24 agosto 2017

Resenha Crítica: "Una giornata particolare" (Um Dia Inesquecível)

 Sensível, delicado, pontuado por algumas doses de humor e um humanismo latente, "Una giornata particolare" mexe de forma certeira com as nossas emoções, enquanto aborda o contexto histórico com eficácia, deixa Marcello Mastroianni e Sophia Loren protagonizarem alguns momentos inesquecíveis e coloca-nos diante de uma série de acontecimentos marcantes que decorrem ao longo de um dia que se torna muito especial para a dupla de protagonistas desta obra cinematográfica realizada por Ettore Scola. O dia em que os protagonistas travam conhecimento coincide com a visita que Adolf Hitler efectua a Benito Mussollini, em Roma, a 8 de Maio de 1938, ou seja, durante a II Guerra Mundial, com o contexto histórico a influenciar e muito a vida de Antonietta (Sophia Loren) e Gabriele (Marcello Mastroianni), dois personagens atormentados quer pela solidão, quer pela incompreensão daqueles que os rodeiam. Esta visita é exposta logo nos momentos iniciais de "Una giornata particolare", com Ettore Scola a utilizar vídeos de notícias da época para retratar a pompa e circunstância com que Adolf Hitler foi recebido, até deixar a ficção tomar conta do enredo. Quase tudo e todos se mobilizam para estarem presentes na parada em honra de Adolf Hitler, um evento que reforça a aliança entre Itália e Alemanha, embora alguns personagens não se desloquem ao local, tais como Gabriele e Antonietta. É exactamente a partir de Gabriele e Antonietta e deste contexto histórico que Ettore Scola aborda temáticas relacionadas com o fascismo, o machismo, o papel da mulher na sociedade, a intolerância, a homofobia, sempre sem descurar o desenvolvimento da ligação que une de forma efémera os personagens interpretados por Marcello Mastroianni e Sophia Loren. Marcello Mastroianni e Sophia Loren repetem uma parceria que contou com excelentes resultados em obras cinematográficas como "Ieri, oggi, domani" e "Matrimmonio all'italiana" (ambas de Vittorio De Sica), com Ettore Scola a aproveitar a química e o talento dos dois intérpretes para elevar "Una giornata particolare" e desenvolver de forma subtil a relação entre Antonietta e Gabriele. A subtileza é a palavra de ordem no efémero affair entre Antonietta e Gabriele, com Ettore Scola a dar tempo para que as particularidades dos personagens e as suas dinâmicas sejam devidamente desenvolvidas.


Sophia Loren aparece num registo mais próximo de "La ciociara" ou do primeiro episódio de "Ieri, oggi, domani", ou seja, mais simples e desprovida de uma maquilhagem carregada, com a intérprete a contribuir para exacerbar as características muito próprias de Antonietta, uma dona de casa algo naïf, que admira Benito Mussolini, procura não questionar o ideário associado ao fascismo e evita praticar atitudes consideradas subversivas. Antonietta é casada com Emanuele (John Vernon), de quem tem seis rebentos. Emanuele pouco ou nada valoriza a presença da esposa, com John Vernon a transmitir de forma simples e eficaz o carácter rude do personagem que interpreta, um indivíduo que efectua exercício físico todos os dias, respeita os valores fascistas, detesta estrangeirismos, trabalha no Ministério da África Oriental e considera que as mulheres é que devem tratar de tudo o que esteja relacionado com a casa. Ainda no primeiro terço do filme, Antonietta encontra-se numa azáfama, tendo em vista a conseguir que o esposo e os rebentos cheguem a tempo e horas à parada. No entanto, a personagem interpretada por Sophia Loren não vai ao evento devido a ficar a tomar conta da casa. Quem também não marca presença no evento é Gabriele, um indivíduo que foi expulso do Partido Fascista devido a ser homossexual, que se encontra a ponderar cometer suicídio. Gabriele é um locutor de rádio que gosta de ler, conta com uma personalidade algo espirituosa e mais aberta do que Antonietta, tendo sido recentemente afastado do emprego devido a ser homossexual. A decoração da casa de Gabriele permite reforçar a personalidade solitária deste indivíduo, com o espaço habitacional a encontrar-se marcado pela forte presença de livros, imensa desorganização, passos para treinar a rumba e duas fotografias que muito dizem ao protagonista. Já a habitação de Antonietta, situada praticamente em frente à casa de Gabriele, conta com uma série de símbolos associados ao regime fascista e alguma iconografia religiosa, algo que exponencia o carácter aparentemente conservador da maioria dos seus habitantes, embora esta mulher esteja longe de parecer feliz. O trabalho de decoração dos cenários interiores é sublime, com os adereços e estes espaços a contribuírem quer para transmitir a atmosfera da época, quer para reforçar certos traços dos personagens. Diga-se que o trabalho de condução dos actores também é de se tirar o chapéu, com Sophia Loren e Marcello Mastroianni a terem interpretações imaculadas como dois vizinhos que se conhecem de forma improvável e peculiar.


