher budista, algo efectuado para despertar a indignação, ou os sermões públicos onde incita os seguidores a excluírem os muçulmanos e os seus estabelecimentos.

29 outubro 2017

Doclisboa 2017 - Entrevista a Fernanda Pessoa sobre "Histórias que nosso cinema (não) contava"

 A cineasta Fernanda Pessoa esteve em Portugal para apresentar "Histórias que nosso cinema (não) contava" na edição de 2017 do Doclisboa. O Rick's Cinema aproveitou a presença da realizadora no certame para efectuar algumas perguntas sobre este recomendável documentário. Ao longo da entrevista foram abordados assuntos relacionados com o interesse de Fernanda Pessoa pela "pornochanchada", a forma como a crítica recebia estes filmes, a ligação forte destas obras com o presente, o estado de conservação de algumas destas fitas, entre outros assuntos. A fotografia ficou a cargo de Roni Nunes. A condução e a transcrição ficou a cargo deste blogger e o mérito pelas respostas extremamente interessantes é todo da realizadora.
 

Rick's Cinema: A "pornochanchada" está no centro de "Histórias que nosso cinema (não) contava" e da exposição Prazeres Proibidos. Como surgiu o seu interesse neste género que é muitas das vezes encarado com algum desdém?

Fernanda Pessoa: Na verdade, o meu interesse começa bem antes de ter a ideia de trabalhar sobre esse tema. Quando estava no último ano da faculdade de cinema, eu trabalhava nos arquivos de fotografia de cinema brasileiro de um montador do período, que se chama Máximo Barro, que montou uma série de filmes dos anos 70. O acervo de fotografias da minha universidade era basicamente o acervo do Máximo. Então existiam muitas fotos dessa época. Eu precisava de assistir a esses filmes para saber de onde é que vinham essas fotografias e começar a catalogá-las. Então comecei a ter um conhecimento muito grande daquela cinematografia que não se estuda muito no Brasil. Na Faculdade de Cinema quando chegamos nos anos 70 falam que a "pornochanchada" é muito ruim e no máximo assistes um filme e acabou. Não vês mais nada, não aprofundas esse assunto.
 Teve um filme que despertou a minha vontade de trabalhar em cima destas obras do ponto de vista histórico, que se chama "E agora José?", um filme que eu uso. O filme tem um subtítulo super politizado: "A Tortura do Sexo", que, para mim, já conta com imensa contradição que está aí no género. Eu vi esse filme e falei "tem aqui alguma coisa que a gente não está olhando". Fiquei com isso na cabeça. Isso em 2010. Em 2012, fui fazer o mestrado em França e fiz uma aula sobre reutilização de imagens de cinema experimental. Foi aí que tive a ideia de começar a observar esses filmes com um olhar histórico. Então, fui rever todos os filmes que tinha visto para o meu trabalho, procurando esses traços de História. Eu nasci em 1986, um ano depois da abertura democrática. Eu não vivi esse período, então queria aprender algo sobre o mesmo a partir desses filmes. Foi assim que surgiu a minha vontade de trabalhar em cima deles.


RC: Essa exposição coloca em diálogo os papéis da censura com as imagens e os sons. Quais eram os principais temas que eram alvo da censura? A censura teve alguma influência nos temas abordados nestes filmes? 

FP: Quando falamos na censura durante a Ditadura Militar no Brasil, pensamos acima de tudo em censura política, porque muitos cineastas foram perseguidos pela questão política. Os censores eram treinados para encontrarem mensagens subversivas, comunistas, etc, que se encontravam escondidas nos filmes. O que nos esquecemos muitas das vezes é que também existia uma censura moral muito forte. As obras da "pornochanchada" passaram acima de tudo por uma censura moral. Uma censura moralizadora e educadora. Não podia ter cenas em que as pessoas urinavam em via pública. Os palavrões eram cortados. No caso das cenas de sexo, inicialmente a censura só deixava destapar um seio, depois os dois, até que para o final já podiam mostrar quase tudo. A censura também vai evoluindo. Eles também procuravam coisas políticas, mas nestes filmes bem menos. Eles pensavam que estas obras cinematográficas não tinham teor político.
 Uma coisa que é interessante é que os realizadores começaram a inserir planos para serem censurados. Todos os filmes tinham pelo menos um plano que era censurado. Então eles pensavam: "Vou fazer um plano bem ousado para eles cortarem este plano e o resto poder continuar". Mas, como a censura não era tão objectiva, era muito personalizada, dependia do censor que pegava no filme para censurar, muitas das vezes esse plano ficava e outro que eles não imaginavam acabava por sair. Daria para pensar numa história da evolução desses planos. De como esses filmes foram ficando cada vez mais ousados, porque os realizadores estavam a tentar enganar a censura e esta encontra-se a ir para outros lados. Eles estão a tentar entender a censura e esta encontra-se a reagir de uma forma contrária àquela que tinham imaginado. 

28 outubro 2017

Crítica: "Martírio" (2016)

 "Martírio" é um documentário relevante e revoltante, pronto a despertar reflexão, informar, desfazer equívocos, despertar consciências e dar voz àqueles que são largamente silenciados, nomeadamente, os Guarani Kaiowá. É um regresso do realizador Vincent Carelli (que assina o filme ao lado de Tatiana Almeida e Ernesto de Carvalho) aos documentários que envolvem temáticas e problemáticas relacionadas com os indígenas, naquele que é o segundo capítulo de uma trilogia iniciada com "Corumbiara". No caso de "Martírio", o cineasta coloca em diálogo o passado e o presente, enquanto expõe as tentativas dos Guarani Kaiowá para reconquistarem algumas terras que pertenceram aos seus antepassados e viverem com a dignidade que lhes é constantemente roubada em actos de imensa desumanidade.

É uma luta desigual, que perdura há um largo número de anos, sempre com o mesmo lado a ser prejudicado, ou seja, o dos indígenas – com estes a terem de lidar com políticas desastrosas, a força do lobby rural e um conjunto de actos que desafiam, e muito, os Direitos Humanos. Na sua entrevista à Revista Trip, Carelli salienta que "Aqui não é a Síria, não é possível esses homicídios a bala em pleno século XXI!". Ao visionarmos o documentário compreendemos ainda mais o significado desta frase, tal a violência física e emocional que é infligida sobre as tribos sem que estas sejam defendidos de forma efectiva. Nesse sentido é de elogiar um filme como "Martírio", que consegue expor a complexidade que envolve estes assuntos e sobressair para além das boas intenções, com o realizador a demonstrar que efectuou todo um cuidado e meritório trabalho de investigação e recolha de informação.

