29 abril 2015

Resenha Crítica: "Phantom Lady" (1944)

 Não é uma novidade encontrarmos a personagem feminina principal a procurar provar ou defender a inocência do seu amado nos filmes noir. Veja-se desde logo "Stranger on the Third Floor", aquele que é considerado o primeiro ou um dos primeiros filmes deste subgénero, no qual Jane (Margaret Tallichet), a partir do último terço, teve de procurar o assassino e provar que o noivo era inocente, ou em "Black Angel", onde Catherine Bennett (June Vincent) teve de encontrar evidências que ilibassem o esposo da pena de morte. "Phantom Lady" surge depois de "Stranger on the Third Floor" e dois anos antes de "Black Angel", mas partilha com ambos esta faceta de atribuir algum destaque à protagonista feminina, sobretudo em relação a este último. O acusado de assassinato é Scott Henderson (Alan Curtis), um engenheiro cuja relação matrimonial se encontra no ocaso. Num dos momentos iniciais do filme, Scott encontra-se num bar, onde decide convidar uma estranha (Fay Helm) de semblante triste para ir consigo a um espectáculo. A estranha inicialmente reluta, mas acaba por aceitar, embora nunca revele o seu nome a Scott. No espectáculo, Estela Monteiro (Aurora Miranda), a estrela do mesmo, fica irritadíssima pela estranha ter um chapéu igual ao seu, um suposto exclusivo, algo que Cliff (Elisha Cook, Jr.), o baterista, já tinha reparado. Não poderia faltar a presença de um clube nocturno num filme noir e "Phantom Lady" não é diferente, deixando-nos perante um local marcado pela presença desta dançarina de ritmos latinos. Diga-se que não faltam vários elementos associados aos filmes noir em "Phantom Lady", entre os quais, a utilização do chiaroscuro, as sombras bem salientes, os personagens fumadores, a cidade como local de insegurança, os espaços nocturnos, as identidades trocadas ou melhor os mal-entendidos, a atmosfera negra e algo pessimista, não faltando até um momento perto de alguma alucinação por parte de Jack Marlow (Franchot Tone), um suposto amigo do protagonista. Quando chega a casa, Scott encontra vários elementos das autoridades, incluindo o Inspector Burgess (Thomas Gomez), devido à esposa do protagonista ter sido encontrada morta na cama, tendo sido estrangulada com uma gravata do personagem interpretado por Alan Curtis. Este tenta defender a sua inocência, procurando salientar que esteve num bar, onde conheceu uma mulher que não lhe disse o nome, tendo ido com esta a um espectáculo. O empregado do bar não se lembra da mulher e, estranhamente, Cliff e Estela também fingem não saber quem esta é, algo que conduz Scott a não ter um álibi sólido para se defender em tribunal (o próprio não sabe bem como descrever esta mulher). Perante a prisão do seu chefe e condenação à morte, Carol Richman (Ella Raines), também conhecida como "Kansas", decide provar a inocência de Scott, exibindo pelo caminho a paixão escondida em relação ao seu superior. Carol conta ainda com a ajuda não oficial de Burgess, que considera que o caso está mal explicado, sobretudo devido a Scott agarrar-se a uma justificação que não faria sentido utilizar se não fosse verdade, devido à fraca defesa que lhe proporciona em tribunal. Carol encontra-se decidida a envolver-se na investigação, entrando em contacto com o empregado do bar, bem como com o baterista do espectáculo, descobrindo aos poucos que alguém andou a pagar dinheiro para estes elementos fingirem que não viram a misteriosa mulher desaparecida. A chegada de Jack, o suposto melhor amigo de Scott, traz um novo elemento ao enredo, com Robert Siodmak a evidenciar-nos desde logo um lado mais negro deste personagem e a mostrar que Carol corre grave perigo de vida.

