12 outubro 2014

Resenha Crítica: "Une Femme est une Femme" (Uma Mulher é uma Mulher)

 Primeira longa-metragem de Jean-Luc Godard a ser filmada a cores, "Une Femme est une Femme" coloca-nos perante uma peculiar guerra dos sexos, acompanhada por um triângulo amoroso que permite a Anna Karina, Jean-Paul Belmondo e Jean-Claude Brialy sobressaírem naquela que é a terceira longa-metragem do cineasta (apesar de ter sido lançada antes de "Le Petit Soldat"). A história acompanha Angela (Anna Karina), uma bailarina exótica, e o seu namorado, Émile (Jean-Claude Brialy). Angela decide que quer ter um filho, pretendendo conceber o bebé nas próximas vinte e quatro horas, algo não pretendido por Émile, uma situação que abre alguns problemas na relação. Enquanto isso, Alfred Lubisch (Jean-Paul Belmondo), o melhor amigo de Angela, demonstra interesse nesta. É sobretudo neste trio de personagens que se concentra a narrativa de "Une Femme est une Femme", ao mesmo tempo que são abordadas questões relacionadas com o feminismo, o papel da mulher, a gravidez, o amor, as relações entre homens e mulheres, tudo muito ao jeito de Jean-Luc Godard. Não faltam as referências literárias e os personagens dados à leitura (veja-se quando Angéla e Émile trocam "galhardetes" através de capas de livros), referências cinéfilas (Alfred Lubitsch em referência a Ernst Lubitsch, a menção a "À Bout de Souffle", numa citação de Godard a si próprio, algo que acontece em outras obras do cineasta, tais como "Pierrot le Fou", para além da menção de nomes como Gene Kelly, Cyd Charisse e Burt Lancaster), ao longo de uma obra que muito parece ter das comédias screwball dos EUA durante a década de 30 e 40 (um subgénero no qual Lubitsch também se destacou). Nesse sentido encontramos algumas situações farsescas, guerra entre os sexos, alguns diálogos delirantes e muito humor ao longo de "Une Femme est une Femme", enquanto Jean-Luc Godard, um dos expoentes máximos da Nouvelle Vague, apresenta a audácia do costume, não tendo problemas em colocar os seus personagens a dirigirem-se aos espectadores, a olharem directamente para a câmara, ao mesmo tempo que o cineasta joga novamente com os sons e as imagens. Veja-se quando temos os personagens a disparar com os dedos e ouvimos o som das balas, mas também quando Godard utiliza os jump-cuts de forma a romper com a continuidade da narrativa.

