27 agosto 2017

Resenha Crítica: "I Am Michael" (O Meu Nome é Michael)

 Num determinado momento de "I Am Michael" (em Portugal: "O Meu Nome é Michael), o personagem do título comenta o seguinte: "We need to put out the message that being attracted to the same sex doesn't define who you are". Curiosamente, "I Am Michael" efectua precisamente o contrário, com Michael (James Franco) a ser definido ao longo do filme quer pela sua orientação sexual, quer pela sua religião. É uma opção questionável e simplista, que contribui acima de tudo para adensar o tom sensaborão que envolve as fundações de "I Am Michael", uma obra cinematográfica inspirada na história peculiar de Michael Glatze, um activista que defendeu os direitos LGBT até anunciar a renúncia à sua homossexualidade e tornar-se num pastor conservador. A história é caricata, complexa e sumarenta, embora Justin Kelly opte quase sempre por uma abordagem mais simples, anónima e anódina. Primeiro somos colocados perante o activismo de Michael, então director da popular XY Magazine, e da relação que este mantém com Bennett (Zachary Quinto). Posteriormente, "I Am Michael" coloca-nos diante das mudanças que ocorrem na mente do protagonista, nomeadamente, a partir do momento em que "descobre" Deus. A partir desse momento, Michael renega a sua homossexualidade e assume gradualmente uma postura conservadora e intolerante, com James Franco a entregar-se de corpo e alma a este personagem intrigante. James Franco transmite as inquietações de Michael e a incute credibilidade às facetas distintas deste indivíduo, com o actor a contar com uma interpretação relativamente sólida. O problema é que o argumento não ajuda James Franco, com a maioria das falas do protagonista a parecerem ter saído de um panfleto de defesa dos direitos LGBT, ou de um folheto pró-religião, algo que retira imenso poder aos acontecimentos retratados. A abordagem da relação entre Michael e Bennett também está longe de satisfazer, com a dinâmica destes personagens a ser acima de tudo definida pela orientação sexual do casal. É notório que existe alguma intimidade a marcar o relacionamento de Michael e Bennett, mas também falta desenvolvimento e evolução às dinâmicas do casal. Note-se ainda o momento em que Tyler (Charlie Carver), um jovem estudante de física, é inserido no interior da relação de Michael e Bennett, com "I Am Michael" a não exibir qualquer empenho em explorar as dinâmicas do trio para além da superfície.


  James Franco, Zachary Quinto e Charlie Carver tentam incutir sinceridade às falas e sentimentos dos personagens a quem dão vida, embora pareça sempre faltar algo (que é como quem diz, um bom argumento) para elevar as dinâmicas do trio. A partir do momento em que Michael começa a exibir uma postura mais conservadora, o enredo de "I Am Michael" resvala para uma faceta mais religiosa, com Justin Kelly a tentar explanar a nova postura do personagem principal. Veja-se quando Michael decide frequentar a escola da Bíblia, num período em que conhece Rebekah (Emma Roberts), uma jovem conservadora que desperta a sua atenção. Justin Kelly não julga os personagens, nem os seus actos, com o cineasta a preferir deixar essa tarefa para o espectador, embora também evite tomar qualquer decisão difícil. Pedia-se mais coragem a abordar os temas, mais complexidade e personalidade, mas "I Am Michael" opta quase sempre pela abordagem mais simplista, desprovida de tempero e de conteúdo. Note-se a forma como são expostas as reacções à decisão de Michael renegar a sua homossexualidade e assumir a heterossexualidade, com os efeitos deste acto a raramente serem sentidos. É tudo abordado de forma demasiado simplista, episódica, expositiva e apressada, quando existem temáticas e personagens que mereciam um desenvolvimento dotado de complexidade. Diga-se que "I Am Michael" ainda conta com um ou outro lampejo digno de interesse, seja quando o protagonista tenta problematizar que alguém pode ser simultaneamente crente e homossexual, ou a bizarra transformação do personagem do título. Uma parte significativa desses lampejos acaba por se perder devido a Justin Kelly não ter unhas para tocar esta guitarra, com "I Am Michael" a parecer muitas das vezes uma série banal que foi condensada num filme que é incapaz de desenvolver as temáticas, dotado de excesso de narração em off e de diálogos desprovidos de vida ou simplesmente redundantes (quantas vezes ouvimos Michael a dizer que gosta de ajudar os outros?). A mensagem de defesa dos direitos LGBT, exposta sobretudo até Michael assumir uma faceta conservadora, é merecedora dos mais largos elogios e vénias, mas não chega para transformar um filme completamente inconsequente e insípido em algo minimamente relevante. O elenco do filme merecia mais, tal como o espectador.

Título original: "I Am Michael".
Título em Portugal: "O Meu Nome é Michael".
Realizador: Justin Kelly.
Argumento: Justin Kelly e Stacey Miller (inspirado no artigo "My Ex-Gay Friend").
Elenco: James Franco, Zachary Quinto, Emma Roberts, Charlie Carver.

Sem comentários: