19 agosto 2017

Resenha Crítica: "Mulholland Dr." (2001)

 A tonalidade vermelha está muito presente em "Mulholland Dr.", seja no batom ou no verniz das unhas de algumas personagens, ou nas cortinas e outros adereços dos cenários, ou nas luzes que envolvem os espaços por onde circulam as figuras que pontuam o enredo desta obra cinematográfica inebriante, envolvente, surreal e dotada de diversos elementos noir e de imenso mistério. Não é uma novidade nos filmes de David Lynch, tanto a utilização certeira da cor vermelha como as características surreais e noir, com "Mulholland Dr." a confirmar a genialidade do cineasta e a sua capacidade para nos deixar à deriva, presos às sensações despertadas por aquilo que estamos a observar e inquietos em relação a todos os pormenores que envolvem esta obra cinematográfica. Quem tem uma apetência notória para utilizar a cor vermelha é Rita (Laura Harring), uma espécie de femme fatale que no início do filme é alvo de uma tentativa de assassinato e ainda sofre um acidente de viação nas imediações de Mulholland Drive. Rita sobrevive, mas fica temporariamente sem memória, embora tenha a sensação de que a sua vida está em perigo, uma situação que a compele a esconder-se no interior de um apartamento que se encontra aparentemente desabitado. Pouco tempo depois, também Betty (Naomi Watts) chega ao apartamento, com a habitação a pertencer à tia desta personagem. Betty é uma aspirante a actriz, aparentemente algo inocente e optimista, que viajou até Los Angeles para efectuar testes para integrar o elenco de uma obra cinematográfica. A aspirante a actriz pensa inicialmente que Rita é uma amiga da tia, até ligar a esta última e perceber que precisa de obter mais informação em relação à estranha que se encontra no interior do apartamento. Com longos cabelos negros, batom vermelho saliente, unhas pintadas de encarnado e uma postura a fazer recordar uma femme fatale dos filmes noir, Laura Harring incute algum mistério, sensualidade e aparente fragilidade à personagem que interpreta. Por sua vez, Naomi Watts transmite alguma da inocência e da vivacidade de Betty, uma jovem adulta de cabelos loiros, uma personalidade aparentemente afável e uma faceta de detective dos filmes noir, com a aspirante a actriz a formar uma forte ligação com Rita. Naomi Watts e Laura Harring convencem-nos da grande proximidade que se forma entre Betty e Rita, com David Lynch a estabelecer eficazmente as dinâmicas entre estas personagens, até começar a desvendar alguns dos segredos que envolvem a dupla.


 Rita padece de um problema que assola alguns protagonistas dos filmes noir, nomeadamente, a falta de memória, com David Lynch a pontuar "Mulholland Dr." de diversos elementos deste subgénero, tais como a troca de identidades, os personagens de moral ambígua e fumadores, a insegurança nos espaços citadinos e uma investigação intrincada. Betty procura ajudar Rita a recuperar a memória, com esta última a contar inicialmente apenas com a certeza de que tem consigo uma mala cheia de dinheiro e uma estranha chave. Qual a origem deste dinheiro? Qual a verdadeira identidade de Rita? Onde é que esta se encontrava instalada? Estas são algumas perguntas que assolam a mente de Betty e Rita, com a dupla a efectuar uma investigação marcada por situações intrincadas e a contactar com algumas figuras peculiares. Diga-se que Betty e Rita tanto protagonizam situações que contam com algumas doses de perigo como de bizarria e alguns salpicos de erotismo, com a química e a afinidade que marca o relacionamento destas duas personagens a contribuir para que os sentimentos que nutrem uma pela outra desemboquem em algo mais forte. Note-se quando treinam os diálogos que Betty tem de proferir num casting, ou o momento em que dormem na mesma cama e os sentimentos aquecem, com Naomi Watts e Laura Harring a contarem com uma dinâmica muito convincente. Ao longo do filme somos ainda apresentados a uma miríade de personagens que contam com tramas aparentemente separadas da história de Rita e Betty. Entre esses personagens encontra-se Adam Kesher (Justin Theroux), um realizador que inicialmente tem de lidar com uma série de eventos que o transcendem, seja a traição cometida pela esposa (Lori Heuring) com o indivíduo responsável pela limpeza da piscina (Billy Ray Cyrus), ou a perseguição efectuada pelos seus produtores para que escolha Camilla Rhodes (Melissa George), uma intérprete estreante, como protagonista do seu novo filme. Diga-se que tanto Adam Kesher como Betty permitem que David Lynch efectue alguns comentários mais ácidos sobre Hollywood. Note-se a ingerência dos produtores e financiadores, bem como os processos de casting marcados por episódios caricatos, com "Mulholland Dr." a embrenhar-se ainda pelas frustrações dos aspirantes a intérpretes que não alcançam o sucesso e pela vacuidade que marca algumas relações em Hollywood.