A continuidade na narrativa por vezes pouco parece interessar para Godard, algo visível em momentos como Angela a salientar que gostava de protagonizar um musical com Syd Charisse e Gene Kelly e rapidamente as suas vestes mudam para um vestido azul que contrasta com as roupas que eram utilizadas antes e depois desta revelação. Temos ainda um momento em que Godard nos deixa perante vários planos do rosto da protagonista, durante diferentes estados de espírito e vestida com diferentes vestes (diga-se que o guarda-roupa do filme foi composto por roupas dos próprios actores e actrizes), algo que traduz a complexidade e as dicotomias da personagem e incrementa uma obra cinematográfica que sobressai imenso graças ao trabalho do cineasta e dos actores. O enredo é bastante simples, sobressaindo sobretudo pela forma enérgica como Godard trabalha a história e o argumento, muito marcado pelas improvisações e por um conjunto de diálogos que variam entre o mais elaborado e o non sense (por exemplo, quando Alfred discute com um elemento no meio da rua, ou quando o casal discute sobre a pronuncia da letra R por parte de Angela). Émile e Angela sobressaem em conjunto, com Alfred a juntar-se regularmente a estes elementos, formando-se um triângulo amoroso bastante peculiar. Angela ama Émile, embora este seja algo rude. Alfred é bem mais sensível para com esta apesar da personagem interpretada por Anna Karina estar mesmo interessada é em Émile. O trio de actores sobressai, embora Anna Karina esteja no centro destes dois homens e da narrativa como esta mulher sensual, aparentemente algo naïve que quer a todo o custo ter um filho. Esta por vezes canta como se estivesse num musical, com Godard a aproveitar alguns dos elementos do género, algo que também efectuaria em "Pierrot le Fou". Não é só pelo facto de Anna Karina cantar, mas também na forma como a música é utilizada ao serviço da narrativa, uma situação paradigmaticamente representada quando Alfred e Angela se encontram juntos num bar, com este a colocar a tocar na jukebox a canção "Tu T'laisses Aller" de Charles Aznavour. Enquanto ouvimos a música, os personagens ficam praticamente em silêncio, com a letra da canção a servir o propósito da narrativa, enquanto os rostos dos actores são expostos e muita da sua capacidade para transmitir emoções fica expressa de forma paradigmática. Os close-ups exacerbam a expressividade e o rosto de beleza invulgar de Anna Karina, enquanto a sua personagem parece disposta a tudo para engravidar, mantendo uma personalidade decidida neste quesito mas algo frágil em relação à figura masculina, embora nunca perca o seu poder junto da mesma. Já Jean-Claude Brialy interpreta o namorado algo descuidado, que vibra com o futebol e considera que a namorada tem obrigação de cozinhar (um estereótipo utilizado para dar algum humor e para representar a forma caricatural como os homens por vezes são vistos), procurando escapar à obrigação de ter filhos, embora pareça amar Angela.

Émile e Angela protagonizam algumas discussões, mas também momentos de maior intimidade, parecendo praticamente impossível que estes consigam viver um sem um outro, embora durante algum tempo esta situação pareça ser uma possibilidade. Por sua vez, Alfred Lubitsch, surge como um indivíduo bem falante, pronto a escapar a pagar as contas, que vive num quarto barato e mostra constantemente o interesse na protagonista. É sobretudo neste trio de protagonistas que se centra a narrativa, enquanto estes vivem alguns momentos rocambolescos, muito marcados pelo humor físico. Veja-se quando Angela diz que sai com aquele que conseguir a acrobacia mais espectacular, algo que coloca os dois homens em situações hilariantes, para além do momento em que Angela e Alfred começam a fazer poses "à filme musical", ou o personagem interpretado por Jean-Paul Belmondo a ir literalmente bater com uma cabeça na parede, entre vários outros momentos. A este humor físico junta-se ainda um conjunto de momentos marcados pelo humor negro, inclusive dois falsos cegos a pedirem esmola. Mas não é só de humor e relações amorosas que se faz "Une Femme est une Femme", temos também elementos ligados à política (visível através do jornal ligado ao Partido Comunista que é lido por Émile, mas também a amiga de Angela que vende estas publicações), bem como ao trabalho da protagonista. O espaço do clube nocturno Zodiac é marcado pelas tonalidades vermelhas e mulheres prontas a dançarem, despirem-se e seduzirem os clientes com os seus gestos, enquanto estes consomem bebidas e as observam deleitados. A certa altura de um espectáculo de Angela, podemos encontrar um conjunto de luzes de diferentes cores a serem expostas na sua face, algo que pode abrir um conjunto de interpretações sobre estas simbolizarem os diferentes estados de espírito da protagonista e a sua complexidade, existindo uma paradigmática utilização do espaço narrativo. Ficamos assim perante uma obra marcada pelo bom humor, capaz de expor a capacidade criativa de Jean-Luc Godard e deixar-nos perante uma guerra dos sexos muito peculiar e capaz de proporcionar grandes momentos de cinema.

Título original: "Une femme est une femme"
Título em Portugal: "Uma Mulher é uma Mulher".
Realizador: Jean-Luc Godard. 
Argumento: Jean-Luc Godard.
Elenco: Jean-Claude Brialy, Anna Karina, Jean-Paul Belmondo.

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