27 outubro 2017

Crítica: "Nothingwood" (2017)

 Algures no Afeganistão existe um realizador bastante profícuo, que não se cansa de explanar o seu amor pela Sétima Arte, mesmo que para isso tenha de colocar a sua vida em perigo. Os conflitos ameaçam tudo e todos, a destruição e a morte pairam pelo território, mas este cineasta quer é fazer aquilo que mais gosta, ou seja, realizar filmes, algo exposto de forma bem viva ao longo de "Nothingwood". Com diversos trabalhos para a rádio e a televisão sobre o Afeganistão, a realizadora Sonia Kronlund centra uma parte considerável das atenções do documentário em Salim Shaheen, um cineasta afegão peculiar e carismático, apaixonado pelo cinema e pelo espectáculo, que não sabe ler nem escrever, exerce a sua profissão praticamente sem recursos e apresenta uma joie de vivre surpreendente. O contexto é delicado, embora Shaheen procure exercer o seu ofício sem medos, pronto a confiar o seu destino a uma entidade superiora, enquanto arrasta consigo uma energia notória e conta com uma equipa sui generis.

O território onde decorrem as filmagens conta com a presença de minas? Não importa, Shaheen aventura-se pelo mesmo na companhia da sua equipa. Tudo é muito rudimentar, quase amador, desenvolvido com orçamentos limitadíssimos e enormes doses de carolice, enquanto o realizador expõe a sua faceta extrovertida, infantil e bonacheirona, embora a espaços seja notório que está a representar para a câmara. A equipa alinha no jogo, enquanto ficamos diante da abordagem de episódios que permitem não só incutir uma faceta leve e pitoresca ao filme, mas também abordar temáticas relacionadas com o papel da mulher, a presença dos Talibans, a homossexualidade, a guerra, entre outras. Note-se quando encontramos Kronlund a efectuar questões subtis sobre a ausência de figuras femininas (o protagonista nunca deixa as suas duas esposas e as suas filhas aparecerem), ou a expor situações relacionadas com a dificuldade das mulheres em entrarem no mundo do espectáculo, com este "silêncio" a reforçar o conservadorismo desta sociedade.

26 outubro 2017

Crítica: "Qualcosa di nuovo" (Algo de Novo)

 Comédia de enganos que não ludibria ninguém, "Qualcosa di nuovo" não tem estofo para cumprir os objectivos mínimos, pese a simpatia despertada pelos seus intérpretes. É certo que dão vida a lugares-comuns ambulantes, embora consigam incutir alguma energia aos personagens que interpretam, enquanto protagonizam uma série de episódios que variam entre o pueril, redundante, o suportável e o excruciante. Falamos de Lucia (Paola Cortellesi), Maria (Micaela Ramazzotti) e Luca (Eduardo Valdarnini). A primeira é uma cantora de jazz divorciada, algo frígida e introvertida. A segunda é divorciada, tem dois filhos e envolve-se regularmente em conquistas de uma noite. As duas são amigas desde o liceu, trocam regularmente confidências e exibem as suas diferenças de forma amiúde. O terceiro é um estudante de dezanove anos de idade, que terminou recentemente um namoro e está a finalizar o ensino secundário.

Os destinos dos três personagens reúnem-se após uma noite de farra em que Maria acorda sem saber lá muito bem o que aconteceu, tendo levado mais um estranho para a sua casa. Para o caso de não terem adivinhado, o desconhecido é Luca, com o jovem a demonstrar uma enorme surpresa pelo seu feito. Um mal-entendido leva a que o estudante pense que Lucia é Maria e que Maria é Lucia, com estas a tentarem manter a mentira. Aos poucos gera-se uma espécie de triângulo amoroso, com as duas amigas a envolverem-se com o estudante, embora mantenham este caso em segredo uma da outra, apesar de parecer quase certo que mais tarde ou mais cedo vão descobrir que se encontram a protagonizar um romance com o mesmo indivíduo.

25 outubro 2017

Crítica: "Histórias que nosso cinema (não) contava" (2017)

 Sem recurso à narração em off, ou a talking heads, "Histórias que nosso cinema (não) contava" efectua uma releitura histórica da Ditadura Militar no Brasil com recurso a alguns trechos de obras cinematográficas da chamada "pornochanchada", um género muito em voga no Brasil durante os anos 70. A montagem ritma o diálogo entre os filmes, enquanto a realizadora Fernanda Pessoa recupera um pedaço do património histórico do cinema brasileiro e coloca primorosamente as imagens e os sons a conversarem entre si. Nota-se que existiu todo um cuidado de pesquisa e selecção das obras, bem como uma tentativa de realçar filmes e cineastas nem sempre conhecidos, ou devidamente valorizados, com o documentário em análise a surgir quer como um meio para viajarmos temporariamente à década de 70, quer como uma porta de entrada para uma filmografia que anseia por ser reencontrada.

Entre os exemplares seleccionados encontram-se pedaços de obras como "Aventuras Amorosas de um Padeiro" (Waldir Onofre), onde encontramos um grupo de mulheres a apreciarem atentamente os corpos dos trabalhadores das obras, enquanto estes falam sobre as suas conquistas. O sexo e o desejo estão muito presente ao longo destas películas, tal como a objectificação da mulher, com o trecho mencionado a ser um exemplo disso. Também o machismo é particularmente notório nestas obras, bem como a nudez gratuita e o sexo. Os próprios títulos contam imensas vezes com conotações sexuais ou duplo sentido, como podemos verificar na ficha de fitas utilizadas. "Elas são do Baralho" (Sílvio de Abreu) é um desses exemplares, tal como "Palácio de Vênus" (Ody Fraga), com este último a brindar-nos com a representação do planeamento de uma greve por parte de um grupo de prostitutas.

24 outubro 2017

Crítica: "No Intenso Agora" (2017)

 A melancolia apodera-se de forma amiúde de "No Intenso Agora", ou não estivéssemos diante de um documentário que nos coloca diante do desfazer dos sonhos e do fracasso de algumas revoluções, bem como pelos efeitos da passagem do tempo e das recordações. O ponto de partida é algo de muito pessoal, nomeadamente, os vídeos amadores elaborados pela mãe de João Moreira Salles, com o realizador a saber conciliar essa faceta imensamente particular com a abordagem de temáticas mais abrangentes. Esses filmes familiares remetem para uma viagem que a progenitora do cineasta efectuou à China, em 1966, durante o primeiro ano da Revolução Cultural Chinesa, com Salles a mesclar a visão da progenitora com os textos de Alberto Moravia e alguns comentários muito próprios que elabora sobre o período.

