05 setembro 2017

Resenha Crítica: "The Limehouse Golem" (Os Crimes de Limehouse)

 Bill Nighy incute credibilidade, carisma e um tom ponderado a John Kildare um inspector experiente que é incumbido de investigar um caso que envolve uma série de homicídios. Embora seja um veterano, Kildare nunca liderou uma investigação relacionada com assassinatos, com tudo e todos a encararem o protagonista como uma espécie de "bode expiatório" para um possível fracasso na captura do homicida. O serial killer é denominado de Golem e protagonizou um número considerável de homicídios que aparentemente não contam com ligação entre si, algo que dificulta a tarefa do protagonista. Estamos em Inglaterra, em 1880, com a decoração Vitoriana, o smog e os assassinatos a marcarem o enredo de "The Limehouse Golem" (em Portugal: "Os Crimes de Limehouse"), bem como a atmosfera de suspeição, com Dan Leno (Douglas Booth), George Gissing (Morgan Watkins), Karl Marx (Henry Goodman) e John Cree (Sam Reid) a surgirem como os principais suspeitos destas mortes hediondas. Diga-se que John Cree foi recentemente vítima de assassinato, com Elizabeth (Olivia Cooke), a sua esposa, a ser a principal suspeita ao ponto de ser detida e julgada em tribunal. Os dois casos interligam-se, sobretudo por Kildare simpatizar com Elizabeth, mais conhecida como Lizzie, com o inspector a procurar salvar a artista da pena de morte ao mesmo tempo que tenta encontrar provas que incriminem um dos suspeitos. O protagonista parece acreditar que John Cree é o culpado, mas será que o falecido é mesmo o Golem? Os flashbacks acumulam-se, bem como a descoberta de provas e os interrogatórios aos suspeitos, enquanto descobrimos mais informações sobre Elizabeth e o caso que envolve o serial killer, com "The Limehouse Golem" a deambular entre a história desta mulher e a investigação. Dito assim parece que estamos diante de um whodunit de época e é precisamente isso que Juan Carlos Medina efectua, embora o cineasta não consiga escapar às armadilhas do subgénero, com as atenções a recaírem acima de tudo na descoberta da identidade do assassino, ou na possibilidade de ocorrer uma reviravolta após percebermos que existe um suspeito mais forte do que os outros.


 As armadilhas do whodunit estão longe de figurar entre os maiores problemas de "The Limehouse Golem". Esses ficam para a estrutura enfadonha, desprovida de ritmo e vida do filme, com Juan Carlos Medina a usar e abusar dos flashbacks e da informação redundante, bem como das temáticas subdesenvolvidas, enquanto consegue o feito de que o nosso interesse pela investigação se desvaneça com o avançar do enredo. O argumento também não ajuda, com tudo a ser demasiado previsível e genérico, apesar de estarmos diante de uma obra cinematográfica dotada de bons valores de produção e algumas interpretações convincentes. Se Bill Nighy já foi elogiado, importa salientar Olivia Cooke como Lizzie, com a actriz a incutir ambiguidade a esta personagem dotada de uma mescla de fragilidade e malícia. Também Douglas Booth tem espaço para sobressair, com o actor a convencer como um artista peculiar e extravagante, que canta, dança, conquista a atenção do público e o respeito dos colegas. Este protagoniza uma série de espectáculos musicais, utiliza vestimentas que exacerbam a sua personalidade esfuziante e lidera um grupo onde constam elementos como Aveline (María Valverde) e Uncle (Eddie Marsan). Se Douglas Booth tem material para compor um personagem digno de alguma atenção, já María Valverde fica com uma figura unidimensional e desprovida de interesse, que apenas se destaca pela animosidade que demonstra em relação a Lizzie. Também John Cree, um argumentista e jornalista que é apresentado em diversos flashbacks, está longe de ser um personagem que capte a nossa atenção. Essa falta de dimensão de boa parte dos suspeitos contribui e muito para retirar algum fulgor à investigação, tal como as reviravoltas demasiado previsíveis, ou o diminuto aproveitamento das figuras históricas ou o parco desenvolvimento de algumas temáticas. A homossexualidade do protagonista está entre os assuntos subdesenvolvidos ao longo de "The Limehouse Golem", com o tema a ser lançado para o enredo, embora pouco seja aproveitado para expor as dificuldades deste indivíduo numa época em que as mentalidades eram ainda mais conservadoras do que nos dias de hoje.


 No meio de tudo isto salvam-se Bill Nighy, Olivia Cook e Douglas Booth, bem como os valores de produção. O guarda-roupa, a maquilhagem, a representação do espaço citadino de Londres e a decoração dos cenários surgem como elementos que elevam o filme. Note-se o caso do Palace Musical Hall, o cenário onde Dan efectua os seus espectáculos burlescos. É um espaço dotado de toda uma luminosidade e uma faceta barroca e colorida que adensa e muito a energia dos espectáculos que decorrem no seu interior, enquanto fica latente que existiu todo um cuidado na decoração dos cenários interiores. Temos ainda a representação cinzenta e recheada de smog da cidade de Londres, algo que exacerba a atmosfera de pessimismo que rodeia uma parte considerável do enredo. Vale ainda a pena realçar o espaço hostil do tribunal onde Lizzie é julgada, com "The Limehouse Golem" a envolver-se em alguns momentos pelos meandros do drama legal, enquanto deixa em evidência a faceta intrincada da protagonista. "The Limehouse Golem" atribui alguma densidade psicológica à protagonista, com Lizzie a surgir como uma figura atormentada, com um fundo negro e um passado deveras complicado. Esse lado dúbio de Lizzie é exacerbado num momento de relevo em que encontramos a artista diante de um espelho, com Juan Carlos Medina a utilizar eficazmente este objecto para realçar a personalidade ambígua da personagem. No entanto, esses elementos positivos não chegam para fazer esquecer a faceta desprovida de vida de "The Limehouse Golem", com Juan Carlos Medina a tropeçar imenso no uso e abuso dos flashbacks e na incapacidade de incutir ritmo, mistério e tensão a uma investigação que raramente desperta interesse.


Título original: "The Limehouse Golem".
Título em Portugal: "Os Crimes de Limehouse".
Realizador: Juan Carlos Medina.
Argumento: Jane Goldman (inspirada no livro "Dan Leno and The Limehouse Golem" de Peter Ackroyd)
Elenco: Bill Nighy, Olivia Cook, Douglas Booth, Sam Reid, María Valverde, Eddie Marsan, Morgan Watkins, Henry Goodman.

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