26 agosto 2017

Resenha Crítica: "Stop Making Sense" (1984)

 É possível visionar "Stop Making Sense" de forma calma e ordeira? Essa é uma tarefa praticamente impossível de concretizar, com Jonathan Demme a realizar um filme-concerto que desperta uma enorme vontade de cantar, dançar e aplaudir, enquanto bombeia emoções, ritmo e energia. Jonathan Demme não se limita a filmar um concerto da banda Talking Heads, com o cineasta a conseguir que o cinema invada o espectáculo ao mesmo tempo que transmite as emoções e os ritmos deste evento. Os movimentos dos corpos são captados com engenho, tal como as expressões que percorrem os rostos e o suor que começa a escorrer pelo corpo dos artistas a partir do momento em que a fadiga se acumula, com "Stop Making Sense" a transmitir que existe muito esforço e dedicação por parte dos membros da banda para que o espectáculo se mantenha dinâmico, intenso e interessante. Diga-se que Jonathan Demme consegue ainda explanar eficazmente as dinâmicas de uma banda ao mesmo tempo que deixa um conjunto de artistas exibir a sua arte, com David Byrne a surgir como a figura que mais se destaca. Este é o vocalista, líder e fundador dos Talking Heads, com o cantor a encher o ecrã de carisma, talento e uma capacidade notória para utilizar o físico ao serviço das músicas que canta. Seja a segurar um candeeiro, ou a dançar com Lynn Mabry e Ednah Holt (duas vocalistas de apoio), ou a movimentar as pernas de forma desconjuntada, ou a mexer a cabeça de forma peculiar, David Byrne demonstra que sabe como dar espectáculo e exprimir-se perante o público. Essa situação é visível logo nos momentos iniciais, quando o vocalista aparece acompanhado de um rádio e salienta "Hi, I've got a tapewriter to play", com a câmara de filmar a focar os ténis brancos de David Byrne, bem como as suas pernas em movimento e o aparelho, enquanto sobe de forma gradual e exibe o rosto do cantor ao mesmo tempo que este começa a cantar a icónica "Psycho Killer", a exprimir as suas emoções e a prender a atenção do público.


Na fase inicial do concerto, David Byrne aparece sozinho no palco. Posteriormente, David Byrne começa a receber a companhia dos restantes membros da equipa, com "Stop Making Sense" a colocar em evidência as diversas etapas de um concerto, bem como o trabalho de fundo que é necessário para atribuir uma estrutura homogénea a um espectáculo musical, sobretudo se a banda quiser proporcionar uma experiência única ao espectador. Outro momento marcante de "Stop Making Sense" acontece quando a escuridão toma temporariamente conta do palco e a luz permite exacerbar a sombra de David Byrne, quase como se o vocalista tivesse saído de um filme do expressionismo alemão ou noir. Não estamos em plenos anos 20, ou na década de 40 ou 50, mas sim no ano de 1983, quando decorreram os três concertos que Jonathan Demme filmou para realizar "Stop Making Sense". Os concertos tiveram lugar em pleno Pantages Theater, com Jonathan Demme a capturar a alma de um evento do género e alguma da genialidade dos Talking Heads. Note-se o já mencionado momento em que encontramos a banda a tocar a canção "Girlfriend is Better", quando David Byrne aparece com uma sombra disforme e utiliza um fato bastante largo, inspirado no guarda-roupa do teatro Noh, que exacerba a faceta física que o cantor incute à performance. "Girlfriend is Better" e "Psycho Killer" são algumas das canções que constam no alinhamento do espectáculo, tal como "Burning Down the House", "Life During Wartime", "This Must Be the Place", entre outras que pontuam este concerto recheado de alma, energia e emoção. "Stop Making Sense" é exibido em Portugal pela Cinema Bold, um "braço" da Alambique Filmes que tem sobressaído pela diversidade das obras que lança, bem como pela qualidade de alguns dos seus filmes. Note-se o caso de "A Criada" de Chan-wook Park, ou a magnífica ideia de repor "Brazil" de Terry Gilliam. No caso de "Stop Making Sense", estamos diante de um exemplo paradigmático do quão essenciais são as reposições, com o Cinema Bold a trazer para as nossas salas um magnífico filme-concerto que, por sinal, também é uma das grandes obras cinematográficas deste Verão em Portugal.


Título original: "Stop Making Sense".
Realizador: Jonathan Demme.
Argumento: Jonathan Demme e Talking Heads.
Elenco: Talking Heads.

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