31 julho 2017

Resenha Crítica: "Princess - O Lado Oculto de uma Família"

 A mestria com que Tali Shalom-Ezer semeia a dúvida na nossa mente é algo de assinalar, com a cineasta a jogar com as nossas emoções e inquietações ao longo de "Princess" (em Portugal: "Princess - O Lado Oculto de uma Família"), enquanto desperta a incerteza sobre os actos de alguns personagens e aborda com acerto as relações peculiares e complexas de uma família invulgar. Será que um personagem é real ou fruto da imaginação da protagonista? Qual a natureza da relação entre a personagem principal e o namorado da mãe? Para onde é que Tali Shalom-Ezer nos está a guiar? Estas são algumas das questões que assolam a nossa mente ao longo de "Princess", enquanto acompanhamos as dinâmicas muito próprias de Adar (Shira Haas), Alma (Keren Mor) e Michael (Ori Pfeffer). Adar é uma jovem de doze anos de idade, bastante solitária, pouco dada a ir às aulas, que vive com Alma, a sua mãe, bem como com Michael, o namorado da progenitora, com a pré-adolescente a manter uma relação dotada de ambiguidade com este indivíduo. Diga-se que não parecem existir grandes barreiras no interior desta família, com Alma e Michael a exibirem uma abertura que nos surpreende. Note-se quando encontramos Alma e Michael a fazerem sexo, enquanto Adar ouve os sons emitidos pelo casal (o fora de campo é utilizado com acerto), ou o à vontade com que os dois primeiros expõem o corpo junto da jovem. Essa falta de barreiras contribui não só para colocar em evidência as dinâmicas muito próprias deste trio, mas também para adensar as nossas dúvidas em relação à estranha proximidade que existe entre Adar e Michael. Será apenas amizade? Estaremos diante de brincadeiras inocentes? Existe algo de estranho a rodear a relação de Adar e Michael, com Tali Shalom-Ezer a incutir inicialmente alguma ambiguidade em volta dos actos protagonizados por estes dois personagens, até expor que há algo de mais complexo a envolver o relacionamento desta dupla. Estamos perante um filme que nos desafia, que nos envolve para o interior da sua atmosfera próxima de um sonho, até nos desferir um murro no estômago e nos transportar para o interior de um pesadelo, com a cineasta a desenvolver as dinâmicas destes personagens com acerto, a abordar algumas temáticas complexas quase sempre com uma sensibilidade notória e a conceder espaço para que o elenco principal sobressaia em bom nível.


 Dizer que o elenco sobressai pela positiva é pouco, sobretudo no caso de Shira Haas, uma intérprete que consegue atribuir credibilidade à personagem que interpreta e inserir algum mistério a esta jovem que se encontra a lidar com situações que tanto têm de comuns como de atípicas. O trabalho de Shira Haas beneficia da atenção que Tali Shalom-Ezer concede ao rosto dos personagens e aos seus gestos, com a cineasta a deixar a câmara aproximar-se de forma amiúde destes elementos, enquanto a intérprete consegue transmitir imenso sem precisar muitas das vezes de proferir longos diálogos. O rosto de Shira Haas irradia inocência e solidão, bem como alguma curiosidade e insolência, com a intérprete a atribuir a densidade necessária a Adar, uma pré-adolescente que se encontra a lidar com as transformações do seu corpo e a atravessar uma fase decisiva da sua vida. É uma fase em que a jovem efectua uma série de descobertas, seja em relação ao seu corpo ou à sua sexualidade, ou à sua personalidade ou ao desejo de experimentar fumar tabaco, com Adar a apresentar um misto de maturidade e inocência. Não lhe conhecemos grandes amizades, bem pelo contrário, com o plano final de "Princess" a exacerbar exactamente a solidão e o deslocamento da jovem em relação aos rapazes e raparigas da sua idade, com Adar a preferir quase sempre faltar à escola, algo que preocupa os seus professores, embora Alma lide com esta situação com alguma ligeireza. Alma é uma médica que está quase sempre ocupada, com Keren Mor a demonstrar com acerto a faceta algo irresponsável e bastante aberta desta personagem que mantém uma relação relativamente próxima da filha. É certo que Adar e Alma contam com alguns desaguisados e a espaços trocam algumas palavras mais duras, embora seja inegável que existe uma certa proximidade entre mãe e filha. Note-se quando falam sobre rapazes, ou a cena em que dançam juntas, ou os momentos mais intensos de uma fase mais avançada de "Princess". É já nessa fase que Alan (Adar Zohar Hanetz) se encontra bem presente no interior do enredo. Este é um jovem que exponencia a ambiguidade que pontua "Princess", ou não estivéssemos diante de um pré-adolescente semelhante a Adar, seja na sua fisionomia ou no modo de andar (bom trabalho na direcção de actores), que nem sempre sabemos se existe ou é fruto da imaginação da jovem como forma de se proteger dos actos do namorado da mãe.


