17 julho 2016

Resenha Crítica: "La Piscine" (A Piscina)

 Filme dotado de algum erotismo e sensualidade, que nos hipnotiza para o interior do seu universo narrativo quente e envolvente, onde os sentimentos tanto se encontram à flor da pele como se apresentam escondidos nos recantos mais profundos da alma, "La Piscine" surge como um drama pontuado por elementos de thriller e romance, que nos brinda com interpretações bastante recomendáveis de elementos como Alain Delon, Romy Schneider, Maurice Ronet e Jane Birkin. O desejo de cariz sexual está sempre muito presente, bem como algumas dúvidas e a sensação de que a atmosfera aparentemente pacífica que envolve os personagens principais se pode quebrar a qualquer momento. A tempestade parece estar a aproximar-se, não a nível da temperatura, mas sim no plano dos sentimentos, com Jacques Deray, o realizador, a controlar assertivamente os ritmos da narrativa, enquanto nos dá a conhecer os personagens principais que povoam este enredo apelativo e envolvente. Alain Delon interpreta Jean-Paul, um escritor falhado, ex-alcoólico, que desistiu temporariamente da escrita para trabalhar no ramo publicitário, encontrando-se envolvido com Marianne (Romy Schneider). Esta é uma mulher de enorme beleza e elegância, que se encontra temporariamente sem trabalhar, embora tenha talento para a escrita. Jean-Paul e Marianne encontram-se a desfrutar de um mês de férias numa villa situada na Côte d'Azur, com esta habitação, dotada de enormes luxos no seu interior e no seu exterior, a pertencer a um casal de amigos dos personagens interpretados por Alain Delon e Romy Schneider. A química entre Alain Delon e Romy Schneider é latente, com Jacques Deray a aproveitar a mesma para reforçar o calor sexual e sentimental que envolve o relacionamento da dupla de protagonistas. Schneider e Delon mantiveram uma relação na vida real (entre 1958 e 1963, enquanto que o filme foi lançado em 1969), algo que pode ajudar a explicar a dinâmica convincente entre a dupla de protagonistas ao longo de "La Piscine", com o actor e a actriz a elevarem e muito os personagens a quem dão vida. A relação deste casal é marcada por algumas dúvidas e um enorme apetite de cariz sexual, com ambos os elementos a parecerem desejar-se e amar-se, embora mantenham alguns sentimentos em segredo, algo que promete ser problemático, sobretudo quando recebem a visita de Harry (Maurice Ronet), um ex-namorado de Marianne e amigo de Jean-Paul. A chegada de Harry promete mudar por completo o quotidiano do casal, com os ciúmes de Jean-Paul a ficarem implícitos, bem como o desejo de Harry em relação a Marianne, enquanto esta última é um mistério. É certo que Marianne parece querer manter um namoro sério com Jean-Paul, embora exiba uma enorme felicidade devido à presença do personagem interpretado por Maurice Ronet, algo que desperta os ciúmes do antigo escritor. Harry chega acompanhado de um bólide topo de gama e da sua filha, a jovem Pénélope (Jane Birkin), uma figura feminina que promete mexer com as rotinas do casal.