Os livros vermelhos na mão dos jovens, o culto quase religioso dedicado a Mao, as tonalidades encarnadas que rodeiam os cenários e a iconografia comunista fazem parte deste espaço que causou algum espanto na mãe do realizador, sobretudo por ser um país oposto a tudo aquilo a que estava habituada, algo exposto nas imagens que captou e no discurso do cineasta. Ficamos perante o fulgor da Revolução Cultural Chinesa e de uma certa sensação de amargura com traços de melancolia por sabermos o seu desfecho, com este sentimento a ser transversal aos outros episódios históricos retratados ao longo do filme. Salles reúne acuradamente filmes amadores, fotografias, imagens de arquivo e discursos da rádio para abordar uma série de acontecimentos relacionados com o Maio de 68, a Primavera de Praga, os conflitos entre a ditadura militar do Brasil e o movimento estudantil e a Revolução Cultural Chinesa, sempre de forma dinâmica e a colocar em diálogo os eventos que marcaram este período.

23 outubro 2017

Crítica: "The Love Witch" (A Feiticeira do Amor)

 O vermelho é a cor dominante de "The Love Witch", uma tonalidade que exacerba a sedução, a morte, o desejo, a inquietação, o perigo e o sangue. Note-se logo nos momentos iniciais, quando encontramos Elaine (Samantha Robinson), a protagonista, a utilizar um vestido vermelho, com o seu batom, o verniz das suas unhas e o seu carro a partilharem esta cor. O cor-de-rosa também é utilizado de forma amiúde pela personagem principal, com esta tonalidade a encontrar-se associada à ingenuidade, fragilidade e delicadeza. Estamos perante duas cores que permitem exacerbar de forma rápida e eficaz os contrastes que permeiam os comportamentos e a personalidade desta bruxa, com Elaine a tanto ter um lado mortal, sensual e perigoso como uma faceta de ingénua, frágil e trágica.

Como já podem ter reparado, a paleta de cores é utilizada com enorme fulgor e inspiração ao longo de "The Love Witch", quase a fazer recordar a série "Bewitched", ou um melodrama de Douglas Sirk filmado em technicolor, com Anna Biller, a responsável pela realização, argumento, montagem e produção, a exibir um enorme cuidado neste quesito. Uma atenção que é colocada ainda na decoração dos cenários interiores. Observe-se a casa onde a protagonista se instala. A habitação sobressai quer pelas tonalidades vermelhas e azuis garridas, quer pelos quadros, candeeiros, vasos e potes associados à bruxaria ou aos seus rituais, com a sua decoração a contribuir para Biller transmitir a extravagância que envolve algumas das práticas ligadas à feitiçaria, bem como a explosão de cores que rodeia o mundo destes personagens. 

22 outubro 2017

Oito anos de Rick's Cinema

 Não existe muito para dizer quando um blog atinge oito anos de duração, ou talvez até exista imenso para escrever. Acima de tudo são oito anos de imensa aprendizagem, com algumas paragens pelo meio e uma obsessão enorme pelo cinema e pela escrita. É tempo de sobra para já me sentir embaraçado com o resultado de alguns textos da aurora deste espaço, bem como para colocar em confronto os meus gostos e as minhas ideias iniciais para o blog. Ao todo já são mais de mil e seiscentas críticas publicadas (confesso que praticamente só estou à vontade com os textos de 2015 para a frente), mais entrevistas do que pensava alguma vez fazer quando abri este espaço e uma imensa sede de descoberta. O Rick's Cinema transformou-se no meu diário cinéfilo, bem como num espaço que utilizo para tentar evoluir a nível da escrita e da análise de filmes. Esse inconformismo contribui e muito para a manutenção deste espaço, tal como esta estranha ligação com o cinema e uma enorme vontade de comunicar através da escrita. Obrigado a quem tem acompanhado esta longa viagem.

21 outubro 2017

Crítica: "Toivon tuolla puolen" (O Outro Lado da Esperança)

 A presença do fumo emanado pelos cigarros é largamente sentida ao longo de "Toivon tuolla puolen". É um vício para os personagens e um recurso fundamental para Aki Kaurismäki, ou este sombreado cinzento que enevoa os cenários não permitisse adensar a faceta efémera de alguns episódios e sentimentos, ou reforçar a incerteza em volta do destino dos protagonistas. Note-se um jogo de póquer que sobressai quer pelas expressões sérias e os diálogos concisos dos intervenientes, quer pela fumaça que rodeia o cenário onde Wikström (Sakari Kuosmanen), um dos protagonistas, decide apostar o dinheiro que ganhou após ter vendido o recheio do seu negócio. A inquietação rodeia este momento que é elevado pelo sublime trabalho de fotografia de Timo Salminen, pronto a deixar que a presença do fumo nunca seja esquecida e a incerteza paire pelo ar, enquanto Sakari Kuosmanen expõe algumas particularidades deste personagem. 

Kuosmanen imprime um olhar questionador e penetrante ao personagem que interpreta, bem como uma faceta séria e directa, quase desprovida de expressões, mas não totalmente despojada de sentimentos quentes. No início do filme encontramos Wikström a separar-se da esposa (Kaija Pakarinen), uma mulher alcoólica. O fumo dos cigarros, o álcool e o silêncio pontuam este episódio, com os gestos destes personagens a explanarem de forma paradigmática a distância que marca a relação, enquanto ficamos diante de alguns traços das suas personalidades. Não existem gritos, tensão ou raiva, simplesmente o desapego, com Kaurismäki a realçar o poder do silêncio. Mais tarde, o nosso protagonista decide adquirir um restaurante manhoso, que conta com um retrato de Jimmy Hendrix e um grupo peculiar de funcionários, embora nem sempre pareça estar preparado para gerir este espaço. É um cenário de relevo, decorado e aproveitado de forma certeira, que Wikström procura tornar financeiramente rentável, um desiderato que proporciona algumas peripécias dotadas de humor.

20 outubro 2017

Crítica: "Napalm" (2017)

 "A história de um 'encontro breve', em 1958, entre um membro francês da primeira delegação da Europa Ocidental oficialmente convidada para a Coreia do Norte, após a devastadora Guerra da Coreia, e uma enfermeira do hospital da Cruz Vermelha em Pyongyang".

