23 setembro 2017

Resenha Crítica: "Il padre d'Italia" (2017)

 Ela cai-lhe nos braços. Ele leva-a para o hospital. Ela está sem rumo, tal como ele. Ela é Mia (Isabella Ragonese), uma cantora de pouco sucesso, que se encontra grávida, não sabe quem é o pai da criança e tarda em tomar precauções para proteger o rebento. Ele é Paolo (Luca Marinelli), um indivíduo que trabalha numa loja de móveis pré-fabricados, que ainda não ultrapassou o final da relação com Mario (Mario Sgueglia), o seu companheiro durante oito anos. Entre Paolo e Mia forma-se algo inicialmente estranho que aos poucos desemboca numa ligação forte. Luca Marinelli imprime uma postura introvertida, pragmática, solitária e algo pessimista a Paolo, algo que diferencia e muito este personagem de Mia. Por sua vez, Isabella Ragonese incute um tom extrovertido e despassarado a Mia, um espírito livre que vê quase tudo e todos a fecharem-lhe a porta. O namorado troca-a por outra, um ex-namorado morreu, enquanto que a família aceita-a temporariamente de volta, embora a postura conservadora dos familiares conduza a que a tempestade pareça aproximar-se a qualquer momento. Isabella Ragonese é uma actriz de grande competência, algo que volta a demonstrar em "Il padre d'Italia", um drama que beneficia e muito do talento da sua dupla de protagonistas. Nesse sentido, a actriz é essencial para transmitir a faceta vivaz e problemática deste espírito livre que nem sempre toma as melhores opções. Os tons loiros e rosados pontuam o seu cabelo de raízes escuras, com esta mistura de cores a espelhar a rebeldia de Mia e a confusão que vai no interior da alma desta cantora que começa a mexer e muito com o quotidiano de Paolo. Voltemos ao momento em que Mia cai nos braços de Paolo. Ambos estavam numa discoteca, com a luz vermelha a acentuar a inquietação e as mudanças fervilhantes que se aproximam, nomeadamente, a partir do episódio em que Mia desmaia e Paolo transporta-a até ao hospital. Esta melhora rapidamente e expõe o seu desagrado por ter perdido a carteira e os documentos, enquanto consegue convencer Paolo a levá-la de Torino até Asti, em particular, ao local onde supostamente vai ensaiar com a banda do namorado. Em Asti, Paolo depara-se desde logo com uma das muitas rejeições que Mia recebe: o namorado já está com outra, pronto a descartá-la.


 A viagem até Asti marca o inicio da faceta de road movie de "Il padre d'Italia". Posteriormente, Paolo e Mia viajam até Roma, Nápoles e a outro território do Sul de Itália, enquanto protagonizam alguns episódios que variam entre o cómico e o dramático (as viagens como um meio para desenvolver as dinâmicas dos protagonistas e mexer com os personagens e o enredo surgem como elementos essenciais de "Il padre d'Italia" e do subgénero no qual se encontra inserido). Ao longo desses episódios, Paolo e Mia são confrontados com os seus receios, as suas contradições, os seus planos ou falta de projectos para o futuro e a incerteza que pontua as suas vidas. Quais os planos destes personagens para o futuro? Paolo parece preso ao pessimismo, enquanto evita contrariar a "natureza". Note-se a ocasião em que expõe as razões para não ter aceite a hipótese de formar família com o antigo companheiro, com a ideia de adoptar um filho a mexer e muito com a mente do protagonista. Paolo não coloca em causa a sua orientação sexual, embora exiba uma postura algo receosa e a espaços conservadora no que diz respeito à adopção de uma criança, com Luca Marinelli a contar com um personagem dotado de complexidade. Diga-se que Paolo cresceu num orfanato, tendo sido abandonado pela mãe quando ainda tinha tenra idade. Por vezes parece que Paolo tenta evitar que Mia cometa uma decisão semelhante à da sua progenitora, enquanto "Il padre d'Italia" associa em alguns momentos a figura da mãe do primeiro com a cantora. Mia não quer abortar, mas é impossível que não apareçam dúvidas em relação à sua capacidade para conseguir educar a filha que vem a caminho. Sem maturidade, sem emprego, sem projectos sólidos para o futuro, Mia tem em Paolo uma companhia inesperada, enquanto este encontra na primeira alguém que atribui algum tempero à sua vida. Fabio Mollo desenvolve a relação e as dinâmicas destes personagens com conta, peso e medida. É certo que beneficia da química e do enorme à vontade de Luca Marinelli e Isabella Ragonese, uma dupla que eleva "Il padre d'Italia" e compõe personagens que conquistam a nossa atenção, mas também não podemos retirar mérito ao trabalho do cineasta.


 Estamos diante de um filme dotado de algumas doses de sensibilidade e humanidade, que aborda temáticas como a solidão, as relações amorosas, as especificidades de alguns territórios italianos e das suas gentes, a maneira muito própria como cada um encara o futuro, a paternidade e a maternidade, para além de contar com algumas doses significativas de humor e uma banda sonora belíssima. Observe-se com atenção o momento em que Paolo e Mia fingem que são um casal durante a prova de um vestido de casamento, ou o trecho em que a segunda coloca maquilhagem no primeiro. A espaços parece que vai nascer um romance sério entre os protagonistas, apesar de Fabio Mollo ter outros planos para estes dois elementos que se encontram numa fase das suas vidas demasiadamente marcada pela indefinição. Em um ou outro momento nem sempre tudo faz sentido, sobretudo quando os assuntos envolvem Paolo e o trabalho. É algo que a espaços incomoda, embora Luca Marinelli e Isabella Ragonese logo tratem de elevar os episódios que protagonizam. Vale a pena realçar os momentos em que Paolo e Mia estão no Sul de Itália, junto de alguns familiares desta última, com a dupla a despertar a atenção dos elementos mais conservadores ao mesmo tempo que protagoniza uma série de situações marcantes. Posteriormente ocorre um milagre, enquanto Fabio Mollo deixa-nos diante de uma situação que promete deixar marca em Mia e Paolo. Os personagens interpretados por Luca Marinelli e Isabella Ragonese podem ou não ficar juntos no final, mas estarão para sempre reunidos por Itália, pelos episódios que protagonizaram e por esta dramédia capaz de despertar o nosso interesse e simpatia, bem como um misto de sentimentos de alegria e tristeza.
 

Título original: "Il padre d'Italia".
Realizador: Fabio Mollo.
Argumento: Fabio Mollo e Josella Porto.
Elenco: Luca Marinelli, Isabella Ragonese, Anna Ferruzzo, Mario Sgueglia.

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