10 outubro 2014

Resenha Crítica: "Un condamné à mort s'est échappé ou Le vent souffle où il veut" (Fugiu Um Condenado à Morte)

  Baseado nas memórias de André Devigny, um prisioneiro de guerra que escapou da prisão de Montluc, em 1943, após ter sido aprisionado pelos alemães no território da França ocupada, "Un condamné à mort s'est échappé ou Le vent souffle où il veut" ("A Man Escaped") apresenta-nos de forma realista ao quotidiano de Fontaine (François Leterrier), um indivíduo que fora recentemente detido devido a ter explodido uma ponte. Nos momentos iniciais, encontramos o personagem a tentar fugir do carro das autoridades alemãs, até ser capturado e violentamente agredido. O sangue escorre pelo seu rosto, embora pareça ser na sua alma que esteja a sua maior ferida, procurando desde cedo planear a sua fuga do local. O seu rosto demonstra uma calma aparente, com François Leterrier a ter uma interpretação marcada por uma enorme sobriedade, muito ao estilo dos protagonistas das obras de Robert Bresson, um cineasta que gosta de seleccionar actores (uma designação que este não utiliza, preferindo antes o termo "modelos") amadores ou estreantes. Esta situação permite a Robert Bresson atribuir um enorme realismo aos seus protagonistas, com o cineasta a conseguir explorar o que François Leterrier tem para dar, enquanto este se transforma no personagem, sem sobrepor-se ao mesmo. Como salienta François Truffaut, "With amateur interpreters who know nothing about theater, he creates the ultimately real character, whose every gesture, look, attitude, reaction and word-not one of which is louder than the other-is essential" (in: "My Life in Films"). Nome fundamental e marcante da história do cinema francês, Bresson tem em "Un condamné à mort s'est échappé ou Le vent souffle où il veut" um dos mais memoráveis dramas prisionais, explorando o quotidiano do protagonista, colocando-o a narrar os seus actos, objectivos e sentimentos, enquanto procura fugir da prisão e evitar a condenação à morte. As mortes estão muito presentes ao longo do filme, maioritariamente apresentadas no fora de campo, com o ecoar das balas a fazer-se sentir e a ressoar na alma do protagonista, chegando quase como um aviso daquilo que lhe irá acontecer. Esta é a jornada solitária de um homem que procura desafiar o destino e as autoridades alemãs na França ocupada, contrariando alguma da inércia dos seus colegas de prisão e inspirando alguns destes elementos. Os momentos de Fontaine na cela são marcadas pela solidão, pela sua persistência em encontrar meios para fugir, tendo na manutenção de uma colher na sua posse um momento de mudança, começando a abrir espaços na porta da sua cela com a mesma. Estes espaços na porta resultam do facto do protagonista conseguir soltar as placas de madeira da mesma, algo efectuado de forma gradual, tal como os avanços para o plano de fuga, com Fontaine a conseguir tecidos e arame suficientes para formar uma corda de elevadas proporções. Opta por objectos improváveis, como uma colher, numa mistura de pragmatismo e fé, procurando não ser descoberto pelas autoridades.