  Adar tem em Alan alguém com quem pode falar, brincar e protagonizar episódios típicos da uma pessoa da sua idade. Por sua vez, Alan começa a ser presença frequente na casa de Adar e alvo das estranhas atenções de Michael, embora seja quase impossível distinguir se estamos diante de uma figura real ou que faz parte da imaginação da protagonista. O que é certo é que Adar acredita estar perante alguém bem real, com a dupla a protagonizar alguns episódios que contam com algumas doses de inocência à mistura. Se as brincadeiras entre Adar e Alan contam com salpicos de inocência e uma dose considerável de descobertas, já a relação entre a primeira e Michael não possui essa faceta, bem pelo contrário. Percebemos que existe algo de invulgar a rodear os comportamentos e os desejos de Michael, algo que coloca em causa os estranhos equilíbrios desta família e permite exibir o lado oculto deste indivíduo. Ori Pfeffer contribui para adensar as dúvidas em volta de Michael ao incutir uma ambiguidade notória ao personagem que interpreta, um indivíduo que nem sempre desperta confiança e demonstra uma dificuldade enorme em não ultrapassar os limites. Michael trata Adar por príncipe, quase como se estivesse a lidar com um rapaz, enquanto protagoniza alguns momentos de descontracção com a jovem, algo que inicialmente pode ser entendido como uma forte relação de amizade, embora, aos poucos, "Princess" logo nos deixe diante da certeza de que existe algo de mais complexo a rodear estes personagens. Tali Shalom-Ezer procura que acreditemos que estamos diante de um trio que conta com uma grande proximidade e uma abertura latente nos seus relacionamentos, com os momentos iniciais de "Princess" a serem pautados por algumas doses de troca de afecto entre Adar, Michael e Alma, até a cineasta começar a deslindar gradualmente os segredos que envolvem esta família. Diga-se que Tali Shalom-Ezer exibe uma competência notória a desenvolver as temáticas que lança para o interior do enredo, seja a perda da inocência de uma jovem, a relação entre uma mãe e a sua filha, a forma como o meio familiar influencia a educação e a formação da identidade de um pré-adolescente, ou o abuso sexual sobre menores, com esta última a ser abordada quase sempre com pinças.


 Essa delicadeza é abandonada quando "Princess" nos deixa diante de uma cena que nos marca, incomoda, arrasa, provoca repulsa e inquieta, com Tali Shalom-Ezer a expor de forma paradigmática e brutal como o lar de Adar pode ser um espaço abrasivo. Inicialmente a casa da mãe e do padrasto de Adar surge como um cenário onde a protagonista encontra protecção e afecto, embora, aos poucos, seja possível observar que a habitação também aparece como um espaço que propicia a perda da inocência desta jovem que está emocionalmente fragilizada. Os espelhos marcam algumas divisórias da casa e permitem um sublinhar das diferentes facetas destes personagens, três figuras complexas que contam no seu interior com uma série de inquietações que aos poucos entram em ebulição e podem resultar em actos de enorme violência ou intensidade. Nos espaços exteriores, os raios solares abrilhantam os cenários por onde Adar circula, para além de avançarem imensas vezes pelo interior da habitação, quase que a adensar a atmosfera próxima de um sonho que Tali Shalom-Ezer incute a "Princess". Não estamos diante de um sonho, mas sim de um drama emocionalmente poderoso, marcado por uma interpretação de bom nível de Shira Haas, belo nas suas imagens e duro nas suas temáticas, que não tem problemas em se envolver por assuntos polémicos ao mesmo tempo que explora com acerto a ambiguidade que pontua as relações e os comportamentos dos personagens, com "Princess" a evidenciar um especial prazer em mexer com as nossas emoções e em despertar as nossas dúvidas ao mesmo tempo que exibe Tali Shalom-Ezer como uma cineasta a ter em especial atenção. 


Título original: "Princess". 
Título em Portugal: "Princess - O Lado Oculto de uma Família".
Realizadora: Tali Shalom-Ezer.
Argumento: Tali Shalom-Ezer.
Elenco: Shira Haas, Ori Pfeffer, Keren Mor, Adar Zohar-Hanetz.

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