 Temos ainda a presença de figuras pouco recomendáveis e misteriosas como The Cowboy (Monty Montgomery), um indivíduo propenso a colocar em prática alguns actos mais duros e a proferir falas bizarras, ou assassinos a soldo perigosos como Joe (Mark Pellegrino), ou "The Bum" (Bonnie Aarons), um personagem que conta com uma faceta quase sobrenatural, ou Louise (Lee Grant), uma espécie de vidente, entre outros elementos que enchem de vida esta obra cinematográfica marcada pelo mistério e pela capacidade de surpreender. A partir de um determinado momento de "Mulholland Dr.", David Lynch abre completamente o jogo, desperta as nossas dúvidas e a nossa capacidade de interpretação (por vezes procurar um sentido em tudo aquilo que estamos a observar pode ser uma tarefa impossível) e efectua uma reviravolta que mexe com o enredo e com tudo aquilo em que acreditávamos em relação aos personagens, com o cineasta a desafiar as barreiras da narrativa e a deixar-nos siderados com as suas decisões. Será que tudo aquilo que observámos durante quase duas horas não passou de algo imaginado pela mente da personagem interpretada por Naomi Watts? Esta dá vida a duas personagens de facetas antagónicas, tal como Laura Harring, algo que permite mexer com as percepções que formamos em relação às protagonistas e às suas dinâmicas. Na versão interpretada por Laura Harring, Camilla Rhodes é uma actriz bem sucedida, que se encontra envolvida com Adam Kesher (nesta fase do filme, um cineasta confiante a quem tudo parece correr bem). Já Diane Selwyn, na versão interpretada por Naomi Watts, apenas conhece o amargo sabor do fracasso e da sombra de Camilla Rhodes, de quem era inicialmente muito próxima. Laura Harring exibe uma faceta mais confiante e fria como Camilla Rhodes, enquanto que Naomi Watts explora o lado frágil e emocionalmente desequilibrado de Diane Selwyn, com David Lynch a deixar as actrizes explanarem as personalidades muito próprias das personagens que interpretam ao mesmo tempo que concede uma atenção notória aos seus rostos.


 David Lynch não poupa na utilização dos close-ups, muitas das vezes extremos, quase que a deixar com que o olhar dos intérpretes nos diga imenso sobre os personagens e o mistério que envolve o interior da alma das figuras que habitam no interior desta inquietante obra cinematográfica. Note-se quando nos deparamos com um diálogo mais tenso entre Adam e The Cowboy, numa espécie de jogo de planos e contraplanos pontuado por uma atmosfera próxima aos momentos que antecipam os duelos nos westerns, ou o trecho em que Betty liga para as autoridades para tentar saber se ocorreu mesmo um acidente na Estrada Mulholland, ou a cena em que as personagens interpretadas por Laura Harring e Naomi Watts averiguam o conteúdo que se encontra na bolsa de Rita. Temos ainda os diversos planos que exacerbam a forte ligação entre Betty e Rita, com ambas a aparecerem quase sempre juntas, seja a investigarem o local onde a segunda habitava, ou a ensaiarem, ou num momento mais tórrido, até existir uma reviravolta que altera "Mulholland Dr." de forma profunda. Num determinado momento de "Mulholland Dr.", encontramos Betty e Rita a deslocarem-se a um estranho espectáculo que decorre em pleno clube "Silencio", marcado por uma atmosfera que nos inquieta e uma predominância da tonalidade vermelha. Esta é uma cor que pontua vários trechos do filme e permite realçar a inquietação e confusão que perpassa pela mente de diversos personagens, tais como Rita e Betty, com David Lynch a envolver as suas protagonistas e o espectador por caminhos labirínticos e episódios marcantes. O cineasta contribui para adensar a inquietação em volta de alguns acontecimentos que marcam "Mulholland Dr.", seja através da utilização certeira da banda sonora, ou dos movimentos de câmara (seja um zoom a aproximar-se do rosto de Laura Harring quando é colocada diante de uma premonição de Louise, ou quando a câmara transmite aquilo que os personagens observam), ou da iluminação, enquanto desafia as nossas convicções em relação aos elementos que pontuam o enredo. Entre uma investigação misteriosa, revelações que modificam por completo a nossa percepção do enredo, uma visita guiada às perturbações da mente humana, "Mulholland Dr." exibe alguns dos traços essenciais de David Lynch, enquanto o cineasta nos envolve para o interior desta espécie de sonho bizarro, que tanto é capaz de seduzir como de perturbar.


Título original: "Mulholland Dr.".
Título em Portugal: "Mulholland Drive"
Realizador: David Lynch.
Argumento: David Lynch.
Elenco: Naomi Watts, Laura Harring, Justin Theroux, Mark Pellegrino, Melissa George, Bonnie Aarons, Lee Grant, Billy Ray Cyrus, Lori Heuring.

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