18 julho 2017

Resenha Crítica: "À bras ouverts" (De Braços Abertos)

 "À bras ouverts" (em Portugal: "De Braços Abertos") tem despertado alguma polémica em França devido à forma ofensiva como retrata os ciganos. Esta polémica e a má recepção da crítica levou Christian Clavier a tentar defender o filme ao salientar que "À bras ouverts" não é um "amontoado de clichés". Até podemos ter imensa boa vontade para com Christian Clavier, mas o actor não poderia estar mais errado: "À bras ouverts" é um amontoado de clichés. Pior do que isso. Esses lugares-comuns remetem para os estereótipos associados à comunidade cigana, com os elementos desta etnia a serem representados de forma ofensiva e caricatural ao longo desta comédia. O problema não está no acto de fazer humor com temas polémicos ou minorias, mas sim na forma como estas piadas e estes estereótipos acabam por servir mais para achincalhar uma comunidade do que para efeitos cómicos, com Phillipe de Chauveron (do sucesso "Qu'est-ce qu'on a fait au Bon Dieu?") a realizar uma obra cinematográfica pueril, básica, simplista e sofrível, que de comédia tem muito pouco e de cinema ainda menos. Nem chega àquele nível dourado de "é tão mau que é bom". É simplesmente medíocre, sem qualquer sentido de ritmo ou domínio dos timings da comédia, enquanto ficamos diante de uma série de caricaturas desprovidas de dimensão e massa humana. Essas caricaturas são interpretadas por actores e actrizes como Christian Clavier, Ary Abittan, Elsa Zylberstein, Cyril Lecomte, Marc Arnaud, com a maioria a dar uma pálida imagem e a compor personagens que queremos tirar rapidamente da memória. Christian Clavier interpreta Jean-Etienne Fougerole, um intelectual de esquerda, que vive numa mansão de luxo, tem uma fisionomia que a espaços nos faz recordar Fernando Rosas, é adepto do "faz o que eu digo, não faças o que eu faço" e defensor da etnia cigana. Jean-Etienne é colocado entre a espada e a parede quando é convidado para debater com Clément Barzach (Marc Arnaud), um intelectual conservador de direita, num programa televisivo que conta com uma audiência considerável. Autor do livro "À bras ouverts", onde defende que os mais privilegiados devem acolher nas suas casas os mais necessitados, bem como a inclusão da comunidade cigana no interior da sociedade francesa, Jean-Etienne é desafiado por Clément a passar das palavras aos actos. Jean-Etienne encoleriza-se, tenta dar respostas evasivas até ser praticamente obrigado a dizer que as portas da sua casa estão abertas, embora não acredite que alguém responda ao repto.


 Daphné (Elsa Zylberstein), a esposa de Jean-Etienne, está longe de apreciar a possibilidade de receber ciganos em casa, embora tente não expressar esta opinião publicamente e de forma directa. Esta é uma artista falhada, que não tem a mínima noção de arte e conta com uma conta bancária recheada. Por sua vez, Lionel (Oscar Berthe), o filho de Jean-Etienne e Daphné, exibe um enorme entusiasmo em relação à decisão do progenitor, ou não estivéssemos diante de um jovem idealista que acredita verdadeiramente no discurso do pai. Quem também acredita no discurso de Jean-Etienne é Babik (Ary Abittan), um indivíduo que encerra no seu interior quase todos os estereótipos associados ao povo cigano (nomeadamente, dos rom). Acompanhado pela sua família numerosa, bem como por Erwan Berruto (Cyril Lecomte), um vigarista que finge ser cigano, Babik dirige-se com a sua caravana até à mansão de Jean-Etienne. O intelectual e a esposa ainda tentam evitar abrigar estes elementos, mas acabam por ser praticamente obrigados a aceitar a presença de Babik e da sua família. Estes ficam inicialmente instalados no jardim dos Fougerole, enquanto "À bras ouverts" tenta explorar este confronto de culturas distintas, sempre sem sair dos lugares-comuns e das caricaturas. Pelo meio existe ainda um romance metido a martelo que envolve Lionel e Lulughia (Nikita Dragomir), uma das filhas de Babik, uma subtrama que serve acima de tudo para Phillipe de Chauveron conceder uma conclusão preguiçosa a esta comédia que parece um hamster a rodar em volta das mesmas piadas sobre o choque de culturas e a hipocrisia da classe intelectual. Diga-se que o humor de "À bras ouverts" surge em doses diminutas, com tudo a ser exposto de forma pueril e caricatural, quase como se os envolvidos confundissem comédia com desleixo, enquanto exasperam o espectador que está à espera de algo mais do que perder o seu tempo. 


 Um filme pode ser simultaneamente divertido e inteligente, algo que "À bras ouverts" raramente parece compreender, com tudo a ser desenvolvido de forma demasiado artificial e sem a mínima ponta de criatividade, enquanto os intérpretes dão vida a personagens maioritariamente desprovidos de dimensão. Note-se o caso de Ary Abittan como Babik, com o actor a dar vida a um personagem que não sabe conjugar os tempos verbais, encerra no seu interior uma série de clichés associados aos ciganos e aos poucos se torna simplesmente aborrecido de acompanhar, enquanto o intérprete canta, dança, barafusta e demonstra que fazer rir nem sempre é a sua especialidade. Temos ainda o caso de Elsa Zylberstein como uma artista que vive numa constante contradição entre aquilo que defende e os actos que pratica, enquanto é alvo dos avanços pouco subtis de Erwan e tenta apoiar os ideais do esposo. Christian Clavier ainda consegue salvar um ou outro momento do filme como o estereótipo do intelectual de esquerda que mantém um estilo de vida completamente antagónico em relação aos ideais que defende. Veja-se a forma como este indivíduo rejeita inicialmente a presença de Babik, pelo menos até começar a aceitar este elemento e "À bras ouverts" prosseguir por caminhos previsíveis. Não poderíamos ainda deixar de realçar a presença ofensiva de Armen Georgian como Ravi, o criado indiano de Jean-Etienne e Daphné, com "À bras ouverts" a ter a distinta lata de colocar um intérprete com a cara pintada de castanho. É tudo demasiado caricatural, ofensivo, rasteiro, desprovido de dimensão e vida, com Philippe de Chauveron a optar quase sempre pelo caminho mais básico e decepcionante. Está encontrado um dos piores filmes a passar pelo circuito comercial português em 2017.


Título original: "À bras ouverts".
Título em Portugal: "De Braços Abertos". 
Realizador: Philippe de Chauveron.
Argumento: Guy Laurent e Marc de Chauveron.
Elenco: Christian Clavier, Elsa Zylberstein, Ary Abittan, Cyril Lecomte, Nikita Dragomir.

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