28 agosto 2017

Resenha Crítica: "American Made" (Barry Seal: Traficante Americano)

 "American Made" (em Portugal: "Barry Seal: Traficante Americano") capta com acerto os absurdos do "American Dream" e da política externa dos EUA, sempre com algumas doses de humor e leveza à mistura, enquanto nos apresenta a Barry Seal (Tom Cruise). Este é um piloto inspirado numa figura real (moldada no filme para se ajustar às características de Tom "Maverick" Cruise) que conta com uma história de vida deveras cinematográfica e protagonizou uma série de episódios que entroncam em acontecimentos mais latos. Ao longo de "American Made" encontramos Barry Seal a trabalhar para a CIA, a Casa Branca e o Cartel de Medellín, bem como a protagonizar uma série de peripécias e a permitir que Tom Cruise componha um personagem digno da nossa atenção. Tom Cruise imprime carisma a Barry Seal ao mesmo tempo que exacerba o lado simultaneamente oportunista, ingénuo, espirituoso e afável deste piloto que nem sempre parece estar consciente das consequências e dos perigos que envolvem o seu estilo de vida. No início de "American Made", encontramos Barry Seal, então um piloto da TWA, a ser contactado por Schafer (Domhnall Gleeson), um funcionário de baixo escalão da CIA. Estamos em pleno ano de 1978, durante a Guerra Fria, com Barry a receber um avião particular e a ser contratado para participar em operações secretas ao serviço da CIA. Primeiro tira fotografias de reconhecimento a baixa altitude a diversos territórios e guerrilheiros da América Central que se opõem aos regimes apoiados pelos Estados Unidos da América, algo que efectua com enorme sucesso ao ponto de despertar a atenção de Jorge Ochoa (Alejandro Edda), um dos membros do Cartel de Medellín. Entre avanços e recuos, Barry acaba por se ver na situação de transportar armas dos EUA para Nicarágua ao mesmo tempo que tenta manter os negócios lucrativos com o Cartel de Medellín, com o protagonista a envolver-se em imbróglios que colocam a sua vida em perigo. Veja-se ainda quando Barry é instruído para transportar para os Estados Unidos da América alguns Contras que se opõem aos Sandinistas, tendo em vista a que os primeiros sejam treinados em Mena, naquele que é mais um episódio que permite explanar a ingerência yankee na política dos países da América Central.


  Doug Liman expõe o contexto histórico de forma simples, dinâmica e certeira, seja através de desenhos, ou das falas dos personagens, ou dos actos protagonizados por Barry, ou de vídeos de arquivo, ou de trechos de filmes, com o cineasta a explanar como esta história particular se encontra amplamente inserida no interior de uma conjuntura bem real e dotada de episódios quase surreais. Note-se quando encontramos Barry a ironizar com a chegada de Ronald Reagan à Presidência dos EUA, com Doug Liman a aproveitar para exibir alguns trechos dos filmes protagonizados pelo segundo e a encontrar o humor em volta de algo pernicioso, nomeadamente, a forma como os Estados Unidos da América se imiscuíam e imiscuem na política interna de Estados soberanos. Barry aproveitou o contexto histórico e as políticas desastrosas do Governo dos EUA e da CIA para lucrar imenso e desafiar os perigos, com Tom Cruise a espelhar o deslumbramento do piloto perante a riqueza fácil. Veja-se quando encontramos Barry em dificuldades para conseguir encafuar as notas e o ouro em casa, ou as peripécias que efectua para lavar o dinheiro obtido no tráfico de droga. O piloto não está preocupado com as questões políticas, ou com a (i)moralidade dos seus actos, com o seu principal objectivo a centrar-se em lucrar com a situação, enquanto a CIA, o FBI e a Casa Branca utilizam o protagonista como um mero peão. "American Made" expõe esta ascensão de Barry com algum humor, enquanto nos deixa diante de uma representação ficcional de um pequeno episódio histórico que permite abordar um contexto mais lato. É certo que não existe uma enorme profundidade na abordagem de algumas temáticas, sobretudo quando estas envolvem a família de Barry, ou o lado negro do protagonista, tal como não encontramos um desenvolvimento notório dos personagens secundários (Sarah Wright praticamente não tem espaço para sobressair como Lucy Seal, a esposa do protagonista), com Doug Liman a concentrar as suas atenções no absurdo das situações que retrata ao mesmo tempo que insere uma enorme leveza e sentido de ritmo a "American Made". Diga-se que o trabalho de montagem também contribui para adensar essa sensação de ritmo, bem como a banda sonora, enquanto os filtros que exacerbam em alguns momentos as tonalidades amarelas parecem ter sido utilizados para demonstrar o quão irrelevante pode ser uma opção estética se esta não tiver sido inserida de forma pertinente no interior da narrativa (como salienta Martyn Conterio, ficamos diante da "Latin America through the eyes of the Instagram filter)".


 Se os filtros amarelos raramente servem para acrescentar algo, já a perícia de Barry a pilotar aviões é exposta com alguma eficácia e inspiração. Veja-se quando encontramos Barry a efectuar uma descolagem perigosa na Colômbia, ou a liderar a sua equipa para ludibriar os elementos do DEA, com Doug Liman a transmitir alguns dos perigos que envolvem a actividade deste piloto com propensão para se envolver em enrascadas. Em "Edge of Tomorrow", o personagem interpretado por Tom Cruise é obrigado a reviver o mesmo dia, até aprender a dominar as técnicas que lhe permitem combater uma raça extraterrestre que ameaça a população do planeta Terra. No caso de "American Made" temos um exemplo paradigmático de como os EUA e a Humanidade não parecem aprender com os erros. Encontramos a ingerência dos EUA na política externa de Estados soberanos, as acções nebulosas da CIA, bem como as referências aos nomes de Bill Clinton, Bush pai e Bush filho, ou seja, diversos elementos que ainda não saíram totalmente da ordem do dia, embora o filme aborde um pedaço da História que é compreendido entre os anos 70 e 80. No entanto, a leveza com que o enredo de "American Made" é exposto contribui para que alguns episódios mais tensos, ou complexos, nem sempre provoquem o efeito desejado, com Doug Liman a fugir quase sempre à tentativa de desenvolver alguns temas com mais seriedade. O humor contamina quase todos os poros de "American Made", um filme de pendor biográfico dotado de ritmo, imensas liberdades históricas, uma interpretação digna de atenção por parte de Tom Cruise e uma inspiração notória em "Goodfellas" (seja a dinâmica imprimida pelo trabalho de montagem, a utilização enérgica e inspirada da banda sonora, a narração em off, a quebra da quarta parede, entre outros exemplos). Não é o melhor Tom Cruise. Também não é o melhor Doug Liman. No entanto, "American Made" também não é nada de se deitar fora.


Título original: "American Made".
Título em Portugal: "Barry Seal: Traficante Americano".
Realizador: Doug Liman.
Argumento: Gary Spinelli.
Elenco: Tom Cruise, Domhnall Gleeson, Sarah Wright, Caleb Landry Jones.

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