O perigo parece estar sempre presente, incluindo entre os prisioneiros, sendo incerto em quem pode ou não confiar. Entre os elementos que confia encontra-se Thierry, um prisioneiro que lhe facilita o envio de uma carta, mas também o presidiário que se encontrava ao lado da sua primeira cela, com quem comunicava através de sons. Na prisão encontramos ainda elementos como um padre, algo que remete para os elementos religiosos que permeiam as obras de Robert Bresson, com o protagonista a mesclar elementos pragmáticos com alguma fé. Não é apenas na componente religiosa que encontramos elementos transversais às obras de Robert Bresson. Veja-se a presença de elementos novatos na interpretação a comporem o elenco (incluindo François Leterrier), as interpretações naturalistas, os momentos de solidão do protagonista, os silêncios que permeiam o enredo, o jogo entre o som e as imagens em movimento, a redenção/salvação, entre outros elementos. Os momentos de solidão do protagonista são contrastados com as cenas em que este comunica com outros presos, incluindo Orcini, um indivíduo que é mal sucedido no seu plano de fuga. A chegada de Jost (Charles Le Clainche), um francês com vestes de militar alemão, resulta num momento de maior dúvida para o protagonista, visto que o companheiro de cela pode colocar em causa a fuga. Gera-se alguns momentos de tensão, embora Jost esteja longe de ser um traidor, chegando até a colaborar com o protagonista, nascendo uma cooperação a fazer recordar o elemento que ensinou alguns truques da arte de roubar a Michel em "Pickpocket". Os momentos de preparação para a fuga são expostos com uma enorme calma e ponderação, surgindo reveladores da paciência e esforço do protagonista, enquanto procura ludibriar as autoridades. O espaço da cela onde este se encontra instalado surge algo claustrofóbico, pronto a adensar o isolamento dos presos, embora estes consigam comunicar entre si. A comunicação entre estes homens nem sempre é fácil, não só pelos guardas procurarem impedir grandes conversas, mas também pelo medo, pelo que os silêncios acabam muitas das vezes por dominar a narrativa. Conseguem falar pela janela, mas também através de sons nas paredes, com Bresson a utilizar paradigmaticamente o fora de campo, algo que evidencia que existe muito mais a decorrer do que aquilo que conseguimos ver. Essa situação é visível não só no diálogo do protagonista com o elemento da cela ao lado, mas também no som das balas, com o filme a sobressair por aquilo que exibe e por aquilo que não nos mostra. Em alguns momentos parece que o nosso lado mais voyeurista é accionado, com Robert Bresson a deixar-nos de forma bastante realista perante a história deste prisioneiro a preparar a fuga. A morte era praticamente certa, pelo que a fuga seria o único caminho possível para escapar da mesma, nesta história baseada num caso real. Também Bresson chegou a ser detido pelos alemães por fazer parte da Resistência Francesa, tendo nesta obra um drama prisional marcado por um enorme realismo. Existe também um grande mérito de François Leterrier, com o actor a ser capaz de nos fazer acreditar na persistência e calma do seu personagem, deste procurar aquilo que para todos parecia impossível e desafiar as possibilidades.

Logo num dos planos iniciais de "Un condamné à mort s'est échappé ou Le vent souffle où il veut" encontramos uma placa na prisão de Montluc a exaltar os sete mil homens que morreram neste local às mãos dos Nazis. No final do filme é certo que Robert Bresson soube homenagear estes homens, sobretudo na representação do seu protagonista. Robert Bresson é um cineasta magnífico, algo que fica demonstrado mais uma vez em "Un condamné à mort s'est échappé ou Le vent souffle où il veut", com este a saber gerir os momentos da narrativa, a esculpir as imagens em movimento com enorme cuidado e utilizando a banda sonora de forma sublime. Veja-se quando utiliza Kyirie de Great Mass in C Minor de Mozart, com Bresson a saber como poucos reunir o som e a imagem. Essa situação fica visível no som das armas a serem disparadas e a simbolizarem a morte dos presos, mas também o protagonista a comunicar através do som efectuado nas paredes da sua cela, ou até o ruído da porta a ser lentamente conspurcada pela acção de Fontaine, um elemento da Resistência Francesa. A própria narração do protagonista é vital para o enredo, com este a expor-nos os seus pensamentos, mas também alguns dos episódios que já se passaram, contribuindo para incrementar o que está a acontecer nas imagens em movimento. Temos ainda a habitual atenção ao gesto, às mãos dos personagens, uma situação que já acontecera em "Pickpocket" e "Lancelot du Lac", algo visível nos momentos em que o protagonista se encontra a procurar tirar as placas de madeira da porta, mas também a formar as cordas e até a libertar-se das algemas. Os close-ups são certeiros, com um objecto como uma colher a ter grande destaque, simbolizando uma improvável busca pela liberdade pela parte do protagonista. Tudo parece pensado ao pormenor, mas exposto com uma enorme sobriedade, enquanto ficamos perante a preparação da fuga do protagonista. Fontaine é um homem que procura sobreviver perante uma situação adversa, um pouco a fazer recordar o protagonista de “Journal d'un curé de campagne", mas também algo obcecado em cumprir o seu desiderato (a fazer recordar o protagonista de "Pickpocket"). Este é um dos presos franceses que ocupam este espaço prisional marcado por enorme austeridade, onde os soldados alemães raramente são vistos mas a sua presença é sentida. O resultado final é um filme que merece sem grandes dúvidas o estatuto de obra-prima.

Título original: "Un condamné à mort s'est échappé ou Le vent souffle où il veut".
Título em inglês: "A Man Escaped".
Título em Portugal: "Fugiu Um Condenado à Morte".
Realizador: Robert Bresson.
Argumento: Robert Bresson.
Elenco: François Leterrier, Charles Le Clainche, Maurice Beerblock, Roland Monod.


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