É esta a sinopse de "Napalm" no site do Doclisboa, onde integra a secção "Da Terra à Lua". O melhor que se pode dizer é que é um documentário sobre a memória e as recordações de Claude Lanzmann sobre esse encontro (é ele o francês da sinopse), com o cineasta a expor de forma bastante descritiva e pessoal os acontecimentos que conduziram à sua entrada na Coreia do Norte e ao seu "breve encontro" com a enfermeira Kim Kun-sun. A espaços esse longo monólogo também permite explanar levemente alguns traços do contexto político, social e cultural da época, embora não escamoteie que estamos diante do resultado de um trabalho efectuado de forma bastante convencional, preguiçosa e indulgente.

Boa parte do documentário resume-se a close-ups da face do cineasta, por vezes intercalados por algumas imagens de arquivo, enquanto este recorda o passado, quase sempre no mesmo tom de voz, com o foco a estar maioritariamente centrado na sua pessoa e na enfermeira que conheceu na Coreia do Norte. Nem chega a ser um exemplo de um caso particular que serve para abordar algo mais lato, já que quando se embrenha pelo romance, quase tudo o resto parece acessório para o cineasta, algo que sabota os primeiros trinta minutos relativamente recomendáveis do filme. Note-se quando encontramos Lanzmann e a sua equipa a filmarem às escondidas na Coreia do Norte, em 2015, na sua terceira visita ao território, efectuada para desenvolver o documentário, com a câmara a movimentar-se de forma desengonçada e o som a ser captado com alguma dificuldade. Esses trechos, intercalados com imagens de arquivo e fotografias, permitem efectuar um diálogo entre o presente e o passado deste território, com as marcas da Guerra da Coreia a poderem ter sido apagadas do "corpo" desta nação, embora ainda permaneçam na sua alma.

18 outubro 2017

Crítica: "The Big Sick" (Amor de Improviso)

 "Uhuu" grita Emily (Zoe Kazan) após Kumail (Kumail Nanjiani) ter questionado se estava alguém do Paquistão na plateia. Este episódio ocorre durante um espectáculo de stand-up comedy e permite não só interromper o número do segundo, um comediante e motorista da Uber, mas também dar o ponto de partida para a relação terna e peculiar destes dois personagens. O romance é desenvolvido com sensibilidade, doses assinaláveis de humor e beneficia imenso da química entre Nanjiani e Kazan, uma dupla que tem o dom de nos convencer de que existe algo forte a brotar entre estes dois jovens. Ambos transmitem afabilidade, contam com inseguranças e ambicionam algo mais da vida, enquanto partilham uma certa dose de imaturidade e uma enorme capacidade para despertar a nossa simpatia.

A intercalar estes momentos entre o casal encontram-se os espectáculos de stand-up e os episódios nos bastidores do clube onde o protagonista trabalha, mas também as reuniões de Kumail com a família. Estes são oriundos do Paquistão, tal como o personagem principal, ou seja, onde os casamentos são arranjados, com "The Big Sick" a abordar esta temática e os choques culturais, sempre sem apresentar uma postura pejorativa do "outro lado". É certo que o filme usa e abusa das repetições de encontros do comediante com potenciais noivas, algo que começa por ser um gag bem arquitectado, até se gastar e tornar-se apenas redundante. No entanto, estes encontros também permitem expor as dinâmicas muito peculiares desta família e colocar em evidência que Kumail vai ter de tomar uma decisão difícil, seja esta contrariar a tradição ou terminar o namoro.

17 outubro 2017

Crítica: "Jeune femme" (2017)

 Nem sempre é fácil atingir a independência, ou sentir confiança em nós próprios, que o diga Paula (Laetitia Dosch), a protagonista de "Jeune femme", uma mulher de trinta e um anos de idade, olhos bipolares e expressivos, uma personalidade explosiva e uma dificuldade notória para lidar com a solidão. No início do filme encontramo-la a bater na porta da casa de Joachim (Grégoire Monsaingeon), o seu companheiro, após ter sido abandonada pelo mesmo. A violência e o descontrolo são enormes, tal como a desilusão pelo final abrupto da relação, algo notório quando embate com a cabeça na porta e abre uma ferida na testa.

Pouco depois, ficamos perante um close-up que nos deixa diante do rosto da personagem principal, quando esta se encontra no hospital. Paula discute com o médico e procura escapulir-se do local, enquanto a sua voz expressa uma certa instabilidade emocional, uma dor lancinante que percorre a alma e exacerba uma sensação de incerteza em relação ao futuro. O destaque ao seu rosto e à sua voz não acontece ao acaso, com o corpo, a alma, os sentimentos e a personalidade de Paula a estarem no centro de quase tudo. É a jornada desta personagem que acompanhamos ao longo da primeira longa-metragem realizada por Léonor Serraille, enquanto a Jeune femme protagoniza uma série de episódios que a marcam e conhece ou reencontra uma miríade de pessoas que influenciam a sua existência.

16 outubro 2017

Crítica: "Zombillénium" (2017)

 É uma enorme vantagem visionar um filme de animação numa sessão com crianças e pré-adolescentes, sobretudo quando a obra em questão é francamente direccionada para esta faixa etária, ainda que com imensos piscares de olho aos adultos. A vantagem é óbvia: as reacções do público são espontâneas e sinceras. Os risos surgiram em diversas ocasiões e um "bué da fixe" por parte de uns petizes no final da sessão assinalaram algo evidente: "Zombillénium" é um filme deveras simpático. Diga-se que essa simpatia é conquistada devido à criatividade e competência dos envolvidos. Os temas são desenvolvidos com simplicidade e sinceridade, sejam estes relacionados com a paternidade, a igualdade, a tolerância, o luto, ou os direitos dos trabalhadores, enquanto os personagens contam com personalidades e fisionomias que prendem facilmente a atenção, com Arthur de Pins e Alexis Ducord, a dupla de realizadores, a criarem um universo narrativo convincente.

 O título remete para um parque de diversões que conta com vampiros, lobisomens, bruxas, esqueletos, zombies e afins como trabalhadores, com os primeiros a estarem no topo da hierarquia, enquanto os últimos estão na parte inferior da pirâmide social deste espaço gerido por Francis. Este é um vampiro sensato, que responde directamente ao Diabo e encara o parque como um meio essencial para manter as diversas criaturas afastadas do Inferno e salvaguardar os zombies. Quando Hector, um inspector rigoroso, viúvo, tenta fechar o parque, Francis não tem outra alternativa a não ser morder o pescoço deste indivíduo. Por sua vez, um lobisomem também morde Hector, algo que conduz o protagonista a ficar com a forma de um demónio semelhante a Hellboy e a ser obrigado a trabalhar no parque de diversões, embora ainda tente escapulir-se, pois Lucie, a sua filha, ficou orfã. A jovem sofre com a perda do pai, ao passo que Hector tem de se adaptar às dinâmicas do parque, forma amizades e rivalidades e tenta ajudar a salvar este espaço de uma crise financeira.