 A personagem interpretada por Jane Birkin apresenta uma postura inicialmente observadora e misteriosa, com a jovem de dezoito anos de idade a dialogar pouco, encontrando-se relativamente afastada do pai. Pénélope desperta a curiosidade de Jean-Paul, com os olhares de Alain Delon a não enganarem que o personagem que interpreta parece ter ficado agradavelmente surpreendido com o aspecto físico da filha do amigo. Por sua vez, a jovem apresenta uma postura inicialmente misteriosa e sedutora, enquanto Harry tenta manter o diálogo em dia com a ex-namorada e exibir que ainda parece desejá-la. Marianne pouco ou nada falou com Jean-Paul sobre o namoro que manteve com Harry, algo que apoquenta o segundo, com a chegada do personagem interpretado por Maurice Ronet a mexer com um relacionamento que é bem mais frágil do que aparenta nos momentos iniciais de "La Piscine". Harry é um produtor musical de sucesso, que mantém uma vasta rede de amigos e uma enorme apetência para seduzir as figuras femininas, existindo quase sempre uma enorme tensão sexual entre este e Marianne. O desejo parece toldar muitas das vezes os pensamentos destes personagens, bem como os sentimentos mais obscuros, com tudo e todos a não parecerem abrir o jogo todo logo de início. O calor invade os sentimentos e os cenários, com o guarda-roupa dos personagens a evidenciar que estamos diante de um espaço pontuado pela temperatura elevada, com quase todos os elementos do quarteto de protagonistas a aparecerem com vestimentas leves ou em trajes próprios para irem para a piscina, ou para desfrutarem de longos banhos de Sol. O cuidado na escolha do guarda-roupa dos personagens é latente, bem como o aproveitamento do cenário da villa ao serviço da narrativa, com Jacques Deray e a sua equipa a contribuírem para que "La Piscine" surja como uma obra cinematográfica marcante e sedutora. Jacques Deray concede ainda uma enorme relevância aos gestos e aos olhares dos protagonistas, algo que ajuda a explicar as tensões que começam a surgir, sobretudo a partir do momento em que Jean-Paul começa a demonstrar algum interesse em Pénélope. Jane Birkin incute uma faceta misteriosa à personagem a quem dá vida, uma figura feminina que parece constantemente entediada, que conta com um enorme poder de sedução e um desprezo notório pelo progenitor, um elemento que apenas conheceu numa fase mais adiantada da sua vida. Diga-se que Pénélope chega a colocar a nu as figuras patéticas de Harry, um indivíduo bem-falante, que parece gostar de ser o centro das atenções. Veja-se a festa-surpresa que Harry organiza, enchendo a casa onde Marianne e Jean-Paul se encontram a desfrutar das férias de Verão, algo que não parece agradar a este último. A festa permite exibir a tensão sexual que existe entre Harry e Marianne, bem como entre Jean-Paul e Pénélope, com o período de férias destes personagens a conhecer ainda um episódio negro, ou não ocorresse um assassinato que vai afectar o quotidiano de diversos elementos. O assassinato ocorre na piscina da villa, um dos cenários primordiais de "La Piscine". Diga-se que o título do filme remete exactamente para este espaço onde decorrem episódios tão distintos como um momento mais quente entre Marianne e Jean-Paul, ou uma morte após uma discussão intensa.

