22 agosto 2017

Resenha Crítica: "La madre" (A Mãe)

 A partir de um determinado momento de "La madre", a nova longa-metragem realizada por Alberto Morais, quase que apetece começar a contar o número de vezes que Miguel (Javier Mendo) telefona para a mãe e esta não atende o telemóvel. Miguel liga imensas vezes para a sua progenitora (Laia Marull), embora esta raramente atenda, com as chamadas a serem remetidas para o atendedor de chamadas, enquanto a falta de perspicácia do jovem começa a exasperar-nos. Percebemos que Miguel quer acreditar em Carmen, a sua mãe, uma figura constantemente ausente, mas, a partir de um determinado momento, a repetição excessiva destes telefonemas acaba por servir mais para expor o lado redundante de "La madre" do que para exacerbar o desespero do adolescente. É um exemplo paradigmático das redundâncias que marcam este drama previsível e insosso, com Alberto Morais a realizar um filme onde a esperança escasseia, seja para os personagens ou para o espectador que espera por um rasgo que permita a "La madre" não ser apenas mais uma obra cinematográfica que aborda a história de um adolescente que é colocado diante de problemas típicos dos adultos e habita num meio complicado. No início de "La madre", encontramos Miguel a vender pacotes de lenços de papel no interior de um parque de estacionamento, algo revelador das poucas condições financeiras deste jovem de catorze anos de idade. Miguel deveria estar a pensar em estudar, divertir-se e formar amizades, tal como os adolescentes da sua idade, embora "La madre" deixe bem claro que estamos perante um jovem que tem de lidar de perto com as dificuldades. Javier Mendo incute um tom lacónico e um olhar triste a Miguel, um adolescente que tem uma enorme propensão para cometer erros e um rosto desprovido de alegria. Miguel mantém uma relação conturbada com Carmen, uma mulher irresponsável e desempregada, que não parece conseguir tomar conta do filho, nem de si própria, com Laia Marull a transmitir a passividade e a personalidade errática desta personagem. O lar de Carmen e Miguel reflecte paradigmaticamente as dificuldades financeiras destes personagens, com "La madre" a deixar-nos diante de um espaço praticamente despido de luxos e de alegria, com o trabalho na decoração de cenários a revelar-se simples e eficaz. Quem se prepara para inserir mais incerteza a este lar são dois elementos do centro de detenção para menores, uma instituição onde Miguel já esteve instalado, com o protagonista a não pretender regressar a este local.


 Ao ser colocada perante a possibilidade do filho regressar ao centro de detenção e de voltar a perder a guarda do adolescente, Carmen incentiva Miguel a ir ao encontro de Bogdan (Ovidiu Crisan), um antigo companheiro da primeira, algo que o jovem aceita. Bogdan não demonstra grande afabilidade para com o jovem, pelo menos a nível inicial, enquanto que Andrei (Alexandru Stanciu), o filho do primeiro, rejeita por completo a presença do adolescente, fruto da relação conturbada que o progenitor manteve com Carmen. Diga-se que Bogdan ainda acolhe Miguel de forma temporária e arranja emprego para o jovem numa fábrica de madeira (algo que proporciona mais momentos repetitivos e redundantes, para além de exacerbar a crueza que marca o quotidiano do protagonista). No entanto, a falta de notícias de Carmen, o comportamento hostil de Andrei e a personalidade problemática de Miguel prometem conduzir a confusões mais do que esperadas que mexem e muito com o protagonista. A única pessoa que apresenta um comportamento afável e sensível para com Miguel é María (Nieve de Medina), a dona de um restaurante, uma personagem dotada de humanidade que é colocada quer perante o lado mais sensível do protagonista, quer diante do lado mais problemático do adolescente. Diga-se que Miguel bem tenta fugir aos responsáveis do Centro de Detenção, embora pareça inevitável que o adolescente tenha tomar a opção pragmática de regressar a este espaço. Este é o grande calcanhar de Aquiles de "La madre", nomeadamente, a sua faceta previsível: os conflitos são mais do que esperados, bem como os erros de alguns personagens, enquanto que o desfecho é aguardado desde cedo. Temos ainda o tom sem sal que Alberto Morais insere ao enredo e às temáticas que aborda, embora Javier Mendo contribua para elevar um pouco o filme, com o actor a transmitir a faceta solitária do protagonista e a dificuldade que o jovem tem em lidar com a impossibilidade de ter uma vida como a dos outros adolescentes da sua idade. Note-se a forma violenta como o jovem reage a algumas demonstrações de irresponsabilidade da mãe, ou a maneira desencantada com que observa o mundo que o rodeia. A câmara na mão é utilizada com acerto para transmitir as emoções que perpassam pela mente destes personagens, embora o argumento não traga qualquer rasgo de imaginação a esta história de um adolescente que tem de lidar com uma série de situações problemáticas. Se Miguel a espaços gosta de arriscar e optar pelas decisões menos pragmáticas, já "La madre" procura jogar sempre pelo seguro, sem grandes rasgos de imaginação ou situações que nos surpreendam, com Alberto Morais a realizar um drama anódino que consegue despertar a mais pálida indiferença. 


Título original: "La madre".
Título em Portugal: "A Mãe".
Realizador: Alberto Morais.
Argumento: Alberto Morais, Verónica García, Ignacio Gutiérrez-Solana.
Elenco: Javier Mendo, Laia Marull, Ovidiu Crisan, Nieve de Medina, Alexandru Stanciu.

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