15 outubro 2017

Crítica: "Compte tes blessures" (2016)

 Kévin Azaïs tem em Vincent um personagem que marca uma carreira, com o actor a conseguir explanar as diferentes vertentes deste jovem complexo e intrigante. O intérprete começa por expor a faceta segura, intensa, inquieta, revoltada e carismática de Vincent como vocalista e líder de uma banda de hard rock. Mais tarde, exibe o lado inseguro e frágil do protagonista quando está na presença de Hervé (Nathan Willcocks), o seu pai, com quem vive num apartamento, após o falecimento da mãe. Posteriormente transmite a delicadeza, a capacidade de sedução e a irreverência do personagem principal de "Compte tes blessures", nomeadamente, quando está na companhia de Julia (Monia Chokri), a namorada do progenitor. Azaïs convence em todos os momentos anteriormente mencionados ao mesmo tempo que se exibe como um intérprete exímio a expressar-se quase sem proferir uma única palavra.

O corpo de Azaïs tanto pode servir para expor o lado mais intimidativo e rebelde de Vincent como a sua fragilidade, enquanto o seu olhar transmite uma imensidão de sentimentos, com Morgan Simon a aproveitar ao máximo o talento do seu intérprete. Estreante na realização de longas-metragens, Simon tem em "Compte tes blessures" uma cápsula de sentimento e emoção, uma espécie de tatuagem que marca a pele, avança pela carne e prende-se à nossa alma. É filme para não deixar ninguém indiferente, que inebria, choca, mexe com as emoções, que se lixa para as convenções e atira-se furiosamente ao espectador para lhe dar algo inesquecível. Marcante é um adjectivo que peca por escasso e por ser demasiado fácil para descrever esta obra cinematográfica, ou não estivéssemos diante de um filme em que uma reunião familiar pode contar com mais intensidade e agressividade do que um concerto de hard rock. Nem a música de Julio Iglesias está a salvo, com a banda sonora a ser utilizada com tanta inspiração como são desenvolvidas as ligações destes personagens.

14 outubro 2017

Crítica: "Le fils de Jean" (2016)

 "Le fils de Jean" tem uma reviravolta sacana. Não salva o filme, é completamente previsível e açucarada, mas ao menos contribui para que este assuma a sua faceta melodramática e dê o devido destaque aos únicos personagens dignos de interesse. Esses personagens são Mathieu (Pierre Deladonchamps) e Pierre (Gabriel Arcand). O primeiro não sabe quem é o seu pai, pelo menos até receber a notícia de que este era canadiano e faleceu recentemente. Descobre ainda que tem dois irmãos, Ben (Pierre-Yves Cardinal) e Sam (Patrick Hivon), algo que o conduz a deslocar-se de Paris a Montreal, onde vai decorrer o funeral.

Quem dá a notícia é Pierre, um amigo de longa data de Jean, o falecido. É o personagem interpretado por Arcand quem recebe o protagonista em Montreal, onde trabalha como médico e habita com Angie (Marie-Thérèse Fortin), a sua esposa, com quem teve duas filhas. Uma das filhas do casal é Bettina, uma das poucas pessoas que recebe Mathieu de forma afável, com Catherine de Léan a ter algum espaço para sobressair. O protagonista pretende conhecer os irmãos a todo o custo, embora raramente acreditamos neste desejo, enquanto Pierre tenta impedir que o primeiro revele a sua identidade junto dos familiares. Quais as razões para Pierre evitar que o protagonista divulgue que é filho de Jean? Quais os segredos que esconde? São perguntas que efectuamos, com as respostas a serem concedidas de forma gradual, até à reviravolta em que tudo é exposto de forma escancarada. 

13 outubro 2017

Crítica: "Avant la fin de l'été" (2017)

 Entre as fronteiras do documentário e da ficção, "Avant la fin de l'été" surge como um road movie que tem no seu cerne os fortes laços que ligam Arash, Ashkan e Hossein, três amigos de longa data, que vivem em Paris e são originários do Irão. Estes são os protagonistas deste exemplar de docuficção realizado por Maryam Goormaghtigh, com a cineasta a acompanhar o trio ao longo de uma viagem por diversos territórios de França. O périplo conta com algumas doses de melancolia, ou Arash não pretendesse regressar à sua Terra Natal, após cinco anos a viver em solo gaulês. Ashkan e Hossein encaram a viagem como a derradeira oportunidade para dissuadirem o amigo de partir, enquanto Arash parece inicialmente decidido a abandonar um país onde não conseguiu formar laços.

Ashkan e Hossein parecem perfeitamente adaptados ao território, embora tenham consciência que vivem de acordo com valores distintos em relação àqueles com que foram educados. Arash sente falta de algo que o preencha. É um tipo algo solitário e reservado, que gosta de se divertir, mas não dá muito nas vistas, que conta com um físico imponente e um guarda-roupa que exacerba a sua personalidade afável. Ao longo do filme acompanhamos Arash, Ashkan e Hossein, enquanto viajam de carro, falam sobre mulheres, religião, o passado, as ansiedades em relação ao futuro, com os diálogos a contarem com algumas doses de improviso e a transmitirem sinceridade, com "Avant la fin de l'été" a esgueirar-se de mansinho pelas barreiras do documentário e da ficção. O que é ensaiado ou escrito no argumento? O que é real? São perguntas que fazemos, enquanto ficamos diante de alguns episódios singelos, mas dotados de algumas doses de humanidade. Note-se quando encontramos Hossein e Ashkan na praia, a observarem Arash ao longe, enquanto salientam as saudades que vão ter deste último, ou as sestas peculiares que fazem ao ar livre. 

12 outubro 2017

18ª Festa do Cinema Francês: "Le Cercle Rouge" (O Círculo Vermelho)

 Entre traições, alianças, um furto minuciosamente preparado, fugas às autoridades e interpretações de grande nível, "Le Cercle Rouge" desafia regularmente as nossas expectativas em relação aos personagens e aos seus destinos, enquanto Jean-Pierre Melville mescla harmoniosamente elementos dos filmes noir, de gangsters e de assalto. Em certa medida, "Le Cercle Rouge" quase que nos remete para "Du rififi chez les hommes", um filme realizado por Jules Dassin onde também ficamos perante temáticas como as relações de lealdade e traições entre um grupo de assaltantes, bem como a colocação em prática de um furto meticulosamente arquitectado. "Le Cercle Rouge" remete ainda para outras obras cinematográficas de Melville, tais como "Bob le Flambeur" e "Le Samouraï", com o cineasta e argumentista a voltar a colocar-nos diante de criminosos com valores muito próprios.

