09 setembro 2017

Resenha Crítica: "The Bad Batch - Terra Sem Lei"

 "When you shit here in comfort, your shit goes away (...) You shit. It leaves. You know why it leaves?" diz "The Dream" (Keanu Reeves) para Arlen (Suki Waterhouse), a protagonista de "The Bad Batch". São falas que resumem bem a mescla de estranheza e puerilidade que atravessa "The Bad Batch", com Ana Lily Amirpour a alternar momentos de alguma inspiração e comentários pertinentes com diálogos risíveis e uma auto-indulgência que sabota por completo o ritmo do filme. É uma auto-indulgência exasperante, que contribui para retirar ritmo, tensão e mistério a "The Bad Batch", com Ana Lily Amirpour a não saber separar aquilo que interessa para o enredo e para o filme e os elementos que considera interessantes. O que não deixa de despertar uma sensação agridoce ou não estivéssemos diante de um filme capaz de questionar a nossa moralidade em situações extremas, ou aquilo que é certo e errado, o bem e o mal, enquanto provoca, explana a relação de uma mulher com o corpo, expõe alguns comentários sobre a nossa sociedade e o tratamento dado aos imigrantes ilegais, quase sempre com uma atmosfera distópica à la "Mad Max". Diga-se que a saga "Mad Max" parece ter sido uma das grandes fontes de inspiração (para não chamar outra coisa) de Ana Lily Amirpour. Desde o território desértico onde o primado da lei é algo que não existe, passando pela distopia, as figuras deformadas ou peculiares, a "fábrica de grávidas", até à atmosfera de desesperança, "The Bad Batch" exibe que Ana Lily Amirpour tem as obras de George Miller em muito boa conta. Não temos suínos a contribuírem com fezes, mas a merda também marca o enredo de "The Bad Batch", seja aquela que é mencionada nos diálogos ou a que contribui para Arlen conseguir escapulir-se de um grupo de canibais que estão instalados numa zona árida e hostil.


 No início de "The Bad Batch" encontramos Arlen a ser tatuada com um número e lançada para o interior do bad batch, um território fora do Texas, onde ninguém é considerado residente dos EUA ou está protegido pela lei. É uma terra de ninguém, marcada por regras muito próprias, ou pela falta delas, onde a lei do mais forte parece imperar e tudo e todos são obrigados a lutar pela sobrevivência. Não faltam canibais, eremitas, um indivíduo com enorme propensão para procriar e uma sensação de desesperança ao longo deste território desértico onde o calor e a violência predominam e a fronteira entre o bem e o mal é esbatida. Quando é presa pelos canibais, Arlen é mutilada. Perde um braço e uma perna, mas sobrevive e consegue fugir para Comfort e aos poucos adapta-se às leis deste local. O momento em que Arlen foge da tribo de canibais é dotado de algum humor negro, bem como pela presença de excrementos e de um skate. Se a situação anteriormente mencionada é peculiar e desperta a atenção, já Suki Waterhouse está longe de convencer como esta personagem lacónica que se encontra a lidar com as novas características do seu corpo e a lutar pela sobrevivência. Suki Waterhouse é demasiado "sem sal" para nos convencer da dureza da protagonista ou para atribuir dimensão aos momentos em que Arlen está em silêncio. Diga-se que quando profere diálogos a situação nem sempre melhora, com Suki Waterhouse a não trazer a mescla de força e fragilidade que Arlen parece conter no seu interior. Arlen vive uma série de episódios complicados, sobretudo a partir do momento em que começa a efectuar algumas decisões questionáveis. Note-se quando encontramos Arlen a eliminar Maria (Yolonda Ross), uma canibal, cinco meses após os episódios que a levaram a ficar sem um braço e uma perna. Arlen elimina Maria à frente de Honey (Jayda Fink), a filha da canibal, uma rapariga de tenra idade. Por sua vez, Miami Man (Jason Momoa), o pai de Honey, parte em busca da filha, com os destinos deste indivíduo e da protagonista a cruzarem-se, algo que contribui para alguns momentos ambíguos nos quais o desejo e a violência parecem andar lado a lado.


 Jason Momoa incute um estilo lacónico e feroz a Miami Man, um cubano com uma enorme habilidade para lançar facas e exibir a sua musculatura. Diga-se que quase todos os integrantes da tribo de canibais parecem ter saído de um catálogo de bodybuilding, com Ana Lily Amirpour a exibir um prazer notório a explanar os corpos dos intérpretes ao mesmo tempo que exacerba as características quentes do território. Veja-se os planos bem abertos que nos deixam diante da aridez do deserto, ou os trechos nos quais a pele queimada de alguns personagens é exposta. Um desses personagens é "The Hermit", um indivíduo bizarro, de pele queimada, barba farta e um estilo peculiar, com Jim Carrey a destacar-se neste pequeno papel. Diga-se que Keanu Reeves também conta quase com uma participação especial, com o actor a inserir um estilo pouco confiável e carismático a "The Dream", um indivíduo que tem um harém de grávidas no interior da sua casa. Este surge como uma espécie de popstar de Comfort, uma zona que destoa do seu nome. É neste espaço que Arlen encontra abrigo após ter fugido dos canibais, com "The Bad Batch" a deixar-nos perante um território marcado pela falta de condições e por um evento festivo recheado de néones, imensa música e consumo de drogas. A cena em que Arlen está sob o efeito de drogas e perde temporariamente o rasto de Honey é o melhor momento do filme e exibe o quão talentosa Ana Lily Amirpour pode ser. As tonalidades azuis e verdes provenientes dos néones predominam, a música techno apodera-se do enredo, as vozes pululam na mente de Arlen, as imagens começam a sair de foco, o céu transfigura-se e enche-se de estrelas, até ocorrer um encontro inesperado que marca a protagonista. O problema é que estes raros momentos de genialidade são entrelaçados com uma série de diálogos risíveis ou situações que pouco ou nada acrescentam ao filme a não ser mais tempo de duração. Ana Lily Amirpour perde-se em situações desnecessárias, ou redundantes, enquanto exibe uma inépcia latente a gerir a duração do filme e descura imensas vezes o desenvolvimento do universo narrativo desta obra que tanto repele como atrai a nossa atenção. Por vezes parece que estamos diante daquele jogador de futebol que faz sempre uma finta a mais e acaba por estragar as jogadas colectivas, com Ana Lily Amirpour a exibir um talento notável para deixar um sabor agridoce na nossa alma após o final da visualização de "The Bad Batch".

Título original: "The Bad Batch".
Título em Portugal: "The Bad Batch - Terra Sem Lei".
Realizadora: Ana Lily Amirpour.
Argumento: Ana Lily Amirpour.
Elenco: Suki Waterhouse, Jason Momoa, Keanu Reeves, Jayda Fink, Jim Carrey, Diego Luna. 

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