15 agosto 2017

Resenha Crítica: "Wild at Heart" (Um Coração Selvagem)

 Não faltam gritos, sentimentos expostos de forma exagerada, situações peculiares, referências a "The Wizard of Oz", imensa violência, episódios surreais, figuras que escapam ao cumprimento da lei, interpretações propositadamente artificiais, revelações escabrosas, cigarros tragados em grande velocidade e uma banda sonora que realça os ritmos intensos e selvagens do filme e dos personagens em "Wild at Heart", uma delirante obra cinematográfica realizada por David Lynch. É o Heavy Metal e o Rock and Roll a apoderarem-se da alma e do coração do filme, bem como do âmago de Sailor Ripley (Nicolas Cage) e Lula Pace Fortune (Laura Dern), um casal explosivo que conta com dinâmicas muito próprias, um enorme apetite sexual e uma grande propensão para expor os sentimentos de forma exagerada. Estamos diante de uma dupla de protagonistas que protagoniza uma série de momentos dignos de atenção, seja uma tórrida cena de sexo, ou danças que envolvem movimentos de luta, com Nicolas Cage (pronto a converter qualquer um ao cageísmo) e Laura Dern (em nova colaboração com David Lynch após o marcante "Blue Velvet") a contarem com desempenhos meritórios. Nicolas Cage imprime uma faceta deliciosamente exagerada, errática, peculiar e rebelde a Sailor Ripley (um nome genial para um personagem), um indivíduo que anda quase sempre acompanhado de um casaco de pele de cobra (que considera um símbolo da sua individualidade e da sua crença na liberdade pessoal). Laura Dern incute uma mescla de infantilidade e arrojo a Lula, uma jovem adulta com um enorme apetite sexual, um gosto notório pela música e pela aventura, uma personalidade estouvada e uma paixão forte por Sailor. É em aventuras e problemas que Lula e Sailor se envolvem, sobretudo após este último sair da prisão, vinte e dois meses depois de ter sido encarcerado. No início de "Wild at Heart" encontramos um assassino a tentar eliminar Sailor, a mando de Marietta (Diane Ladd), a mãe de Lula, embora o protagonista acabe por levar a melhor e consiga matar o criminoso. Marietta procura fazer de tudo para separar o casal, em grande parte devido a pensar que Sailor sabe algo mais do que deixa transparecer em relação à morte do progenitor de Lula, enquanto a jovem encontra-se longe de aceder às pretensões da mãe, algo notório quando enceta uma longa viagem ao lado do amado, com a dupla a ser seguida de perto pelos elementos que a primeira envia para eliminar o protagonista.


 A viagem protagonizada pela dupla de protagonistas permite que "Wild at Heart" se envolva pelos meandros dos road movies, com Lula e Sailor a circularem por locais como New Orleans e o Texas, enquanto desfrutam o momento e almejam chegar à California. Pelo caminho, Sailor e Lula frequentam bares, fazem sexo em locais baratos, envolvem-se em confusões e lidam com estranhas figuras, tais como Bobby Peru (Willem Dafoe), um antigo marinheiro que conta com problemas de dentição, uma personalidade violenta e uma faceta deveras dissimulada. Diga-se que não faltam figuras pouco confiáveis a povoarem o enredo de "Wild at Heart", com David Lynch a criar toda uma atmosfera de violência e mistério a rodear a dupla de protagonistas. Um dos símbolos dessa violência é Marietta, uma espécie de Bruxa Malvada do Oeste que procura fazer de tudo para separar Lula e Sailor, inclusive contratar os serviços de Johnnie Farragut (Harry Dean Stanton) e Marcello Santos (J.E. Freeman), dois indivíduos com métodos de trabalho bastante distintos. Harry Dean Stanton transmite a faceta algo atrapalhada e incompetente de Johnnie, um detective que parece pouco interessado em separar Lula e Sailor. Johnnie manteve um caso com Marietta, com quem ainda dialoga regularmente, embora não esteja informado sobre todos os planos desta mulher. Se Johnnie é um detective pouco expedito, já Marcello Santos surge como um gangster que não tem problemas em eliminar quem se coloca no seu caminho, com J.E. Freeman a colocar em evidência que estamos diante de um criminoso pouco recomendável. Temos ainda figuras como o já mencionado Bobby Peru, ou as irmãs Juana (Grace Zabriskie) e Perdita Durango (Isabella Rossellini), duas personagens misteriosas que adensam quer a faceta violenta, extravagante e surreal do filme, quer a sensação de perigo em volta de Lula e Sailor. Outra personagem que marca o filme em análise é uma espécie de Glinda (Sheryl Lee), a Bruxa Boa do Sul, uma figura que remete para os seres quase místicos ou sobrenaturais que atravessam algumas obras de David Lynch (note-se os casos de The Mistery Man em "Lost Highway", ou "The Bum" em "Mulholland Dr."), com o cineasta a pontuar o enredo de "Wild at Heart" com diversas referências a "The Wizard of Oz", sejam as bruxas, ou a menção à estrada dos tijolos amarelos, ou os sapatos vermelhos que Lula utiliza num determinado momento do filme.