Tal como em "Le Samouraï", Alain Delon interpreta um criminoso lacónico e competente, que anda quase sempre acompanhado pela sua gabardina. Não estamos perante Jef Costello, mas sim de Corey, um criminoso que passou os últimos cinco anos na prisão. No início do filme, Corey ainda se encontra no interior da prisão, em Marselha, onde é convidado a efectuar um assalto a uma joalharia. O plano é apresentado por um polícia corrupto (Pierre Collet), cujo cunhado trabalhou para uma firma que instalou o sistema de segurança da joalharia, tendo acesso a informações privilegiadas sobre o estabelecimento. O polícia procura lucrar com esta informação através de Corey, considerando que o presidiário é a pessoa ideal para efectuar o assalto com sucesso. De feições algo rígidas, poucas falas, roupas discretas e implacável nas suas acções, Corey rege-se por alguns valores de lealdade, tendo uma atitude pouco temerosa diante das adversidades. Essa impassibilidade diante do perigo e o desejo de vingança ajudam a explicar o facto de Corey dirigir-se à casa de Rico (André Ekyan) assim que recebe ordem de soltura. Rico é um gangster que gere uma rede alargada de criminosos, tendo estado envolvido no assalto que conduziu à detenção do protagonista.

11 outubro 2017

Crítica: "Kiss and Cry" (2017)

 Em "Kiss and Cry", Sarah Bramms interpreta uma personagem inspirada em si própria, nomeadamente, Sarah, uma jovem de quinze anos de idade, que lida com as expectativas elevadas da sua mãe (Dinara Drukarova), os desejos e inquietações típicos da adolescência e a rigidez das regras inerentes à patinagem artística. "Kiss and Cry" aborda estas temáticas de forma simples e eficaz, sem se perder em demasia ou entrar por caminhos escorregadios, sempre num tom quase documental. É um exemplar competente da chamada docuficção, com Chloé Mahieu e Lila Pinell, as realizadoras desta longa-metragem, a fazerem com que a ficção invada a realidade e vice-versa, para além de contarem com uma série de intérpretes não profissionais a dar vida a versões de si próprios. 

Entre esses elementos encontra-se Xavier Dias a interpretar um treinador rígido, bastante ríspido nas expressões que utiliza e apaixonado pela patinagem no gelo. Também Ilana Bramms, irmã de Sarah na vida real, interpreta a irmã da protagonista, enquanto cabe a Dinara Drukarova surgir como uma das poucas actrizes profissionais contratadas, nomeadamente, para dar vida à progenitora da personagem principal. Drukarova transmite eficazmente a obsessão da sua personagem em relação ao sucesso da filha, com as atitudes desta mulher a adensarem a pressão sobre a patinadora. As interpretações são convincentes, sobretudo de Bramms, com a intérprete a colocar em evidência as dúvidas que começam a assolar a mente da adolescente e o desejo que esta tem de descobrir todo um mundo que extravasa o ringue de patinagem e os treinos. Diga-se que inicialmente Sarah não é bem recebida em Colmar, o local onde regressa na companhia da mãe e da irmã, tendo em vista a treinar no clube de patinagem artística. 

10 outubro 2017

18ª Festa do Cinema Francês: "L'armée des ombres" (O Exército das Sombras)

 Com uma enorme crueza, uma mescla de elementos históricos e ficção, uma paleta de cores que acentua a dureza e frieza do meio que rodeia os protagonistas, "L'armée des ombres" coloca-nos diante de um grupo da Resistência Francesa que procura sobreviver em plena II Guerra Mundial. Mais do que procurar apresentar uma visão romântica do combate da Resistência aos Nazis, "L'armée des ombres" coloca o espectador perante um conjunto de personagens que vive em constante sobressalto, enquanto cada elemento é obrigado a tomar decisões complicadas, sejam estas fugir, manter o silêncio, denunciar ou eliminar companheiros.

Tendo como base o livro homónimo da autoria de Joseph Kessel, um membro da Resistência Francesa, "L'armée des ombres" é o terceiro filme onde a França Ocupada surge como pano de fundo para o enredo de uma obra cinematográfica realizada por Jean-Pierre Melville (as outras duas são "Le Silence de la mer" e "Léon Morin, prêtre"). O enredo tem início a 20 de Outubro de 1942, com Melville a efectuar uma representação relativamente fiel da época e a abordar a luta pela sobrevivência de um grupo da Resistência, enquanto explana a complexidade destas células. Cada um tem de seguir as ordens à risca, o silêncio entre estes elementos por vezes é de "ouro", enquanto as suas vidas são colocadas constantemente em perigo ao serviço de uma causa que consideram maior.

09 outubro 2017

Crítica: "Corniche Kennedy" (2016)

 Ela observa-os ao longe. Tenta roubar um telemóvel e filmá-los na praia. Eles atiram-se do alto das rochas em direcção ao mar Mediterrâneo. O confronto é inevitável. Segue-se uma discussão e um desafio. Ela enfrenta os seus medos, atira-se ao mar e conhece uma sensação de liberdade. Rapidamente passa a integrar o grupo. Ela é Suzanne, uma adolescente que se encontra a finalizar o ensino secundário e conta com uma família que lhe proporciona todas as condições para prosseguir com os estudos. Suzanne é interpretada de forma sublime por Lola Créton, com a actriz a transmitir o desejo de libertação desta jovem, bem como a sua ânsia de descobrir, amar, andar ao sabor do vento, nadar e desafiar as regras.

Do grupo de adolescentes sobressaem Mehdi (Alain Demaria) e Marco (Kamel Kadri), dois amigos de longa data que começam a sentir algo mais forte por Suzanne, enquanto esta apresenta uma postura ambígua para com a dupla. A relação do trio é exposta de forma convincente e desenvolvida com acerto, com a química entre Kadri, Demaria e Créton a ser notória, enquanto ficamos diante do quotidiano destes personagens, seja a estabelecerem laços, a transgredirem regras e leis, ou a desfrutarem da beleza do território que os rodeia e a enfrentarem os perigos. O mar transmite simultaneamente uma sensação de libertação e clausura. Este é um espaço onde os personagens se evadem da realidade e extravasam os seus sentimentos, com o trabalho de Isabelle Razavet na cinematografia a realçar a vivacidade da água e as suas tonalidades azuis cristalinas, a violência do embate entre os corpos e o mar, e as sensações inquietas que perpassam pela mente destes jovens que mergulham entre os últimos laivos da irresponsabilidade juvenil e a inevitabilidade da chegada à idade adulta.

