12 setembro 2017

Resenha Crítica: "It" (2017)

 "It" é acima de tudo um filme sobre a ultrapassagem dos medos. É, também, uma obra cinematográfica sobre os laços que ligam um grupo de jovens e os rituais de passagem que fazem com que as crianças amadureçam. A atmosfera que rodeia o enredo tem muito de "The Goonies", ou não estivéssemos diante de um grupo de jovens que se encontram à margem, denominado de "The Losers Club", que conta com diversas idiossincrasias no seu núcleo e tem de lidar com algo que aparentemente ultrapassa as capacidades dos seus integrantes. Se em "The Goonies", o grupo do título tenta encontrar um tesouro, já em "It" os "Losers" têm de enfrentar uma ameaça que se alimenta dos medos dos jovens, nomeadamente, uma criatura que aparece quase sempre como o visual do palhaço Pennywise. Este é um ser que aparece de vinte e sete em vinte e sete anos e assume a forma dos maiores receios das crianças, seja um palhaço, ou uma figura que parece saída de uma pintura de Edward Munch. Diga-se que esta não é a única ameaça que os personagens principais de "It" enfrentam, com o realizador Andy Muschietti a conjugar com acerto o terror que advém da presença desta criatura com o receio inerente à acção de alguns seres humanos. Nesse sentido, o argumento (inspirado na obra literária homónima de Stephen King) explora com acerto a presença dos bullies, bem como temáticas como o abuso sexual de menores, o luto, a hipocondria, com quase todos os jovens a terem de ultrapassar os seus receios e lidarem com as dores de crescimento. "It" não poupa nos sustos, nem em algum "fogo de artifício", mas é nas dinâmicas que se estabelecem entre os jovens que mais acerta. É simplesmente admirável verificar o cuidado que Andy Muschietti colocou no estabelecimento de cada um dos personagens principais e nas ligações que estes formam, enquanto desenvolve as suas dinâmicas e revela-se um excelente condutor de actores. Andy Muschietti parte de alguns dos lugares-comuns para desenvolver algo que ganha vida, alma e sentido, sobretudo os personagens que povoam "It". 


 Aos poucos deixamos de sentir medo da criatura do título (embora a espaços ela provoque uns valentes "cagaços"). O receio maior passa pelo que vai acontecer aos miúdos. O resto vem por acréscimo, seja a cuidada representação do final da década de 80 (exposta em diversos pormenores, quer nos cenários - impossível não reparar no cinema que exibe "Batman", "Lethal Weapon 2" e "Nightmare on Elm Street 5", ou nos estabelecimentos com jogos de arcade, quer nas roupas e gostos dos personagens), ou o acerto no trabalho de câmara, ou a potente e inquietante banda sonora de Benjamin Wallfisch. Lá para o último terço estica-se um bocadinho, quase como a dizer que tem pena de largar o espectador, mas até lá proporciona uma experiência pontuada pelo bom humor, aventura, tensão, terror e algum mistério. O texto já vai longo e ainda nem foram efectuados comentários específicos sobre os jovens. Peço imensa desculpa ao caro leitor e vou tratar disso já de seguida. Comecemos por Bill Denbrough (Jaeden Lieberher), com a apresentação do jovem a permitir ainda expor alguns eventos do início do filme. Bill é um jovem gago, algo tímido, mas decidido, que perdeu o irmão na fase inicial de "It". A morte do jovem Georgie (Jackson Robert Scott) mexeu e muito com Bill, enquanto permite que "It" exiba pela primeira vez o palhaço Pennywise. A chuva marca o cenário, o palhaço aparece com uma presença que fica paredes meias entre o afável e o assustador, até o jovem Georgie ser atacado pela criatura. Este evento violento ocorre numa espécie de prólogo que contribui para Andy Muschietti estabelecer que existia uma relação forte entre Bill e Georgie, bem como para expor a acção mortífera da criatura. Pouco depois, o enredo sai de Outubro de 1988 e avança para Junho de 1989, ou seja, quando os jovens que povoam "It" entram de férias, embora ainda exista tempo para Bill, Richie Tozier (Finn Wolfhard), "Eddie" Kaspbrak (Jack Dylan Grazer) e "Stan" Uris (Wyatt Oleff) terem de lidar com os bullies liderados por Henry Bowers (Nicholas Hamilton), um psicopata em potência. Geralmente de camisola de mangas de cava, cabelo selvagem e olhar feroz, Nicholas Hamilton imprime uma faceta ameaçadora a Henry, um jovem com uma enorme propensão para cometer actos de crueldade para com os outros rapazes da sua idade. Mais tarde percebemos que o pai está longe de saber educá-lo, enquanto o jovem exibe por diversas vezes a sua faceta perturbada e perturbadora. 


