14 agosto 2017

Resenha Crítica: "Sangailes vasara" (O Verão de Sangailé)

 "Sangailes vasara" (em Portugal: "O Verão de Sangailé") é um filme dotado de alguns planos belíssimos, uma atmosfera luzidia e uma vontade enorme de ser doce. A espaços parece que estamos a entrar no interior de um conto de encantar, pontuado por enorme inocência e pela típica história de amadurecimento e ultrapassagem dos medos. A banda sonora também ajuda a essa sensação de leveza, romantismo e doçura, tal como a chegada regular dos raios de Sol, capazes de aquecerem o coração, a alma e os sentimentos. O problema é quando "Sangailes vasara" tenta encontrar a beleza e o romantismo onde estes não existem, com Alante Kavaite, a realizadora e argumentista, a parecer mais preocupada em incutir um tom onírico e sedutor ao filme do que em abordar as temáticas com complexidade. É uma oportunidade perdida, mas Alante Kavaite prefere evitar o choque e prosseguir por um caminho mais simples ou açucarado, algo notório na forma quase romântica e extremamente irresponsável como são expostas as auto-mutilações de Sangailé (Julija Steponaityte). Esta é uma jovem de dezassete anos de idade, algo reservada e solitária, que se encontra de férias de Verão e tem como hobbies observar os aviões a circularem num espectáculo aeronáutico, procrastinar e protagonizar longos períodos de silêncio. É nestas férias que Sangailé conhece o tédio, o amor, a amizade e a coragem para ultrapassar alguns dos seus medos e afirmar a sua personalidade, com o momento em que trava conhecimento com Austé (Aiste Dirziute), uma jovem que trabalha no refeitório da estação eléctrica, a mudar por completo a sua vida. Austé conta com vários amigos, gosta de desenhar roupas, aprecia tirar fotografias, tem algum talento para cozinhar bolos e denota ser afável. Sangailé e Austé travam conhecimento durante um espectáculo aeronáutico, com a segunda a fazer com que a protagonista ganhe um concurso, embora esta rejeite o prémio, nomeadamente, voar com o campeão Jurgis Kairysi. A razão é simples e explicada numa fase mais adiantada do enredo: Sangailé tem vertigens (embora, ultrapasse rapidamente este sintoma). Mais tarde, Sangailé reúne-se com Austé, com a dupla a formar uma relação de enorme amizade e proximidade que culmina num romance adolescente pontuado por sentimentos quentes e diversas situações marcantes, com Julija Steponaityte e Aiste Dirziute a contarem com uma dinâmica relativamente competente. 


 Julija Steponaityte transmite a insegurança de Sangailé, bem como a sua faceta solitária, pese a intérprete não ter uma expressividade assinalável ou capacidade para incutir dimensão aos silêncios da protagonista. Diga-se que o argumento também não ajuda, com o uso e abuso dos silêncios a surgir como um recurso que é utilizado de forma excessiva e preguiçosa para tentar manter algum mistério em volta da protagonista. Por sua vez, Aiste Dirziute conta com uma personagem que praticamente não evolui desde a sua apresentação inicial, embora a actriz consiga exprimir o lado vivaz e criativo desta jovem que tem um papel de relevo na vida da protagonista. Se o argumento raramente contribui para imprimir densidade às personagens principais ou aos diálogos, já o trabalho efectuado na decoração dos cenários prima pelo bom gosto e pela capacidade de transmitir imenso sobre a personalidade de Sangailé e Austé. O quarto de Sangailé encontra-se praticamente despido, quase sem objectos decorativos, pronto a realçar a confusão que perpassa pela mente da protagonista, a sua faceta solitária e as suas indefinições em relação ao futuro. Já o quarto de Austé expõe de forma paradigmática a criatividade e a vivacidade desta jovem, com tudo a contar com o seu toque pessoal e alguma exuberância. As cores mais distintas acumulam-se, bem como objectos e roupas, com o cenário a sublinhar na perfeição a personalidade de Austé. É neste quarto que assistimos a alguns sinais do desenvolvimento da relação entre Austé e Sangailé, com a primeira a encarar a segunda como a sua modelo predilecta. Note-se quando Austé coloca uma fita métrica à volta do corpo de Sangailé, enquanto esta última procura esconder as suas cicatrizes e os seus sentimentos. Os gestos e os olhares que estas personagens trocam não enganam: existe algo de mais forte a envolver esta relação de amizade. A relação que se forma entre estas duas personagens contribui para que Sangailé comece a superar os seus medos e solte os seus sentimentos, algo que "Sangailes vasara" aborda de forma simplista, sempre a procurar a beleza e a luz, com Alante Kavaite a ignorar a complexidade das temáticas que lança para o interior do enredo, com tudo a ter de ser exposto de forma leve e inocente. 


 A incapacidade que Alante Kavaite demonstra para desenvolver as temáticas é particularmente visível na maneira pueril como a cineasta aborda os actos de auto-mutilação cometidos pela protagonista. São actos efectuados com recurso a um compasso e a doses consideráveis de desespero, que envolvem questões profundas e uma enorme fragilidade emocional, com "Sangailes Vasara" a abordar esta problemática de forma básica, quase como se as feridas e as cicatrizes de Sangailé fossem meros objectos decorativos. Não faz sentido, mas é exactamente isso que "Sangailes Vasara" apresenta, enquanto parece temer a possibilidade de ferir a susceptibilidade do espectador. Diga-se que também não faz sentido uma personagem salientar que tem vertigens para pouco tempo depois estar a protagonizar actos como participar numa curta viagem no interior de um avião acrobático, ou subir a árvores ou para o cimo de estruturas elevadas, com Alante Kavaite a não inserir espessura e coerência às temáticas que aborda. Temos ainda a pouca atenção que "Sangailes Vasara" incute à relação problemática da protagonista com os pais, com Martynas Budraitis e Jurate Sodyte a interpretarem figuras desprovidas de dimensão. É certo que parece existir no interior de "Sangailes vasara" uma base para um grande filme, mas Alante Kavaite preferiu ser simplista, embora consiga que o envolvimento entre Sangailé e Austé funcione e seja capaz de nos convencer em relação aos sentimentos que uma nutre pela outra. Note-se os momentos em que Sangailé posa para Austé, ou o episódio que protagonizam na praia, ou algumas situações mais íntimas nas quais os sentimentos das jovens ficam bem claros. Diga-se que Austé contribui para que Sangailé aprenda a ter coragem para voar sozinha e ser independente, com "Sangailes vasara" a não deixar de lado uma série de temáticas relacionadas com o final da adolescência e a chegada à idade adulta. O problema é que muito daquilo que é apresentado sai ao lado, com "Sangailes vasara" a apostar imenso na beleza e na estética, enquanto descura o conteúdo e acaba por nem sempre conseguir acertar.


Título original: "Sangailes vasara".
Título em Portugal: "O Verão de Sangailé".
Realizadora: Alante Kavaite.
Argumento: Alante Kavaite.
Elenco: Julija Steponaityte, Aiste Dirziute, Jurate Sodyte, Martynas Budraitis.

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