08 outubro 2017

Crítica: "Tour de France" (2016)

 "Tour de France" tem na interacção entre a dupla de protagonistas o seu melhor atributo. De um lado temos Gérard Depardieu, tanto capaz de explanar o lado rude e conservador de Serge como de evidenciar a faceta sensível e comovente deste viúvo esquecido pela sociedade. Do outro temos Sadek como Far'Hook, um rapper inteligente, islamita, algo tímido e pacífico, que defende os seus valores e construiu uma imagem misteriosa em redor da sua figura. Este foi ameaçado de morte por um grupo rival, algo que o leva a sair temporariamente de Paris enquanto aguarda que a situação acalme e chegue o dia do seu primeiro grande concerto. Bilal, o produtor do músico, aproveita a ocasião para pedir-lhe que acompanhe Serge, o seu progenitor, com quem mantém uma relação afastada, numa viagem pelos caminhos do pintor Joseph Vernet.

Estão estabelecidas as bases para "Tour de France" assumir a sua faceta de filme sobre uma amizade improvável e de choque de gerações e culturas, ainda que mesclado com ingredientes de drama familiar e road movie pontuado por comentários de foro social. Nem sempre tudo resulta, seja a incapacidade do filme desenvolver as suas temáticas de forma complexa, ou a dificuldade de se soltar dos lugares-comuns e dos grilhões da previsibilidade, ou os momentos "videoclip" e os trechos filmados com o telemóvel, embora seja praticamente impossível negar as boas intenções do realizador Rachid Djaïdani. Estas são visíveis nas mensagens de tolerância, bem como na abordagem de temáticas relevantes que estão na ordem do dia, tais como a xenofobia (quer aquela que é exibida de forma direta, quer a que aparece disfarçada de comentários aparentemente banais), a intolerância e a solidão, ainda que tudo seja desenvolvido de forma demasiado simplista, algo que retira força aos comentários.

07 outubro 2017

18ª Festa do Cinema Francês: "Le Samouraï" (O Ofício de Matar)

 Os quinze minutos iniciais de "Le samouraï" permitem identificar alguns traços fundamentais do filme: um protagonista lacónico, fumador e solitário; um aproveitamento exímio dos cenários interiores e exteriores; uma atmosfera de malaise e a certeza de que o crime pontua todos os poros desta longa-metragem. A influência dos filmes noir é notória, com esta cidade de Paris que nos é apresentada a aparecer como um espaço marcado pela insegurança, personagens moralmente ambíguos e um número considerável de crimes. Dos filmes noir temos ainda a noite como testemunha de diversos episódios relevantes, a presença do clube nocturno, representantes das autoridades que cometem actos pouco recomendáveis, as traições, a relação intrincada entre o protagonista e as mulheres, o fumo a marcar os cenários e a ritmar os sentimentos, entre outros exemplos.

No início do filme encontramos Jef (Alain Delon), o protagonista, a fumar um cigarro de forma vagarosa e silenciosa, enquanto se encontra deitado. O fumo contamina o apartamento e reforça quer o mistério que rodeia o protagonista, quer a efemeridade da vida deste samurai fora de época. As tonalidades cinzentas e desprovidas de vida estão bem presentes, bem como as paredes pontuadas pela humidade, com a paleta de cores, associada à simplicidade com que a habitação se encontra decorada, a permitir realçar que Jef é um indivíduo simples, frio, solitário, lacónico e calculista. Ficamos desde logo com uma demonstração do cuidado colocado no design de produção, com o apartamento a exacerbar eficazmente diversos traços da personalidade deste personagem. Outro dos cenários interiores em destaque é um clube nocturno dotado de um ambiente inebriante, onde ficamos perante uma demonstração da frieza de Jef, nomeadamente, quando assassina o dono deste espaço, após preparar minuciosamente uma série de álibis.

06 outubro 2017

Crítica: "Ôtez-moi d'un doute" (Só Para Ter a Certeza)

  Num determinado momento de "Ôtez-moi d'un doute", encontramos Erwan (François Damiens) e Joseph (André Wilms) a traçarem um plano para furtarem waffles de uma roulotte. Este último finge que necessita de ajuda, enquanto o primeiro tenta surripiar comida e bebida. Inicialmente esboçamos um sorriso. No entanto, rapidamente saímos do riso para o aperto na garganta, nomeadamente, a partir do momento em que percebemos que Joseph tem mesmo de ser hospitalizado. Serve este exemplo para realçar um dos bons trechos do filme e um dos seus principais atributos: a capacidade de mesclar os momentos mais leves e cómicos com outros mais sérios e dramáticos. Outra das qualidades de "Ôtez-moi d'un doute" passa pela preocupação que exibe quer para com os personagens, quer para com as dinâmicas que estes formam entre si, com Carine Tardieu a colocar-nos diante de um feel good movie dotado de humanidade e delicadeza.

Boa parte dos personagens que nos são apresentados são aquilo a que chamamos boas pessoas. Não quer dizer que não cometam erros, bem pelo contrário, mas exibem uma humanidade que nos desarma e agarra, com Tardieu a ter o mérito de conseguir que nos importemos com os mesmos. Essa preocupação e a afinidade que geramos com os personagens contribui exactamente para aquele nó na garganta que sentimos no momento mencionado no início do texto, mas também para perdoarmos alguns dos excessos do último terço, quando "Ôtez-moi d'un doute" tenta afastar por completo quaisquer traços de drama e assume de forma escancarada a sua faceta mais leve. Quem está no centro de quase todos os episódios do filme é Erwan, um viúvo que trabalha a desarmar explosivos. Convive diariamente com o perigo, embora a sua vida pessoal seja bem mais inquietante e explosiva do que o seu emprego, sobretudo a partir do momento em que tem de descobrir a identidade quer do seu pai biológico, quer do progenitor da sua neta.

05 outubro 2017

Crítica: "Les fantômes d'Ismaël" (Os Fantasmas de Ismael)

 É de elogiar quando um realizador atinge um estatuto que lhe permite ter uma liberdade quase total ao ponto de poder realizar os filmes como bem pretende. Assim começam e terminam os elogios a "Les fantômes d'Ismaël", o filme de abertura da edição de 2017 do Festival de Cannes. A sua presença em diversos certames de prestígio é apenas justificável se focarmos a nossa atenção nos nomes de todos os envolvidos e esquecermos o resultado final da nova longa-metragem realizada por Arnaud Desplechin. O elenco é composto por nomes como Mathieu Almaric (actor-fetiche de Desplechin), Marion Cotillard, Louis Garrel, Charlotte Gainsbourg, Alba Rohrwacher, ou seja, um grupo dotado de enorme talento. O nome de Desplechin também é motivo de sobra para despertar a nossa curiosidade, embora o cineasta falhe redondamente. 