 Jean-Paul gosta de desfrutar de longos momentos na piscina, bem como de apanhar banhos de Sol, com este indivíduo a parecer preso a um quotidiano repetitivo, dotado de muitos luxos, embora estas mordomias não pareçam estimular o protagonista. A representação do quotidiano destes personagens permite expor o desafogo financeiro do quarteto, com tudo e todos a parecerem não ter grandes problemas neste quesito, sobretudo Harry, com o produtor musical a procurar exibir o seu novo bólide, enquanto planeia um conjunto de viagens para fazer com a filha. Inicialmente não sabemos se este percebe que está a nascer algo mais entre Pénélope e Jean-Paul, embora demonstre gradualmente as suas suspeitas, com a narrativa de "La Piscine" a seguir um rumo onde parece certo que mais cedo ou mais tarde vão surgir alguns conflitos. Jacques Deray mescla assertivamente elementos de drama, romance e thriller, com algumas pitadas de erotismo pelo meio, enquanto aproveita o talento do quarteto de protagonistas. Todos interpretam personagens que parecem incapazes de se sentirem totalmente satisfeitos ou completos em relação à vida, sobretudo Jean-Paul, com a relação entre este e Marianne a estar longe de apresentar uma solidez a toda a prova. Alain Delon sobressai como Jean-Paul, um indivíduo lacónico, com o actor a conseguir transmitir imenso apenas com o seu olhar, enquanto interpreta um escritor falhado que pretende sempre aquilo que não pode alcançar, seja o sucesso na escrita, ou uma relação proibida com a filha de um suposto amigo. Jean-Paul parece encontrar-se numa fase pouco estimulante da sua vida, desfrutando de um período de férias num local luxuoso, embora praticamente não saia da habitação e da piscina, com Pénélope a parecer apimentar, ainda que temporariamente, a existência deste indivíduo. Alain Delon consegue destacar-se ainda nos momentos mais soturnos, com um episódio na piscina a prometer colocar o quotidiano de Jean-Paul e Marianne a fervilhar. Romy Schneider é capaz de transmitir a sensualidade e fragilidade da personagem que interpreta, uma mulher aparentemente confiante, que parece balancear entre Jean-Paul e Harry, embora goste do namorado, acabando por se deparar com uma situação intrincada no último terço do enredo. Vale ainda a pena realçar Maurice Ronet como um produtor musical falador, que gosta de obter a atenção daqueles que o rodeiam, embora se prepare para entrar em choque com Jean-Paul, um antigo amigo do qual se afastou a partir do momento em que este se envolveu com Marianne. Veja-se o jantar organizado por Marianne e Harry, um momento antecedido por episódios de alguma cumplicidade entre estes dois personagens, embora a chegada de Pénélope e Jean-Paul, bastante tempo depois da refeição ter sido confeccionada, após terem ido passear e nadar na praia, prometa tornar toda esta situação ainda mais desconfortável. A cinematografia contribui para exacerbar o desconforto em volta deste jantar, com os planos que colocam o quarteto em conjunto a exporem que os silêncios e os diálogos de circunstância podem ser mais incómodos do que a franqueza na exposição dos sentimentos. Diga-se que o trabalho de câmara permite ainda adensar os momentos mais tórridos entre os personagens, enquanto os encontramos em diversas situações de sedução, com a narrativa de "La Piscine" a contar com alguns trechos pontuados pelo erotismo e pela sensualidade.

 O último terço de "La Piscine" ganha um carácter mais negro, com os dias solarengos de Verão a não conseguirem contaminar as almas de sentimentos mais apolíneos, sobretudo quando ocorre um assassinato disfarçado de morte acidental e uma investigação protagonizada por Lévêque (Paul Crauchet), um inspector desconfiado e perspicaz, que percebe que "a bota não joga com a perdigota" no que diz respeito ao suposto acidente mortal. O argumento, sempre assertivo, contribui para o desenvolvimento das personalidades e das dinâmicas destes personagens, com o elenco a elevar e muito os episódios entre os elementos que interpretam, enquanto Jacques Deray aproveita a espaços para estimular a nossa imaginação. Veja-se quando encontramos Jean-Paul a abraçar Pénélope, durante a festa organizada por Harry, com "La Piscine" a não exibir aquilo que estes fizeram durante a noite. Fica a dúvida sobre aquilo que Jean-Paul e Pénélope terão feito, embora pareça certo que estes iniciaram um affair, com Jacques Deray a jogar com o poder de sugestão e deixar a mente do espectador a trabalhar. Marcado por uma atmosfera quente e sensual, "La Piscine" surge como uma obra cinematográfica pontuada por sentimentos intensos e interpretações dignas de interesse, com Jacques Deray a conseguir hipnotizar-nos para o interior deste enredo onde as emoções e o desejo parecem levar muitas das vezes a melhor sobre a razão, enquanto Alain Delon, Romy Schneider, Jane Birkin e Maurice Ronet sobressaem e contribuem para elevar um filme inebriante e envolvente.

Título original: "La Piscine".
Título em Portugal: "A Piscina".
Realizador: Jacques Deray.
Argumento: Jacques Deray e Jean-Claude Carrière.
Elenco: Alain Delon, Romy Schneider, Maurice Ronet, Jane Birkin.

1 comentário:

Lgb disse...

Sem sombra de dúvidas melhor que a bigger splash, como um todo. Porém, a cena do Ralph Fiennes dançando é um dos pontos altos de toda a história do cinema, ao meu ver.