 Quem é alvo dos actos violentos deste grupo de bullies são personagens como Bill, Richie, Eddie, Stan, "Ben" Hanscom (Jeremy Ray Taylor), "Bev" Marsh (Sophia Lillis) e "Mike" Hanlon (Chosen Jacobs). Vamos então abordar os integrantes do "Losers Club" e o trabalho dos intérpretes. Sophia Lillis insere carisma, desenvoltura e personalidade a Bev, com a actriz a contar com a personagem que mais sobressai. É a única rapariga do grupo, mas também uma das personagens mais complexas. Bev vive sozinha com o pai, um indivíduo abusador e cruel, enquanto tem de lidar com os falsos boatos em volta da sua pessoa e enfrentar situações típicas da sua idade. Esta desperta a atenção de todos os rapazes do grupo, em especial de Ben e Bill, embora nem sempre esteja consciente do efeito que provoca nos petizes. Jaeden Lieberher transmite a mescla de ingenuidade, força e dor de Bill, um jovem que ainda está de luto pela morte do irmão. Ben é um rapaz anafado (felizmente a sua condição física está longe de ser aproveitada para os clichés), que gosta de ler e tem um fraquinho por Bev, com Jeremy Ray Taylor a transmitir a enorme humanidade e afabilidade deste fã da banda New Kids on the Block (as referências ao final da década de 80 são inseridas no enredo de forma bastante harmoniosa). Diga-se que Ben integra o clube dos falhados após iniciar um fuga ao grupo de Henry. Outro dos elementos que se junta ao grupo é Mike, um jovem órfão, afro-americano, que tarda em conseguir eliminar os animais do matadouro dos seus avós. Temos ainda Richie, Stan e Eddie. Finn Wolfhard interpreta uma espécie de Mouth, o icónico personagem de "The Goonies", com o actor a incutir um estilo extrovertido, falador e impertinente a Richie, um petiz que raramente consegue estar em silêncio. Falar do tamanho da sua pila ou das mães dos amigos é algo natural para Richie, enquanto Finn Wolfhard exibe um timing cómico certeiro. Por sua vez, Jack Dylan Grazer convence como Eddie, um jovem hipocondríaco que tem de lidar com uma mãe excessivamente controladora. Temos ainda Wyatt Oleff como Stan, um pré-adolescente de raízes judaicas, que conta com uma faceta relativamente céptica. 