 O que poderia falhar? É algo que perguntamos antes do início do filme. Infelizmente, falha quase tudo. Comecemos por abordar a incapacidade de Desplechin em materializar a sua ambição. "Les fantômes d'Ismaël" quer abordar as crises de criatividade e as tormentas de um realizador, quer aventurar-se pelos meandros intrincados de uma espécie de triângulo amoroso, quer explorar as dinâmicas complexas das relações familiares, quer apresentar a história de um filme. Também quer ter ingredientes hitchcockianos, com a mulher que regressa dos mortos a atormentar a mente do protagonista e a mexer com os seus sentimentos, qual Judy diante Scottie. Diga-se que "Les fantômes d'Ismaël" também se quer envolver pelos meandros do melodrama, da comédia e do drama familiar. É certo que quer, mas não consegue, enquanto somos brindados com um desperdício colossal que desespera, desilude, desgasta e inquieta. 

04 outubro 2017

Resenha Crítica: "L'économie du couple" (A Economia do Amor)

 "L'économie du couple" convida-nos a observar de perto o ocaso do matrimónio de Marie (Bérénice Bejo) e Boris (Cédric Kahn): quando tudo parece servir de motivo para discussão, os momentos de afecto são trocados por diálogos recheados de ressentimento e os defeitos que eram encarados com uma certa bonomia passam a ser vistos com desdém e raiva. As feridas abertas na alma tardam em sarar, enquanto outras são desferidas de rompante e trazem consequências desagradáveis e dolorosas, com a nova longa-metragem realizada por Joachim Lafosse a explorar o quão intrincado, intenso e violento pode ser o final de um casamento. Outrora existiu amor. Agora ainda existe algo forte a marcar a relação, mas também imensa dor e uma certa sensação de desilusão.

A unir Marie e Boris estão Jade (Jade Soentjens) e Margaux (Margaux Soentjens), as suas filhas, duas gémeas de tenra idade, bem como uma casa que contém no seu interior o resultado de quinze anos de uma vida em comum. A habitação do casal é o cenário primordial e um dos grandes protagonistas do filme, com a sua decoração a traduzir quer as mudanças inseridas pela dupla para transformá-la no seu lar, quer o cuidado colocado no design de produção. No fundo, estamos perante um cenário que conserva no seu interior as memórias da degradação do casamento, que tanto é capaz de transmitir e proporcionar conforto como opressão e dor. Embora estejam quase a separar-se, Marie e Boris têm de conviver temporariamente na mesma casa, com esta situação incómoda a remeter para o facto de este tardar em conseguir alugar um apartamento.

02 outubro 2017

Resenha Crítica: "Lady Macbeth" (2016)

 Frieza e distância. Estes são dois ingredientes essenciais de "Lady Macbeth", a primeira longa-metragem realizada por William Oldroyd. É um drama de época de fino recorte, propositadamente frio e intrigante, que nos deixa diante de uma personagem principal incapaz de despertar simpatia ou empatia. Parece frágil e indefesa, mas o desejo de libertação e a busca pelo prazer contribuem para que protagonize uma série de atrocidades e solte o seu lado mais negro. A morte aproxima-se do seu quotidiano e do enredo, enquanto somos surpreendidos com os actos da protagonista, sobretudo a partir do momento em que o libido dilacera a razão. Essa protagonista é Katherine (Florence Pugh), uma jovem que se encontra presa a um casamento de conveniência e às convenções de uma sociedade machista e conservadora. 

Estamos na Inglaterra rural, em 1865, com Katherine a encontrar-se casada com Alexander (Paul Hilton), um indivíduo com o dobro da sua idade, que a trata praticamente como mercadoria. Boris (Christopher Fairbank), o pai de Alexander, também está longe de exibir alguma simpatia ou qualquer pingo de humanidade para com a nora. Quando Alexander parte em negócios, Katherine fica sozinha com as suas criadas, o sogro e uma série de funcionários que cuidam da vasta propriedade do esposo, entre os quais Sebastian (Cosmo Jarvis), um cavalariço que desperta o desejo sexual da protagonista. Dialogam pouco, mas o desejo é mútuo, com ambos a embrenharem-se numa relação que adquire contornos obsessivos e negros. O despertar sexual de Katherine aparece acompanhado pela morte, com a propriedade de Alexander a surgir como o palco de uma série de episódios hediondos.  

01 outubro 2017

Crítica: "Lumière!" (2016)

 "Lumière!" recupera e dá nova vida a cento e catorze obras filmadas com recurso ao cinematógrafo, todas exemplarmente restauradas e reunidas no interior de capítulos temáticos que permitem uma espécie de visita guiada a um pedaço inaugural e fundamental da História do Cinema. Ou seja, estamos perante um documento de enorme valia, que nos transporta a algumas das memórias mais profundas do cinema e da sua linguagem, sempre com a excelente companhia de Thierry Frémaux. Director do Festival de Cannes e do Instituto Lumière, Frémaux assume aqui o papel de realizador, narrador, professor e guia, com os seus comentários a contarem com pertinência, ritmo, demonstrações de conhecimento e paixão pelo cinema. Não estamos diante de um discurso que resume aquilo que podemos encontrar na Wikipedia, ou meramente descritivo, mas sim algo simultaneamente pessoal, simples e informativo, por vezes pontuado por algum humor e um entusiasmo sentido. 

Ao longo do documentário, Frémaux coloca-nos não só perante as grandes linhas temáticas dos Lumière e dos seus operadores, mas também pelas descobertas e experiências que estes pioneiros efectuaram. Note-se os travellings que são expostos de forma amiúde (na época denominados de panorâmica), o aproveitamento da profundidade de campo, os enquadramentos precisos, a procura de dar movimento aos planos fixos ou o experimentalismo. Um simples plano fixo a captar um grupo de peixes no aquário permite incutir movimento às imagens, jogar com a iluminação e as sombras, e provocar uma certa sensação de encanto. Temos ainda a "invenção" dos remakes, com "La Sortie de l'Usine Lumière à Lyon" a contar com três versões, ou a introdução do suspense e dos gags humorísticos, com "Lumière!" a expor um período fervilhante onde as possibilidades do cinematógrafo e do cinema estavam a ser testadas.