 A tonalidade encarnada dos sapatos, bem como do verniz e do batom de Lula (algo comum em algumas figuras femininas dos filmes de David Lynch, com "Blue Velvet" a surgir como um exemplo paradigmático) exacerba as características quentes da personagem, com esta cor a transmitir o fulgor, a inquietação e a faceta ardente da jovem. Por sua vez, as referências a "The Wizard of Oz" inserem uma certa inocência aos actos de Lula e Sailor, com a dupla a procurar desfrutar do amor em tempos de violência e incerteza. Nicolas Cage e Laura Dern conseguem convencer-nos de que existe algo de muito forte a unir Sailor e Lula, mesmo quando o casal se depara com alguns contratempos. Veja-se os diálogos bem vivos que estes trocam, seja sobre sexo, ou episódios marcantes do passado, ou a forma como se complementam a dançar, ou o trecho em que Sailor, um fã confesso de Elvis Presley, decide cantar a música "Love Me Tender" e dedicá-la à amada, entre outros episódios que permanecem na memória. David Lynch extrai interpretações propositadamente artificiais de Nicolas Cage e Laura Dern, com a dupla a inserir-se na perfeição no interior da atmosfera de exageros, violência e alguma inocência que envolve o enredo desta obra cinematográfica. Diga-se que David Lynch não poupa na exposição da violência, seja na forma de corpos decepados, ou na exibição de um indivíduo a arder, por vezes com algum humor negro e imensos excessos à mistura. Note-se quando encontramos um cão a roubar uma mão decepada, ou a reacção de um indivíduo a um tiroteio no último terço do filme, ou a forma exagerada como Marietta expõe as suas emoções (mérito de Diane Ladd que exacerba com arte e engenho a faceta psicótica desta personagem). É neste contexto intrincado e rocambolesco que Lula e Sailor procuram desfrutar do amor que sentem um pelo outro, com a dupla a procurar viver o momento, embora as situações de acalmia por vezes sejam tão fugazes como o fumo emanado pelos cigarros que tragam regularmente. O fumo dos cigarros permeia por diversas vezes os cenários e banha os corpos ao mesmo tempo que traduz a incerteza que envolve a dupla de protagonistas e a fugacidade dos seus momentos de felicidade, com Nicolas Cage e Laura Dern a formarem uma dupla explosiva, peculiar, emotiva, intensa e inesquecível.


Título original: "Wild at Heart".
Título em Portugal: "Um Coração Selvagem".
Realizador: David Lynch.
Argumento: David Lynch (inspirado no livro "Wild at Heart" de Barry Gifford).
Elenco: Nicolas Cage, Laura Dern, Diane Ladd, Willem Dafoe, Harry Dean Stanton, Isabella Rossellini, Grace Zabriskie, J.E. Freeman, Sheryl Lee.

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