 Robert Siodmak consegue criar um filme negro inquietante, marcado por algum mistério e tensão em níveis elevados, conseguindo que a certa altura temamos pelo destino de Carol e nos esqueçamos de alguns elementos implausíveis que envolvem o enredo. A inocência de Scott raramente parece ser colocada em causa, tirando para os elementos do tribunal. Diga-se que Siodmak deixa-nos quase sempre com mais conhecimento em relação aos acontecimentos do que aos seus personagens (algo que Alfred Hitchcock efectuou de forma exímia em obras como "Notorious", "The Rope", entre outras), tornando-nos cúmplices dos mesmos, ao mesmo tempo que nos deixa curiosos em saber se a verdade será ou não descoberta. Sabemos que Scott esteve com uma mulher misteriosa, sabemos que Jack é o assassino, mas poucos personagens conseguem discernir logo estes elementos, enquanto "Phantom Lady" coloca a protagonista em diversos locais, seja um bar, um clube nocturno, a casa de Cliff, a habitação de Jack, bem como a visitar o protagonista na sala de visitas da prisão. Existe uma cena onde Scott e "Kansas" se encontram onde a aprumada cinematografia de Woody Bredell fica latente, com a luz difusa a invadir este espaço algo soturno e obscuro da sala, qual réstia de esperança que se encontra a rodear o casal. Ella Raines é o elemento que mais se destaca ao longo do filme, como esta mulher que parece incansável nesta procura de encontrar a figura feminina misteriosa que todos parecem desconhecer. A investigação é complicada e por vezes parece não conduzir a lado algum, até gradualmente a vida de Kansas ficar em perigo. Robert Siodmak cria uma tensão gradual em volta desta investigação, enquanto as mortes se vão sucedendo e o personagem interpretado por Franchot Tone vai aumentando gradualmente de relevância. Este interpreta convincentemente um psicopata aparentemente afável, com notórias dores de cabeça e um tique nas mãos que evidenciam a sua vontade de matar. Robert Siodmak coloca-nos desde cedo a desconfiar deste indivíduo, numa obra que conta ainda com Elisha Cook Jr. a interpretar um personagem secundário relevante, com o actor a ser uma presença habitual neste subgénero de filmes. Vale ainda a pena salientar Alan Curtis como este homem inocente que é considerado culpado por um crime que não cometeu, parecendo aos poucos perder a esperança, embora "Kansas" procure a todo o custo encontrar a "mulher fantasma". Scott aos poucos até começa a desconfiar que a sua memória o pode ter atraiçoado, sobretudo devido a não se conseguir lembrar detalhadamente desta mulher que o acompanhou, com o filme a abordar levemente questões relacionadas com o papel das nossas recordações e como em situações adversas podemos deixar de acreditar naquilo que sabemos ser verdade. Não vamos entrar em mais detalhes sobre esta história marcada pelo mistério, com uma tensão gradual, onde as sombras cobrem os espaços e por vezes toldam os sentidos, existindo ainda um cuidado na elaboração dos cenários interiores, sobretudo na casa do antagonista. Esta habitação é marcada por uma certa frieza (a simbolizar a personalidade de Jack), várias esculturas e uma cómoda que pode conter mais informação do que aquilo que esperamos, num filme que não se limita a explorar os cenários interiores, algo visível na representação dos espaços externos desta cidade. É também na cidade onde se desenrola a investigação, com estes cenários exteriores a surgirem marcados por sombras salientes e figuras estranhas, onde a morte pode surgir a qualquer momento. Primeiro filme noir realizado por Robert Siodmak nos EUA, "Phantom Lady" confirma a capacidade do cineasta para criar uma atmosfera negra, onde a morte e a tensão surgem quase sempre presentes.

Título original: "Phantom Lady". 
Título em Portugal: "A Mulher Desconhecida".
Realizador: Robert Siodmak.
Argumento: Bernard C. Schoenfeld.
Elenco: Franchot Tone, Ella Raines, Alan Curtis, Elisha Cook, Jr., Thomas Gomez, Regis Toomey.

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