27 outubro 2014

Resenha Crítica: "Uniform" (Zhifu)

 A província de Shaanxi na China foi palco primordial de alguns dos primeiros trabalhos de Jia Zhangke, um cineasta que serve de conselheiro artístico de Diao Yi'nan em "Uniform", a primeira longa-metragem realizada por este último. Existe uma preocupação em explorar o contexto social e económico da China e deste território através da figura particular do protagonista e até daqueles que o rodeiam, com a crise a nível financeiro e de valores a fazer-se sentir. O personagem principal é Wang Xiaojian (Liang Hongli), um indivíduo que trabalha como costureiro na lavandaria dos seus pais, procurando prestar assistência ao seu progenitor, um indivíduo que se encontra gravemente doente e viu os seus direitos laborais praticamente serem espoliados perante as mudanças a nível de proprietários da fábrica onde trabalhava. Quando encontra a farda de um polícia, ainda não reclamada na loja onde trabalha, Wang Xiaojian decide tomar um acto que promete mudar temporariamente a sua vida e fingir que é um agente da autoridade. Ainda tenta contactar o dono da farda, mas descobre que este sofreu um acidente, algo que o vai deixar incapacitado durante algum tempo. Inicialmente consegue uma multa por um motorista contar com mais gente no autocarro do que o limite permitido, posteriormente procura exercer a sua autoridade junto de um elemento que transportava melancias, até conquistar Zheng Shasha (Zeng Xueqiong), a empregada da loja de cassetes e cds de música. Diga-se que este crimes cometidos pelo protagonista devem-se acima de tudo à sua procura em ajudar a pagar as contas da casa e do tratamento do pai, embora facilmente vários elementos comecem a questionar a sua presença e percebamos que nem tudo lhe pode correr bem. Este nem é o único a levar vida dupla. A própria Shasha conta com alguns segredos por revelar numa obra onde ficamos perante as populações menos abonadas, que vivem em condições longe da abastança, algo que as conduz a actos nem sempre recomendáveis. A crise é latente nos problemas na fábrica onde trabalha o pai de Wang Xiaojian, adquirida por outra empresa, bem como na loja onde trabalha Shasha, quase sempre vazia, com esta a passar boa parte dos turnos a ver televisão. Em certa medida "Uniform" até nos remete para "Pickpocket", a primeira longa-metragem de Jia Zhangke. Ambos foram filmados com escassos recursos, de forma quase amadora, contando com protagonistas capazes de actos pouco recomendáveis mas que nem por isso deixam de gerar alguma simpatia. No caso de "Pickpocket" tínhamos um jovem assaltante que não se parece adequar às mudanças no território. Já em "Uniform" essas mudanças conduziram a que Wang Xiaojian criasse um mundo muito próprio para ultrapassar as adversidades, onde assume outra faceta graças a outra roupagem. Será esta farda que liberta os seus desejos mais reprimidos de cometer crimes ou pura e simplesmente é um meio necessário para suprir as suas carências a nível de finanças? Parece que ambas as situações se conjugam com o protagonista a lidar com toda uma nova situação para a qual parece difícil de sair. Pela primeira vez encontra-se no controlo e num cargo que lhe dá algum poder, embora utilize o mesmo para fins nem sempre recomendáveis, algo que lhe promete trazer problemas, enquanto esperamos que mais cedo ou mais tarde este seja desmascarado.

 A farda surge quase como uma fuga da realidade para o protagonista. A casa onde habita conta com um espaço diminuto, onde a mãe procura cuidar do seu pai e este tenta recuperar para regressar ao trabalho, com as condições financeiras a serem bastante diminutas. O pai do protagonista necessita de cuidados especiais, com a sua locomoção a encontrar-se bastante limitada, algo que conduz a transportarem um espelho para o cimo da casa, de forma a que este reflicta os raios solares no primeiro e assim ajudem um pouco à sua cura. O transporte do espelho permite a Diao Yi'nan efectuar um interessante jogo com as imagens, exibindo o que este reflecte, por vezes de forma algo deformada, ao mesmo tempo que nos deixa perante esta cidade marcada pela presença das fábricas e da crise. O estreante Liang Hongli, que tem em "Uniform" o seu único trabalho cinematográfico, expressa eficazmente a estranheza deste personagem pouco falador. Não é alguém em que certamente possamos confiar, mas também não parece de todo mal intencionado, aplicando-se-lhe a máxima "a ocasião faz o ladrão". Diga-se que as condições adversas não ajudam, com este território de Shaanxi a ser representado como um local marcado por pobreza, prostituição e crise financeira, com a câmara de filmar a expor-nos com algum realismo ao mesmo. Nota-se alguma falta de recursos e até algum amadorismo, sobretudo se formos comparar com a cinematografia de "Black Coal, Thin Ice", o mais recente trabalho do realizador Diao Yi'nan (onde subtilmente também efectua comentários de pendor social). No entanto, tudo é compensado com algum realismo com que nos é apresentada esta história relativamente simples, que nos remete para os trabalhos de Jia Zhangke, capazes de abordar situações da sociedade do seu país, a partir de territórios e gentes das margens para os quais a adaptação às transformações ainda é mais complicada. A própria Zheng Shasha está longe de ser um exemplo moral, formando temporariamente um estranho casal com o protagonista, com o cineasta a mostrar já na sua obra inicial a capacidade em explorar romances complexos, para além de exibir um certo clima de malaise. Veja-se a situação da fábrica onde trabalha o pai de Wang Xiaojian, a ser alvo de violentos protestos, registos de trabalhadores apagados, repressão e uma procura em descobrir quem são os agitadores, algo que vai afectar o personagem interpretado por Liang Hongli. Sem fazer grandes alaridos Diao Yi'nan efectua uma crítica à forma como os direitos dos trabalhadores são desrespeitados na sociedade do seu tempo, ao mesmo tempo que aborda questões relacionadas com a identidade, moralidade e solidão, com alguma seriedade e humor negro à mistura. Xiaojian e Shasha são elementos algo isolados e à parte da sociedade, por vezes pouco comunicativos, numa obra marcada por vários silêncios que em alguns momentos são quebrados pelos sons que provêm dos locais por onde se encontram os protagonistas, com Diao Yi'nan a conseguir aproveitar de forma bastante eficaz os cenários que rodeiam esta dupla. Na sua obra de estreia como realizador, Diao Yi'nan exibe pormenores muito interessantes, que vão desde a sua capacidade de abordar relações amorosas complexas, de nos apresentar uma certa atmosfera de malaise, num filme marcado por uma crueza na forma como é filmado que contribui ainda mais para o realismo na representação deste território e das gentes das margens. A história é algo inusitada, sobretudo se tivermos em conta que vários elementos nem se sentem surpreendidos por um polícia procurar receber dinheiro "por fora", com o protagonista a assumir uma identidade que não é a sua numa sociedade onde as aparências enganam embora a realidade seja algo muito difícil de escapar.

Título original: "Zhifu".
Título em inglês: "Uniform".
Realizador: Diao Yi'nan.
Argumento: Diao Yi'nan.
Elenco: Liang Hongli, Zeng Shuoqiong, Qin Hua, Han Kai.

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