 Marcello Mastroianni e Sophia Loren são capazes de transmitir imenso apenas com as expressões dos seus rostos, seja em momentos de maior contenção ou extravasamento das emoções, com a dupla a demonstrar a solidão que assola e consome os personagens que interpretam. Marcello Mastroianni evidencia a dor que perpassa pelo corpo e a alma de Gabriele, um indivíduo que é marginalizado e perseguido pela sua orientação sexual, que se prepara para ser detido. Sophia Loren transmite o cansaço de Antonietta, uma mulher cujo sorriso parece ter ficado perdido pela juventude, com o momento em que trava conhecimento com Gabriele a contribuir para esta mulher redescobrir uma série de sensações e questionar aquilo em que sempre acreditou. Gabriele e Antonietta são figuras solitárias que não se encontram na melhor fase das suas vidas quando travam conhecimento, com Marcello Mastroianni e Sophia Loren a conseguirem transmitir de forma subtil aquilo que une e separa estes personagens. Ambos precisam de falar, ouvir e ser ouvidos, com o momento em que dialogam pela primeira vez a ser pontuado por algum humor. O encontro entre Antonietta e Gabriele ocorre quando a primeira contacta o segundo para tentar capturar Rosmunda, uma caturra estouvada que foge para as imediações do apartamento do antigo locutor de rádio. Ela tenta falar de situações corriqueiras. Ele apresenta uma atitude peculiar, própria de quem acabou de travar a ideia de cometer suicídio devido a uma situação inesperada. Entre visitas à casa um do outro, Antonietta e Gabriele exibem os seus gostos, medos, receios e ansiedades, com os diálogos trocados a transmitirem uma certa sensação de sinceridade. Antonietta exibe a sua admiração por Benito Mussolini e uma obediência aos ideais fascistas que aos poucos se desfaz. Gabriele procura conter o seu desprezo para com as ideias fascistas, tenta dialogar de forma sincera com a sua interlocutora e não foge a efectuar alguns comentários jocosos. Aos poucos assistimos ao adensar da intimidade entre Gabriele e Antonietta, quer quando protagonizam momentos de maior leveza ou crueza, quer quando a relação meteórica e efémera que formam conhece avanços e recuos. Qualquer possibilidade de uma relação amorosa duradoira entre Gabriele e Antonietta está fadada ao fracasso, embora estes protagonizem uma série de situações intensas, com o primeiro a apresentar uma atenção e delicadeza para com a segunda que esta nunca teve por parte do marido, enquanto o antigo loucutor é ouvido e aceite por alguém, quando quase todos parecem prontos a desprezá-lo.


A história de Gabriele foi parcialmente inspirada em Nunzio Filogamo, um locutor de rádio italiano que foi obrigado a apresentar um atestado médico a confirmar que não era homossexual, com Ettore Scola a abordar a perseguição que o regime fascista de Mussolini efectuava aos homossexuais. Veja-se o caso da porteira (Françoisa Berd) do complexo de edifícios onde Gabriele e Antonietta habitam, uma figura conservadora, sempre pronta a arrasar com a reputação do antigo locutor e a lançar suspeitas em relação ao mesmo. A homofobia, a intolerância, o poder dos rumores, a delação, o machismo, surgem como temas abordados ao longo do filme, bem como as políticas destravadas de incremento à natalidade da Itália de Mussolini, a forma como as mulheres eram praticamente instruídas a conformarem-se a ser donas de casa, a taxa de celibato que existia na época, entre outros exemplos, com Ettore Scola a efectuar um retrato bastante minucioso deste período. Note-se ainda a presença do relato da parada na rádio, com o discurso do locutor a contribuir para um retrato bem vivo de um episódio negro da História da Humanidade. Apesar da situação delicada em que se encontram Gabriele e Antonietta, "Una giornata particolare" nunca descura os elementos de maior leveza, com Ettore Scola a saber retirar algum humor a partir de situações dramáticas ou inesperadas. Veja-se a personalidade espirituosa de Gabriele, com Marcello Mastroianni a demonstrar mais uma vez uma enorme apetência para os momentos de humor (seja a conduzir uma trotinete ou a fingir que apanhou um choque eléctrico), ou a própria forma como alguns planos são minuciosamente executados ao serviço do humor. Essa situação é particularmente notória quando encontramos Gabriele a escrever, absorto na sua ideia de se suicidar, enquanto em pano de fundo observamos Antonietta a gesticular de forma efusiva para tentar contactar o vizinho devido ao facto do pássaro ter fugido. Aos poucos, Antonietta começa a sentir algo mais forte por Gabriele. Este não tem pretensões de formar uma relação com a protagonista, algo que não trava o surgimento de sentimentos quentes que afloram num contexto onde a solidão e a dor parecem encontrar um antídoto temporário no seio de um envolvimento fátuo. Marcado por uma enorme delicadeza, um sentido de humor muito italiano e interpretações imaculadas de Marcello Mastroianni e Sophia Loren, "Una giornata particolare" surge como uma experiência cinematográfica muito particular, sensível e inesquecível.


Título original: "Una giornata particolare".
Título em Portugal: "Um Dia Inesquecível".
Realizador: Ettore Scola.
Argumento: Ettore Scola e Ruggero Maccari.
Elenco: Sophia Loren, Marcello Mastroianni, John Vernon, Françoise Berd.

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