 Todos estes jovens estudam na Derry Middle School e estão a desfrutar das férias de Verão. Ao longo do filme assistimos ao estabelecimento e fortalecimento de laços entre os membros do "Losers Club", enquanto estes têm de lidar com os seus medos e enfrentá-los. Estes medos tanto surgem a partir do plano real (os bullies, os familiares) como no plano do subconsciente (It assume a forma dos receios dos jovens). Note-se o caso de Mr. Marsh (Stephen Bogaert), o pai de Bev, um indivíduo que consegue ser mais ameaçador e repugnante do que Pennywise, ou o já mencionado Henry. A união dos Losers é essencial para cada elemento deste grupo conseguir sobreviver e enfrentar os medos, com "It" a desenvolver com acerto os laços destes jovens e a colocá-los em apuros. Note-se quando se envolvem pelos esgotos, ou quando se embrenham por uma casa abandonada, com Andy Muschietti a demonstrar por diversas vezes que os protagonistas correm perigo de vida. É um perigo palpável, longe de ser artificial ou colocado no enredo apenas para assustar gratuitamente o espectador. Veja-se quando Pennywise aparece durante uma projecção, com a fotografia, o cinema e o terror a juntarem-se, enquanto a criatura do título faz das suas. É um momento particularmente memorável, que surge com estrondo e adensa a nossa inquietação. Bill Skarsgård insere uma mescla de infantilidade e brutalidade a It, uma criatura que aparece geralmente com a forma do palhaço Pennywise, pronta a alimentar-se dos jovens e dos seus medos. O seu olhar é temível, a sua face transmite uma falsa inocência e um receio que se apodera da nossa mente, com Bill Skarsgård a saber explorar o lado maligno da criatura e o medo que esta desperta nos jovens. Os adultos não o podem ver, ou observar os seus feitos, algo que remete para outra das temáticas do filme, em particular, o facto dos mais velhos não conseguirem defender ou perceber os petizes. Os desaparecimentos de jovens sucedem-se em Derry, tal como os actos violentos dos bullies, mas os adultos tardam em conseguir tomar medidas concretas. Veja-se quando somos colocados diante de uma casa de banho recheada de sangue e um adulto não consegue observar nada, ou quando Ben é violentamente atacado pelo grupo de Henry e um casal ignora a situação. 


 Os raios de Sol marcam os cenários de Derry, mas o quotidiano de Bill, Bev, Eddie, Richie, Mike, Stan e Ben está longe de ser radiante. Estes perdem pelo caminho os últimos traços da ingenuidade juvenil, enquanto avançam em direcção à adolescência e têm de se unir para combater uma ameaça que coloca as suas vidas em perigo. Bill tem nesta missão algo de extremamente pessoal, enquanto os outros personagens apresentam uma mescla de sentimentos em relação a todo este caso. Pelo meio divertem-se, trocam piadas ou diálogos tolos, expõem as suas fragilidades e as suas qualidades, enquanto são colocados diante de uma série de rituais de passagem. Existem ecos de "The Goonies", mas também de John Hughes (a menção a Molly Ringwald não é ao acaso), com Andy Muschietti a deixar-nos diante de um grupo de jovens que fala e reage como alguém desta faixa etária. Note-se o momento em que os "Losers" efectuam uma batalha de pedras com os bullies, enquanto a música "Antisocial" dos Anthrax invade o enredo, com a brutalidade e a inocência a marcar este estranho duelo. Os protagonistas não são totalmente inocentes, mas ainda estão numa fase das suas vidas em que precisam de algum apoio, com "It" a abordar de forma certeira algumas das problemáticas inerentes a esta idade. No final, a maior vitória de "It" passa exactamente por compelir-nos a acreditar nestes personagens, a temer pelas suas vidas e a desejar que Pennywise não elimine os protagonistas. Os sustos aparecem, bem como alguns exageros, mas aquilo que mais sobressai são os laços que se criam entre estes jovens e o acerto na escolha do elenco. E são exactamente esses acertos que nos compelem a criar laços com esta petizada e a observar os episódios que protagonizam com enorme inquietação, alguns sorrisos e o olhar atento de quem acabou de ver um bom filme. Nada mau. Nada mau.


Título original: "It".
Realizador: Andy Muschietti.
Argumento: Chase Palmer, Cary Fukunaga, Gary Dauberman.
Elenco: Jaeden Lieberher, Bill Skarsgård, Finn Wolfhard, Sophia Lillis, Chosen Jacobs,
Jeremy Ray Taylor, Wyatt Oleff, Nicholas Hamilton, Jack Dylan Grazer, Stephen Bogaert, Jackson Robert Scott.

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